Notas iniciais
Eu quero que saibam que isso foi escrito quando eu estava triste. Então não vejam do jeito que eu vi.

Os sonhos que nunca sonhei e as datas que nunca presenciei. As histórias de avós e pais sobre a árvore que dava para a casa do vizinho. O orvalho na grama às seis da manhã e o dente de leão que nasce entre a parede e o chão.

Era uma vez uma menina de camisola. Era uma vez uma casa assombrada. Era uma vez uma alma perdida. Era uma vez uma bailarina de azul. Era uma vez o fantasma no porão. Era uma vez os dias que logo se vão.

As histórias acompanhadas por desenhos coloridos e as mentiras absurdas que contávamos para impressionar. Todo o chocolate quente e o biscoito que sobrara na despensa. O desenho que sua professora elogiou e aquela apresentação de verde e amarelo antes da copa de 98.

Vista a camisa menina. Sorria menina. Bote a bola no pé. Prove que nasceu com fé. O vento batendo no rosto com as meias sujas de lama. O sorvete que derreteu na mesa e a noite que passará fora da cama.

O cheiro de arroz fresco e o sol que começava a aparecer. As nuvens deram espaço e tudo tomou cor. Tudo parece belo e o laranja da parede da casa esconde a dor.Grita a menina com raiva e medo. Fervilhando. Suas lágrimas rolam pelas maçãs maquiadas do rosto. Menina agora é grande. Chamam a menina de moça.

Triste desce ao porãoe chora as mágoas de seu coração cansado e aflito. Piruetando e balançando o vestido azul, vem sua antiga amiga do circo.

O fantasma diz: "Assustada, menina? Dizem que é mesmo assim, menina. Complicado, mesmo. Pois a senhorita tem sorte. Eu para sempre serei menina."Todo mundo tem. Todo mundo sabe. O fantasma da menina.

Seus cabelos são raízes escurecidas e seus olhos nada mais do que uma folha velha contorcida. Grite e chore não adianta. O tempo passou. Agora levanta. Volta o corpo à terra. Toda marca some. Por mais que persista, esquecerão o seu nome.

Notas finais
Agora que já leram eu quero dizer que é bom crescer. Faz bem e temos sorte de poder fazer isso. Tantas pessoas se vão jovens de mais e a menina de azul não teve a chance de chorar pelas dores do coração. Agora ela está fadada a dançar para sempre em seu vestido azul. Eu estava triste quando escrevi isso e não quero que pensem que seus olhos são folhas velhas e contorcidas porque eu vejo eles como um pote cheio das estrelas mais brilhantes. Como eu disse antes, eu só estava triste.
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!