Memórias

3 Capitulo 3


– Aceita mais chá gelado, Molly querida?

Uma senhora de cabelos loiros e olhos iguais aos de Sherlock, apareceu com uma nova bandeja de chá gelado na varanda do jardim, onde as duas crianças estavam brincando animadamente com Barba Ruiva.

– Obrigada, Sra. Holmes! – agradeceu a menina retirando seu tapa-olho e indo em direção à mesa.

– Vou pegar os biscoitos! – falou a mãe de Sherlock, voltando para a cozinha.

– Você acha que Jim vem?! – perguntou a garota para Sherlock que se aproximava da mesa para se servir do chá que sua mãe trouxera.

Sherlock pensou.

– Não sei, talvez! Não está divertido só com a gente?

Molly negou e sorriu.

– Adoro ficar com você, Sherlock! – foi a resposta sincera da garota.

O garoto sorriu de volta, levemente enrubescido.

– Ah, o amor infantil! Não é mesmo uma gracinha?!

Molly e Sherlock olharam para a porta de entrada e viram Mycroft na soleira.

– Se meta com sua vida, Mycroft! – falou Sherlock totalmente sem graça, se afastando de Molly rapidamente.

Mycroft sorriu ao perceber que tinha conseguido atingir o ponto certo para provocar o irmão. Mas embora fosse divertido provocar o irmão caçula, Mycroft mostrou-se preocupado, pois seus olhos passaram a analisar cada centímetro do jardim.

– Sherlock, Tomás já chegou? – perguntou com o tom de voz mais sério dessa vez.

– Não o vi! – respondeu o garoto- Nunca o vejo pra ser sincero! Ele é mesmo da família?

Mycroft riu com a colocação do irmão. Não o riso de alguém que acha algo engraçado, mas de alguém que fica satisfeito pelo que ouviu. Sem dizer mais nada, Mycroft entrou na casa e deixou as duas crianças e o cachorro sozinhos.

– Molly, olhe! – Sherlock apontou para o portão por onde Mycroft acabara de sair e puderam ver James se aproximando, com sua aparência de menino selvagem usual.

– Jim! – exclamou a menina indo ao encontro do garoto.

– O que te fez mudar de ideia? – perguntou Sherlock indo ao encontro do amigo também.

– Bom, você disse que poderia ser divertido, então eu vim! — falou o garoto sorrindo para os dois amigos.

Então algo chamou a atenção do trio. Uma moto extremamente barulhenta vinha subindo a rua, e o motoqueiro parou bem em frente a porta da casa de Sherlock, aonde os três amigos se encontravam.

Antes que Sherlock pudesse apresentar o desconhecido, Mycroft reapareceu no jardim.

– Por Deus, Tomás! Será que você encontra dificuldade em arrumar essa moto? Já não basta usá-la?!

Tomás retirou o capacete e riu.

– Vamos Mycroft, deixa disso! Eu sou o mais velho, você deveria me respeitar, sabia?!

– Entre em casa, precisamos conversar! Agora!

E dizendo isso da forma mais enfática que Sherlock já ouvira, Mycroft adentrou novamente na casa. Tomás riu e só depois pode notar a presença do pequeno trio à sua frente.

– Sherlock! Não sabia que você tinha amigos! – disse o rapaz. – É bom pra você! Não deixe Mycroft te influenciar, ele acha que todos são estúpidos, menos ele!

E riu da própria piada, que só ele havia entendido.

– Mycroft tem quinze anos e já está na faculdade! – rebateu Sherlock – não deve ser tão estúpido assim!

Tomás sorriu sarcástico e acariciou a cabeça do caçula, atitude que o garoto detestava.

– Apenas não deixe que ele te influencie! E quem é esse ai?! – perguntou apontando para James com a cabeça.

– Meu amigo James, e essa é a irmã dele, Molly!

– Hum, você tem amigos de aspecto bem interessante! Certamente Mycroft não aprova!

Sem saber o motivo, o comentário de Tomás revirou o estomago de Sherlock, e ele sentiu uma raiva muito grande do irmão mais velho naquele momento.

Tomás pegou seu capacete e desceu da moto.

– Dexa eu conversar com o Sr. Certinho agora! Divirtam-se, crianças! – falou enquanto desaparecia pela porta de entrada.

– Tomás, por Deus! Aonde esteve?! – reconheceram a voz da Sra. Holmes gritando de dentro da casa.

– Tô bem, mãe! Tô bem! – ouviram a resposta, com a voz desaparecendo aos poucos.

– Vamos sair daqui! – pediu Sherlock aos dois amigos.

– O que houve? – perguntou Molly vendo que Sherlock não estava com uma expressão muito boa no rosto.

– Sempre que Tomás chega, tem briga na casa! – informou.

E chamando Barba Ruiva e pegando seus pertences, ele se dirigiu a tenda, com os dois amigos em seu encalço.

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– Você e Mycroft não sabiam sobre Tomás na época? – perguntou Molly enrolada nos braços do detetive, sentados no sofá.

– Eu tinha apenas oito anos, e embora já soubesse muita coisa desde aquela época, essa era uma das coisas que eu não sabia! – respondeu – Já Mycroft tenho certeza de que sabia! Apesar do Tomás ser três anos mais velho que ele, era Mycroft que cuidava da casa e de todos nós, por assim dizer! Não diga a ele que eu reconheço isso – concluiu em sussurro, arrancando uma risada de Molly.

– Mas se ele sabia, por que não fez nada? – perguntou novamente a legista.

– Acredito que por conta de nossa mãe! Mycroft sempre nos protegeu demais!

Molly concordou.

– Sei o que está pensando! – falou o detetive – Que se não fosse por Tomás, o destino de James teria sido diferente, e talvez ele não tivesse se tornado Moriarty!

– Não, não estou pensando nisso! Ao menos não dessa forma! Jim sempre teve essa pré disposição, e você sabe! – a cabeça de Molly pendeu para o ombro de Sherlock – Vocês dois sempre foram muito parecidos, mas existiam diferenças, e diferenças cruciais!

– Que quer dizer? – perguntou o outro, agora realmente sem conseguir ler o que Molly estava pensando.

– Você conviveu com seu irmão por muito mais tempo do que Jim, e nem por isso pendeu para o lado dele! – explicou a garota – Não foi seu irmão o responsável, foi o pai de Jim, tenho certeza!

Sherlock beijou a cabeça de Molly e a afagou. Sabia o que essa confissão significava pra Molly.

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– Sua mãe não vai vir de novo! – disse o homem robusto de cara vermelha para as duas crianças sentadas na mesa de jantar – De novo! Ela nunca fica em casa!

Pelo tom de voz, ele estava extremamente irritado com a situação.

– Aquela vaca! Me deixa sozinho com duas crianças inúteis pra cuidar!

James notou o rosto de Molly ficando vermelho de raiva, parecia que a menina ia explodir a qualquer momento.

– Essa casa imunda! Nem pra cuidar da casa! Aquela cachorra vai ter o que merece assim que chegar!

– Cala a boca! – gritou Molly – Minha mãe não tem tempo de cuidar da casa por que trabalha pra sustentar sua....

O rosto de Molly levou um tapa antes que ela pudesse terminar a frase. Mas mal ela havia levado o tapa e James já se levantou e deu um chute no joelho do pai, fazendo com que ele caísse.

O garoto pegou Molly pela mão e a levou até o quarto dela.

– Fique ai e tranque a porta! – disse empurrando Molly pro quarto — Não saia, não importa o que ouvir!

– Mas Jim...

Os dois ouviram o pai de James se levantando e gritando o nome de James. O garoto fechou a porta e saiu correndo.

Molly obedeceu Jim e trancou a porta. Ouviu o pai de James correr pelo corredor e bater na porta do quarto do garoto. Provavelmente James havia saído de casa, pois o homem urrava de raiva e quebrava todos os objetos que encontrava no caminho. Molly se encolheu em um canto no quarto, estava terrivelmente assustada. Um silêncio se instaurou, e de repente ela ouviu o pai de James chamar por seu nome.

– Molly! – ele chamava baixinho, enquanto caminhava pelo corredor.

Molly se encolheu ainda mais no canto do quarto, e viu a porta do seu quarto ser arrombada pelo chute do marido de sua mãe.

– Ah, ai está você, pombinha! – ele falou de uma forma falsamente doce.

Molly estava apavorada, algum alarme dentro dela disparou.

– Então, já que você defende tanto sua mãe – falou se aproximando da garota- acho justo que você cumpra com os deveres dela, enquanto ela está fora! Todos os deveres!

A menina notou que ele ia retirando o cinto enquanto se aproximava dela, e um pânico se instaurou na menina, sem que ela soubesse o motivo.

– Fique longe de mim! – chorou copiosamente.

– Vai ser bom, não se preocupe! Sua mamãe gosta! – disse se jogando em cima da menina.

Molly gritou e de repente o corpo do pai de James caiu em cima dela, mas junto com o corpo veio uma quantidade razoável de sangue. Molly viu James atrás dele, com uma faca na mão. Os olhos do menino estavam desfocados e a garota viu puro ódio neles.

– Jim...- sussurrou assustada com o olhar do garoto.

– Vamos pra casa do Sherlock! – falou o garoto, enquanto jogava a faca no chão.

Sem dizer nada, Molly se levantou e pegando na mão de James, saíram correndo pela noite afora.