Menina
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Já sonhei nossa roda gigante, esconde -esconde em você
Já avisei todo ser da noite que eu vou cuidar de você
Vou contar historias dos dias depois de amanhã
Vou guardar tuas cores, tua primeira blusa de lã
Lembro como se fosse ontem, e não será difícil de esquecer, do dia em que sua mãe entrou pela porta de casa, depois de um bom tempo separada de mim, com uma notícia. Você. Você e ela mudaram minha vida pra sempre. Todas as emoções, já que você sabe que sou um tanto quanto chorão, passearam por mim. Medo, alegria, realização, espanto, e mais um bocado de coisas, e mesmo assim, nada me fez desistir de vocês duas. Uma montanha russa, uma roda-gigante, um tudo dentro de mim, e mesmo assim, tudo o que eu queria achar encontrei em você e na sua mãe.
Outro dia, acho que até mais importante que o da notícia, foi o dia em que a enfermeira entregou aquela criança brilhante e sorridente, enrolada numa coberta rosa. Já te contei essa história, não? Você não chorou, o que incomodou sua mãe, mas ninguém mais se preocupou porque viram que você nascera sorrindo, rindo, quase gargalhando. Veio só pra iluminar nossas vidas. E quando eu percebi seus olhos verdes como os meus olhando pra mim, confiando em mim, precisando de mim, jurei para qualquer coisa que todo o tipo de medo não existiria mais em mim. Faria e faço qualquer coisa pra você, por você, pra te ver bem e feliz, do jeitinho que chegou pra nós.
E se um dia você, quiser... Eu guardo no fundo do meu guarda-roupa seu primeiro macacão, aquele que você saiu do hospital... Só não deixe sua mãe saber. Ele não te serve mais, mas eu precisava ter alguma lembrança daquele dia... Precisava ter mais alguma lembrança sua.
Menina vou te guardar comigo
Menina vou te guardar comigo
Teu sorriso eu vou deixar na estante para eu ter um dia melhor
Tua água eu vou buscar na fonte, teu passo eu já sei de cor
Sei nosso primeiro abraço, sei nossa primeira dor
Sei tua manhã mais bonita, nossa casinha de cobertor
Se duvidar de alguma coisa, pode visitar meu criado mudo do meu lado da cama, minha carteira, meu celular, as estantes da sala, cozinha e quartos... Vocês, eu e sua mãe sempre estamos por lá, nossos sorrisos e o seu mais reluzente sempre em tudo, e isso faz dos nossos dias um pouco melhores. Nos dá forças. Todo mundo tem dias ruins, alguns mais que os outros, mas você sempre está aqui, dando lembretes de sorrisos gostosos e abertos. E suas cantorias nos vídeos? Anima qualquer ser vivo.
Filha de bailarina, só poderia nascer bailando, certo? Você também fez isso. Fazia manha, puxando minha mão até que conseguia me convencer de coloca-la em cima dos meus pés e sair dançando, segundo os teus comandos, por toda a sala. Sua mãe vinha depois e te prendíamos com nossas pernas, e você gargalhava, mesmo depois da pior bronca por ter rabiscado a parede. A verdade é que, nenhum risco teu com lápis de cor ou canetinha pelas paredes foi apagado. Está tudo aqui ainda e aqui continuará.
Cresceu, cresceu e logo aquele bebezinho se transformou numa garotinha tão perfeita... Aqueles abraços gostosos de saudade imensa depois de algumas poucas horas separados pela creche, aquela dor latejante de quando o joelho ralado ardia com o remédio, aqueles feriados e finais de semana que você acorda rindo, cantando, dançando e pulando, feliz da vida, ou não, quando acordava com a cara fechada por milhões de motivos que nunca conseguia descobrir todos. As vezes que levei bronca junto com você, porque fora convencido de armar uma casinha feita de cobertores, lençóis e adereços do tipo na sala, e sua mãe chegava estressada do trabalho... Valeram à pena todas as broncas, eu sei que valeram.
Menina vou te casar comigo
Menina vou te casar comigo...
As vezes em que você ria sem parar quando eu dizia que não deixaria nenhum garoto chegar perto de você, porque você seria só minha. Ainda lembro da sua resposta: “Pai, meninos são chatos... Só você que não é”. Isso me deixava bem, embora eu soubesse que um dia você iria crescer e mudar totalmente de ideia.
Sou teu gesto lindo
Sou teus pés
Sou quem olha você dormindo
Quero voltar no tempo em que, já passava da meia noite, eu e sua mãe íamos colocá-la na cama e você pedia mil histórias, mal aguentando ouvir uma só, e ali ficávamos, nós dois, velando teu sono.
Nosso canto será o mais bonito Mi Fá Sol Lápis de cor
Nossa pausa será o nosso grito que a natureza mostrou
A gente é tão pequeno, gigante no coração
Quando a noite traz sereno, a gente dorme num só colchão
Quero voltar no tempo em que você pegava nossos violões e perdíamos horas e horas do dia cantando, criando melodias pra que você pudesse dançar nelas depois, colorindo tudo em volta. Quero voltar no tempo em que nós três, eu você e a sua mãe dormíamos no colchão no quintal, depois de contar milhões de estrelas e inventar histórias.
Até que durante um tempo muito grande e agonizante, tudo se calou. Nossa casa, nossas vidas, suas risadas... Tudo ficou sem cor, sem som, sem vida. Um espinho grande escolheu a mais bela rosa pra machucar. Tivemos você por seis maravilhosos, transbordantes e inesquecíveis anos e 4 anos sem sua aura perto da gente. Fez-se uma pausa longa em tudo o que eu e sua mãe sabíamos, depois do nosso grito de socorro e saudade. Uma coisa que aprendemos com você foi que você é maior que qualquer infinito, que qualquer tempo. Tão longe, mas sempre perto. A noite sempre chega, trazendo a escuridão que sentimos quando você fechou os olhos pela última vez, mas o dia vem depois e traz a lembrança vívida de sua alegria e cor por tudo. É isso que nos faz continuar. Aliás, continuamos pra lembrar, pra amar você.
Quero voltar no tempo em que eu tinha você...
08/09/2014
4 anos de Fernando e Gabriela sem Lígia, nossa estrela-do-norte que a noite nos entrega sempre de volta, nem que seja por alguns pequenos instantes.
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