Cortei o cabelo, desta vez com alguém mais habilidoso do que o Zacarias.

O corte foi decidido à meses, pois seria o definitivo que eu teria para o resto da eternidade. Segundo o cubo, caso eu raspasse após me tornar imortal, o cabelo cresceria novamente, mas só até aquele tamanho. O tamanho que tinha no momento do aceite do contrato.

O mesmo valia para a barba, aquela questão foi mais demorada para decidir.

Normalmente eu usava o rosto limpo, mas eventualmente usava barba. Se eu raspasse, jamais teria barba novamente, então decidi não arriscar.

Me condenei a ter de me barbear para sempre, mas era melhor do que querer ter barba e não poder.

Aquelas questões eram tão vazias e sem importância, mas quando eu parava para pensar em como seria viver para sempre, pareciam coisas valiosas.

Como já estava à alguns dias por fazer, a barba demorou apenas cinco dias para ficar no tamanho que eu desejava.

Era uma sexta-feira à noite, véspera do meu encontro com a Julia e o dia em que eu decidi me tornar imortal.

Fui até o banheiro, tirei a tampa da caixa do vaso sanitário e retirei o pacote de dentro da água, com cuidado, usando uma toalha para não respingar o chão.

Já com o pacote seco, rasguei-o com as mãos mesmo e coloquei o pote em cima da mesa.

Não consegui abrir o pote de imediato. Mesmo querendo muito, sentia calafrios.

Também pudera, era uma mudança gigantesca, sem precedentes e sem volta.

Qualquer decisão que seja irremediável, por menor que seja, causa um certo nervosismo, agora imagine uma decisão daquela magnitude?

Observei o pote por um longo tempo, como se ele fosse fazer algo inusitado como se mover, mudar de cor ou tomar a decisão por mim.

Decidi abrir e lá estava o cubo negro.

Rolei-o de dentro do pote até minha mão e esfreguei uma das faces, como se estivesse me certificando de que era real.

Mesmo em todo aquele tempo com ele parecia tudo um grande sonho e senti um aperto no peito, temendo ter uma enorme decepção se o cubo estivesse mentindo ou fosse parte de uma grande pegadinha.

Teria de ser uma pessoa realmente doentia para sustentar uma pegadinha por quase dois anos.

— Hei, cubo, você está aí? — perguntei, engolindo seco.

— Afirmativo! — ele respondeu, me tirando parte do peso sobre os ombros.

Fazia um certo tempo que eu não falava com o cubo e imaginei que ele pudesse ter ido embora, morrido ou parado de funcionar.

Respirei fundo e continuei.

— Como faço para fazer o contrato da imortalidade? — indo direto ao ponto. — O que eu preciso fazer?

— É feito de forma verbal. No momento em que disser que aceita o contrato, estará feito e eu estarei livre.

— Livre? Você irá embora?

— Sim!

— E pra onde você vai?

— Para o local de onde eu vim.

— E onde é o local de onde você veio?

— Essa informação é irrelevante para o contrato.

— Tá bom, deixa só eu ver se está tudo certo.

Peguei uma lista, também dentro do pote, onde escrevi todas as medidas importantes que deveria tomar. Tudo parecia estar pronto.

Me olhei no espelho.

Não era o corpo que eu queria, mas já estava bom.

A barba estava certinha e com um bom tamanho.

O cabelo estava com o corte certo, mas quando o verifiquei, notei um fio de cabelo branco.

— Droga! Por pouco eu não fiquei condenado a ter um fio de cabelo branco pela eternidade. — arrancando-o em seguida.

E se eu estivesse esquecendo de algo importante? Algo que não me passou pela cabeça nesses quase dois anos? Era muita responsabilidade, muita pressão.

Por outro lado, se eu continuasse assim, procurando por algo que deixei passar, não iria fazer o contrato nunca.

Em um impulso de momento, virei-me para o cubo e disse:

— Aceito o contrato! — de forma incisiva.

Pela primeira vez, desde que o encontrei, o cubo não respondeu, não brilhou, não levitou, não fez absolutamente nada.

Por quase um minuto fiquei apenas olhando para ele, esperando que pudesse estar carregando algo, como um programa de computador pesado, que demora para iniciar, mas nada aconteceu.

— Cubo, você está aí? — perguntei, começando a ficar preocupado.

Ele nada respondeu.

Fiquei confuso e tudo o que me passava pela cabeça é que eu tinha feito algo errado.

Será que falei da forma errada? Eu devia ter dito que iria pedir o contrato e só então aceitado? Ele tinha que ter dito algo antes?

Sentei na cama e tentei organizar os pensamentos, quando uma ideia me veio na cabeça.

Fui até a cozinha, peguei uma faca e apontei ela para a minha mão, mas hesitei.

É claro que eu não iria fazer um corte exagerado, mas furar a mão por vontade própria é mais difícil do que eu pensava.

Apertei a ponta da faca contra a mão, devagar, mas a dor me impediu de perfurar a carne.

Respirei fundo e, de sopetão, enfiei a ponta da faca na mão, abrindo um pequeno corte, que sangrou em seguida.

Fiquei olhando para a ferida, esperando ela se fechar. O cubo tinha dito que eu iria me regenerar.

Cinco minutos se passaram e parei de sangrar, mas o burado ainda estava lá.

Foi tudo uma grande piada? O que exatamente aconteceu?

Deitei de costas na cama e, naquele momento, senti que tinha perdido dois anos da minha vida com algo que obviamente era pura fantasia.

Coloquei um curativo no machucado e fiquei deitado, digerindo aquela grande mentira.

Não fazia sentido. Eu vi o cubo brilhar, falar comigo, levitar. Se o contrato era uma mentira, o que era aquilo então?

Nesse momento o cubo, em cima da mesa, brilhou pela última vez, me chamando atenção.

Corri até ele, observando com atenção e, tão inesperado como começou a brilhar, ele voltou ao normal, se desmanchando em seguida, restando apenas uma espécie de areia negra em cima da minha mesa.

Será que realmente estava carregando?

Àquela altura do campeonato eu já não sabia mais de nada.

A decepção me fez querer ignorar aquela história toda, porque sentia que cada segundo pensando no tal contrato de imortalidade era um segundo perdido da minha vida.

Como pude acreditar em algo tão idiota?

Estava exausto do dia puxado e a tensão que aquilo me provocou só me deixou mais cansado, então deitei na cama e em poucos minutos já havia pegado no sono.

No dia seguinte, o dia do encontro com Julia, tratei de limpar a casa logo pela manhã.

Em cima da mesa ainda estavam os restos daquele maldito cubo e, por algum motivo, decidi não me livrar dele.

Coloquei aquela areia negra no pote em que já o guardava antes e o coloquei em cima do armário da cozinha. Já não precisava mais escondê-lo mesmo.

Quando ela chegou eu já estava pronto.

Comprei pizza e até uma garrafa de vinho. Com os dois empregos, por todo aquele tempo, consegui guardar uma pequena reserva de dinheiro para esses casos.

Comemos, conversamos e rimos muito assistindo à televisão (o vizinho ainda não havia descoberto que eu tinha roubado o sinal novamente), passeamos no parque, voltamos para casa e fizemos amor.

Depois de tantos dias merdas, finalmente consegui passar um ótimo final de semana com a minha garota.

Deitamos na grama do pátio da Dona Camélia, que apenas espiava pela fresta da janela, sorridente, enquanto Julia e eu olhávamos as estrelas.

— É tão bonito! — ela disse, admirando o infinito.

— Olhar pras estrelas me faz pensar em quão pequenos nós somos. — completei.

— Ah, eu não penso assim! Temos tudo isso só pra nós!

— Você não acha que exista vida inteligente fora da Terra?

— Não, isso é coisa de filme. Você acredita nisso?

— Não sei, eu acho que existe a possibilidade. É tudo tão imenso, infinito, para ser tudo só para nós. A gente nem vai conseguir ver todo o universo, então porque ele teria sido feito só pra gente?

Quando falei isso, ergui a mão direita em direção ao céu, como se tentasse alcançá-lo.

— O que foi isso? — pergunta Julia, percebendo o curativo em minha mão.

— Ah, não foi nada. Me cortei com a faca, mas não foi grande coisa.

Foi nesse momento que minha curiosidade retornou.

Fiquei ansioso novamente e lembrava-me do cubo e do contrato.

Tantas perguntas sem resposta.

No final levei Julia até o ponto de ônibus e então retornei para minha casa.

Ao entrar, explodindo de ansiedade, corri para o banheiro e então, puxando devagar, removi o curativo.

Nova decepção, o ferimento ainda estava lá.

Não doía nem sangrava, mas não fechou magicamente como achei que iria acontecer.

No fim das contas, tudo não passou de um grande trote do universo.

Três dias se passaram, continuei levando minha vida como sempre, mas larguei a academia e o segundo emprego, para tristeza da Dona Camélia.

Mas alguma coisa estava errada.

Durante o expediente fui ao banheiro e, pela terceira vez, retirei o curativo da minha mão.

Três dias deveriam ser o suficiente para ele começar a fechar, mas o buraco ainda estava lá.

Algo parecia ter dado errado.

Fiquei com aquilo na cabeça e quase derrubei as compras de outra cliente. Desta vez seria o meu fim, se tivesse acontecido.

Final do expediente, me aprontei para ir embora.

Já começava a escurecer e esfriava, sinalizando que o inverno estava prestes à chegar.

Coloquei a jaqueta por cima da roupa, a mochila nas costas e segui para o ponto de ônibus, como sempre.

Lá estava eu e mais outras seis pessoas, esperando a condução.

Havia uma senhora bem arrumada com um garoto adolescente, provavelmente seu filho. Um homem alto e mau encarado ao lado de outro um pouco menor do que eu, pareciam estarem juntos, pois cochichavam e olhavam ao redor. Um cara gordo de terno, que me lembrava um personagem de uma série mexicana, e uma mulher ainda mais gorda do que o cara gordo, não sei se eram conhecidos, mas fariam um belo casal.

A primeira a ir embora foi a mulher gorda, seguida da senhora com o garoto adolescente.

O cara gordo subiu no ônibus que veio à seguir, me deixando na parada junto ao cara alto e seu amigo igualmente mal encarado.

Senti um frio na espinha e com razão.

Nem vinte segundos depois do último ônibus passar, me abordaram, ficando em minha frente enquanto o menor deles me apontava uma arma.

Maldito contrato! Se tivesse funcionado eu não teria motivos para temer um simples assalto. Queria poder reagir e quebrar a cara daqueles desgraçados, mas bastava ele puxar o gatilho e seria o fim da minha vida. Não valia a pena morrer por causa de um celular velho e alguns trocados.

Entreguei meus pertences e, obviamente não era o suficiente. Ele queria a mochila.

— Só tem minha roupa do serviço aqui dentro. — apontei com a cabeça para a mochila.

— Te perguntei alguma coisa? — falou o baixinho invocado, encostando a arma no meu abdômen.

Entreguei a mochila devagar, sempre mantendo as mãos onde eles pudessem ver, pois se suspeitassem de qualquer movimento meu, eu levaria chumbo.

— O casaco! — o mais alto falou. — Tira o casaco!

— Olha, me desculpa! Esse casaco foi presente da minha namorada. Não posso dar.

O mais baixo aproximou o rosto do meu, quase colado, enquanto empurrava o cano frio da arma contra minha barriga.

— Tu quer morrer, é? Cala tua boca e dá o casaco, porra!

Meu coração disparou e senti como se houvesse um curto circuito dentro da minha cabeça.

Por mais que eu soubesse que eu não havia me tornado imortal, meu corpo parece ter pensado que sim, pois reagi instintivamente, segurando a arma com a mão esquerda, de forma que ela apontasse para longe de mim e golpeando o rosto dele com um soco de direita.

Ele cambaleou, dando dois passos para trás, mas sequer tive tempo de fazer algo mais e o mais alto me acertou um soco no meio da cara.

Eu estava escorado de costas na grade que separa o ponto de ônibus da rua, e me curvei para trás, por sobre a grade, devido a força do soco.

Quando voltei, o mais baixo já estava apontando a arma para mim novamente, disparou três vezes e correram, levando meu celular, dinheiro e mochila.

Senti o gosto do sangue na boca e ainda tive tempo de ver os três furos, antes de cair no chão.

Dois disparos no abdômen e o terceiro no lado direito do peito.

Caído de bruços, vi meu sangue escorrer até formar uma poça.

A dor era excruciante à ponto de me deixar paralisado, encolhido no chão. Em seguida senti frio e as extremidades adormeceram.

Enxerguei uma pessoa passando do outro lado da rua e tentei gritar por socorro o mais alto que pude. O que saiu foi pouco mais que um sussurro, mas naquela rua vazia, era o suficiente para ser ouvido de longe.

A pessoa me viu e acelerou o passo.

É claro que não quis se aproximar, ela não queria arriscar levar um tiro tentando ajudar um desconhecido.

A vista embaçou e o som dos veículos que passavam chegavam até mim como se fossem eco dentro de uma caverna. Foi quando perdi os sentidos.

Ali, perto da morte, estranhamente foi a última vez que me senti tão vivo.

Notas finais
Observações e críticas construtivas serão bem vindas!