Menino anjo

20 Culpado ou inocente.


Enquanto o caminhão continuava seu destino, Regis desceu pelo barranco pisado, inclusive em forma de escadas de terra, até á margem da água e passou a investigar minuciosamente aquele local, o qual, apesar da sujeira trazida pelas pessoas, que diariamente vão passear por ali, causando a destruição de nossas belezas, era até bonito, principalmente àquela hora, em que pela aurora do amanhecer, o Sol surgia no horizonte, fazendo as águas brilharem em uma cor prateada, como se fosse até um grande espelho, reluzindo os poderes de Deus na natureza que clama por socorro.

Para um menino de atividades especiais, qualquer coisa que venha a lembrar o crime ou a vítima do crime, serviria para identificar o criminoso e foi assim, identificando onde a jovem esteve jogada, que Regis encontrou uma pequena chave de cadeado e se concentrando nela retirou-se do local, andando calmamente pela avenida principal, seguindo pelo menos por um quilômetro até o centro da pequena Martinho Prado, dobrou a esquina em uma bifurcação e depois de mais de cem metros entrou em um portão, batendo na porta; esperou alguns segundos e tornou a bater. Ninguém atendeu. Saiu para a rua e sentou-se na calçada, apanhou um pedaço de galho de árvore fino e começou a rabiscar a areia que cobria o pavimento asfáltico da rua; permanecendo assim, brincando sozinho por mais de uma hora.

Deveria ser por volta de oito horas, quando um rapaz branco, cabelos castanhos escorridos e jeito de malandro drogado, de uns vinte e dois anos de idade, apareceu, deparando-se com o menino ali sentado e perguntou-lhe, enquanto entrava para o quintal:

— O que você quer aqui, menino?

Regis se levantou e embora sem convite, o acompanhou, insinuando:

— Vim levá-lo pra cadeia.

O rapaz, surpreso, olhou para o menino, enquanto abria a porta da casa.

— Levar-me pra onde?

— Vou trocá-lo na cadeia de Mogi Guaçu por um inocente.

— Você tá ficando maluco, moleque? — Fez gesto de rotação com o dedo, sobre a própria orelha. — Pirado da cabeça? Saia daqui!

O rapaz entrou na sala e Regis, mesmo sem convite, o acompanhou.

— Sei o que você fez! Nem precisa negar pra mim! Sou só um menino e não estou com nenhum microfone.

— O que foi que você sabe que eu fiz?

— Não me importa que você tenha matado a moça. Ela já morreu mesmo e ninguém poderá trazê-la de volta. Tive o desprazer de vir até aqui, porque tem um inocente no seu lugar. E o pior, como o rapaz é negro vai ficar muitos anos por lá e você respirando o ar que pertence a ele.

— Suma daqui, moleque idiota! Não matei ninguém!

— Não negue pra mim! Você a estuprou primeiro! E ela era quase uma criança. Menti quando lhe disse que não me importo.

— Você lá sabe o que é estupro, moleque! — Alegou o rapaz, fazendo careta de ódio.

— Tomara que você aprenda direito o que é isso, quando eu te levar pra cadeia!

— Moleque atrevido! — Gritou o rapaz. — Não matei ninguém!

— Estuprou, depois colocou um plástico em sua cabeça e lhe torceu o pescoço em ato covarde! E o pior, você nem estava drogado pra querer jogar a culpa no capeta! Sabia muito bem de seus atos.

— O que é que você tá insinuando, pivete?

— Por bem menos do que tu fizestes eu castrei o homem que me destes vida!

O rapaz, nervoso, sacou de um pequeno punhal e apontando para o menino, ameaçou:

— Se você não sumir daqui agora, veja o que farei contigo!

Atirou o punhal contra a porta de madeira de um quarto fechado, cravando-o fortemente, pouco abaixo do centro.

— Se fosse em você teria acertado na testa!

Regis caminhou até o punhal, tirando-o com pequena dificuldade, caminhou em sentido ao rapaz, virou-se de repente e atirou-o também contra a porta, acertando coincidentemente no mesmo local.

— Também sei fazer isso — ironizou ele. — Teria acertado no seu estômago!

— Quem é você moleque? O que veio fazer?

— Você é surdo ou se faz de idiota? — Ficou realmente nervoso, o menino. — Vou levá-lo pra cadeia!

— Só se for morto! — Gritou o rapaz, apanhando novamente o punhal.

— Se for preciso! — insinuou Regis, franzindo o lábio esquerdo. — Mas prefiro que seja vivo.

— Você é bonitinho, sabia? Depois falam que os outros estupram crianças! Menininhos bonitinhos como você, vêm de graça na casa de estranhos!

O rapaz abraçou Regis pelas costas e encostando o punhal contra sua garganta tentou abaixar sua calça jeans, mas o menino com força sobrenatural, jogou-o a uns dois metros de distância, gritando revoltado:

— Nunca... faça... isso... com... uma criança!

E apanhando o punhal que caíra ao chão, encostou, forçando-o em sua garganta, concluindo:

— Você irá pra cadeia comigo! De preferência vivo!

O rapaz, esforçando-se, livrou-se do menino, se levantando, reclamando:

— Como espera que eu vá assim de graça, parar na cadeia?

— Não é de graça! Você estuprou e matou uma menina! Mas já que gosta de atirar facas, faço um joguinho com você!

— Que joguinho? — Se espantou o rapaz.

— Atiramos a faca um no outro! Quem acertar primeiro fica vivo!

— Quem atirar primeiro leva vantagem! — riu o rapaz.

— Você atira primeiro! — Recomendou Regis, entregando-lhe o punhal.

— Está ferrado menino! — Riu o rapaz. — Sou excelente nisso!

— Treinamos primeiro na porta. Pode atirar.

O rapaz atirou o punhal contra a porta, mas este bateu de lado, caindo no chão da sala. Regis, apanhando o punhal ironizou:

— Acho que teria perdido sua vantagem.

Caminhou de volta ao centro da sala, virando-se rapidamente e atirando o punhal sem olhar. A lâmina voou em piruetas e acertou no mesmo local de antes, deixando o rapaz cabisbaixo.

— Acho que você teria uma grande dor de barriga! — Ironizou o menino, tornando apanhar a arma e entregando ao rapaz. — Tente mais uma vez!

O rapaz tornou a atirar o punhal, que novamente descontrolado bateu de lado na porta, caindo no chão.

— Parece que você está com pouca sorte — caçoou o menino. — No máximo, teria me deixado com dor no peito!

Tornou a apanhar a arma e do meio da sala, tornou a atirá-la, acertando no mesmo local de antes, deixando o rapaz enfurecido.

— Quem é você moleque? O demônio?

— Sou seu demônio! — Disse o menino, apanhando o punhal. — Cansei dessa brincadeira! Vamos pegar seu carro e vamos juntos até a delegacia, ou minha próxima tacada será contra seu peito!

— Não vou contigo pra cadeia! — Negou o rapaz, nervoso. — Não matei aquela puta!

— Ela podia até não ser uma menina exemplar! Mas você não tinha nada com isso! O corpo era dela! Mas como já disse, isso não importa mais! O que importa, é que outro homem está em seu lugar e eu não vou permitir!

Regis se afastou do rapaz e ameaçou atirar o punhal, franzindo o lábio esquerdo. Este, assustado lhe pediu:

— Não faça isso! Irei com você.

— Se quiser, espero que chame um advogado.

— Vou sozinho.

— Estou pronto!

O rapaz apanhou uma chave e uma carteira, entraram no carro e seguiram pela mesma rodovia em que o menino chegara à cidade trazido por um caminhoneiro, sentido Mogi Guaçu, pois Martinho Prado é uma pequena cidade, distrito de Mogi, a cerca de vinte e cinco quilômetros de distância até o centro.

Meio que hipnotizado, o rapaz passou a fazer pequenos zigue-zagues pela rodovia, jogando inclusive o carro para o acostamento e esboçando sorriso irônico, insinuando:

— Você tem muita coragem em estar comigo. E se eu resolver cair em algum precipício com esse carro?

— Duvido que faça isso! Seu inferno ainda é aqui! Depois, infelizmente pra sociedade e pra família da menina, você não ficará muito tempo na cadeia, pois além de não ter sido preso em frag... fla...grante, é réu primário, tem emprego e residência fixa, vai se entregar espontaneamente; a polícia nem vai tentar provar que você estuprou a moça e nem alegará crime prene... prenedi... premeditado. Todas estas vantagens a crápulas como você vão lhe poupar uns dez anos a menos. Mas tudo bem, não é com isso que estou preocupado. O crime de verdade você pagará no inferno. Apesar de que ainda tem chances de pedir perdão e ser levado ao paraíso de Nosso Pai.

— Não acredito que esteja indo pra cadeia dirigindo meu próprio carro, guiado por um menininho de dez anos de idade — reclamou nervoso o rapaz, batendo as mãos no volante.

— Nove! — Esboçou um leve sorriso, Regis.

Durante o resto do percurso, até chegarem ao primeiro distrito policial, em Mogi Guaçu, os dois seguiram em silêncio. Assim que o rapaz desligou o motor e saiu do carro, Regis fez o mesmo e percebendo lentidão na decisão dele entrar no distrito, fez um gesto para o mesmo, que balançando a cabeça em gesto de reprovação adentrou ao prédio e quando foi interrogado por um recepcionista, o próprio Regis insinuou:

— Este homem precisa falar com o delegado.

Ambos foram encaminhados a uma pequena sala muito limpa e organizada, sendo recebidos por um homem branco, alto, de cabelos negros, aparentando uns trinta e cinco anos de idade, usando um traje muito rico, em calça escura, camisa branca e gravada em verde oliva. Este se encontrava sentado sobre uma confortável poltrona, por traz de uma grande escrivaninha repleta de documentos e uma placa com o nome: “Dr. Jorge Abbid dos Santos, Delegado titular”.

— Doutor, lembra-se da moça morta em Martinho Prado? — Perguntou o rapaz atônito.

— Como não? — Ironizou muito sério, o delegado.

— O homem que vocês prenderam é inocente.

— Qual a prova?

— Quem a degolou fui eu!

Regis franziu o lábio esquerdo em um sorriso irônico e sentindo-se realizado como em dever cumprido, saiu sorrateiramente daquela sala, tomando em alguns passos a entrada do prédio e em seguida, um caminho que o levaria às proximidades da rodovia, em busca de algum tipo de transporte, que então o levaria de volta a seu lar, a pelo menos sessenta quilômetros de distância.

Mas o que talvez a inocência de sua pouca idade não o deixava perceber, era que sua verdadeira missão, ainda não estava totalmente cumprida naquele drama, vivido por uma pessoa inocente. Embora o verdadeiro assassino estivesse se entregando à justiça, a partir de então, doutor Jorge Abbid, deveria anunciar o ocorrido ao advogado designado pela própria justiça ao homem preso inocentemente e este, passaria então a providenciar argumentos para a liberdade de seu cliente, que seria depois protocolado junto ao gabinete do juiz responsável, que tomaria medidas cabíveis e devido à incompetência, ou burocracia da falha justiça brasileira, ao contrário de que o pequeno Regis imaginava, aquele homem inocente, só viria a entrar em liberdade pelo menos trinta dias depois; ou seja: com certeza muitos dias depois, da liberdade concedida por habeas corpus ao verdadeiro assassino, que ocorreria no máximo em quatro dias, devido às vantagens bem lembradas a ele pelo próprio menino.

Um inocente continuará preso, enquanto o assassino confesso estará em liberdade e tudo isto não é falha do delegado, tampouco negligência do magistrado e nem mesmo incompetência do advogado; é simplesmente como já mencionado, a grande falha de nossa injusta justiça brasileira.

Se a inocência de Regis soubesse disso...

Notas finais
Que pena que embora os números de visualização aumenta eu não recebo sequer um comentário nesta estória. Isto me deixa realmente triste.