Memories

1 Why aren't you here?


Enterre todos os seus segredos na minha pele

Desapareça com inocência

E me deixe com os meus pecados

O ar ao meu redor ainda me parece como uma gaiola

E o amor é só uma camuflagem

para o que parece ser raiva de novo

(Snuff, Slipknot)

As chamas tramitavam fracamente. Tudo que um dia a fizera se lembrar dele agora não passava de cinzas. Não conseguia esconder o sorriso cheio de ironia de seu rosto, já contaminado pela raiva, e pelo suposto sentimento de coragem que alguns goles de seu whisky preferido lhe proporcionavam.

Como em um momento súbito de loucura, gritou. Gritou até sentir tudo o que um dia fora amor se transformar em ódio e amargura. Não era fraca, mas ele a desarmou de tal maneira que ela se sentia como um frágil passarinho indefeso. Ela, que um dia fora temida por sua grossa barreira de indiferença a tudo em sua volta, não queria admitir, mas estava machucada por dentro. Assim como as coisas que um dia pertenceram a ele, deixou seu coração se tornar cinza.

À medida que as chamas aumentavam, a raiva incandescente crescia em seu peito, tomando um lugar que um dia pertenceu a seu coração e nublando seus pensamentos. Então, um sentimento de torpor começou a atingir seu corpo, fazendo-a agir por instinto, sem saber ao certo o que estava fazendo.

Ela já não pertencia a si mesma, não passava de uma lembrança de tudo o que um dia fora dele. Oh, como era doce o sabor de sua bebida, que a cada momento a fazia esquecer-se dele e, assim, dela mesma. Como ele pôde abandoná-la e deixa-la novamente com seus pensamentos destrutivos?

Ela se sentia quente, quente como se sentia quando estava com ele, flashes teimavam em confundir sua mente nebulosa com pensamentos ainda mais cruéis do que já imaginara um dia. O ar começara a pesar enquanto o fogo, tão raivoso quanto seus pensamentos, apagava a existência do homem, o primeiro, que um dia jurou amar.

Deixou as chamas lamberem seu corpo como se fossem beijos doces que morriam nos lábios de amantes apaixonados, sua bebida já não lhe causava a leve sensação de voar, seus pensamentos estavam pesados demais para permiti-la deste último desejo.

E então, com seu corpo sem vida no chão do apartamento que um dia pertencera a ele, todas as lembranças foram apagadas, todas as provas de um amor destrutivo morreram naquele último sorriso de ironia.

Todos a diziam para ficar longe daquele precipício, mas por que ela ouviria dessa vez? Sua mente já não tomava decisões lógicas, sua boca não formava palavras coerentes. Ela se tornara aquilo que um dia tanto temeu, alguém perdido. Perdido na própria escuridão.

Já dizia o ditado: “se olhar muito tempo para o abismo, o abismo olhará para você”. Foi isso que aconteceu, perdera tanto tempo observando da beirada que, quando menos esperou, estava mergulhada na mais profunda escuridão. Seus medos chegaram tão perto que sua voz sufocou um grito silencioso de ajuda.

Ajuda? Quem a ajudaria? Ninguém a entendia, nem ela mesma. Só sentia. Ela era puro sentimento, mas isso a ocorria a cada mês, a autodestruição ficava mais potente e astuta, cada vez acertando os machucados mais fundo e com mais precisão. Ela se tornara o próprio abismo, se consumindo em palavras cortantes e pensamentos tristes.

Virara um buraco negro, sugando todas as esperanças e memórias boas que um dia tivera. As mesmas sendo substituídas por tudo aquilo que ela temera e a angustiava. E, no fim, tudo se calou. No silencio, gritara seu pedido de liberdade, de voltar a ser só ela mesma.

Notas finais
Uma fic um pouco pesada, admito. Porém coisas deste estilo me atraem de tal maneira que não consigo ficar longe, também posso dizer que o momento que eu estava na minha vida escrever era meu único refúgio e isto acaba influenciando bastante nos temas. Obrigada a quem leu ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!