Memórias Profundas

1 Bitter Sweet Symphony Parte 1


Notas iniciais
Essa é a parte 1 de 2 dessa história. Uma história curta que se baseia em uma música da banda The Verve. Espero que apreciem!

"No change, I can change, I can change, I can change

But I'm here in my mold, I am here in my mold

But I'm a million different people from one day to the next

I can't change my mold, no, no, no, no, no

(Have you ever been down?)"

Eu ainda conseguia me lembrar de quando essa música ainda fazia sentido. Me recordo perfeitamente do momento no qual ela já foi importante. Na verdade de certa forma, ela ainda é importante, porém não de uma maneira positiva. Todos nós temos na playlist da vida, que tem aquela música proibida. Sabe, aquela música que de certa forma acaba com você por inteiro. Que te faz lembrar lugares, cheiros e até beijos. Sim. De fato, era exatamente isso que eu sentia quando de forma irônica o The Verve apareceria na minha vida.

A vida amorosa de certa forma, pode ser comparada a um clipe da Lana Del Rey, mais específicamente do álbum Ultraviolence. Aquele looping frequente que te faz lembrar todos os dias que o amor é cruel e maldoso. E que são raras as oportunidades que ele demostra ser algo maravilhoso como nos filmes da Katherine Heigl. Mesmo que seja algo do momento.

Quanta melancolia. Quanta tristeza. Bom, devo atribuir a culpa pela bela e grossa voz masculina que acabou de cantar essa música. A música não se encaixa em nada do lugar no qual estou. Vejo garrafas de cerveja por toda a parte, indo e vindo nas mãos dos garçons e garçonetes do estabelecimento. A decoração me fazia sentir como se estivesse num clipe da Meghan Trainor. Para dar um clima de Karaoke ou algo do tipo, varias luzes coloridas estão espalhadas pelo bar, principalmente no palco agora vazio, esperando pelo próximo cantor amador. Um lugar nada adequado para questionamentos sobre amor e de como ele é cruel. Mas a música causa esse poder em nós. Uma poesia musical que dura muitas vezes entre três a quatro minutos, te eleva a um nível máximo de questionamentos e memórias profundas. Mágico e ao mesmo tempo perigoso.

Era como se eu estivesse ouvindo aquela voz novamente. Dizendo isso e aquilo. Coisas que eu jamais deveria dar atenção.

Se você pudesse escolher um super poder, qual escolheria?

— Bom, seria difícil escolher um só. Ficaria entre ler a mente das pessoas e poder de controlar o tempo.

— Ler a mente das pessoas? — Ele diz meio que chocado — Isso na minha opinião seria invadir a privacidade alheia.

— Nem tanto, porque se alguém estivesse me enganando eu iria saber, e não iria perder meu tempo sendo amigo daquela pessoa. Seria mais uma proteção.

— Nesse ângulo faz sentido, mas mesmo assim não concordo.

De repente surge aquele silêncio constrangedor. Em últimas semanas isso tem acontecido de forma recorrente. O que não era nada bom. Costumávamos ter muito assunto. De ficar horas e horas no telefone. De quando nos víamos ficarmos horas sentado na pista de Skate da nossa cidade falando dos mais aleatórios assuntos.

Esse silêncio que estava acontecendo entre nós era muito fora do normal.

— E você? — Pergunto para quebrar o silêncio constrangedor — Que poder você teria?

— Definitivamente seria um metamorfo! — Diz ele com um olhar sonhador

— Nossa, a todo tempo ser alguém que você não é. Não me parece muito chamativo — Digo com certo deboche

— Você está olhando apenas para uma árvore, e não para a floresta inteira. Imagine poder virar uma águia. Poder virar um golfinho ou simplesmente virar uma luz. E sair por aí. Seria fantástico.

— Não acredito que você fez referência a Naruto comigo — Digo a meio de risos

— Sabia que ia sacar a referência. Eu conheço você melhor do que ninguém.

Não conseguia disfarçar o sorrisos bobo que se formou no meu rosto. Todos os dias eu confirmava que jamais conseguiria amar alguém, como eu amava esse garoto. Ele seria aquele tipo de pessoa que amamos apenas uma vez na vida, e que nunca ou bem raramente se repete outra vez.

— Você tinha dito que também queria poder controlar o tempo — Diz ele quebrando meus pensamentos — Em que sentindo? Você diz, tipo, a Tempestade dos X-Men?

— Não — Dou uma leve risada — Seria mais, poder de controlar o espaço temporal sabe. Poder fazer algo ir mais rápido, ou ficar mais lento. Congelar o tempo ao redor sabe. Deu pra entender mais ou menos?

— Meio confuso, mas acho que captei a essência.

Silêncio novamente. Pelos deuses, por quê?

— Que momento da sua vida você congelaria?

O jeito que ele joga aquela pergunta no ar. Faz na verdade meu corpo ficar congelado. Mas, eu sabia qual resposta dar a ele:

Quando estou com você.

Afogado nos questionamentos e memórias profundas, escuto longe a voz do meu amigo, querendo sem saber, me tirar daquele transe:

— Você quer alguma coisa? Uma cerveja, uma batata frita? Você não comeu nada e nem bebeu desde que chegamos!

— Eu estou tranquilo Nando, sem fome. Mas a cerveja eu aceito sim.

Pego a garrafa verde e gelada de Heineken (minha favorita por sinal) mais com o intuito de agradar meu amigo. Ele não sabe que existiu "um Garoto" na minha vida. Na verdade ninguém sabe. O que tornava tudo pior. Não tinha ninguém no qual eu pudesse descarregar tudo que eu sentia.

— Você está se divertindo Yuri? Parece até que você está num show onde toca apenas aquelas suas músicas depressivas...

Não considerava a risada dele como um deboche em não entender os conceitos das músicas que eu gostava. Porém ao mesmo tempo fiquei um pouco aborrecido. Mas, como sempre, disfarcei.

— Claro que estou, só preciso entrar no clima.

— Toma a cerveja então — Diz Nando — Ela sem dúvida vai ajudar. E não só uma. Bom, eu sou o próximo a cantar. Vou me preparar.

— Vai cantar o quê? — Essa minha pergunta foi com puro deboche, pois sabia que Nando era um péssimo cantor

— Thriller, óbvio.

— Meu Deus, Michael Jackson vai chorar, onde é que ele esteja.

Ele ele sai da nossa conversa assim que os primeiros segundos da música ecooam por todo o lugar.

Enquanto o Nando começava a cantar os primeiros versos da música, senti minha mente virar de cabeça pra baixo. Poderia ser o efeito da cerveja que eu tomei rápido demais. Mas não era mais o Nando que eu estava vendo. Não era mais o Nando que é alto, de pele negra e olhos cor de folhas secas com um corpo de um pugilista jovem. Mas estava vendo o Garoto de pela branca e pálida, olhos castanho escuros e magro. Com aquele óculos retangular preto.

Eu estava vendo Ele.

Estava vendo o Garoto.

Aquele Garoto.

O meu Garoto.