No dia seguinte, após a vistoria dos quartos, segui em um passeio furtivo com Henry pela praia. Caminhamos alguns minutos até alcançarmos uma distancia grande o suficiente para não sermos vistos facilmente dos campos de morango. Encontrando uma pedra branca, deixei meu passo cair sobre ela e fechei os olhos enquanto ouvia o leve ressonar do vento.

– Você deveria falar com os instrutores ou com Quíron, se arrumar algo para fazer pode parar de ficar atoa o dia inteiro. — disse Henry de forma divertida.

– Não fico o dia inteiro atoa, tenho aula de grego antigo e ajudo nos morangos.

– Tem razão... Belo exercício. — disse enquanto riamos.

Ficamos em silêncio por alguns momentos. Dava para ouvir os gritos de campistas à distância e o relinchar conhecido de pégasos. O que deveria fazer para poder fazer parte daquilo?

– Por que não gostam de mim?- perguntei, desejando ter ficado em silêncio.

– Claro que gostam Vanessa, somos uma família.

– Sim, mas sou um membro excluído dela, pra variar.

– O que você disse?

– Que sou um membro excluído.

–Não, você disse “pra variar”, você se lembrou de alguma coisa?

Parei para pensar. Era verdade, eu tinha dito aquilo. Isto talvez significasse que eu se lembrava de algo, não?

– Sim... — deixei as palavras saírem novamente. — sempre achei exclusão o fato de nunca ter visto meu pai.

Não sabia ao certo como sabia DAQUILO, mas parece que Henry não se surpreendeu.

Ficamos parados, um encarando o outro por segundos, quem sabe até mesmo minutos, talvez ele me olhasse para saber se estava brincando, ou talvez pelo mesmo motivo pelo qual eu o encarava, tentando descobrir o que eu pensava. A leve brisa bagunçava seu cabelo claro, o sol estava mais alto.

– Você se lembra de que nunca viu seu pai. – disse finalmente. Fiquei esperando um grito de frustração, algo como “Porque não me disse antes?”, mas então ele sorriu. — Isto é um ótimo sinal, vai ajudar a descobrir mais coisas sobre você e seu pai.

Uma pequena chama de esperança começou a se reacender novamente depois de dias, mas não queria me decepcionar ainda mais com o fato de não saber nada de mim ou de meus pais.

– E se não ajudar?

– Vai ficar tudo bem. — me garantiu. — Falarei com Quíron, tenho certeza de que mudar alguma coisa.

– Me deixar fazer alguma coisa conta como ajuda?

– Farei com que conte. — disse exibindo seu sorriso torto.

Caímos na gargalhada, talvez por conta do nervosismo, talvez por conta da ansiedade, não sabíamos ao certo. Continuamos assim até que o sinal da concha soou à distância anunciando a troca de atividades. Paramos com a brincadeira e olhamos atentos para os campos de morango atrás de nós.

De repente, Henry se virou e me encarou. Por um instante sorrimos quando nossos rostos se encontraram, mas nos segundo seguinte nos afastamos. Sem desviar os olhos um do outro, percebi no mesmo instante, que nada mais parecia importar. Os sons à distância desapareciam ao longo dos segundos e as preocupações ficavam para depois. O encarava e recebia seu leve sorriso em troca, até que ele se levantou e me puxou junto pela mão.

– Falarei com ele e amanhã você estará praticando esgrima como os outros. — disse enquanto sorria e se voltava para os morangos. O segui e em instantes estávamos de volta ao nosso chalé nos preparando para o jantar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.