Memórias de Héctor
2 Segunda lembrança
Notas iniciais
Ele se lembrava de quando a vira pela primeira vez.
Era uma manhã clara na praça de Santa Cecília, a praça do Mariachi. Ainda que cedo, o clima estava agradavelmente quente e fresco, havia uma leve brisa que arejava o calor enquanto várias vozes dos vendedores ecoavam anunciando seus produtos.
Um jovem andava com seu violão em diração ao coreto que se localizava no centro da praça. Posicionou-se bem em frente, colocou um chapéu de palha no chão, apoiou seu pé direito em um banquinho, o violão em sua coxa, passou os dedos pelas cordas e começou a cantar.
“Eu nunca esqueci Juanita
Um olho azul e um verde...”
A medida que cantava, as pessoas depositavam algumas moedas em seu chapéu, sua voz era jovem e doce. Cantar para ele era um enorme prazer e percebeu que com isso poderia ganhar alguns trocados se o fizesse publicamente. Adorava cantar canções populares, arranhava algumas composições porém nunca cantou para ninguém antes de começar a cantar na praça. Toda música que cantava tentava colocar seu coração ali, amava música e ela era sua língua, sua forma de demonstrar o que ia dentro de si. E assim permanecia a maior parte das manhãs na praça até por volta do meio-dia quando voltava para casa onde morava com seu pai e irmão. Era uma rotina bem específica sem muitas surpresas, ao menos até ali.
Dada a hora, o sol estava mais quente, ele sentiu um pouco de fome, recolheu suas coisas, guardou o violão, o chapéu e as moedas que ganhara, a feria do dia havia sido boa. Guardou-as na calça e foi caminhando distraído em seus pensamentos. Até que algo o tirou da distração, sentiu um cheiro temperado e delicioso, aquele aroma meio como que despertou seu estômago mais ainda, sentiu ele totalmente vazio dessa vez. Guiado pelo nariz avistou a alguns metros a frente de onde estava, uma barraquinha. Apesar de bem vazia, pôde notar que havia uma variedade de tacos, com vários recheios. Ele aproximou-se, porém não avistou o vendedor, olhou para os lados e coçou a cabeça, teve a ideia de pegar um taco e deixar as moedas do pagamento no lugar, porém mal tocou em um taco e sentou algo acertando-o no braço.
— O que está fazendo?! Tentando roubar meus tacos?!
Mal Héctor percebeu e um vulto furioso do que parecia ser uma moça começou a golpeá-lo com o objeto que o acertara de início. E pelo visto era um sapato.
— Isso vai ensinar você a nunca mais pegar mais nada que não lhe pertence!
— Clama moça! Eu não ia roubar nada! – ele tentou segurar o braço da agressora porém com uma só mão era difícil e considerando que estava com o violão em outra mão, acabou se desequilibrando e caindo de costas, o violão foi igualmente ao chão bem ao seu lado. A moça vendo-o caído, permanecia com o sapato em punho bem a centímetros de seu nariz. “Se fosse uma espada eu já estaria morto”.
— Moça, calma, é tudo um mal entendido. – ele começou a falar, escolhendo bem as palavras para não começar a apanhar de novo – Eu queria um taco, mas não vi ninguém na barraca, ía deixar o dinheiro. – Ele pegou as moedas na calça e mostrou à moça, tentando não fazer movimentos bruscos.“Chica brava”, pensou ele.
A moça por sua vez, ainda estava com o sapato apontado para ele, mas havia desanuviado um pouco sua expressão e se afastava lentamente.
— Desculpe, eu pensei... vi errado. Eu preparo um taco agora mesmo.
Apesar dele ainda estar com os olhos arregalados, foi se levantando devagar, apanhou o violão do chão e observou a moça melhor, já que ela sequer tinha dado tempo para isso. Ela usava uma saia rosa com detalhes em amarelo na barra, sua blusa era branca com um decote que ia de ombro a ombro, com babados floridos. Seus cabelos eram negros e estavam presos com um prendedor atrás, os olhos eram castanhos escuros como uma noite serena.
— Aqui está. Tome mais um por conta da casa e como desculpas pelo mal entendido. – ele pôde finalmente olhar melhor nos olhos dela. Havia algo de terno e ao mesmo tempo feroz, por alguma razão sentiu algo engraçado no estômago e nada tinha a ver com fome. Assim que ela lhe entregou os tacos, ia se virando para recolher algumas coisas na barraca.
— Eu sou Héctor! – disse ele de repente. Estava com um sorriso meio bobo, talvez tenha surgido naturalmente
— Amélia.
***
A partir desse dia, Héctor sempre comprava tacos na barraca de Amélia. Não conseguia entender como nunca tinha notado que ela estava ali. Todos os dias, cantava na praça e perto do meio dia, até mesmo antes ele dava sua parada costumeira na barraca de Amélia. Por vezes nem estava com tanta fome assim. Só queria vê-la e ouvir sua voz, sentia-se estranho com isso, muito tolo até, especialmente quando permanecia olhando para seus lábios e para seu rosto, o amendoado de seus olhos, sua tez morena e como seus cabelos se esvoaçavam quando o vento soprava. Héctor já não conseguia mais negar que algo diferente ocorria dentro dele quando olhava Amélia. Certa vez, ao pegar um taco, seus dedos tocaram nos dela, Héctor sentiu suas bochechas corarem tanto e seus dedos tremerem que quase derrubou o salgado no chão. Amélia por sua vez o olhou bem atentamente e logo baixou o olhar dando a entender que percebera mas que ficara sem jeito também.
Essa rotina de comprar tacos perdurou por algumas semanas, Héctor estava se sentindo perdido, sem saber o que fazer a partir dali, sem saber como lidar com o que estava sentindo, como se lida com algo que nem você mesmo entende bem o que é? Seria isso o que os casais que ele via na praça do Mariachi sentiam? Nunca compreendera muito bem, não era tão inocente a ponto de não saber que quase sempre culminava em um casamento, mas percebia que se sentiam felizes e que aquilo devia ser bom, só que nunca se sentira compelido a experimentar com ninguém. Até agora. Tinha alguns pensamentos e impulsos com relação a Amélia. Ainda que sua voz engasgasse toda vez que chegava perto dela, pensava em como seria abraça-la forte, tocar seus cabelos e quem sabe talvez sentir seus lábios. Santo Dios! O que estava acontecendo com ele? Não se lembrava de ter sentido isso por ninguém.
— Eu acho que você devia fazer algo. É melhor que ficar adiando, se sente algo por essa chica, devia abrir a boca e falar. Senão vai acabar gordo de tanto comer tacos.
— Não sou como você, Ernesto. Não tenho sua ousadia nem seu jeito com as mulheres, e depois, essa é diferente. Se eu der um passo em falso, acabo com uns galos na cabeça.
— Então, acho que podia tentar o tradicional. Nunca falha.
Héctor ficou bem pensativo com o que seu amigo Ernesto dissera. No fundo se envergonhava de ser tão tímido, mas também se inquietava pois sabia que precisaria tomar uma atitude cedo ou tarde. E era fato que não poderia comprar tacos a vida toda só para passar alguns momentos com Amélia, precisava de um pouco de iniciativa e coragem. Para sua sorte, a oportunidade não demorou a chegar.
Um dia, decidido a falar o que sentia, repetiu sua rotina porém não era Amélia que estava lá, porém dois rapazes. Eram praticamente iguais, altos e magros, contudo ao observar com um pouco mais de atenção conseguia-se perceber diferenças sutis em seus rostos.
— Onde está a senhorita Amélia?
— Nossa irmã? – respondeu um rapaz.
— Ela precisou ficar em casa ajudando nossa mãe. Nosso pai ficou um pouco adoentado e por isso viemos no lugar dela vender. Eu sou Oscar e esse é meu irmão Filipe. E você não é o mariachi que toca todos os dias e compra tacos com Amélia?
Héctor respirou fundo e prendeu o ar, era óbvio que já não era segredo que todos os dias arrumava aquele pretexto para ver Amélia.
— Será que eu poderia talvez visitar a srta. Amélia? Digo, ver se ela está bem mesmo com o pai de vocês enfermo?
Oscar e Filipe se entreolharam. Por um instante desconfiaram de Héctor mas notaram que ele apertava as mãos em um claro sinal de nervosismo. Com um sorriso mútuo assentiram e Héctor respirou aliviado. Adiantou-se pegando um cesto para demonstrar que queria ajudar os dois irmãos, numa tentativa de se mostrar gentil e solícito, porém não teve muita certeza se funcionou para não perceberem que estava ansioso para ver Amélia.
Não demorou muito até chegarem a casa deles. Héctor viu que havia um grande portão de ferro com grosso trinco. Ao entrar um largo pátio com algumas plantas enfeitavam os cantos e perto da porta de entrada um pequeno altar com a imagem da Virgem de Guadalupe.
— Oscar, Filipe, já chegaram? – Héctor viu uma senhora de cabelos acinzentados se aproximar, supôs ser a mãe dos rapazes e de Amélia. – Quem é esse?
— Mamá Matilde, ele é um freguês da barraca de tacos, um mariachi...
— Hola senhora...
— Foi muito gentil em vir aqui e ajudar meus filhos. Acho que já ouvi falar de você...
— Mamá! – Héctor viu Amélia correndo na direção de D. Matilde e ao vê-lo fez uma expressão de surpresa. – Sr. Héctor
— Eu... vim ver como a srta está, soube que seu pai está doente e... e... pensei em vir para ver se estava tudo bem. – Ele tremia dos pés a cabeça, por um instante se arrependeu de ter ido lá e parecer tão tolo.
— É um rapaz gentil. Amélia, mi hija, convide o moço para o almoço. – disse Matilde se virando para entrar em casa, sendo seguida por Oscar e Filipe, deixando Amélia e Héctor sozinhos.
Os dois olharam-se com certa reserva. Amélia por um instante não sabia bem o que dizer, nunca esperava que aquele mariachi fosse a sua casa dessa forma, percebia que Héctor se sentia da mesma maneira, com a diferença que havia um tom avermelhado bem aparente nas bochechas dele.
— Que milagre você por aqui – Amélia precisava quebrar aquele silêncio de alguma forma, mesmo que com uma frase bem tola.
— Eu vim lhe trazer minha humilde presença.
— Muito obrigada – ela sorriu – Não gostaria de entrar e tomar uma limonada? Almoçar conosco?
— Não seria muito incômodo?
— De maneira nenhuma, pode entrar.
— Depois da senhorita...
De início, Héctor ficou encabulado de sentar-se a mesa, era como se estivesse sendo inconveniente e intrometido, porém se mostraram gentis e hospitaleiros com ele. Amélia guardou seu violão e lhe indicou um lugar. Não falou muito de início, limitava-se a sorrir, agradecer pelas comidas que lhe eram oferecidas e que por sinal estavam deliciosas. Aquela família era de fato muito unida e alegre, arriscou conversar decorridos alguns minutos e acabou conhecendo melhor a todos. Sentiu-se a vontade para ir embora somente ao entardecer. Amélia levou-o até o portão.
— Eu não queria abusar da gentileza, srta Amélia.
— Gostaram de você Héctor, agradeço por se importar em vir aqui e saber de meu pai e... de mim.
— Srta... Amélia, eu...
— O que? – ela pôde ver nos olhos de Héctor que ele estava ansioso por algo, talvez ela também estivesse, porém precisava de algum sinal mais explícito.
— Eu... queria dizer que... não me atrevo...
— Pois atreva-se!
Héctor soltou o violão no chão e deu dois passos para mais perto de Amélia, esticou sua mão e tomou a dela entre as suas dando um suave beijo. Seu coração parecia saltar dentro do peito, ele fechou os olhos, talvez estivesse com medo de que ela pudesse se lançar sobre ele com um sapato como fizera na barraca de tacos, contudo ao levantar seu olhar, viu Amélia olhando-o emocionada, dando um sorriso feliz. Ela num impulso puxou-o para perto em um caloroso abraço. Héctor parou de respirar sentindo o corpo quente de Amélia junto ao seu, o almoço que tinha ingerido parecia ter sido sugado em um vácuo em sua barriga. Ela tinha cheiro de jasmim, fechou os olhos e apertou-a de encontro ao seu peito um pouco mais sentindo seu coração descompassado bater junto com o dela. Permaneceram assim até que se soltaram e olharam-se.
— Eu preciso entrar...- ela começou — Tenho que ajudar mamá com algumas coisas. Foi muito bom ter vindo Héctor.
— Amélia...
— Adiós Héctor – ela foi se soltando lentamente do abraço dele, soltando por último sua mão, entrando no portão e fechando-o atrás de si.
Héctor permaneceu ali, ainda extasiado pelo abraço que deram. Se tinha dúvidas, agora sabia que não conseguiria mais ver Amélia sem que pudesse estar com ela todos os dias, de todas as formas. Talvez seu amigo Ernesto tivesse razão, o tradicional nunca falhava e era com isso que ele colocaria pra fora tudo que seu coração queria.
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