Menina Comum
2 Dor
Notas iniciais
Eu corri até o banheiro, esbarrando em algumas pessoas. Elas gritavam e xingavam conforme eu as empurrava. Geralmente eu voltaria e pediria mil desculpas, mas não hoje.
Quando entrei, tranquei a porta com pressa e raiva. Olhei para frente, respirando de forma rápida. Enquanto me acalmava, as lágrimas começaram a cair. Eu desabei no chão. Abri minha bolsa e peguei o pequeno objeto no bolso escondido. Uma lâmina. Encarei-a enquanto chorava, e mesmo daquele tamanho, conseguia refletir perfeitamente o meu rosto.
Isso dói.
Dói de uma forma inexplicável.
Tento comparar com cortes, batidas, surras, pancadas.
Mas a dor física nada é comparada ao que sinto.
Tenho vontade de gritar.
Gritar, até não sobrar um fio de voz.
Até me cansar, e só poder ficar deitada, caída no chão.
As lágrimas são tudo que me restam.
Os únicos meios que conduzem meus sentimentos para fora de mim.
Não consigo. É como se houvesse algo me impedindo.
Alguém.
Acho que existe um demônio dentro de mim.
Um demônio que não me deixa expressar.
Ele aperta meu coração sem piedade. Não importa meus pedidos, não interessa quantas vezes eu fale.
Pare. Chega. Acabe com isso.
Ele tampa minha garganta e meus ouvidos.
De vez em quando as pessoas perguntam como eu estou.
Sempre digo que estou bem.
Não é como se elas fossem zombar de mim, ou não me entender.
Embora eu duvide que entendam.
O fato é:
Não podem fazer nada para me ajudar.
Não podem me animar.
Não podem arrancar esse demônio de mim.
Eu não como mais como antes.
Não tenho vontade de me higienizar.
Ou de sair da cama.
Me pego frequentemente pensando em morte.
Em sombras, em sangue, em dor.
Em tortura.
But I never cut myself.
Nunca tentei me matar.
Nunca fiz uma besteira sequer.
Sempre ajudei as pessoas que precisavam de apoio.
Será que não percebem que quem precisa de ajuda,
Agora sou eu?
Mesmo assim, continuam a me cobrar.
Meus pais acham que faço isso porque quero.
Que sou assim porque quero.
Tento dizer sempre a vocês, pai, mãe.
Ninguém é assim porque quer. Não do jeito que sou.
Eu não tenho problemas. Pelo menos nenhum que alguém normal teria.
Não presto mais atenção nos estudos, mas fora isso,
Nada.
“Depressão nervosa” disse o homem que é pago para conversar comigo.
Eu sou tão miserável, ao ponto de precisar pagar por uma companhia?
Onde está a fé?
Deus?
Onde está a força, que disseram que teria,
Com amor no coração?
Isso não é um adeus, acho.
É um aviso.
De que está cada vez mais difícil suportar.
Eu tenho medo.
Medo de que algum dia, alguma hora,
Eu tenha um pensamento louco e errado.
Ele não terá volta se chegar.
“Basta 20 segundos e uma coragem insana” ela disse.
Não está mais entre nós, pobre menina.
Não podem tirar esse demônio de mim.
Porque o demônio,
Sou eu.
Quando minhas lágrimas secaram e o zumbido em meu ouvido cessou, pude ouvir batidas na porta.
—Está ocupado...
Talvez por ter falado baixo demais, ou pela pessoa não ligar, ela continuou as batidas. Eu gritei:
—ESTÁ OCUPADO!
Suspirei. Pelo menos a pessoa tinha ido embora. Levantei-me com dificuldade, me apoiando na pia, e olhei meu reflexo no espelho. Estava abafado ali, fazendo meu rosto ficar totalmente embaçado. Eu encarei a lâmina em minhas mãos por um longo tempo...
Coloquei-a de frente para meus olhos, como se a desafiasse tanto quanto ela me desafiava. Por fim, joguei a lâmina no lixo. Lavei meu rosto e abri a porta. Antes de sair do banheiro e seguir meu caminho como se nada tivesse acontecido, soltei um sussurro junto a meu suspiro: “Ela não devia ter se cortado daquele jeito”.
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