Memórias

1 Capítulo único, Amor e Saudade.


Estar dormindo ou estar acordada, isso não fazia mais diferença.

Enquanto estava acordada, seu peito estava ocupado demais sendo abafado pelas mãos cruéis do destino, da saudade. E enquanto repousava, sua mente ia em busca daquele que era o sol, o próprio sol, e se deixava levar por doces sonhos mas a hora de acordar era sempre a pior parte, ao qual seu corpo — sua mente — era arrancada, mais uma vez, de Apollon. E quando pensava que seu corpo não conseguiria mais aguentar tamanha dor e sofrimento, outro dia se passava.

Uma tortura atrás da outra, uma dor seguida de outra.

Eu acordei nesse sonho realista
Mas fui engolido pelo pesadelo que é a realidade.

Uma vida monótona com amor, mas sem aquele a quem amava. Uma vida dolorosa, mas recheada de boas memórias e de um amor tão intenso que os anos jamais aplacariam.

Quanto tempo havia se passado desde a ultima vez que havia visto Apollon, seu Deus solitário? Quantos dias, semanas, meses e anos já haviam se passado? Quantas vidas teria vivido nesse meio tempo?

E nesse tempo que havia passado, Apollon estaria ainda sozinho? Estaria tendo uma vida tão vazia e solitária? Estaria se sentindo descolado e sozinho, como era anteriormente? Mesmo que fosse um dos Deuses mais animados, sempre houve uma solidão dentro daquele ser que era o próprio sol. E sempre que pensava isso, algo lhe vinha a mente.

"Como é possível que no próprio Sol habite um pouco de escuridão?"

Se eu fechar meus olhos
Minhas memórias me levarão de volta àquele lugar

Em sua mente, em suas memórias mais bonitas, Apollon sempre estava sorrindo ou com uma expressão tão bonita, algo que fazia com que a dor em peito apertasse um pouco mais. Era bom lembrar, bom poder se lembrar do formato do rosto dele, de sua voz, de seu jeito. E no meio de suas lembranças, seu corpo era arrastado para os momentos felizes, os momentos que ficou ao lado de cada Deus, os momentos que, poderia dizer com toda a clareza, viveu mais do que merecia. E se era grata por algo, sempre seria grata por poder tê-los conhecidos e por poder se lembrar de cada detalhe, mesmo que alguns ainda fossem levemente distorcidos em sua memória mas ainda estavam lá, vividos e reais.

E embora fosse doloroso lembrar e que a saudade parecia lhe consumir a vida a cada novo dia, ainda era satisfatório possuir apenas memórias do que simplesmente não as ter. Era grata por as ter, por poder se lembrar de cada um, de cada aspecto que formava um Deus.

Essas memórias, elas estão me torturando
Não importa o quanto se repita
Eu continuarei entrando
Nos sonhos em que eu possa te ver

E embora sua vida dependesse de cada memória daquele tempo, viveria se recordando. E por mais que cada memória tivesse sua porcentagem de dor, se recusava a esquecer, se recusava a deixar os sentimentos irem embora.

E então, como era possível amar tanto alguém, um Deus, desse modo? Como era possível que um sentimento tão bonito, tão puro e tão cheio de sacrifício, pudesse perpetuar pelos anos?

E se pudesse saber de algo, apenas uma pequena coisa sobre um dos Deuses, a certeza era que perguntaria se Apollon finalmente conseguiu ser feliz, se a escuridão que havia dentro de sua alma havia sido extinguida pelo lindo Sol de seu próprio coração. Se o amor que ela sentia por ele, esse amor tão profundo e puro, sem egoísmo algum, conseguiu espantar as trevas que havia dentro daquele enorme Deus.

E ela rezava, todos os dias e todas as noites, para que Apollon fosse feliz onde quer que o destinho tenha o levado.

E assim, mais uma noite chegava, mais uma onda de sonhos que a machucavam e a confortavam, mais um porcento de saudade.

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