Memórias carnavalescas
1 Memórias carnavalescas
Talvez aquele garoto fosse pequeno demais para entender o que estava acontecendo em sua casa. Mas, mesmo assim, seus olhos curiosos não se despregavam da cena que via.
A cozinha de sua casa transformara-se num salão de beleza enquanto o lavabo ali perto virara um vestiário.Seus vizinhos, garotos bem mais velhos, sorriam esperando sua vez de trocar de roupas e pintar a cara.Era carnaval e tudo que o menino sabia é que o tal carnaval era uma grande festa.Devia ser mesmo, pensava, para que seus vizinhos –aqueles mesmos que jogavam bola de pés descalços- estivessem usando vestidos e maquiagem. Arrumados como só via sua mãe arrumar-se para alguma ocasião muito especial.Não era a primeira vez que aquilo acontecia em sua casa. Todo o carnaval ela enchia-se de gente, mas sua avó sempre o pegava pela mão e fazia ficar no quarto até todos irem embora. Aquilo não era coisa para criança ver, ela dizia. Mas esse ano a vovô não estava ali para tapar seus olhos e leva-lo para o quarto. Vovô estava no céu.Pensava que era bom a vovô ter ido para o céu. Só assim podia ver algo tão grandioso.Cada um que sentava, já de vestido, na cadeira para que sua mãe o maquiasse saía transformado.Aqueles pozinhos coloridos que sua mamãe passava no rosto daqueles garotos fazia com que se tornassem meninas. Como algum pó mágico daqueles que as fadas madrinhas usam nos contos de fadas.Foi chegando perto, olhando a maneira que ela aplicava os pozinhos com pincéis. Tão delicadamente, cobrindo aos poucos o rosto de quem estivesse na cadeira.Eles pareciam tão felizes ao se olharem no espelho. Falavam fino, davam risadas.Não conseguia não rir com eles, mesmo sem entender o motivo. Não conseguia não dançar com eles ao som da música alta que vinha da rua.Sua mãe parecia ter dado o trabalho por terminado, olhando sorrindo para aqueles meninos que agora eram meninas. Não era sempre que via a mamãe sorrindo assim, principalmente depois que o papai fora embora. Será que ele também estava no céu?Ela o pegou no colo, contente, dizendo para se despedir “das meninas”.Deu um aceno tímido que foi retribuído com acenos e beijos jogados ao ar enquanto sua mãe o levava para o quarto.Titia iria ficar ali aquela noite por que a mamãe iria sair. Devia comportar-se direitinho e não contar para ela sobre o que vira ali, ou a mamãe iria ganhar bronca.Achou graça, não sabia que as mães também ganhavam bronca. Prometeu se comportar e ganhou um beijo na ponta do nariz acenando para a mamãe, vendo ela ir embora.Naquela noite, ajoelhado aos pés da cama, rezando como sua tia o mandara fazer, resolveu fazer um pedido diferente ao papai do céu.Queria ser um menino grande no próximo ano e também poder participar daquela festa. Uma festa onde os meninos podiam virar meninas. Tendo seu rosto coberto de pó mágico e saindo pelas ruas com um vestido vermelho e bonito.Amém.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
Fale com o autor