Memórias
1 Memórias
Notas iniciais
Fazia um frio típico de inverno saxisônico, a neve fina que batia no telhado alto, soava uma melodia agradável aos ouvidos de quem dormia.No quarto enorme e escuro, que era iluminado apenas pelo luar que atravessava as duas janelas de madeira polida, encontrava-se dois guarda-roupas rústicos porém graciosos, encostado a uma parece cor de creme, tinha uma escrivaninha com duas cadeiras envernizadas e sob ela algumas embalagens de chocolate, maços de cigarro, um cinzeiro feito com uma latinha de refrigerante pintado com piche, cartuchos para game-boy e um abajur estilo século XVIII com babados e uma lona fina lilás que dava um contraste diferente na parede, entre a escrivaninha tinha duas camas de solteiro a uma distancia de mais ou menos dois metros.Na cama próxima a janela, de bruços dormia serenamente um menino com cabelos vermelhos, era um ruivo misturado com cereja, uma cor fantástica, o corte era um curto repicado mas que cobria as orelhas, tinha um corpo atlético e sua tese era cor de marfim, apesar do frio o garoto dormia sem blusa, sem meias, e com o cobertor listrado na altura da cintura.
Como ele consegue dormir assim nesse frio? Pensou o outro menino, seu colega de quarto, era um garoto muito diferente do outro, tinha os cabelos dourados na altura do queixo em um corte "channel" e com uma franja rente aos olhos que eram cor azulados, era muito magricela comparado ao outro, esse, estava com as cobertas acima do pescoço e ainda assim batia os dentes de frio.
Como ele dorme assim sem blusa? Pensou novamente admirando a sua serenidade. Não pensou duas vezes, levantou da cama e num salto correu pra baixo do calor aconchegante do ruivo, deitou-se bruscamente e virou para o lado da porta encostando suas costas na dele. O menino com o cabelo de fogo, precisou piscar algumas vezes antes de entender porque o espaço de sua cama parecia ter diminuído, virou-se de lado e suas narinas foram invadidas por um aroma doce e inconfundível de chocolate holandês que vinha da nuca do outro, um cheiro que para muitos seriam enjoativos para ele era totalmente agradável.
Surpreso gritou:
- Droga Mello! O que você esta fazendo aqui na minha cama?
- Oras Matt, você sabe que sou difícil para dormir, ainda mais nesse frio – Respondeu se encolhendo ainda mais, ficando em posição fetal – E aqui é, er.. aconchegante – Completou Mello sorrindo pra si mesmo no escuro.
- Mello por favor essa cama é pequena demais pra nós, vai pra sua!! — Matt disse ainda sonolento e o empurrando com suas costas sem sucesso.
- Aqui está tão bom. — Teimoso voltou a responder, enquanto apunhalava todo o calor que conseguia tirar da cama onde lutava para continuar deitado.
- Ah! Mello! Mas que droga! — Gritou nervoso e exausto mais uma vez.
O loiro arregalou os olhos e deu um suspiro de desgosto, levantou-se e lentamente foi caminhando em direção à sua cama. Matt virou-se para ver a cena, Mello pegava seu travesseiro e segurava por baixo de um dos braços, enquanto o outro puxava pra fora da cama um cobertor pesado que era arrastado em direção à porta. Matt sentiu um alívio estranho por ter expulsado de sua cama, mas junto com isso veio o remorso por deixar seu melhor amigo triste.
Mello crescerá com Matt nesse quarto do orfanato Wanny’s House onde era destinado a órfãos com um quociente de inteligência maior do que o normal. Sempre nos dias fortes de chuva com trovões e relâmpagos, ou quando tinha pesadelos com monstros de ficção, Mello sempre corria para o calor intenso de Matt, lá se sentia seguro.
O ruivo era um garoto de personalidade admirável, era amigável e bastante compreensivo e quando o nome de seu melhor amigo estava em jogo, ele fazia qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo. Diferente de Mello, que era bem mais inteligente e eficiente, mas era menos adaptável, era arrogante e tinha uma percepção distinta. Mas os dois juntos era uma máquina, ninguém conseguia detê-los, era impossível separá-los, assim como era impossível separar o jeito autoritário de Mello com o paciente de Matt.
Ao ver uma cena que não assistia desde que tinha nove anos, Matt se sentiu constrangido por ter expulsado seu melhor amigo da cama. Até que se levantou e lentamente foi caminhando na direção de Mello.
- Espere... — Disse estendo o braço desejando agarrá-lo e virá-lo pra si.
Mello virou e deu um sorriso sem mostrar os dentes, Matt fechou os olhos por um momento, e começou a desculpar-se.
- Me desculpa, eu não queria magoá-lo, nem ser tão grosso, me desculpe...
Mello deu um sorriso malicioso e disse em um tom desafiador:
- Não Matt, você tem razão, a cama é pequena demais, sabe...- Mello deu um passo pra frente e continuou – Eu vou dormir com o Near.
Near? Pensou o ruivo
Near era um garoto pequeno pra idade deles, era albino de cabelos alvos na altura das orelhas e com as pontas onduladinhas, ele tinha uma cara rechonchuda e inocente como de um anjo, era o melhor de todo orfanato. Apenas dos três estarem na mesma sala, Near sabia de assuntos que só era explicado em um curso superior. Conseguia invadir sites como o da CIA e coisas do gênero, porém sua inteligência era toda em vão, ele não tinha amigos, não se relacionava com ninguém, a não ser com seus brinquedos de plásticos e sua coleção de dados toscos.
- Near? — Matt perguntou em um tom bem alto, e com os olhos verdes arregalados.
O loiro movido a cinismo soltou uma gargalhada e voltou em direção à porta, demorou um pouco até Matt perceber que estava de boquiaberta, e só notou quando a porta bateu fazendo um barulho estrondoso no quarto escuro.
- Ok... — Matt sussurrou pra si mesmo, deu um suspiro e voltou lentamente em direção a sua cama, com uma das mãos esfregando sua nuca. Demorou um certo tempo até Mello abrir a porta rapidamente em meio de risos, jogando seu travesseiro e cobertor pelo chão deixando o vento fechar a porta, correu e se enfiando de novo na cama abrasada do ruivo, ria graciosamente.
- Mello! Ah Mello! — Disse Matt surpreso e um pouco entusiasmado.
- Achava mesmo que eu iria dividir a cama como aquele ser? — disse Mello ainda sorrindo maliciosamente – Estranho... Você pareceu tão decepcionado quando falei isso — O loiro disse levantando uma sobrancelha e sentando na cama apoiando o peso de sua cabeça nos joelhos.
- Eu não fiquei decepcionado, apenas surpreso. — Matt deu alguns passos pra frente e continuou – Afinal, Near não se relaciona...
- Com ninguém a não ser com seus próprios brinquedos... Patético – Mello completou revirando os olhos.
Matt que estava alguns passos de sua cama deu um sorriso perolado que iluminou seu rosto, foi caminhando em direção a sua cama onde Mello agora já estava deitado em posição fetal, sentou-se do lado oposto e olhou para o teto longe e suspirou, deitou-se delicadamente encostando duas costas rígidas nas frágeis e ósseas.
- Boa noite. — Disse o ruivo docemente e voltando sua atenção para o barulho relaxante da neve no telhado
-Boa noite. — Mello virou-se com alguma esperança com a qual não compreendia, o vento gelado que vinha de fora trazia um cheiro de cigarro que vinha do corpo do ruivo, o que era detestável para todos do orfanato para Mello era como um perfume floral, o loiro suspirou o máximo que pôde e fechou os olhos.
Deveria ser umas quatro da madrugada e ambos acordaram assustados.
- Maaaaatt!! — Gritou Mello com toda a força que seu pulmão e a garganta agüentavam.
- Mello? Mello acorde! — Disse uma voz aveludada da qual o loiro reconheceria até em um submundo, até no mundo dos sonhos e dos pesadelos. Ele suava frio, foi acordado sendo sacudido por mãos pesadas em seus ombros.
- Você teve um pesadelo. — O ruivo deu um sorriso consolador, os dois estavam sentados na cama encolhidos como duas crianças com medo do escuro.
- Ah! Matt... — Não hesitou, pulou no pescoço de Matt e com toda força que tinha o abraçou, apoiando a sua bochecha no peito nu e quente do ruivo, lá sentiu o coração tão disparado quanto o seu.
Nunca tiveram um contanto físico tão próximo, não que não quisesse, mas ao mesmo tempo em que Mello era tímido o ruivo fugia de todos os seus sentimentos.
- Eu sonhei que estava morto, foi horrível! — Mello tremia e agitava as mãos.
- Hey! Mello? O que foi cara? Foi só um sonho...- Perguntou erguendo o rosto fino do loiro pelo queixo com os dedos frios, olhando em seus olhos.Mello prendeu a respiração e virou o rosto corando.
- É... foi só um sonho! — Concordou sorrindo inseguro.
- Vem cá, seu molenga! — Matt disse em meio de risos e abraçou o loiro pelo pescoço, que fechou os olhos e sorriu.
Isso foi só uma noite, um sonho, um pesadelos, brigas seguidas de alegrias, de seus completos dezoito anos, que passaram naquele quarto terno de orfanato.
No outono de 1985, Mello ficou pasmo com a enorme estrutura colegial onde passaria seus próximos dez anos. Ao olhar detalhadamente a ponto do espreitar os olhos, Mello cambaleou para o lado apoiando-se na cintura de Roger Watari. Watari era um senhor de cinquenta e cinco anos, mas com os bigodes e cabelos bem brancos, usava óculos arredondados que sempre escorregava pelo nariz grande e reto, não saia de casa com o seu belo chapéu, que vira e meche combinava com o seu terno de grife, Watari segurava a pequena mala do Mello, era um senhor bastante prestativo e muito inteligente.
- Bom, pequeno Michael , aqui é seu novo lar... Bem-vindo – Os dois deram um passo a frente, Mello ficou deslumbrado com o enorme hall, no teto tinha um lustre em forma de um bolo de casamento invertido, com cristais que cintilavam nas duas escadarias, uma do lado leste, e a outra a oeste, elas eram feitas de marfim e encarpetadas com um tapete vinho. Mello estava pasmo, tão pasmo, que até deixou o chocolate escorregar por entre seus dedos, nunca tinha visto nada tão bonito...Watari ao assistir a expressão deu um sorriso e disse:
- É uma beleza, não?
- É maravilhoso... — A voz dele saiu em um sussurro.
Sua atenção foi tomada por um garoto que aparecerá ao topo da escadaria leste, o menino descia a escada rápido como o vento. Mello foi pra trás de Watari com o intuito de se esconder
- Watari! Watari! Que bom que está aqui – O ruivo falava ofegante e ajeitava os cabelos.
- É bom estar de volta. Matt esse é Mello. – Watari disse rouco, dando um passo para esquerda permitindo um espaço para eles se conhecerem. – Dê os livros pra ele, e depois mostre o orfanato... estou tão exausto – Disse ele se espreguiçando.
- Yes! SR! – Disse como um soldado fazendo uma reverência -Venha vou mostrar o nosso quarto – O ruivo puxou Mello pelos pulsos e subia as escadas rapidamente e continuava a falar ofegante – Depois as salas de aulas, aí o refeitório, os laborátorios de pesquisas, e... Ah! Temos um jardim, tem um labirinto, sabia? Watari quer plantar rosas nele, a gente poderia ajudar, né? – Matt falava entusiasmado e Mello sorria um pouco inseguro.
Isso foi apenas um sábado ensolarado, um novo conhecimento, uma nova vida, daqueles dezoito anos, que passaram naquele orfanato...
Os anos seguinte veio acompanhados de bricadeiras, depois de estudos, procurada de trabalho, e todo esse ciclo da vida que somos obrigados à seguir.
Matt vinha com chocolate e Mello com cigarros. Matt vinha com a esperanças, Mello com o realismo. Matt vinha com beijos e Mello com pequenas brigas. E assim viviam o Natal, Páscoa, Ano-Novo, Férias e afins.
Um ao outro, um com o outro, um para o outro... Mesmo depois de todos esses anos, Mello sorriu pra si, ao ser tomado por essas e outras lembranças da qual encheram seu peito de glória e seus olhos de lágrimas.
Tudo que passarão, e passaram, tudo que aprendeam, foi tão inédito e incrível...
E agora, onde estava Matt? Apenas em lembranças e no mundo dos sonhos? Não! Errado! Ele estava, e está sempre com ele, e nisso o loiro estava puramente certo. Não estava morto, nem enterrado...
O Matt estava no beijo quente, nos lábios finos, no corpo e no coração denso de Mello!
Fale com o autor