Em determinada ocasião, Shaka viu-se obrigado a visitar o reparador de armaduras — que até então ele não imaginava ser Mu — pois a sua armadura havia danificado-se demasiadamente nas batalhas finais contra os Titãs.

O traje de Virgem suportou bravamente por mais um longo ano, até que um golpe insignificante revelou a extensão de todos os danos anteriores. Shaka não teve outra alternativa, senão buscar o auxílio em Jamiel.

Lembrava-se nitidamente da dificuldade daquele reencontro, após tantos anos. Não era hábito seu perder-se em lembranças, mas Shaka permitiu que sua mente viajasse para aquela noite agora distante...

Aquela primeira — mas não única — noite em que Mu acomodara seu visitante em sua própria cama, e improvisara uma para si no chão, ao lado de Shaka.

Com o tempo, esta divisão tornou-se desnecessária, e passaram a dividir a cama.

Mu não admitiria tão cedo, mas passou a sentir falta de acordar o braço de Shaka sobre sua cintura.

Aquilo o forçava a esgueirar-se com mais cuidado do que o habitual, para não acordar o indiano. E, embora fizesse isto, desconfiava que Shaka apenas fingisse dormir.

Impressionava-se com os poderes do tempo e da convivência: os contornos do amor delineavam-se sem pedir licença, até que Mu fosse incapaz de imaginar a vida sem a presença quase constante de Shaka.

O ritual repetiu-se por anos, até Mu retornar ao Santuário; até não haver mais necessidade de realizá-lo. A primeira visita ocorrera tendo como pretexto o conserto da armadura de Virgem.

Uma coisa era evitar o contato com os demais, outra bem diferente era o isolamento total de Mu. As impressões daquela visita marcaram-se tão profundamente em Shaka, que ele decidiu — após retornar ao Santuário — que Mu precisava de visitas anuais.

Não haveria como demover o cavaleiro de Virgem daquela empreitada. O que Mu fazia era inaceitável!

Aproximava-se das cordilheiras pouco exploradas. Os locais as evitavam. Ele sabia, contudo, que não seria difícil alcançar seu destino. Aquele era todo o propósito da viagem, afinal. E ele jamais fora um homem comum.

Não escapara, contudo, da sina dos viajantes e perdera-se diversas vezes em torno das montanhas. Uma força sobrenatural parecia pairar no local, repelindo todos os aventureiros ou visitantes.

Descobriu impossível utilizar a velocidade máxima e sobre-humana que alcançava e, embora estivesse certo de que não necessitaria, percebeu que não conseguiria alcançar a força máxima de seu cosmo. Definitivamente tratava-se de uma barreira adicional colocada ali por alguém poderoso.

A pesada caixa dourada às costas ou o porte físico esguio não o impediram, porém, de seguir pela rota pouco explorada e enevoada.

Quando, por descuido, quase caiu em um abismo, soube porque os habitantes das cercanias evitavam — e temiam — o local.

Ganhara escoriações nas mãos e nos braços, e alguns arranhões nas pernas. Espanou as roupas casualmente após encontrar-se novamente em terra firme.

Ergueu o queixo e marchou em direção à torre que apenas delineava-se sob a bruma.

As ameaças não cessariam ali. Aiolia alertara-lhe sobre mais um abismo naquele terreno e sobre os ataques espectrais do que pareciam ser ossadas de cavaleiros que não obtiveram êxito em suas jornadas.

— Não encontrará nada aqui, senão a morte — um dos inúmeros esqueletos trajando armaduras bradou. Os demais riam-se.

— Não há ninguém na torre.

— Morrerá em vão — o coro de vozes espectrais afirmava.

Percebendo que seus ataques habituais não surtiriam efeito, o indiano apelava para outra tática. Apenas um sutil movimento foi necessário para dissipar aqueles adversários.

O descerrar de suas pálpebras deu fim à contenda.

— Criaturas infelizes e insignificantes...

Dirigiu-se, firme, à única construção dos arredores.

O pagode não possuía portas e, pela ausência de cosmos ou de quaisquer outros sinais de vida, parecia desabitado.

Esperaria um cenário desolado e infértil — ou, no máximo, vegetação rasteira — naquela altitude. No entanto, deparou-se com um canteiro curiosamente recoberto por uma proteção cristalina

Tentava identificar as plantas ali presentes quando foi interrompido.

Voltou a atenção para a curiosa ocorrência que desviara sua atenção.

Os raios do sol matinal delineavam-se e dissipavam parte da névoa. Envolta nesta visão, havia uma silhueta tomando formas mais nítidas nas proximidades da torre. O olhar de Shaka deteve-se no embrulho que a figura trazia em seus braços.

Uma lufada fez fios de cabelos lilases esvoaçarem. Ouvia-se um choro de criança.

— Está tudo bem. Estamos em casa agora – a voz melíflua, alentadora, estava entrecortada por um tom entristecido.

Encarar o lar vazio, após reunir-se com pessoas que mostravam se importar um pouco com ele (quanto tempo havia desde que alguém lhe demonstrara sequer o mínimo afeto?), parecia uma tarefa ingrata.

Relutara a respeito de partir, quando recebeu a mensagem dos anciãos de Jamiel: Shion deixara muito claro, mesmo antes de partir, que naquele momento Mu já estaria preparado para acolher um pupilo.

E surgira uma criança com o potencial necessário para o ofício de reparador de armaduras no primeiro dia de abril daquele ano.

Ele sempre imaginou que, uma vez longe dali, ficaria gradativamente mais difícil retornar.

Mu, no entanto, não estava sozinho daquela vez.

Ainda sentia a mesma fascinação e o mesmo espanto com a responsabilidade colocada sobre ele.

Fora instruído sobre todos os cuidados dispensados a uma criança daquela idade — e tanto a ama-seca de Kiki quanto uma das anciãs foram bastante paciente em todos os momentos (inclusive nas inúmeras noites em claro). Estar sozinho com o garoto, porém, fazia de tudo algo muito mais real.

— Mu de Áries — Virgem manifestou-se. — O que significa isto?

Mu ergueu seus olhos — que mantiveram-se fixos no bebê até aquele momento — para encarar seu visitante. Pesadas olheiras faziam contraste com o semblante sereno.

— Eu não esperava que alguém chegasse tão longe.

— A recepção foi calorosa, mas nada é exatamente um empecilho para mim.

— Preciso me lembrar de aprimorar a recepção, então.

Shaka empertigou-se. Como Áries poderia ousar insinuar que o desafiaria?

— Não tenho tempo para isso.

O olhar do lemuriano alternou-se entre a expressão impassível de Shaka — encontrando os olhos azuis finalmente descortinados — e a caixa de Pandora ao lado dele.

— Nem tempo, nem o necessário para restaurar a armadura, se é isto o que veio fazer aqui.

— Você é o único que pode consertá-la. Não vim aqui disposto a receber um não como resposta.

Ainda com o bebê nos braços e sem mover um dedo, Mu fez com que a armadura dourada saísse de sua caixa e se montasse na representação do signo de Virgem.

Aproximou-se devagar. Observou mais cavidades e fissuras do que poderia consertar apenas com pó de estrelas. Natural. Ninguém se arriscaria tanto se as armaduras não estivessem mortas ou quase mortas. O cemitério de armaduras era, ao mesmo tempo, testemunha e prova irrefutável do risco.

— Sua armadura está morta.

Se havia qualquer nota de tristeza em sua voz, Mu preferiria pensar que era pela armadura. Se havia uma lição que Shion ensinara-lhe bem, era que as armaduras eram sagradas.

Sagradas pela origem, sagradas pela história de incontáveis usuários ao longo do tempo e, finalmente, sagradas porque tudo isto — a memória que cada uma delas trazia — fazia delas seres vivos .

— Isto é absurdo. Não é possível que uma armadura morra por completo.

— Posso consertá-la, mas há um preço.

— Você pode fazer uma coisa dessas? Cobrar?

— Não posso, Shaka de Virgem. Devo cobrar. Tudo tem um preço. Principalmente isto que discutimos.

Mu suspirou. Não estava inclinado nem disposto a iniciar uma discussão naquele momento.

— Antes de discutirmos ainda mais, eu realmente queria deixar esta criança confortável. Não pretendia te convidar para entrar, mas meus modos me exigem. Vamos.

Em fração de segundos, estavam no interior da torre. No interior do lar de Mu.

À primeira vista, não havia luxo algum: apenas o estritamente necessário. A simplicidade não era mais surpreendente do que os variados livros e documentos que Shaka encontraria naquele local.

Após acomodar o pupilo — pensar em uma criança tão pequena como tal ainda causava-lhe espanto — no berço, Mu voltou suas atenções para Shaka.

Sobre a mesa, estavam dispostos chá e frutas. Mu serviu o líquido quente na xícara de Shaka.

— Quando uma armadura morre, é necessário utilizar sangue para restaurá-la. Normalmente, mais sangue do que um ser humano, inclusive humanos como nós, seria capaz de doar.

Virgem fechou os olhos, e Mu quase temeu não vê-los novamente tão cedo. De onde surgira aquela urgência e a perplexidade que se seguiu?

— Você está me propondo um sacrifício. — Não havia emoção em sua voz.

— Estou apenas explicando um mecanismo.

— Você está… Mudado, Mu.

— E você não?

Mu não obteve resposta. Não era necessário. O Shaka que conhecera não mais existia, assim como o Mu que Shaka conhecia também havia sido exterminado.

"Exterminado", pensou. "Que ideia verdadeira, terrível, e confortadora. Realmente fui exterminado naquela noite..."

— Só será um sacrifício se o fizer sozinho. Por motivos óbvios, você ainda correrá riscos, mas estou disposto a ajudá-lo. Por hoje. Da próxima vez, não dispense quem quer que tenha te oferecido ajuda.

Havia um sorriso no rosto do lemuriano. Qualquer outra pessoa poderia atribuir o adjetivo macabro a ele. Shaka, contudo, permaneceu impassível.

— Naturalmente, sua recuperação, supondo que você sobreviva, levará algum tempo. Dias ou semanas.

"Talvez meses, se continuar com essa atitude", Mu refletiu.

O ato de abrir os olhos ainda causava-lhe estranheza. Piscou repetidamente e, quando finalmente conseguiu focalizar os arredores, deparou-se com Mu.

Os cabelos lilases ultrapassando a cintura pareceram-lhe muito diferentes dos que conhecera. Áries estava mudado em vários aspectos. O corpo também apresentava formas diferentes. Não eram mais crianças, afinal.

Tentou levantar-se, porém arrependeu-se no meio do caminho, quando teve uma vertigem.

— Fique deitado. Ainda está muito fraco. — Mu era incisivo em sua suavidade.

A calmaria do local e das rotinas faziam-no quase compreender a predileção de Áries por Jamiel.

Os baques ocasionais das ferramentas contra as armaduras, ou o raro choro do bebê quase não interferiam na paz que sentia.

Todos os dias Mu servia-lhe refeições, chás, água, e — aparentemente em uma tentativa de fazer Shaka odiá-lo — uma miríade de ervas medicinais exóticas e de eficácia duvidosa.

— Não zombe da minha medicação, Shaka. – Ouviu-o dizer durante uma das muitas noites que ali permanecera. — Ela também é uma ciência. Uma ciência mais antiga do que você poderia imaginar.

O esforço para finalmente apoiar-se em um dos braços arrancou dele um gemido. Com a nova posição, pôde ver os lábios de Mu curvando-se.

Primeiro, o esboço de um sorriso irônico, enquanto ele macerava mais doses de sua ciência . Depois, Mu franziu os pontos em sua testa e sua boca não mais exibia sequer a sombra de um sorriso.

— Você está preocupado — sabia que não precisara de muita observação para inferir — sabe, não precisaria se dar a todo este trabalho se saísse dessa torre de vez em quando.

— Talvez. Mas onde os viajantes despreparados como você estariam sem a minha presença aqui? Além do mais, parece que as ideias ocidentais entranharam-se demais em sua mente. Não esperava isto logo de você, Shaka de Virgem.

Então, aparentemente, havia uma maneira de tirar o sereno cavaleiro de Áries do sério. Shaka manteve seu escrutínio. Se a simples menção a uma saída causava tanto desconforto, Mu certamente tinha um excelente motivo para isolar-se tanto.