Memórias de um Aprendiz

40 Parte 2, Capítulos 26, 27 e 28


Notas iniciais
Oi gente! A faculdade me trollou, mas aqui está o último capítulo do livro. Sem mais, boa leitura!

Capítulo 26 – Reviravolta

O aprendiz toma a forma de raposa e contém o golpe de Rag-Finnaros mordendo a mão do guerreiro das trevas. O cavaleiro sacode a raposa e a joga para longe, direto em uma pedra.

– Obrigado... Garoto. Raitun, correto?

– De nada. Por que diabos está agradecendo? – diz a raposa gigante se recompondo.

– Há muito tempo eu não lutava. Há muito tempo eu não tinha uma luta tão divertida para lutar. Por isso estou agradecendo.

– Entendo. É realmente uma boa luta.

– Quando se é poderoso é difícil achar um rival a altura. Chega de conversa, e ataque-me com tudo o que tiver.

– Espero que esteja preparando, ó grande lorde das trevas.

A raposa avança contra o lobo. Avança contra a morte, seu inimigo. Avança contra seu medo, seu aliado. Ainda é uma luta desequilibrada, a raposa ainda não é forte o suficiente para atacar um lobo. Apesar do tamanho e do aparente peso da armadura, ele consegue se mover tão ou mais rápido do que Raitun, e desviar a maioria dos ataques talvez o cavaleiro se divirta mais com a insistência do garoto do que propriamente com sua força. Cansado de desviar, muda para o modo de ataque e rebate a raposa com o cabo de seu machado (não seria divertido matá-lo com um único corte.). Segurando o que antes era uma foice e agora é um machado como se fosse uma lança, Rag-Finnaros atravessa o corpo de raposa do garoto. O lobo finalmente conseguiu (ou resolveu) morder a raposa.

Só quando sentimos o quanto uma mordida dói é que tomamos realmente cuidado para não sermos mordidos. Infelizmente não se precaver com antecedência pode trazer graves consequências.

– Não me decepcione. Eu sei que raposas são boas em se curar. Solitários precisam ser bons. – e o lorde segurava o outro lorde na ponta de sua lança, uma mera presa acuada– Você ainda pode lutar, não é? Se ainda tem mais do que isso a me mostrar, espero que morra mostrando tudo o que tem em vez de morrer sem mostrar seu verdadeiro poder. Se você fizer isso eu terei que lhe matar no outro mundo também. Não sem antes te forçar a usar seu poder total, claro. Se não se esqueceu de morrer, levante-se e mostre o que diabos você tanto guarda!

O cavaleiro joga Raitun para cima, e com um chute despreza-o, joga para longe o corpo do aprendiz (agora um mero corpo normal voando para longe) sem nenhuma reação deste. O garoto passa um instante imóvel, em silêncio. Queria gritar de dor, queria muito gritar o mais alto que pudesse. Na tinha esse direito. Aos poucos começa a tentar se levantar da poça de sangue e neve vermelha onde se encontrava. Ainda tinha uma promessa a cumprir.

– O que houve garoto? Morreu e esqueceu que tem que ir para o mundo dos espíritos? Sabe, ainda tenho vagas lembranças de quando era um paladino. Talvez por isso eu não mate de uma vez. Lembro de algum sábio dizendo boas palavras. “Se alguma existência pode lhe ferir, alguma outra existência pode curar suas feridas”... Foi algo do tipo o que ele disse? Se você aprendeu tanto, responda: se você for um ser solitário e que não pode ser ferido, mas que já está ferido. Quem vai curar você?

O aprendiz ainda estava em silêncio, mas com alguma dose de esforço com se ajoelhar, assim como a sacerdotisa estava naquele momento. Naquele momento, antes de cair, Lilith escrever algo no ar, suas últimas palavras para aquele momento. Antes de cair, Lilith atira sua última flecha, carregando esta mensagem.

“Espero que eu te alcance, pelo menos dessa vez. Mantenha nossa promessa. Até que ela se cumpra, não solte suas para me abraçar. Confio minha última flecha a você, meu amor, meu lugar, minha raposa, minha coisa fofa, o que sobra de minha vida.”

Lilith cai em paz, com um tímido sorriso no canto da boca. Com o mesmo sorriso, Raitun está ajoelhado, sangrando e quase morto. Abrindo os braços Raitun abaixa sua guarda.

– Não estou sozinho ainda. Isso só acontece quando se evolui de aprendiz para sábio, ou para andarilho, eremita. Na qualidade de aprendiz, aprendi que a sabedoria traz a solidão. O sábio tem consciência de que a solidão serve para se dar valor à companhia.

Uma flecha de luz atravessa Raitun, e assim a luz retorna a seus olhos.

– Sabe Rag-Finnaros, eu também devo agradecer. Acabo de agradecer- enquanto falava as feridas se regeneravam- por tudo. Agradeço pela luta com o inimigo mais forte que já enfrentei, e a luta mais divertida que já tive. Agradeço ainda mais por que graças a você acabo de receber a mensagem mais linda de toda a minha vida.

– Espero que me retribua à altura pelo... “presente”.

– Lupuoskirus Omni Raitun, o último e atual, Lorde imperial e aprendiz-raposa eterno.

– Darklord Rag-Finnaros, o cavaleiro negro, senhor das terras geladas.

– “Em retribuição pelo presente, mostraremos a ele o nosso verdadeiro poder. A força da tempestade de mil lâminas.” – dizem as katanas gêmeas, materializando-se nas mãos do garoto. O aprendiz levanta uma das lâminas e finca a outra no chão. Nuvens de tempestade tomam conta do lugar. Um raio cai sobre a espada levantada, atravessa o garoto e forma um gigantesco círculo no chão. O círculo fecha o lugar em uma meia esfera. Assim é a arena do combate.

– A verdadeira forma da tempestade de mil lâminas, Megalocumulus Nimbus.

– Truque interessante. Um ambiente obscuro de tempestade para um garoto tempestuoso.

– Esta é a última e verdadeira face destas lâminas. Todas as mil lâminas – duas katanas estão nas mãos do garoto. Muitas outras se materializam no contorno da “arena”.

– Realmente um bom truque.

Agora espadas não quebram mais, espadas não mais são largadas e o som das armas chocando-se e de ondas de choque é escutado durante um longo tempo. Quando dois guerreiros de condições iguais e alto nível colidem suas armas, não existe ataque ou defesa. Apenas ressoa o som das armas, apenas reluzem as faíscas, apenas a ressonância dos choques responde pelos dois. Atacar com tudo é apenas ver o que o inimigo consegue defender. Desviar de maneira considerada impossível era apenas esperar o próximo golpe certo. Se movimentar como se pudesse voar era apenas esperar ansiosamente as armas ressoarem novamente. Ao ouvir aquele ressoar de armas o garoto podia aprender um pouco mais sobre seu inimigo. Aquilo era a tão falada “ressonância”?

Por instantes o garoto larga a sua arma. Lança ambas para o alto. Rag-Finnaros aproveita a suspeita, porém convidativa abertura e ataca de cima para baio. Raitun apara o golpe entre as mãos e chuta o machado para o alto com um confiante e escancarado sorriso.

– Mutoryu Omnikire: Odayakana kobushi, Sanjuunana Kitsune (corte Omni, estilo sem lâminas: punho gentil, trinta e sete raposas) apesar do nome, os punhos não foram nada gentis com o cavaleiro. Atacaram em uma rápida e devastadora sequência de trinta e sete golpes, todos com a palma da mão envolta por mana. Para o último golpe o garoto junta seu poder entre as mãos e golpeia com as duas palmas ao mesmo tempo. O golpe é poderoso o suficiente para lançar o cavaleiro para longe, muito longe. Não tão longe quanto ele queria, o alvo é detido pela barreira de espadas e raios, a meia esfera criada anteriormente. O golpe do aprendiz foi aplicado de forma rápida e efetiva. Talvez agora uma raposa possa vencer um lobo.

– Parece que nosso poder está nivelado agora.

– Ótimo golpe. Ainda tem algo a mais para mostrar? Dizem que os Lupuoskirus aprendem mais de mil técnicas entre magias e golpes diversos.

– Não tenho tantas. Mas ainda tenho algumas. – duas katanas descem do alto da meia esfera para as mãos do aprendiz – Pegue sua arma, Darklord, se não vou acabar partindo você em dois, e isso não teria muita graça, teria?

Capítulo 27- Por quês

Várias lutas rolavam ao mesmo tempo em que aquela se desenrolava. Cada um lutava por sua vida, sua família, seu reino, seus valores, seus princípios. Por que o aprendiz lutava? Por que se sacrificava tanto quanto os outros, se não tinha família, se não era daquele reino? O que fazia Raitun ser tão forte? Essas eram as perguntas feitas várias vezes por várias criaturas até então. Rag-Finnaros não fugia dessa regra.

– Por que você está lutando comigo?

– Por que você não é meu aliado. Isso é motivo suficiente.

– Por que você e não qualquer outro? Já deve ter descoberto essa resposta, presumo.

– Ainda não. O que vai ocorrer primeiro: sua morte ou minha descoberta?

– Morte? Huhuhu! Eu já estou morto garoto! Diz o cavaleiro em meio a risos, praticamente uma crise.

Mais uma vez fazendo uso das habilidades de uma raposa, o aprendiz conseguiu distrair o lobo.

– Digo isso para elas! Grita Raitun enquanto golpeia de cima para baixo, partindo o elmo de Rag-Finnaros ao meio. Ótima estratégia, péssimo golpe. O contra ataque quase partiu o aprendiz ao meio. A agilidade de uma raposa o livrou de um destino cruel, mas não completamente.

– Perdão garoto. Vou contar o que você deve ter percebido. Meu elmo era uma espécie de... Limitador. E agora, ele se foi, então será difícil me conter. Você vai manter essa cara de espanto até o fim? Ou finalmente largará suas espadas e se ajoelhará pedindo perdão? Pense rápido, esse corte no seu peito não vai deixar você viver por muito tempo para escolher.

O vento que sopra no momento traz apenas longínquos e inaudíveis gritos de dor a Raitun. Nada de dicas, nada de respostas. O cavaleiro aponta sua arma para o aprendiz e dela vez saem vários chicotes de mana negra, que enroscam e apertam o aprendiz.

– Death Strike! Grita Rag-Finnaros ao pular em cima de Raitun, pronto para aplicar-lhe uma sentença de morte em um golpe. Isso não foi feito com sucesso, uma luz branca forte o repeliu, criou uma barreira mística entre ambos e dissipou os chicotes, apenas brilhando.

– Eu... Morri?!

– Não largue as suas espadas ainda. A luta não acabou. Na verdade, agora é que ela irá realmente começar.

– Sua voz... Parece-me familiar. Você é algum tipo de deus ou entidade protetora deste lugar? Eu não morri, mas estou curado, e com as roupas brancas que usava antes.

– Não, nem deus, nem entidade. Kitsuyoshi, a perfeição em forma de aprendiz. Podemos dizer que sou... Uma espécie de... Ancestral ou vida passada, ou algo do tipo.

– Temos tanto tempo assim? Explique-se logo.

– Em seu mundo você é um humano, um “mero humano”. Aqui você é um Duraenai. Por isso as raposas, e o aprendizado prodigioso. Sua alma nasceu como a alma de um Duraenai, com um grande destino. De alguma forma se materializou em um corpo humano. Em seu mundo. Na verdade, naquele mundo. Então na prática, você não é de nenhum dos dois. Eu quis manter você seguro, e essa acabou sendo uma boa forma. Seu destino é continuar minha missão.

– Destruir Rag-Finnaros.

– Exato. “Por que eu?!” Alguém tão poderoso só pode ser derrotado por um grande poder. Você ainda não o tem, mas já pode... Canalizá-lo, e no momento é o único que pode fazer uso desse poder. A voz toma forma. Parecia um humano esbelto, alto e forte como um meio orc. Pele humana, orelhas e olhos élficos, barba malfeita. Uma espada larga em mãos, uma roupa que lembra a do aprendiz.

– Duraenai, a raça que foi desprezada.

– Hora de terminar o que não deveria ter começado.

As folhas caem, a floresta cresce. O futuro está em você.

Não largue suas espadas. Junte as três.

– Só uso duas espadas.

– Esta é Norimitsu, sua... Ou melhor, nossa terceira espada. – diz ele entregando a espada que segurava ao garoto. Com três espadas juntas e fundidas em uma o aprendiz agora carrega uma nova espada larga chamada Arashi. Uma espada larga e tão pesada quanto o fardo que seu portador carrega. Em sua lâmina branca de fio negro, inscrições diziam “conhecimento é poder”.

– Não vou conseguir usar esta espada com a maestria necessária. Ainda não sou digno de usar uma espada desse porte.

– “Como se você fosse usá-la sozinho. Kitsuyoshi confia Arashi a você. Confie nela.”– diz a raposa antiga que mora no coração do garoto.

– Hora de manter nessas promessas.

A luz intensa se desfaz. Reduz a um “segundo aiodrome” que havia sido até pouco tempo atrás. Rag-Finnaros ataca Raitun. Outro Raitun. Um que era um humano poderoso. Um que era um Duraenai poderoso. Um que tinha a mesma altura e capacidades dele, e para controlar seu poder fazia uso de um ótimo recurso, mostrava uma cauda de raposa.

Uma luta de armas e portadores de armas gigantes e em outro nível. Eles não eram apenas guerreiros. Cada golpe produzia uma onda de choque e a mandava por todo o reino, mandava também uma aura de tensão e medo.

– Mais algum truque?

– Sim. Um original dessa vez. E espero que seja o último.

– Será honroso morrer por um bom truque, se este for poderoso. Use-o, me surpreenda se tem poder para tal!

– Ittoryu Omnikire: Arashi no Kitsune! (corte Omni, estilo de uma espada: raposa da tempestade)

Este foi o nome do último golpe desferido em Rag-Finnaros. Ou revendo com bons olhos, a última sequência rápida. Tão rápida quanto um raio, e não há imprecação em latim, japonês, língua nova ou antiga, existente ou abolida para descrever aquela velocidade. Foi rápido o suficiente para pegar cada uma das mil espadas e desferir um poderoso golpe no cavaleiro, preso por uma raposa e fios de mana saídos do chão. Em instantes. Mil espadas, mil golpes são desferidos, e para quebrar e esmagar a presença do mal o aprendiz segura Arashi, sua última espada. Com ela se fixa de cabeça para baixo na parte mais alta da redoma, de lá toma um impulso direto para baixo. Direto para cima do cavaleiro agora livre, e direto para o tal último golpe. Em forma de redemoinho, o golpe quebra arma, armadura e alma de um antigo cavaleiro negro. Novamente vem o silêncio. Tudo foi tão rápido e complexo que o último suspiro tarda a vir, assim como espectros e sombras de cada golpe do aprendiz tardam a sumir. O cavaleiro negro tomba, se desfaz aos poucos. Agora é um humano caído, derrotado, e livre.

– Meus sinceros agradecimentos, bom menino paladino. Agora Rag-Finnaros se foi, e Eldonis, que é quem vos fala isto, também não ficará por muito tempo. Você não é humano, tampouco um Duraenai, porém tem um coração nobre e uma boa mente, assim como os antigos paladinos. Continue evoluindo, e não seja corrompido pelo mal, não cometa meu erro. Desejo-lhe sorte. Hora de voltar para junto d meus ancestrais e minhas pessoas importantes. Minhas últimas palavras para o garoto Raitun, coração de paladino. – diz o paladino Eldonis

– Também devo fazer o mesmo. Boa sorte em sua jornada. Você também precisa voltar para quem ama, filhote. Cuide bem dessa espada.

Estas foram as últimas palavras dirigidas a ele por Eldonis e Kitsuyoshi. Os dois se desfazem, assim como o pó lançado ao veto. Desta maneira também se vão os espíritos dos exércitos malignos e todas as influências controladoras sobre os viventes. O reino comemora o fim da guerra e treme com o grito da legião de soldados montrisianos.

Capítulo 28 – Informação confidencial

Quase todos riem. O herói não conseguia sorrir, e ao se aproximar de Midgard todos se calam, percebendo que o motivo de sua expressão de dor não estava era as cicatrizes visíveis e sim o que estava em seus braços: Lilith.

– Abram passagem! – grita algum guarda.

– Ela já sabia que isso ia acontecer, não sabia?

– Provavelmente– responde Alexis, e continua: – Ela era uma de nós, antes de tudo. Ela se foi, porém deixou um legado imensurável para este reino.

– Ainda não. – os soldados se espantam com aquele comentário, cochicham algo, mas é o garoto que continua a falar, o herói. Põe Lilith no chão com tanto cuidado que se seu corpo fosse feito de cristal não sentiria o impacto. Se ajoelha de sua Amanda, dizendo: – Ela ainda não está perdida, e eu ainda tenho um desejo pendente.

– E o que você vai pedir? “Ressuscite ela”?! Você por acaso é um deus? Existe alguém entre nós que pode cumprir tais pedidos e eu não fui avisada?

– Não sou um deus, nem um de vocês o é. Não posso ressuscitar, nem vocês o podem. Mas ainda me resta um desejo, e vocês me devem isso!

– Qual o seu desejo, nobre cavaleiro? Pergunta o anão imperador, ainda com seu machado em mãos. Raitun vira-se para este e faz uma mesura profunda, muito profunda.

– Quero as penas de fênix que estão em seus brincos.

Pedido feito, porém considerado um ultraje pelos montrisianos. Rumores e sussurros por todos os lados.

– Você realmente é louco, diz Louise ao tomar parte da situação. Essas penas estão com os imperadores desde o início dos tempos, representam a capacidade dos montrisianos renascerem após uma iminente destruição. Você não pode simples pedir “desejo o seu trono” e ser atendido, pode? Isso é algo inadmissível e não passível de ponderação!

– Não quero o reino de vocês. Não me importo em ser ou vassalo tendo a condição de aprendiz, e podendo estar próximo a alguém importante. Eu aprendi sobre a capacidade de seu reino, e a adquiri graças a vocês. Sou grato por isso. O que quero agora é salvar a Lilith, ou não desistir dela até recorrer à última alternativa. Os montrisianos vão sacrificar sua sacerdotisa por algo de valor simbólico? Eu devo ter dormido por muito tempo então, devo ter sonhado que encontrei um reino onde aprendi que a maior das forças reside dentro de cada um, que um guerreiro não deve largar espada até o fim da batalha, mas que não é a espada que faz o guerreiro ser guerreiro. Acabei acordando neste lugar estranho, onde enquanto vários corações se fecham, a visão de uma sacerdotisa escurece cada vez mais. E onde nenhum entre nós sabe ressuscitar os mortos.

– Seu coração é forte, sua intenção, sincera. Não perca mais tempo– diz o imperador ao entregar-lhe as penas.

O aprendiz realmente tinha tempo. Não podia manter-se naquele modo de combate por muito tempo, estava quase sem forças. Aquele seria o verdadeiro “último golpe”. O aprendiz segura o arco de Lilith e transforma Arashi, as suas bainhas e as penas em uma flecha de luz e mana pura. Em suas costas aparece uma asa esquerda, também de luz, grande o suficiente para levantar o aprendiz a uma boa altura.

– Mantenha o foco, Mihawk – diz o garoto nas alturas, apontando a flecha para a sacerdotisa. Um laço nos une, e após tudo, após tempo e distância nos separarem, apenas ele irá perdurar. Este é a flecha de meu último desejo. Levante-se, Lilith! Daikyu, Omnikire: Yakusoku!(grande arco corte Omni: promessa.)

O aprendiz libera a flecha e acerta o coração de Lilith. Flecha que depois de cravada no peito da elfa vai perdendo seu brilho, enquanto todo o reino se mantém apreensivo. A esperança vem como a aurora: brilhante, de leve, mansa. A marca em Lilith começa a se dissipar aos poucos. Porém os tímidos sorrisos radiantes logo se transformam em expressões vazias e fúnebres. O corpo da sacerdotisa começa a desintegrar-se e vira algo brilhante carregado pelo vento. O vento que leva e traz.

Montris retorna ao silêncio. Silencio e luto profundo, até ouvir o velho e bom som de duas armas ressoando no ar. Acima deles, onde estava Raitun Lilith reapareceu segurando a larga e monstruosamente ignorante Arashi. Com ela a elfa ataca a raposa, e o reflexo desta permite que se vire e apare o golpe com o arco da sacerdotisa.

– Roubar a arma de um guerreiro enquanto este agoniza é inadmissível, além de ser uma falta de educação.

– Usar a arma de um guerreiro para atacá-lo pelas costas é um impropério de mesmo nível.

– Você não devia ter feito isso. Você sabe que coisas terríveis acontecem quando se usa poder de mais.

– Sei sim, e você quase me mostrou um exemplo prático.

O garoto recolhe a cauda e a asas em seu limite, ao mesmo tempo é recolhido pelos braços de Lilith

Nenhuma palavra a mais é dita pelos dois. Não através da fala. Os dois resumem-se a entreolhar-se. Entendem-se assim. Raitun dá um suave beijo no canto da boca de Lilith, lentamente percorre seu pescoço, beijando-lhe ali, beija-lhe a testa. Cada um dos beijos fora retribuído lentamente por ela, e esta toma a iniciativa dando-lhe um último beijo. Enquanto isso, Yumi comenta.

– Que interessante. Parece que eles passaram um longo tempo sem se ver.

– Aquele não é um beijo de reencontro– retruca Hatsumomo, aparecendo por ali. É um beijo de despedida.

De alguma forma Hatsumomo também sobreviveu, livre agora das impurezas do cavaleiro negro.

– “Você realmente desequilibrou este mundo, Raitun.”

– “E talvez não devesse, e talvez nem faça parte dele. Aprendi muito aqui, mas sabemos que eu tenho que voltar.”

– “O tempo e a distância irão nos separar. Agora que não preciso mais me preocupar com você, a quem vou ensinar?”

– “Você saberá a quem ensinar. Até sempre, meu amor. Mantenha a nossa promessa.”

– “Até sempre, meu anjo.”

Lilith pendura um cordão em Raitun e eles se beijam uma vez mais, ao passo que o corpo do aprendiz começa a se desfazer lentamente. Desfaz-se o corpo de um aprendiz, até o ponto de parecer nunca ter estado ali. Em troca do cordão ficam lembranças, lágrimas, laços e um livro deixado nas mãos de Lilith. Em sua capa havia um olho prateado de uma raposa e o nome “Memórias de um aprendiz”.

– O tempo e a distância irão separá-los, no fim restarão apenas os laços. – diz Alexis. Lilith volta ao chão com o livro em mãos.

O aprendiz ainda escuta algumas coisas: lembra-se de ter ouvido Louise tomar a palavra.

– Continue evoluindo garoto. No reino de Montris, a história é feita por você.

– Mantenha vivas essas memórias, meu anjo.

Memórias, apenas alguma destas foram as contadas. Memórias de um aprendiz de artes da viajosidade. E a tal viajosidade até agora não explicada, o que é? Informação confidencial que eu poderia contar (pra torna-la assim ainda mais confidencial). Seria talvez, tudo aquilo que eles viram até agora, tudo que você pensa em ver neste exato momento e tudo que ninguém sonha em acontecer daqui pra frente. É o inevitável que move tudo que nós contamos. E esta é uma estranha história, como deu pra perceber. E o garoto, sem saber se esta foi ilusão ou realidade retorna a sua humanidade com uma boa e longa, longa, muito longa história. Talvez não possa contá-la a muitos, como outras coisas. Como sempre, não liga também para estes fatos.”

– Uma longa história... Ainda inacabada – comenta a garota observando a fogueira.

– Pensas que ela está inacabada? Então como você acha que ela continua? – indaga o ancião, agora curioso para saber o que se passa na mente jovial daquela garota.

– Informação confidencial – diz a garota, enquanto sai andando pelo corredor de cerejeiras, pela chuva, pela estrada da vida.

Notas finais
E então, o que acharam dessa viagem toda? Espero que tenham gostado. Ainda tem um segundo pronto, mas queria antes a opinião de vocês. Eu deveria continuar postando nessa fic ou fechá-la e abrir outra? Alguém que ler até aqui, me tire essa dúvida cruel, por favor, rsrs. E obrigado a todos que leram, comentando ou não. Agradeço. Espero que tenham se divertido, e que continuem acompanhando, porque ainda tem muita história pra ser contada. Até sempre!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.