Memória
6 Inominável
Notas iniciais
Os dias passados na torre possuíam uma atmosfera diferente. Havia uma impressão de normalidade enganosa na superfície, uma calmaria carregada com tensão silenciosa. Havia cheiro de traição, sangue e sacrifícios ao longe. Havia sons de batalha e universos explodindo. Havia estrelas cadentes e renascimentos sem fim. Havia a queda inevitável dos mais poderosos guerreiros.
Mu tentava livrar sua mente dos lampejos de visões: que hora inoportuna para os acontecimentos futuros começarem a descortinar-se… Logo na frente de Shaka, enquanto Shaka era personagem central de sua premonição. Crispou os lábios ante o gosto amargo que se instalava em sua boca.
Deveria estar acostumado, deveria ser grato ao dom. Não era isso o que Shion dizia? Porém, analisando friamente, talvez ele estivesse tentando se convencer sobre uma dádiva, mais do que a Mu. Deveria ver-se preparado, e não atordoado. O que seu mestre diria, se o visse daquela forma novamente?
De qualquer maneira, era melhor manter as aparências. Precisava manter o controle. Ou melhor: recuperá-lo. Teleportou-se, então, para fora de sua torre, para onde sabia que encontraria o outro cavaleiro. Ajustou melhor as roupas contra o corpo, como se isso pudesse conter o frio, como se o gesto pudesse confortá-lo. Estava habituado ao frio, contudo, e nada poderia confortá-lo, não quando as visões faziam-se tão desalentadoras.
Shaka elegera o canteiro de Mu como um de seus locais prediletos para meditação. Era impressionante que, em meio ao inverno rigoroso, as flores lilases e azuis permanecessem intactas, com um ou outro floco de neve pousando sobre suas pétalas. Flores locais, Mu frisou, embora Shaka já estivesse familiarizado a elas: sempre estavam em seu caminho. Eram as raras as oportunidades de admirá-las, porém: o ato suprimir um dos sentidos, mesmo com as compensações de percepção, tinha dessas.
E ali ele estava, com os olhos quase perpetuamente cerrados, tentando adivinhar formas e cores exatas — mas Shaka transitava por territórios contraditórios: havia exatidão em seu caminho, mas havia muito mais dúvidas. Não admitia incertezas, então dedicava-se a soterrá-las, uma a uma, bem como fazia com suas emoções tão mundanas.
Estaria sendo traído por suas percepções? Mas elas eram sempre certeiras… Ao menos até deparar-se com Mu. Com Mu e tudo o que ele carregava, de uma maneira quase física, como uma falha nas batidas do coração, como um fardo que fazia o corpo inteiro pesar. Como a garganta apertada por uma angústia que não tinha voz. E Shaka sentia, sentia como se fosse a primeira vez. Como se ele e Mu momentaneamente trocassem de corpo. Era uma percepção aterradora. Era sufocante.
Não sabia, ainda, de onde adveio tamanho terror: talvez fosse um paralelo com suas memórias de infância, com tantas injustiças e tantos sofrimentos no mundo, reverberando tão intensamente em seu ser, tão pequeno para conter tanto pesar sem transbordar em angústia. Era uma explicação, dentre muitas. Restava-lhe buscar a verdade. Por isto se aproximara.
Mas Shaka também afastava-se, porque precisava observar. À sua própria maneira, evidentemente. Necessitava afastar-se, sobretudo, do turbilhão que se formava em sua mente, e da inquietação em sua alma. Aquela prática de meditação, neste sentido, parecia apenas uma farsa, um pretexto para se reordenar.
Algumas vezes, Mu e Kiki juntavam-se a ele. Ou, como naquele momento, limitavam-se a escrutinar o estranho visitante, como apetecia a Kiki chamá-lo. Uma alcunha melhor do que “aquele chato petulante”, também dada pelo garoto, pelo menos.
— Sei que estão me observando.
Sequer dignou-se a mover-se ou a abrir os olhos. Permaneceu imóvel em sua posição de lótus, como uma estátua, até Kiki mostrar-lhe a língua, e Shaka franzir o nariz. Não via o ato, mas percebia a intenção. Apenas Mu para ter a audácia de dizer que estava educando aquela pequena peste sem modos… E, depois, a agitação. Um leve tremor, pedras chocando-se umas contras as outras.
Tardou a perceber que era apenas mais uma das peripécias infantis: Kiki era uma criança quase normal, afinal. Mu percebia o dano que poderia fazer ao garoto, tratando-o daquela forma naquele lugar isolado de tudo? Afinal, a criança estava destinada ao mesmo tipo de vida que os dois cavaleiros levavam, e mimá-lo jamais tornaria as coisas mais fáceis. Normalidade não pertencera à infância deles, bem como não deveria pertencer à infância do pequeno muviano.
— Peço desculpas se te atrapalhamos. — Mu fizera questão de acercar-se mais, sentando-se à frente de Shaka.
Apenas então Shaka permitiu-se um mínimo movimento, um leve inclinar da cabeça. E, por fim, não pôde conter-se.
— Mu de Áries… Por acaso está me admirando?
— Não discordo que seja uma visão agradável. Eu diria que estou mais intrigado do que admirado, porém.
Mu ainda estava desconfiado. Era um jogo, até que descobrisse as reais intenções de Shaka. Contudo, era muito mais. Nunca antes permitira que suas barreiras, construídas com esmero por tantos anos, cedessem. Ceder, aliás, era subestimar a devastação. Tudo desmoronara.
Talvez fosse sentimentalismo, uma diminuta brecha no dique de sua solidão que fez suas emoções e anseios transbordarem sem qualquer controle. Talvez fosse o atordoamento onipresente após suas premonições. Ou um reconhecimento espantoso, um reflexo do que foram, do que poderiam ser, se… Quaisquer fossem os motivos, não mudavam o fato de que aquela era uma imprudência imperdoável de sua parte.
Precisava de tempo. Tentava compreender o que levara-lhe a ceder daquela maneira. Percebia-se desconfortável diante da presença imposta pelo cavaleiro de Virgem, mas por quê? Certamente não eram apenas suas desconfianças, tanto menos suas premonições, havia algo ainda mais inquietante a respeito de Shaka.
Guardou seu silêncio e sua distância, até chegar a hora da refeição, que Mu serviu com esmero. Sentia um certo orgulho de si, ao ver que aprimorava seus dotes culinários. Isto devia-se, principalmente, a Kiki, embora a experiência dos anos de solidão autossuficiente contribuíssem.
O dia seguiu tranquilamente, como se o visitante já estivesse encaixado no ambiente, embora vestisse as roupas de Mu, largas demais para si, e na rotina.
A noite reservava mais frio aos habitantes daquele local remoto. A última coisa que Shaka de Virgem poderia desejar era despir-se antes de entrar no banho. Mu suspirou, enquanto enchia a banheira com água quente e ervas aromáticas. Shaka, ainda mantendo os olhos fechados, inspirou, tentando identificá-las. Levou a mão esquerda à água, agitando-a vagarosamente. Permaneceu assim, em silêncio, esperando Mu manifestar-se.
Mu nada disse, apenas observou, sob as luzes tremeluzentes das velas, os lábios alheios curvando-se para baixo, e tentava compreender aquilo: sabia que Shaka estava insatisfeito, mas com o quê?
Shaka era um labirinto com muros altíssimos, intransponível. Caso tentasse sondá-lo, certamente se perderia. No entanto, estava disposto a correr o risco de perder-se. Desejava perder-se, sendo honesto. Era como se o destino fornecesse a ele o maior mistério da vida, e a solução estivesse ali, na sua frente. Bastaria, talvez, mudar a perspectiva para que decifrasse o mistério presente em Shaka.
Ele seria uma presença luminosa, se desejasse. Analisando melhor, Mu finalmente deu-se conta do que o inquietava em Shaka: havia uma sorte de sofrimento adormecido que parecia emergir pouco a pouco.
A súbita compreensão instalou-se com um nó na garganta. Mu compreendia aquele tipo específico de atribulação: um que não pertencia inteiramente a si. Parecia tratar-se de uma aflição captada e amplificada, vinda de todas as direções, de todos os seres.
Uma comparação era inevitável. Para escapar de uma loucura certeira que poderia ser proveniente de tamanhas sensibilidades, de tão pesado fardo, cada qual armou-se com diferentes defesas. Isto, Mu era perfeitamente capaz de compreender, mas Shaka precisava mesmo ter se tornado tão irritante?
Sua mente enchia-se de suposições. Shion fazia-lhe falta pois, por mais severo que fosse, era a sua família. Até onde sabia, Shaka jamais teve uma. Sequer havia um mestre em forma física, para reservar-lhe as doses, às vezes minúsculas, cautelosas, e escassas, de afeto.
Não surpreendia, portanto, que Shaka fosse, de certa maneira, desastrado ao tentar confortá-lo. Não surpreendia que Shaka vestisse a sua armadura de orgulho, antes de tudo, quase sem perceber, de tão habituado a ela. Era quase parte de uma identidade redefinida de Shaka. Isto, no entanto; a empáfia do Cavaleiro de Virgem, era apenas a superfície.
Uma superfície demasiadamente delicada, que também desmoronaria, se os pontos certos fossem pressionados, Mu tinha certeza. E pressionar os pontos certos, desmontá-los e tornar a montá-los, o cavaleiro de Áries sabia fazer com maestria assombrosa. Era assim com qualquer armadura. Era assim com qualquer defesa.
Foi com tal pensamento que adentrou a banheira, soltando os cabelos lilases e permitindo que eles se molhassem e se mesclassem com os loiros que ali já se encontravam. Shaka cedeu-lhe espaço. Um silêncio denso atingiu-lhes: talvez não necessitassem de palavras. Não quando estavam frente a frente e tão próximos.
Mu certamente não precisaria de palavras para pressionar os pontos certos. Novamente percebia-se em um jogo. Desta vez, entretanto, não estava em posição perigosa ou vulnerável. Teria Shaka em suas mãos. Se Virgem podia perturbar sua tranquilidade, também Mu poderia fazer desabar cada uma das defesas de Shaka.
Finalmente sentia-se suficientemente seguro, embora estivesse consciente da necessidade de resguardar-se. Sabia muito quem Shaka era, em quem se transformara, do que era capaz. E, acima de tudo, sabia da posição de Virgem no Santuário.
Viu tremeluzirem as pálpebras de Shaka. E, depois, testemunhou todo o universo parar por uma fração de segundo, no intervalo de um piscar de olhos: Shaka não apenas abrira os olhos, como também vertia lágrimas. Em silêncio, quase sem que estas lhe alterassem a respiração. Então até ali ele tentava manter-se centrado e disciplinado? Era de se admirar, apesar de tudo.
O controle, contudo, durou pouco. Logo o pranto fazia-se mais evidente. A respiração, pesada. Logo instalaram-se soluços. Não havia mais controle. Não havia mais barreiras ou defesas.
Desnudara-se, por completo, diante de Mu: não havia mais volta. Não havia mais vergonha, nem controle. Sequer havia desconforto. Qualquer vergonha por expor-se abandonara-lhe por completo. Sobrava-lhe, apenas, o horror de ver o próprio âmago pela primeira vez. E era uma visão degradável e desalentadora.
Primeiro, percebeu-se oco, irremediavelmente vazio. E, tal como um cirurgião que explora as entranhas de um paciente e encontra um corpo estranho, deparou-se com o emaranhado disforme da própria identidade. Sabia que cabia a si, e apenas a si, desfazer o emaranhado em que se tornara.
Doía-lhe perceber que nunca antes havia sido completamente honesto consigo. Como esperava, então, ser recebido sem desconfiança? Se despido de sua missão, quem era ele? Nada mais do que aquela massa abstrata de identidade indefinida. Quase como um recém-nascido, neste aspecto. E, tal qual um recém-nascido, chorava por ver-se atirado, com um corpo ainda tão diminuto para conter tudo o que sentia, todas as dores, ao abismo que era o mundo, repleto de caos, miséria, destruição e sofrimentos de toda sorte.
Mergulhara-se em seu dever porque sabia, desde o princípio, que nascera predestinado a uma missão. E toda missão exige sacrifícios, portanto a de Shaka não seria diferente. E estava bem, enquanto estava firme nela. Sempre bastou-lhe marchar para a morte certa, sequer questionava: era uma necessidade. Sempre soubera que seria assim. Por isto, importava-se tão pouco com assuntos mundanos. Por isto, evitava envolver-se com outras pessoas.
Por isto, por mais reconfortantes que fossem os braços de Mu envolvendo-lhe em um abraço caloroso, quase tentou escapar. Quase. Mas era hora de render-se: era hora de ser humano. Afinal, não estava por acaso naquele corpo, não era por acaso que era humano. E humanos necessitam de afeto. Shaka necessitava desesperadamente, sem saber, daquele gesto.
Mu foi mais além, sempre cautelosamente. Afinal, o território que desbravava era ainda desconhecido, embora parecesse certo o próximo passo a ser tomado. Não mais precisaria pressionar pontos críticos, poderia apenas… Acercar-se. E foi o que fez: a ponta de seu nariz tocou a do nariz de Shaka. E, em um movimento calculado, resvalou seus lábios nos dele.
Quando enfim saíram da banheira, Mu dedicou-se a desembaraçar os fios loiros, e novamente abraçou o indiano. Assim permaneceram por um longo tempo, sem sequer trocarem palavra.
O cavaleiro de Virgem não poderia dizer que estava surpreso, mas havia tanto que Shaka ainda não sabia, que não percebia… Havia vontade em seu ser. Shaka de Virgem, um ser iluminado, cavaleiro de ouro, curvava-se à curiosidade e aos desejos, que tanto tentara abafar durante toda a sua curta vida. Tudo perante um cavaleiro exilado, que lhe confortava. E havia pureza no ser e nas intenções de Mu. Tanto que tudo parecia reencaixar-se, reordenar-se: Shaka via-se recomposto.
Não questionava o que experimentavam, ali, pois parecia ser o correto. Mu finalmente permitira que Shaka adentrasse seu mundo, apesar de seus receios. Quanto a Shaka… Shaka expusera-se visceralmente, pela primeira vez, para alguém. E, se conseguiam funcionar daquela maneira, conseguiriam funcionar se as condições não lhes fossem tão adversas.
Talvez estivesse escrito que Áries e Virgem precisavam daquilo, tão similares em suas dores, tão diferentes nas maneiras de expressá-las, bem como eram no sentimento que surgia, pouco a pouco, em cada um.
Daquela vez, despedir-se de Mu custou mais a Shaka. Não sabia, ainda, nomear o sentimento que se instalava ao afastar-se, pouco a pouco, mas sabia que a emoção inominável deixava-lhe inquieto, e que tomaria seus dias até que pudesse reencontrar o cavaleiro de Áries.
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