Memories
4 04 - Efeito borboleta
Notas iniciais
Memories
04
Efeito borboleta
— Nós criamos nossos próprios demônios –
Katsuki Bakugou
Ele era idiota. Tão malditamente idiota e culpado.
Quanto tempo mais teria que carregar aquela mentira? Quantos anos mais suportaria evitar a pessoa que, para si, fora um melhor amigo, um irmão? Por que era isso que Izuku fora, não um namorado – apesar de todos e até a si próprio, o colocar naquela posição -, não, o esverdeado era somente um irmão querido e fazer tudo o que fez na vã esperança de um dia amá-lo, havia lhe partido o coração, e não adiantava negar, não para si mesmo, não quando estava sozinho em uma de suas missões.
Ele era uma pessoa horrível e sabia disso, mas não conseguia mudar quem era, por vezes sua mãe o alertara que sua personalidade afastaria as pessoas que ele mais prezava, ele ignorara aquelas palavras por anos e agora, enquanto agonizava numa caverna sangrando após cair numa emboscada feitas por bestas-generais, as palavras, os pensamentos, a culpa – tudo— tudo o que sempre ignorou, por acreditar estar acima de tais banalidades, voltava para lhe estapear e destitui-lo dos pequenos cacos que haviam restado de seu orgulho.
Tossiu e ofegou em busca de ar, suas costelas ardiam, mas sabia que isso devia-se as runas curativas que lhe adornavam o torso, as mesmas que brilhavam e esquentavam enquanto regeneravam lentamente a ferida grotesca que fora aberta por garras bestiais.
Pelos deuses... mal conseguia acreditar que escapara com vida e ainda havia conseguido enviar um sinal de socorro a filial próxima; agora só lhe restava esperar que quem o encontrasse primeiro fossem humanos, senão seria seu fim e ainda nem havia tido chance de pedir desculpas ao Midoriya por ter sido um cretino mentiroso por tantos anos.
Se sentia patético ali, fraco, desorientado; antes que pudesse ver a noite cair, fora engolido pela inconsciência. Sonhou com cachos verdes enegrecidos, olhos esmeraldados e sardas que pontilhavam uma face porcelanada redonda, havia um sorriso bonito nos lábios que se provaram doces, a pele era macia e abraça-lo lhe trazia o cheiro de menta com algodão-doce.
Era um sonho consciente, uma lembrança do inicio do relacionamento que teve com Izuku, estavam no pátio da academia, e Katsuki não tinha disposição nenhuma para assistir aulas práticas, dava preferência as aulas de campo, o simples fato de estar rodeado pela natureza e enfrentar perigos fazia seu sangue correr mais rápido e seu coração pulsar de êxtase; Izuku era o oposto de si, gostava de aulas e palestras, se não fosse por seu relacionamento com o loiro o esverdeado passaria o dia enfurnado na sala de aula e/ou biblioteca. E, no entanto, apesar terem personalidades diferentes, ainda haviam se enredado num relacionamento, Izuku ainda o amava profundamente e Katsuki demonstrava — da sua forma – uma retribuição igual dos sentimentos, o loiro não era muito de palavras, preferia gestos, como naquele momento em que exibia uma expressão horrível por ver o namorado carregar um livro sobre as velhas runas-estelares, mas ainda sim mantinha um braço sobre os ombros pequenos do companheiro e o tinha mais próximo de si do que qualquer outra pessoa poderia chegar. Matinha parte da sua atenção nos arredores – como seu treinamento de caçador exigia – e o restante era fixo na conversa do esverdeado com seus dois melhores amigos; falavam de algo sobre estrelas, galáxias e constelações; mas apesar de toda inteligência que o loiro possuía, nunca conseguiu compreender um por cento do que o esverdeado falava, eventualmente desistira de tentar.
Nunca chegou a ver a continuação do sonho, não quando as vozes distanciavam-se mais e mais, quando as imagens embaçavam e desbotavam, desaparecendo numa escuridão turva e fria, e solitária. E então veio a dor ardente e cruel que se espalhava por todos os seus membros, gemeu quando se tornou insuportável – seu orgulho não o permitia gritar, e nem se arriscaria a entregar sua posição -, com lentidão abriu os olhos apenas para ver alguém curvado sobre si. Havia uma juba carmim puxada num minúsculo rabo-de-cavalo, o rosto parcialmente coberto pela franja vermelha escondia os traços faciais do desconhecido e sua incapacidade de raciocinar direito, misturada ao chiado em seus ouvidos, o impossibilitavam de ouvir o que – e com quem – o ruivo conversava.
— Não podemos ficar aqui Eiji. – era uma voz reconhecível para si. – Ele não está em condições de andar, você pode carrega-lo?
— Sim, claro. – de olhos fechados sentiu-se ser erguido e posto nas costas do ruivo que, de acordo com seu outro acompanhante, que era estranhamente familiar em meio a nevoa de sua mente, se chamava Eiji. – Ei, vai com calma. – ouviu novamente a voz, desta vez direcionada a si, quando tentara mover-se por livre e espontânea vontade. – Está tudo bem, não somos inimigos. – tranquilizou o Eiji enquanto arrumava uma posição melhor para o loiro em suas costas. – Está tudo pronto aí, Izu?
— Sim...
Fechou os olhos quando a brisa fria soprou em seu rosto, estremeceu ao sentir dedos gélidos contra sua testa.
— Está com febre. — então um suspiro. – Ele não vai ficar consciente por muito tempo, temos que nos apressar... – fora a ultima coisa que ouvira antes da escuridão retornar.
A próxima vez que despertara fora para ver um conjunto surreal de luzes piscar a sua frente, sua mente lentamente clareou para os sons dos trovões e relâmpagos, havia um mau-cheiro pútrido no ar e uma voz quase etérea cantava feitiços os quais o loiro só havia visto em livros velhos. Erguendo a cabeça e clareando a visão pode identificar uma figura pequena mais a frente, sua capa dançava entre as raias de energia e magia, e o trovão corria pela lamina da espada curta que o desconhecido empunhava. Não conseguiu identificar quem era, mas os cabelos bagunçados lhe pareciam dolorosamente familiares.
Viu-o erguer a espada e cortar o ar num golpe que devastou a floresta a sua frente, cortando arvores e bestas como papel, o som grotesco do trovão ecoou novamente naquele simples ato e Katsuki não pode deixar de se sentir maravilhado e invejoso diante daquela cena inimaginável. O homem ruivo que lhe segurava e mantinha seguro, ofegou, de canto de olho o loiro pode ver a brilho nos olhos carmins e o puro deslumbre transmitidos pelos traços faciais bonitos.
— É como... um Deus entre mortais... – o sussurro quase não fora pego por seus ouvidos, mas, enquanto fixava o olhar na magnifica figura pequena, etérea e monstruosamente forte que se mantinha de pé empunhando orgulhosamente sua arma metros a sua frente, Katsuki Bakugou não pode deixar de acenar mudamente em afirmação para as palavras ditas pelo ruivo.
Quem quer que fosse, era um Deus entre mortais.
Quando a breve batalha chegara ao fim, o loiro não suportara mais manter a consciência novamente, e adormeceu diante da familiaridade da voz de seu salvador. Entre devaneios e seu estado de semiconsciência, o loiro fora levado a filial da guilda de Caçadores, despertara na enfermaria, sua ferida – quase fatal – completamente curada, deixando para trás nada menos do que uma cicatriz branca como prova de que o Bakugou quase recebera o beijo da morte.
— Você, definitivamente, é uma pessoa de sorte, jovem Bakugou. – fora uma mulher jovem quem se pronunciara, usava um jaleco branco e por baixo um vestido rosa bebê, um par de botas 7/8 de salto médio e seu cabelo prateado era a única coisa que denunciava seu status como anciã; e o loiro a reconhecia da sede principal da guilda como a curandeira mais proficiente de todo continente. – Absolutamente um homem de sorte! – reclamara ela, estava horrorizada e ao mesmo tempo deslumbrada com os salvadores do loiro. Não era qualquer um que poderia curar uma ferida daquela magnitude e, quase literalmente, arrancar o paciente dos braços do deus da morte; ela poderia o fazer, obviamente, mas não sem pagar um preço, sua magia de cura ainda tinha um limite! No entanto o que fora feito com o homem loiro a deixara boquiaberta, e não era qualquer um que poderia a surpreender, não em identidade, não em poder, não em capacidade; mas o rapaz – rapazes – que salvara Bakugou despertou nela a ânsia que há séculos havia perdido: a curiosidade.
— Quem me trouxe? – fora direto e simples, e sua face já exibia uma testa franzida. A mulher suspirou.
— Você ao menos devia agir decentemente, Bakugo. – alertou-a. – Aquele rapaz... Não é qualquer pessoa, o simples fato de ele ter saído da sua rota com seu companheiro para ir a sua ajuda mostra o quão afortunado você é...
— Quem? Qual o nome deles? – o loiro já estava se irritando. A mulher suspirou.
— Um se chama Eijirou Kirishima, ele era do Clã de Assassinos agora faz parte da nossa Guilda, e o outro é Izuku Midoriya, um Explorador, mas pelo que sei ele é o mais jovem Grão Mestre de Runas de todo continente e sua lista de qualificações é tão grande que mesmo eu, uma anciã, me interesso por aquela criança... – suspira, mas o loiro parara de prestar a devida atenção diante da menção do nome de seu ex-amante. A raiva borbulhou dentro de si e isso o impulsionara a tentar sair da enfermaria para procurar o esverdeado, contudo a mulher o deterá, o loiro sequer tinha forças para se sentar, quanto mais correr até o hall de entrada. Isso se o moreno ainda estivesse na guilda. – Acredito que deva descansar, Izuku e Eijirou provavelmente ficaram para a noite, você poderá ter mais chances de falar com ambos amanha. – e com isso empurrou de volta o homem para a cama hospitalar e com um simples tapinha na testa o fez cair novamente no mundo dos sonhos.
Acordara na tarde do dia seguinte, o estomago chorando desesperado por comida. Conseguira escapar da enfermaria, mas quando chegara ao balcão e questionara sobre o esverdeado, já era tarde demais, o mesmo partira, junto ao companheiro de viajem, no inicio da manhã. Sentia-se frustrado e irritado. Queria bater em algo – alguém – até cansar, mas mal movia-se antes de sentir dor nas costelas. Mais ao canto podia ouvir sussurros e resmungos da curandeira, mas tratou de ignora-los enquanto devorava seu almoço e questionava-se quem fora aquele que os salvara do enxame de bestas-demoníacas e dos próprios demônios.
O que o loiro nunca imaginou fora que reencontraria o esverdeado e o ruivo novamente, e, assim como da primeira vez, em um momento inoportuno, mas o que nunca passou por sua mente era que ele descobriria que aquela figura etérea era, contra todas as possibilidades, o menino inocente e ingênuo cujo coração havia sido despedaçado por Katsuki.
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