Memórias sem fotos

1 Memórias sem fotos


Notas iniciais
Rachel! Eu estava querendo escrever essa história, especificamente. Mas, nunca pensei numa songfic. Espero que goste! o/ Feliz Natal! :3

No espelho brilhava uma face que se encontrava triste e pouco ansiosa, essa face era minha. Talvez isso se devesse porque há dias, ou melhor, há meses eu não pensava Nele. Fazia quase cinco meses. Apesar disso, hoje eu me afugentava em memórias que tinha Dele, ou com Ele. Eu ia vê-lo. Hoje. Provavelmente, a falta de empolgação devia-se, também, porque eu... queria pensar Nele, apesar de não admitir.

Troquei-me, olhei mais uma vez para o espelho, descontente de que espinhas faziam-se presentes, mesmo depois de adulta, elas ainda se faziam presentes, contentes em estragar uma pele que já fora de pêssego. De certa forma, torci para que não notasse, mas, se tinha algo que eu detestava era maquiagem e isso, Ele sabia.

Eu caminhava leve, apesar da mente pesarosa. O rosto sério como sempre, nada despontava em sorriso naquele momento. Ia espera-lo na Saraiva, como sempre fiz. Não fora necessários mais que dez minutos, ele era pontual. Logo o encontrei, desta vez, não liguei em querer que ele me encontrasse primeiro, para que pudesse fugir dele e fizéssemos uma 'caça à mim'. A tentativa de não fazê-lo me fez lembrar da primeira e das seguintes tantas vezes em que fiz isso para me divertir e irritá-lo.

Cheguei perto da pessoa baixa que se fazia presente na minha frente, como sempre, ele sorria. Aproximei-me, cumprimentei-o e sentamos em um sofá, porque, eu ia falar. Sem parar.

Respirei fundo e comecei, quase que sem respirar. — Amar pode doer. Não, amar dói. — Corrigi. Já me arrependendo de todas e cada uma das palavras que saia pela minha boca. Apesar disso, não conseguia Pará-las. — Mas, acho que se tem algo que eu sei, é amar. — Mordi o lábio, fazia cinco meses que eu não o olhava. Nem entendi porque o chamei para sair... Pisquei algumas vezes, pensando no que dizer. — Você sabe que é difícil e mais difícil ainda é tentarmos, mas, nós tentamos quando amamos, não é? — Perguntei, parando por mais alguns instantes, esperando que Ele respondesse.

Eu não sabia o porquê. Eu comecei a conversa pelo fim. Não era assim que queria que tudo prosseguisse. Eu estava vomitando palavras. Ele concordou com a cabeça, sem falar. Ele nunca foi de falar, o que me irritava, pois, isso fazia com que eu considerasse que Ele não ligava. No fim das contas, aprendi, que Ele realmente não ligava. Eu não era importante. Ele não tentava, porque ele não ligava, Ele não me amava. Ele jamais me amou.

No final das contas, olhei para o chão, não conseguia falar mais. Ele riu. — Você também parou de falar a primeira vez que te beijei. Lembra? — Concordei. — E eu perguntei se àquela hora, você finalmente tornara-se tímida. — Ruborizei com o comentário, não queria que Ele lembrasse disso. Eu podia ter memórias, Ele, nem tanto.

Lembrei que nunca tiramos uma foto, apesar de eu querer, e muito. Ele sabia que eu gostava de fotos, mas nunca, em momento algum, permitiu que eu tirasse uma foto com Ele, ou Dele, que seja. — Nós nunca mantemos nosso amor numa fotografia. — Voltei a falar.

— Deve ser por isso que acabou. — Ele completou.

E a culpa disso é de quem? Pensei, sem coragem de falar. — Mas... — Interrompi-o, Ele detestava isso. — Fizemos memórias, mesmo sem as fotos, não? Na memória, meu coração não está quebrado, na verdade, foi uma das épocas mais felizes da minha vida.

— Isso é recíproco, você sabe. — Ele me observava enquanto respondia. Eu estava nervosa, Ele, como sempre, apático e sorridente. — Qual a parte boa da memória? — Ele apertou os olhos, pensando também. Para Ele, provavelmente, não havia partes boas, vez que nada daquilo havia sido memorável.

Mordi o lábio, pensando, apertei a pele no meio das mãos, sinal de minha ansiedade e nervosismo. Ele percebeu, pois pegou minha mão, fazendo-o como que para que eu parasse, tentando me acalmar, Ele não expressava dúvida nenhuma do conhecimento de minha ansiedade. E a culpa, era Dele... ou melhor, talvez fosse minha, pois eu quem quis começar com tudo. — O tempo está congelado. — Respondi à sua pergunta com a voz tremendo. Não sabia qual seria sua reação com a minha resposta. — Sabe? Não tem como ser ruim, porque foi bom. É uma memória. Lembra? — Tentei consertar, perguntando.

Ele assentiu. — Sim. Eu lembro, eu sei.

— Lembra? — Forcei, tento incomodar. — Do pôr-do-sol? Do Zé? Do casaco? Das meias? De tudo isso? De todo aquele tempo? Do sorvete? Do bebê? Do japonês... — Respirei, as memórias eram infinitas. Nove meses de infinidades.

Ele bamboleou, pensando. — Acho que sim. — Respirou fundo. — Talvez, fosse melhor se tivéssemos tirado fotos. — Ele riu, eu sorri, pensando em como conseguia fazer graça com algo que, nitidamente, ainda era importante para mim.

— Assim eu nunca estaria sozinha.

— Mas, você não está. — Ele assentiu.

— É. — Assenti. — Eu ainda tenho seu número, eu sempre terei. — Mostrei a carteira no bolso do jeans rasgado que eu vestia.

— Está vendo? — O Jovem sorriu, ainda segurando em minha mão.

Quem nos via de fora até pode pensar que éramos um casal. Mas isso, havíamos deixado de ser, há muito tempo. Um violão leve tocava como som do shopping, fazendo com que o clima ficasse leve, apesar de eu estar uma pilha de nervos em vê-lo e sentar ao seu lado.

Ficamos sem falar por um tempo, pensando, a vida não era fácil e amar também não. Sabíamos da teoria, o amor curava, o amor remendava, o amor podia tornar tudo mais fácil, deveríamos pensar nisso para nos manter fortes e ficarmos juntos, mas, por algum motivo, não tinha dado certo. Eu pensava em tudo e mais um pouco, observando nossas mãos entrelaçadas.

Ele se colocou de pé, me chamou para seguir. Fomos até à chocolateria, assim como Ele me levou naquele encontro. — Aqui. — Disse, pagando meu chocolate favorito, que não sei como Ele ainda sabia de cor. — Eu nunca te deixarei ir, nem que seja um pouquinho. — Sussurrou, enquanto bebericava seu chocolate quente.

— Eu também. — Respondi no mesmo tom.

Sentados, meu pensante, um que não tirava nem para dormir se fez visível, havia saído de baixo da minha blusa. Ele riu, vendo o pingente balançando de leve no meu pescoço. — Você tinha 19 anos. — Ele indagou. Provavelmente, ainda reclamando da diferença de idade que temos.

Eu sabia disso. Eu tinha certeza de tudo o que Ele me dizia, apesar de não gostar da situação e discordar de 89% de tudo que Ele dizia. — Eu lembro. — Sorri, olhando para o chocolate. O pendante, que agora eu escondia de volta na blusa. Eu o perdi, Ele quem encontrou para mim, jogado em seu carro. Eu nunca o tirava e continuarem não tirando, mesmo que dentro dele tenha algo que não mais me pertença... suspirei.

Ele mordeu o lábio. — Você quer tirar uma foto agora? — Ele parecia querer remendar o que havia destruído meses antes.

Neguei com a cabeça. — Não. Acho que prefiro as memórias. — Sorri, terminando o chocolate, feliz pela memória que já tinha sobre isso e pela nova que se fazia. Coloquei-me de pé. — Obrigada. Tchau. — Respirei fundo, colocando-me de pé enquanto ele ainda se sentava.

— Mas, já? — Ele pareceu contrariado. — Que tchau de supetão. — Ele reclamou.

Concordei com a cabeça. Ele sempre reclamava por eu cortar o momento. Mas esse era o ponto, não havia momento, não mais, não com Ele. — Vamos estar longe, mas não se preocupe, eu sempre vou me lembrar do beijo que me deu com o sol se pondo, no meio da marginal, quando eu neguei, quando sorriu sadicamente por eu não alcançar seus lábios, quando nos escondemos no seu carro. — Mordi o lábio, me interrompendo. — Me lembrarei, sempre, de como você me beijava. — Disse, distanciando-me logo depois.

Voltei para casa, sentindo-me mais leve, completa pela conversa, tento fechado o livro. Contudo, durante a noite, uma mensagem chegou, era Dele, dizia: “Guarde as memórias e, espere por minha volta para casa.”.

Depois de ler, deitei, pensando se o livro teria fechado, Ele continuaria sempre não tendo fotos, apenas memórias, cada vez mais antigas. Eu esperava que sim, não queria mais sofrer. — Quero que o livro tenha fechado e agora, tenha congelado, todas as memórias, onde os olhos não fecham, onde os olhos não choram.

Notas finais
Gostou? Lú!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!