Memórias Póstumas de Conde Drácula
1 Do Nascimento à Morte do Autor
Por anos a fio hesitei em registrar minhas memórias, temeroso de que tais registros caíssem nas mãos de meus adversários, mas neste alvorecer dos novos tempos, senti-me impelido, forçado, obrigado a deixar minhas crônicas de saudade escritas no papel. A eternidade vem sempre acompanhada de um marasmo sem igual, de tal modo que posso me dedicar inteiramente a estes rascunhos. Seria vadiagem? Quem sabe, mas tenho em meu curriculum vitae, ou talvez deva dizer, curriculum mortis, um histórico sem paralelo de ofensas a Deus e atentados contra a humanidade, o que me dá certa tranqüilidade de consciência para minha empreitada.
Isto posto, comecemos a narrativa, por onde eu acho mais apropriado, evidentemente. A minha história tem início no século XI de nossa era, em uma época na qual as monarquias eram fracas e senhores feudais lutavam pelo poder. A igreja, desejosa de se livrar da violência no continente europeu e ao mesmo tempo, interessada em pilhar o Oriente, convocou as Cruzadas. Foi nesta época em que nasci pela primeira vez, com o nome de Mathias Cronqvist, um jovem nobre europeu. Em um mundo de iletrados, tive o privilégio de receber uma educação esmerada, e minha família apresentou-me os segredos arcanos da alquimia, tornei-me assim uma exceção naquela Europa de ignorantes controlados pelo papa.
“Mathias! Mathias! Venha aqui! Tem alguém que eu quero que você conheça!” – lembro-me da voz enérgica de Leon Belmont, meu, há muito finado, amigo no suntuoso baile do clã Belmont, que comemorava as núpcias do nobre com uma jovem também de alta estirpe, Sara Trantoul.
Éramos dois jovens audaciosos e, posso dizer sem qualquer modéstia, belos. Fazíamos sucesso entre as damas e serviçais, que viviam nos sorrindo em meio a suas tagarelices. Agora, voltemos ao baile, sim? Naquela noite, o empolgado Leon me apresentou àquela que viria a ser minha noiva, Elizabetha. Naquela noite, ela estava, assim como eu, na flor da idade. Loura, esbelta, de pele clara e modos delicados, vale registrar, porém, que o mais chamativo nela era os olhos, duas orbes azuis que acalmavam minha alma toda vez que os fitava. Perto daquela jovem, eu me sentia em paz, sim, em paz, essa é a melhor forma de descrever.
O tempo passou, Elizabetha e eu nos casamos, realizei um baile tão pomposo quanto o de meu amigo Leon, e pouco tempo depois, parti rumo ao Oriente ao lado deste, em uma expedição de cavaleiros que iria pelejar contra os mouros na Terra Santa. Era o começo de uma longa e bem sucedida campanha, que golpeou duramente os islâmicos e garantiu várias bases de operação aos cruzados. Leon era imbatível no combate, sua espada partia as leves armaduras de nossos oponentes com facilidade, e seu escudo bloqueava dezenas de setas inimigas. Eu, bom, posso afirmar com segurança que fui o melhor estrategista do século.
“Haha! Hoje eu derrubei pelo menos uma dúzia de bravos inimigos!” – exclamou Leon diante da fogueira que fizemos no centro de nosso acampamento ao cair da noite. Os desertos da Terra Santa eram cruéis, as temperaturas diurnas eram absurdamente altas, e as noturnas, absurdamente baixas.
“E suponho que tenha bebido mais de uma dúzia de garrafas de vinho para exagerar tanto!” – retrucou outro cavaleiro, que tentava dormir.
Eu e Leon rimos sonoramente, incomodando ainda mais nosso pobre companheiro, que, frustrado, levantou-se e foi dormir em um ponto mais afastado. O frio me incomodava muito, apesar de meu pesado casaco, bebi mais algumas goladas de vinho no intuito de aquecer-me, mal sabia eu que aquela era a última vez que tomaria do fruto da videira como humano. A lua cheia deixava a noite clara, e foi possível avistar ao longe um cavaleiro, que vinha rapidamente em nossa direção. A cena que descrevo agora, me lembro claramente, os séculos falharam em apagá-la de minha memória. A primeira reação que tive foi levar a mão ao cabo de minha espada, sendo acompanhado por Leon, mas logo relaxamos ao ver que era um dos nossos, ou melhor dizendo, um dos meus.
“Lorde Mathias!” – balbuciou o cavaleiro, atirando-se ao chão e causando espanto a mim e aos outros. Tratei logo de me agachar para falar com o homem, o coitado parecia em choque.
“Diga homem! O quê aconteceu?!” – perguntei, ligeiramente apreensivo.
O pobre mensageiro tomou fôlego antes de falar, suava muito, estava pálido. Era evidente que não trazia boas mensagens, e temi pelas outras companhias de cavaleiros, pelas cidades cristãs no Oriente, e por fim, temi por Elizabetha. Leon estava ao meu lado, depositou sua mão coberta pela armadura em meu ombro, como se estivesse me dando apoio para o quer que saísse da boca do cavaleiro. Agradeci a Deus por ter amigos como Leon, e claro, sua noiva Sara, que se tornou a melhor amiga de Elizabetha. As duas, aliás, moravam juntas no castelo de meu falecido pai em nossa ausência.
“Senhor, a senhorita Elizabetha veio a falecer, vítima de uma enfermidade.” – o homem disse com dificuldades.
Naquele momento, com aquelas palavras, Deus morria dentro de mim. Até aquele dia eu lutara em nome Dele, e para quê? Sequer tive o direito de me despedir de minha amada. Lentamente, as lágrimas desceram pelo meu rosto, como se fossem navalhas em minha pele, tal era a minha dor. Levantei-me sem dizer uma única palavra, montei meu cavalo e parti, deixando para trás Leon, o mensageiro e todos os outros cavaleiros. Iria voltar para as minhas terras sem delongas. Para ser honesto, os dias de viagem são envoltos em alucinações e névoa em minha mente, assim sendo, deles, lembro-me apenas que a noite caía quando cheguei ao castelo de minha família. Sara aguardava-me, assim como meus criados, que graças à alquimia de meus ancestrais, preservaram o corpo de Elizabetha.
O corpo, coberto por flores brancas, estava em um caixão de madeira negra na capela do castelo, as mãos frias segurando um terço de cristal, que nos fora dado como presente de casamento por Sara. Toquei-lhe o rosto alvo com minhas mãos, e beijei-lhe os lábios pela última vez, derramando mais lágrimas em seguida. Éramos tão jovens! Elizabetha e eu sequer havíamos experimentado a graça de ter filhos. Quando me lembro disso, minha alma se rebela ainda mais contra Deus, onde estava Sua justiça? Por que Elizabetha e não Sara? Por que eu deveria sofrer com a perda de minha amada, e não Leon? Estas perguntas lentamente se aninharam em minha mente, como aves de rapina, e devoraram minhas forças pelos dias subseqüentes. Durante o enterro, jurei que jamais tornaria a servir a igreja, a Deus, e que encontraria uma forma de vingança contra Seus desígnios.
E foi, como todos os leitores desta história bem sabem, o que fiz. Descobri um modo de tornar-me imortal, e mais, poderoso o suficiente para afrontar a natureza divina. Para atingir tal objetivo, criei um sofisticado jogo de xadrez, no qual Leon, Sara, o alquimista Rinaldo, o lorde vampiro Walter e seu servo rebelde Joachim eram as peças. Com maestria, tomei posse da Ebony Stone, que junto à minha Crimson Stone e à alma de Walter, me garantiram a eternidade. Derrubei todas as peças no decorrer das jogadas, exceto uma, Leon Belmont, que coincidentemente era o último fio a me ligar à humanidade, a última aresta a ser aparada.
“Excelente, eu nunca tive uma noite melhor...” – lembro-me que estas foram as primeiras palavras que proferi após abandonar a humanidade, na torre do castelo de Walter.
Leon, claro, não podia acreditar no que ocorrera, eu, seu melhor amigo, fizera dele um títere em meu grandioso estratagema. Senti nele um misto de confusão e ira, que crescia a cada segundo que ele utilizava para contemplar minha nova existência. O Belmont ainda era meu antigo companheiro, perdera sua amada, assim como eu. Não nego que à época, senti pena e remorso de ter levado Sara à morte, mas era por uma causa justa. Se morte era um desígnio de Deus, eu iria desfiá-lo com a minha eternidade recém-conquistada.
“Junte-se a mim, Leon, eu posso dar a vida eterna a você.” – ofereci a ele a chance de juntar-se a mim, de evitar todos os séculos de batalhas que iriam vir depois deste encontro.
“Seu tolo miserável.” – meu amigo respondera, sem hesitar – “É isso que a mulher que você amou teria desejado? O Mathias que conheci não amaria tal mulher!” – continuou.
“Elizabeth era uma mulher doce e honrada, só se preocupava comigo, até no final. É por isso que eu O odeio! Estou errado? Você também não derrotou Walter com ódio em seu coração?” – inquiri, sem grandes dificuldades, Leon, afinal, vingara-se de Walter da mesma maneira que eu buscava vingar-me de Deus. Belmont e Drácula eram, no final das contas, a mesma coisa: frutos do descaso divino para com a humanidade.
“Sim, eu estaria mentindo se dissesse outra coisa, mas derrotá-lo, não, prevenir outros de sofrerem o mesmo destino amaldiçoado, este foi o último desejo de Sara. Assegurá-lo era tudo que podia fazer para provar meu amor a ela. Eternidade sem ela seria o mesmo que o vazio” – Leon replicou, pondo um fim à minha tentativa de levá-lo comigo.
“Eu pensei que você entenderia....O amanhecer está chegando. Adeus Leon.” – despedi-me de meu velho amigo, antes de dar-lhe as costas.
“Morte, ele é todo seu.” – proferi estas palavras com relativa facilidade, Leon havia feito sua escolha, precisava agora arcar com as conseqüências.
Precisava escapar daquele lugar, assumi pela primeira vez minha forma de morcego e confesso que estranhei a ausência de meus braços e pernas habituais, e voei torto no começo, mas acho que ninguém reparou. Leon estava centrado em combater Morte, e acabou triunfando, seu recado por fim chegou a meus ouvidos quando ressuscitei minha nova aliada. “Eu e meus descendentes vamos caçar você e a Noite!” – estas palavras de certa forma marcaram minha alma, e depois de ouvi-las, fugi para as terras do leste da Europa, imersas no caos.
No Leste da Europa, me fixei na Valáquia, uma terra de ninguém, e me proclamei Senhor dos Vampiros, Príncipe da Noite. Os habitantes da região passaram a me chamar de Drácula, filho do demônio no idioma local, um apelido propício, sem sombra de dúvidas, e que adotei como nome pelos séculos seguintes. Abandonar meu nome de batismo era, também, um modo de rebelar-me contra Deus, um modo de nascer novamente, nas Trevas.
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