Notas iniciais
Como já mencionei, nesta estória resolvi adotar capítulos curtos, pois muitas vezes os leitores estão com o tempo escasso, outras vezes lendo em tablets a caminho do trabalho, ou escola... No livro impresso, os capítulos continuam no formato tradicional.

De volta ao consultório da psicóloga, esta lhe mandou sentar, ofereceu-lhe um copo de suco, que ele aceitou e então iniciou sua sessão investigativa:

— Como você tem se comportado ultimamente?

— Não acho que seja uma boa pergunta!

— Por quê?

— Parece um pouco Gross...eira!

— Sabe o que é grosseira?

— Parece estar me chamando de mal comportado.

— Você é muito esperto e com certeza, capaz de entender do que tento lhe perguntar!

— Pois bem! Tenho me comportado como qualquer criança normal.

— Reposta errada! Você sabe que antes de você entrevistei sua mãe.

— Sei!

— E ela não esconde nada!

— Mãe! Coisa preciosa na vida de um filho.

— Ela só quer lhe proteger.

— Mãe! Para elas os filhos são sempre frágeis.

— Você não é frágil?

— Sou! Todos somos! Até Jesus Cristo era!

— Você é religioso, Regis?

— Creio em apenas um Deus! Que é o meu Pai e o seu Pai!

— Segue os seus mandamentos?

— Todos seguimos! Mesmo que inconsciente.

— Acho que alguns abusam!

— Pra isso, Ele deixou o livre arbítrio.

— Sabe o que é livre arbítrio?

— Qualquer um tem o direito de agir como quiser. Interferindo no livre arbítrio de inocentes.

— Onde você aprende a falar palavras difíceis, se você está no segundo ano primário?

— Terceiro!

— Os marginais que você tem enfrentado usam a desculpa do livre arbítrio para serem cruéis.

— E eu uso meu livre arbítrio para impedi-los — gracejou nervoso o menino.

— Sua mãe teme muito suas atitudes. Ela acha que você não deveria interferir nestas crueldades.

— E deixar demônios destruírem meus anjos?

— Você se acha líder de uma legião de anjos aqui na Terra?

— Não!

— Você não é um anjo?

— Anjos não tem livre arbítrio. Eu tenho!

— Você age e faz apenas do jeito que você quer?

— Tenho apenas que cumprir uma missão.

— E qual é essa missão?

— Nunca sei — balançou os ombros.

— Defender os fracos e oprimidos?

— Não sou super herói!

— Acredita que conseguiremos fazer com que você volte a ser uma criança normal?

— Sou uma criança normal! — fechou a cara o menino.

— Uma criança normal fala como você?

— Na verdade, você nem está tentando me reencontrar.

— Como não?!

— No fundo de seu ser, você prefere que eu continue sendo o que sou.

Regis continuava do tipo cara amarrada.

— Você mais me parece com um Néfilins! — Alegou a doutora. — Seria isso?

— Cada nome você me arranja! — Riu o menino. — Abusa de minha inteligência limitada pela idade.

— Néfilins são filhos de anjos caídos.

— Cada uma! — Ironizou o menino. — Despencaram dos céus?

— Anjos caídos são anjos que se apaixonaram por humanos, com isto, foram expulsos do céu e se unindo a tal humano vieram a ter filhos, que são denominados Néfilins.

— Anjos não têm sexo! Anjos não se casam! Anjos não têm filhos! Anjos não caem!

— Já li sobre eles!

— Muito bem! — riu o menino. — Ler desperta a curiosidade, a mente e a imaginação.

— Li pra ter argumentos e conversar com você!

Calou-se por um instante, fazendo micagem com o nariz.

— Acho que você é um deles. Um filho de anjo!

— Não sou filho de anjo! — Foi incisivo o menino. — Sou filho do demônio!

— Credo Regis! — Se benzeu fazendo o nome do Pai, a doutora — Não fale assim não!

— Estou brincando. Na verdade, sou filho de uma noite de diversão de um safado, com a inocência de minha mãe.

— Não conheceu seu pai? — Especulou sentida a doutora.

— Ele só namorou minha mãe por diversão e prazer. Quando ela, quase criança, descobriu que já não estava sozinha, se apavorou, se estressou e criando coragem contou a meus avós, que, apesar da reprovação, me aceitaram com amor; porém, quando ela contou a aquele o qual lhe deveria dar apoio, amor e carinho, ele apenas riu de sua situação, recomendou que tomasse venenos para que eu não nascesse e saiu contando pra todos seus amigos que ele já era macho e conseguia fazer filhos — Regis estava muito emocionado. — Mamãe nunca mais o viu.

O menino, com lágrimas, se levantou e disse:

— Mas você me deu uma grande ideia!

— Qual?

— Vou procurar aquele a quem eu deveria chamar de pai!

— Pra quê? — Se admirou a doutora.

— Dar-lhe um abraço, um beijo e dizer-lhe o quanto seu amor me faz falta — palavras insinuadas com o rosto amarrado.

— Jura?!

— Brincadeira! — Regis tremia a face. — Vou castrá-lo!... Só isso!

E saindo pela porta, alegou:

— Tenho que ir. Agora!

— Espere! — Insistiu a doutora tentando alcançá-lo.

Passou pela sala de espera e sem parar disse à Jaqueline:

— Mamãe, não me acompanhe!

Saiu para a rua e quase correndo seguiu para uma pequena agência bancária, que fica na mesma quadra, na esquina da praça central da cidade.

Sendo seguido ao longe por sua mãe entrou na agência bancária e encontrou um aglomerado de pessoas deitadas no chão, dominados por um grupo de quatro homens armados, usando máscaras de monstros de carnaval, gritando juntos, ordenando que as pessoas se calassem e permanecessem deitadas, enquanto eles, dominando uma mulher jovem, de seus vinte e cinco anos, faziam com que ela os ajudasse a recolher o dinheiro do cofre.

Devido o tamanho infantil do menino, os ladrões pareciam não se importar, ou mesmo, não o percebiam entre as pessoas. Um homem branco de uns trinta anos de idade, usando gravatas, que também estava sobre o solo, insistia, falando baixo para que o menino deitasse também, mas Regis permanecia de pé, encarando os marginais.

O assalto, cheio de gritaria entre os quatro homens, não durou mais do que uns três minutos.

De posse do dinheiro, os homens começaram a deixar o local, passando pelo menino, que permanecia próximo à única porta de entrada do banco.

Quando o último dos marginais saía pela porta, resolveu pegar no braço direito do menino e o arrastando, gritou:

— Você vem com a gente, moleque!

— Deixe o menino — ordenou outro dos marginais, à sua frente.

Ainda arrastando o menino, sob os protestos de Jaqueline que horrorizada assistia tal cena, entraram em um carro tipo Eco Sport preto, incluindo os vidros, saindo rapidamente do local.

— Por que trouxe este pivete? — Insistiu um dos homens.

— Caso a polícia interfira ele será nosso álibi.

Arranjaram uma camiseta escura, amarraram os olhos do menino e então tiraram as máscaras. Eles não sabiam, mas a venda nos olhos do pequeno refém não significava quase nada e ele, como mágico, conseguia identificá-los normalmente. Eram todos homens da faixa de seus trinta anos de idade: o que dirigia o veículo era branco, bem magro e cara amarrada; outro, também branco, mais baixo, um pouco acima do peso e um sorriso besta na face; o outro, de pele bem morena, alto, magro e cabelos curto; o último, o que o arrastou, também branco, cabelos castanhos claros e de um jeito até simpático.

Enquanto o carro seguia em velocidade normal, para não chamar a atenção, pela saída da cidade, sentido à vizinha águas da Prata, fizeram com que o menino se deitasse sobre o vão do banco traseiro do veículo, para que, apesar dos vidros bem escuros, não corresse o risco de ser visto por algum intrometido.

— Não tenha medo, menino — pediu o mesmo homem que o capturou. — Não vamos causar nenhum mal a você.