Memory of Love
3 E Assim Começa.
Notas iniciais
Karina acordou se debatendo, o lençol que a cobria estava enroscada em suas pernas, seu coração batia dolorosamente contra suas costelas. Respirando fundo tentou normalizar sua respiração que estava ofegante, puxou o lençol com força, sentando-se na cama.
Novamente tinha tido aquele sonho, se forçou a tentar lembra-lo, mas era inútil, por mais aterrador que eles fossem quando abria os olhos nenhum fragmento do sonho permanecia em sua cabeça, apenas as sensações, a sensação de desespero, de raiva, e de tristeza, como se estivesse se afogando nesses sentimentos.
A primeira vez que tivera o sonho acordara gritando, mas Henrique estava do seu lado, segurando sua mão dizendo que ficaria tudo bem, e ela fora ingênua o suficiente para acreditar. Balançando a cabeça, pulou da cama sabendo que não conseguiria mais dormir, não queria pensar nele, nunca mais.
Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da pequena janela do quarto que havia alugado, havia se passado duas semanas desde que chegara ao Rio, e não estava sendo fácil como previra, ainda não havia conseguido emprego, e o pouco dinheiro que tinha chegara ao fim no dia anterior, teria um teto sobre sua cabeça por mais alguns dias.
Karina puxou suas pernas as abraçando e apoiando seu queixo nos joelhos, precisava arranjar um emprego com urgência, ou não saberia o que aconteceria, mas fosse o que acontecesse era melhor que voltar de onde tinha fugido.
Os primeiros raios de sol a encontraram na mesma posição, com um gemido se esticou, pronta para começa mais um dia buscando um emprego. Após um banho rápido, e tomar um gole de café, saiu com o jornal, que havia comprado no dia anterior, debaixo do braço.
Não. Era terceiro não que recebia, e a tarde começava a dar sua cara. Parecia que todas as vagas de emprego dessa cidade exigiam experiência, o que ela não possuía. Com um suspiro desanimado abriu o jornal sobre a mesa da lanchonete que tinha parado para descansar, pois dinheiro para comer não tinha.
Um anuncio chamou sua atenção, não exigia experiência, o lugar era distante de onde estava morando, mas se precisasse acorda de madrugada, acordaria. Com o ânimo renovado, saiu da lanchonete disposta a tudo para consegui esse emprego.
Assim que desceu do ônibus a tontura a atacou, se apoio a parede de uma loja até que tudo ganhasse foco novamente, sua cabeça começou a latejar, precisou de alguns minutos até que estivesse em condições de busca o endereço indicado no jornal, respirando fundo começou a andar, acreditando que a tontura e a dor de cabeça eram consequência de não ter comido nada o dia inteiro.
Um sorriso surgiu nos seus lábios ao ver o lugar onde ficava o restaurante, uma praça simpática onde algumas crianças brincavam, uma banca de jornal, e os imóveis pareciam se compostos tanto por prédios residenciais como por comerciais.
Com um suspiro tremulo, Karina pois a mão em seu peito, não sabia explicar por que mais desejou chora, desejou se dissolver em lágrimas.
Com passos trêmulos atravessou a praça, parando em frente ao restaurante, passando as mãos nervosamente na calça que usava entrou. O restaurante estava quase completamente vazio, havia apenas um grupo de três pessoas em uma mesa, o que era normal, já que o horário de almoça já havia passado a algum tempo. Mas o cheiro de comida ainda estava espalhado pelo ar, o que fez o estomago de Karina reclamar.
O ignorando foi até o balcão, podia ouvir o som de panelas sendo manuseadas, por um segundo hesitou se devia chamar ou espera, mas antes que tomasse uma decisão, um senhor de cabelos grisalhos e bigode apareceu.
– Boa tarde!
– Boa tarde, você veio almoça? Olha menina, o horário do almoço terminou, mas...
– Não, eu não vim almoçar, eu vim pela vaga de emprego.
O homem a olhou de cima a baixo.
– Eu não sei não, pequenininha desse jeito, você vai lá conseguir lava uma panela?
– Eu sou pequenininha mais sou muito forte, se você me der uma chance posso provar a você, por favor — Karina implorou, não podia voltar para casa sem esse emprego, o homem parecia prestes a dispensa-la, quando os três clientes restantes saíram com um aceno de mão para o homem, viu a oportunidade para mostrar que podia, jogou sua bolsa em cima da cadeira, e correu até a mesa recolhendo os pratos.
Antes que ele pudesse impedi-la deu a volta no balcão, entrando na cozinha e começou a lavar os pratos.
– Mais mininu! Moça, você não...
– Por favor — Karina o interrompeu — Eu preciso desse emprego, você não vai se arrepender se me der uma chance, por favor!
Karina esperou que ele a expulsasse, mas ele apenas a olhou.
– Você já comeu hoje menina?
– O-o que?!
–Você já comeu hoje? — Karina não conseguiu responde apenas balançou a cabeça em sinal negativo — Foi o que imaginei.
Karina não conseguiu esconde a surpresa quando ele começou a se mover pela cozinha, pegando um prato, o enchendo com comida e a entregando.
– Os talheres estão ali — ele disse indicando vários talheres sobre uma bancada, quando Karina recebeu o prato.
– Obrigada.
O homem sorriu, fazendo sua expressão ficar mais amigável.
– Quando cheguei aqui do nordeste, também procurei emprego com nada na barriga, eu sei como é passar fome... não precisa dizer nada, come que depois conversamos — ele disse quando Karina fez menção de falar.
A comida estava deliciosa, enquanto comia Lincoln, falava pelos cotovelos. Se apresentou como o chef do restaurante, falou do netinho dele cheio de carinho e saudade, contou que o filho de quem falava todo orgulhoso estava morando na Inglaterra, por que fazia parte de uma das companhias de dança mais importantes de lá, junto com a nora que segundo ele tinha uma voz tão linda como de um anjo.
Karina olhou para o prato vazio, havia chegado a hora, se ele a mandasse embora, não teria como insistir, já que ele fora bom o bastante para lhe dar o que comer. Podia sentir os olhos dele a encarando.
– Você não disse seu nome menina.
– Ka... Catarina, mas pode me chama de Ka.
– Ka, você começa amanhã as nove, não se atrase! Vou precisa que você traga alguns documentos, mas conversamos sobre isso amanhã.
Karina o olhou seus olhos cheios de lagrimas.
– Obrigada!
– Anda menina, vai descansa que amanhã será um dia cheio... E, seja bem vinda ao Perfeitão!
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Faltavam quinze minutos para as nove quando Lincoln chegou ao Perfeitão, mas Ka já o estava esperando.
– Mas você já está aqui menina!
– Cheguei faz quase uma hora, fiquei com medo de pega transito.
– Vem, vamos abrir o restaurante.
O trabalho não era tão pesado como Lincoln a fez pensar, limpou o chão, e o banheiro, arrumou as toalhas das mesas, e atendeu os poucos clientes que vieram almoçar, depois foi ajudar o chef na cozinha.
– Lincoln? — Chamou enquanto guardava alguns pratos e ele cortava alguns legumes.
– Hum
– Os donos do restaurante...
Lincoln parou de cortar e a olhou.
– Estão viajando, mas chegam dentro de alguns dias, não se preocupe, são pessoas de bem... o filho deles faz parte de uma banda famosa.
– Banda famosa?
– Galera da Ribalta — Karina piscou, o nome não causando nenhuma reação nela — Você não conhece? Menina, de que planeta você é?
– Eles são muito famosos?
– Muito, aqui vive cheio de meninas atrás deles.
Karina lançou um olhar para o salão vazio. Lincoln seguiu o olhar dela e riu.
– Elas vem, quando sabem que eles estão por aqui, mas não pense que o Perfeitão é sempre calmo assim, é por que a Ribalta e a academia estão fechadas para as férias, e a Aquazen da sereia também.
– Ribalta? Academia? Aquazen?
Lincoln revirou os olhos.
– Mais mininu! Vem — ele disse e a puxou pelo braço até a entrada — Ali é a Aquazen da sereia... quer dizer da dona Roberta, ela é casada com um dos donos do restaurante, ali é a Ribalta é uma escola de arte, um doido mais doido que o outro, mas a escola fica no segundo andar da fábrica, no primeiro fica a academia de muay thai, do mestre Gael.
Karina soltou a respiração que estava prendendo sem perceber, seu coração saiu em disparada sendo tomada por uma sensação de tristeza, algo se prendeu em sua garganta, mas com esforço a engoliu.
– Vem menina, ainda temos muito trabalho a fazer! — Lincoln disse voltando para cozinha.
Ainda permaneceu um momento olhando a fábrica, como se estivesse hipnotizada por ela, balançou a cabeça com força, como se tentasse sair de um transe, não havia nada ali do seu interesse. Sempre foi muito tímida para ser uma artista, e quando a academia... Henrique sempre lhe disse que tinha aversão a qualquer tipo de lutar, que considerava muito violenta.
Karina respirou fundo e deu de ombros, afastando qualquer sensação que o lugar lhe causara. Virou-se para voltar a cozinha, com a certeza que não precisava se preocupar, não havia ninguém tanto na academia quanto na Ribalta, que lhe causaria algum problema, ou mesmo que entraria em sua vida.
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