Menino anjo
23 Anjo de vingança
Pouco depois das cinco horas da tarde seguinte, Jaqueline chegou em casa do trabalho e encontrou o filho deitado na cama, com os olhos de quem havia chorado muito.
— O que há agora meu filho? — Especulou ela tristemente.
— Mamãe, a senhora precisava me levar a um lugar — pediu o menino, sentando-se sobre a cama. — É muito grave.
— Não, meu filho! — Negou Jaqueline, abraçando-o. — O mundo é cruel e você não conseguirá resolver todos os males dele.
— Eu sei! Mas mamãe! Por favor! É muito grave!
O menino voltara a chorar desesperado.
— O que está havendo agora?
— Infelizmente é muito longe e eu não consigo fazer nada. Mesmo que a senhora resolvesse me levar não teria tempo.
Ela não sabia o que dizer. Aparentemente seu pequeno filho estava piorando, pois antes, diante do que acontecia de grave ele não chorava, agora se emocionava muito.
— Nããão! — protestou ele abraçado forte à mãe. —Dez crianças estão sendo cruelmente sacrificadas agora e eu não posso fazer naaada!
— Sacrificadas?... — Se preocupou Jaqueline. — Como assim?
—O crime é provocado por pessoas das próprias famílias das crianças. Eu não posso fazer nada!
— Tudo bem! Já estou me habituando. Não podemos deixar crianças indefesas morrerem! Levo você!
— Não dá mamãe! Infelizmente é muito longe! O maldito crime está acontecendo agora.
— Onde é?
— No meio da selva Amazônica!
— O que? — Se espantou Jaqueline. — No meio da floresta amazônica só existem índios!
— Pois são eles mesmos! Assassinos cruéis que executam suas próprias crianças!
— Como assim, filho?
— Eu consigo ver o que se passa, mas não tenho forças para impedir. É muito longe e está acontecendo neste momento! Não dá pra irmos lá!
— Mas, filho — Jaqueline também sentia as lágrimas molhando seu rosto. —Por que fazem isto?
— Malditos indígenas considerados civilizados. Quando a criança tem algum tipo de doença mental, eles as sacrificam sem piedade. Um menininho está agora, tentando socorrer o irmãozinho que está sendo enterrado vivo, mas os malditos não permitem, arrastando-o dali.
— O que tem o pequeno índio?
— Se fosse branco, chamaria de sínd... sindr...
— Síndrome de down! — Completou Jaqueline.
— Malditos assassinos do demônio!
— Filho! São costumes indígenas...
— Mamãe! — Gritou o menino aflito. — Malditos infã... infanticidas... E a senhora está de acordo?
— Não estou de acordo! Disse apenas que são costumes...
— Costumes indígenas... Costumes Hitleristas[1]... costume chinês[2]... E tantos outros que nem eu sou capaz de contá-los... — Regis fazia a cara mais feia, a qual sua expressão, geralmente com belos traços físicos, conseguia formar. — Vou mandar todos estes demônios pro inferno e fechar seus portões de uma vez por todas.
— O sacrifício é de índio doente...
— Cale-se mamãe! Você não sabe o que diz! Eu estou doente... Por acaso me sacrificarás?
— Regis... — assustou-se ela.
— São dez indiozinhos no mesmo dia! Dois deles, só porque são gêmeos; um deles, porque a mãe foi considerada infiel; outro, porque o pai foi considerado infiel, enquanto que a mãe é solteira; outro, porque o maldito pai se negou a assumi-lo como seu sangue... Os outros cinco, por ter algum tipo de doença; algumas delas sem nenhuma gravidade.
— Isso não pode ser! — Negou Jaqueline.
— Me ajude, mamãe, por favor! Meu coração está doendo muito!
Jaqueline nem sabia o que fazer. Sabia que o filho tinha lá seu dom paranormal e conseguia se concentrar em alguns casos terríveis, inclusive até interferir neles, mas teria que estar próximo.
— Filho — lembrou ela, massageando com carinho o peito do menino. — Lembra-se daquele caso de um homem que matou uma menininha em São Paulo? Você estava distante mas conseguiu fazer algo.
— Naquele caso, existia um homem com a mão no gatilho, só esperando um momento pra atirar.
— E no caso dos índios? Que tal o irmãozinho?
— Ele conseguiu salvar a indiazinha e fugiu do local. Só agora eu percebi que é uma menina de três anos de idade. Mesmo assim tem outros nove. Seis deles já estão debaixo da terra, mas continuam vivos, chorando e agonizando, enquanto a terra penetra em seus pulmões, sufocando-os até a morte lenta e cruel.
Regis saiu da cama, correu até o banheiro em grande desespero, ficando sem saber o que fazer. Voltou para o quarto e tornando a abraçar a mãe, gritou:
— Como posso cumprir minha missão se não tenho poderes pra isso?
Voltou a se deitar e permaneceu chorando, com a mãe a seu lado.
— Mãe — insinuou ele tristemente. — A pior coisa que Deus deixou no mundo, foi algo que chamamos livre arb... arbri...
— Livre arbítrio.
— O livre arb... Isto, deixado aos malditos humanos cruéis, acaba com o direito à vida dos indefesos.
— Como assim?
— Acho que isto é uma forma de Deus dizer que está lavando as mãos contra a maldade humana.
— Não fale assim não meu filho! — Pediu Jaqueline assustada. — Você é um anjo de Deus!
— Não! Eu sou um anjo de vingança. Não posso tolerar que maltratem inocentes.
— Então! Anjo de Deus!
— Sou contra o livre arbrítio... Deus é a favor!
— Livre arbítrio! — Corrigiu a mãe. — Seja como for, você é apenas um anjinho, também inocente.
— Não sou inocente! — Negou ele irônico. — Sou mais cruel do que um ninho de serpentes.
— E os indiozinhos?
— Todos já estão debaixo da terra. Três deles já não sofrem mais! O maldito demônio da tribo, ainda faz questão de socar a terra com os pés. Depois irá dormir em paz! Não sei como consegue!
— E os outros, da tribo?
Regis balançou os ombros e prosseguiu:
— Covardes! Muitos são contras! Mas só assistem tamanha monstruosidade.
— Quantos anos têm as crianças?
— O menor, que é filho de pai infiel é recém-nascido, o mais velho, só porque tem dificuldades em aprender, tem cinco anos.
Jaqueline se calou. Não sabia mais o que dizer.
— Juro que todos os envolvidos neste crime cruel, irão pagar do mesmo modo o que estão praticando.
— Todos? — Se espantou Jaqueline. — Não é apenas um da aldeia que faz isso?
— Um faz! Mas os que se acovardam são criminosos iguais e pagarão também.
Jaqueline deixou o menino e lhe pediu:
— Tome um banho! Será bom pra você. Eu vou preparar um jantar.
Claro que o menino tomou seu banho demorado. Mas é claro que ele não jantou.
Pouco depois das dez horas daquela noite, quando a mãe se deitou ao lado do menino em sua caminha de solteiro, ele ainda soluçando lhe disse:
— Seis daqueles inocentes já não sofrem mais mamãe! Mas três deles, ainda continuam agonizando naquele inferno, criado por maldito ser humano com título de indígena. Eu me sinto um covarde que não posso fazer nada.
— Deus os acolherá em seu mundo de paz, meu filho!
— Eu os acolherei para um mundo de luz! Vou criar uma legião de anjos que lutarão contra a liberdade de agir, que dizem ter sido deixada por Deus.
Durante toda a noite o menino praticamente não dormiu, variando e rolando muito, a princípio, em sua caminha de solteiro, depois, junto com a mãe em sua cama de casal.
Às seis horas da manhã, Jaqueline abriu os olhos e vendo o filho praticamente acordado, perguntou-lhe:
— Você dormiu?
— Não! — Negou tristemente.
— Por quê?
—O último de meus anjinhos agonizou a noite toda, só parou de sofrer agora.
Jaqueline o abraçou e permaneceu em silêncio pensando milhões de coisas, sem, contudo, chegar a qualquer consenso.
Cinco minutos depois, Regis estava dormindo.
[1] O extermínio dos judeus e a intenção de fazer da Alemanha, um país de raça única, ariana.
[2] Se os pais já tem um filho e a mulher fica grávida, principalmente de menina, para não se pagar uma alta multa, imposta pelo governo, a mãe pratica o aborto.
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