Memories
2 Capítulo 1 - O Comensal da Morte
Notas iniciais
Lucius e eu já estávamos casados há mais de um ano. Esse tempo todo em que estivemos juntos, aprendemos muitas coisas um sobre o outro e evoluímos como casal. Ele tinha sua carreira diplomática no Ministério da Magia e eu, ficava em casa, mas nunca desocupada, já que era extremamente trabalhoso manter a Mansão Malfoy impecável e com tudo em ordem.
Porém algo estava perturbando a paz: o tal Lord das Trevas, a quem Bellatrix dedicava todas as suas atenções e olhares, mesmo ainda casada com Rodolphus Lestrange, estava ganhando força e com sua política de supremacia da pureza do sangue mágico, acabou ganhando apoio de famílias grandes e antigas como a família da qual vim e a qual agora pertenço.
Lucius Malfoy era um marido exemplar: carinhoso, atencioso, nunca deixou faltar nada em casa, vivia a me elogiar e presentear constantemente, cuidava ele mesmo dos pavões que me foram dados como presente de casamento (o que ele afirmava ser sua terapia anti-stress), não tinha pressa em ter filhos e não me pressionava com isso e cuidava muito bem da própria aparência. Porém tem algumas semanas que ele anda bem estranho: disperso, desatento, distante. Ele perdera o interesse pelas coisas de casa, até os pobres pavões perderam sua atenção. E por fim, estava perdendo o interesse em mim... Já não me procurava mais e muitas noites passava em seu escritório e ia direito para o trabalho. Sempre que chegava, eu estava lá para recebê-lo, mas não fazia a menor diferença: ele continuava indiferente.
Eu não podia contar essas coisas para minha mãe ou Bella, pois certamente elas diriam que a culpa é minha e que eu não sou uma boa esposa e tudo mais.
Quando decidi perguntar a ele o que acontecia, ele só me disse que estava estressado por causa do trabalho no Ministério da Magia e que tudo estava bem.
Só podia escrever à Amber sobre isso, então fui até a escrivaninha destinada a mim, que ficava em nosso quarto e desabafei:
"Queria Amber, como está?
Preciso de um conselho. Lucius tem agido estranho comigo ultimamente e mal temos nos falado ou tocado. Não sei mais o que fazer para agradá-lo. Não posso contar isso à minha mãe ou a Bella por motivos óbvios e Dora anda muito ocupada com o novo trabalho, então recorro a você. Por favor, me ajude.
Muitas saudades,
Cissy.”
Amber não demorou a me responder, dizendo que me visitaria no dia seguinte, enquanto Lucius estivesse no trabalho. E eu, como a boa esposa que sou, fui informar ao meu marido que receberia uma visita. Avancei até a porta de seu escritório e dei uma batida leve e tímida:
— Entre. – A voz de Lucius veio lá de dentro, abafada.
Quando abri a porta, eu o vi debruçado sobre rolos de pergaminhos, uma ruga de preocupação em sua testa jovem. Seu escritório, cheio de prateleiras com grossos e antigos livros sem título, era pontuado por pedestais onde ele exibia uma coleção sinistra de artefatos de magia negra e amaldiçoados, aquilo me causava arrepios. Conforme fui me aproximando, ele agitou a varinha e todos aqueles papeis abertos se tornaram rolos perfeitamente organizados.
— Pois não, Narcissa? – Ele pôs-se em pé quando cheguei em frente a ele.
— Eu queria saber... – Eu comecei, receosa – Se Amber pode vir me ver amanhã. Há tempos não nos falamos e ela disse que estará de folga do Gringotes.
— Ora, mas é claro que sim. – Ele ergueu uma sobrancelha enquanto me mirava – Não precisa pedir permissão para receber nossa madrinha de casamento.
— Certo, então... Obrigada.
Fui saindo, sentindo meus olhos lacrimejando, e fazendo o possível para não chorar na frente dele.
— Narcissa, espere.
Respirei fundo, e me virei para ele:
— Por que veio aqui?
— Porque eu estava pensando numa desculpa para ver meu marido. Desculpe por interrompê-lo. Boa noite. – Despejei as palavras sobre ele e fui saindo.
Ele não veio atrás, se quer me chamou de volta ou me pediu para ficar. Apenas agitou a varinha arrumando novamente os papéis e voltou para seus documentos. Naquela noite, sem surpresa, dormi sozinha.
No dia seguinte, quando levantei para o desjejum, Amber já me esperava ao pé da escada com um ar de preocupada. Ela se casara seis meses depois de mim, e o matrimonio fizera um bem visível a ela. Amb veio em minha direção e me abraçou:
— Cissy querida, que saudades!
Eu a abracei de volta e tive que controlar minhas lágrimas:
— Obrigada por vir, minha amiga. Não sabia a quem mais recorrer.
— Calma. Está tudo bem. Estou aqui com você agora. – Ela me pegou pela mão – Vem, pedi para o seu elfo doméstico servir o café da manhã nos jardins do fundo.
— Dobby é realmente muito prestativo. Mas Lucius diz que não devemos nos apegar aos nossos serviçais. – Eu disse, revirando os olhos – Sinto muito a falta da velha Coifa, ela era minha melhor, e única amiga na casa de meus pais...
Nos sentamos e, enquanto nós quebrávamos o jejum, fui contando para Amber toda a minha situação com Lucius e como o nosso relacionamento de contos de fadas acabou se transformando num pesadelo. Ela ouviu pacientemente sem dizer uma palavra se quer até que eu terminasse tudo. Quando me calei, ela falou:
— Posso falar agora? – Acenei positivamente com a cabeça, enquanto ela tomava um gole de chá –Tudo isso que você me contou... Me deixou preocupada.
— Por Merlin, preocupada com o quê? – Eu estava quase desequilibrada.
Amber me olhou com olhos doloridos e relutantes:
— Cissy, Lucius está dando todas as indicações de traição. Todos esses sinais... Vivi isso por anos vendo meu pai enganar a minha mãe e se distanciar dela e tudo mais. Mas minha mãe nunca teve coragem de confrontá-lo, sabe. – Ela respirou fundo – Então, quando eu completei nove anos, meu pai adoeceu e morreu. No funeral dele, até apareceram outros filhos dele e amantes. Minha mãe nunca mais foi a mesma. – Ela entortou a boca, num pedido mudo de desculpas. – Pode não ser isso, mas creio que você deveria conversar com ele. Faça ele falar e, se realmente tiver uma terceira pessoa envolvida, decidam o que vão fazer. Estou aqui para te apoiar hoje e sempre.
Eu não sabia o que responder. Eu senti meu chão abrindo e minha vida desmoronando. Sem conseguir me conter, chorei. Solucei por mais de uma hora apoiada no ombro de Amber. Quando finalmente consegui me acalmar, nos dirigimos até o viveiro de corujas, onde escolhi uma delas para enviar uma mensagem pedindo a Lucius que jantássemos juntos ainda hoje.
Mil coisas passaram pela minha cabeça. Dividi minhas aflições com Amb e ela me disse que eu não tinha que me preocupar e que se o nosso casamento realmente fosse terminar, ela me ajudaria a montar uma floricultura pequena e bonita, onde eu poderia dedicar meu tempo integral às flores que eu tanto gostava.
Amber e eu nos despedimos já próximo da hora da chegada de Lucius e, diferente dos outros dias, não fiquei esperando por ele à porta de casa. Fui até nosso quarto, tomei um banho rápido, me vesti adequadamente para o jantar e desci para a sala de jantar, para não correr o risco de nos encontrarmos antes da hora.
Na hora da refeição, Lucius entrou o recinto, usando elegantes vestes marrons e brilhantes. Sentamos frente a frente e começamos a saborear a entrada ainda sem trocarmos uma palavra. Secretamente, eu esperava que ele falasse algo, mas sem sucesso. Respirei fundo, fechei minha mente, pousei meus talheres e perguntei:
— Quem é, Lucius?
Ele foi pego de surpresa, e franziu o cenho, confuso:
— Quem é o quê, Narcissa? O que está acontecendo?
— Quem é ela, Lucius? – Eu perguntei, aborrecida – A mulher com quem está se encontrando?
— Mulher? Não estou entendendo, Cissy. – Ele parecia genuinamente confuso.
— Lucius, eu sei o que está acontecendo. Sei que está... – Tive que respirar fundo para conseguir manter minha voz firme – ... me traindo.
Eu o encarei com severidade.
— Por Merlin, Narcissa de onde você tirou essa ideia insana de que eu estou te traindo? – Ele estava alarmado.
— Do seu comportamento, da sua indiferença. Você não se importa mais comigo ou com a casa ou com nada. Só demonstra interesse para o que está além daqui. Lá fora...
Ele me olhou com dúvida e depois fechou os olhos e baixou a cabeça.
“Ele vai admitir”, pensei comigo.
— Narcissa, não é nada disso que você está pensando. Eu ando sim, muito ocupado e com a cabeça cheia, mas não estou te traindo. Eu juro.
Ergui uma sobrancelha para ele, indicando incredulidade.
— Então o que é? O que você está escondendo, Lucius? Pensei que tivéssemos concordado em sermos honestos e transparentes um com o outro. – Havia um ligeiro tom de desafio em minha voz.
– Certo, era o nosso acordo... – Ele hesita por meio segundo – É o nosso acordo. Você quer realmente saber?
— Mas é claro que sim! – Eu disse, de forma controlada. Enquanto por dentro, eu estava passando por uma verdadeira erupção – Conte-me tudo.
— Narcissa, eu estou trabalhando para o Lord das Trevas. Fui incluído em seu círculo de amigos mais íntimos e estou crescendo em prestígio.
Meus olhos estavam arregalados, e tive que tomar um gole da minha taça de água para organizar as ideias e manter a mente bem fechada.
— Então quer dizer que você é um dos tais Comensais da Morte, que andam falando por aí?
— Sim, minha querida. E assim que o Lord das Trevas chama seus amigos mais diletos.
— Lucius, essas pessoas são más. Elas matam sem piedade e destroem lares, não creio que você possa estar fazendo parte de uma coisa tão sinistra como essa. Já não bastam os itens amaldiçoados que você insiste em manter em casa, que eu acho horrivelmente macabro...
— Não Cissy, nós não somos maus. Só queremos transformar a comunidade bruxa num lugar melhor para se viver. E expurgar de uma vez aqueles sangues-ruins do nosso mundo e...
Eu o interrompi bruscamente:
— Eu já pedi mais de mil vezes para que você não use essa palavra. Por favor, pare.
— Me perdoe querida, mas essas... Pessoas estão tomando nosso espaço, nossos empregos e misturando o sangue trouxa dela às nossas famílias. Nome, que antigamente era tão importante, hoje não quer dizer quase nada, e isso é inaceitável. Nós, que mantemos a pureza do sangue somos os únicos que merecem acesso a magia, e o Lord das Trevas nos promete essa mudança. E, principalmente Narcissa, vai recompensar aqueles que forem mais fiéis. – Ele levantou-se de sua cadeira e se ajoelhou ao meu lado, enquanto pegava minha mão – Me perdoe Cissy... Me perdoe por fazer você acreditar que havia uma terceira pessoa entre nós. – Ele plantou um beijo leve nas costas da minha mão – Não há nenhuma outra mulher no mundo para mim além de você. Não há nenhuma outra mulher na vida que eu queira além de você. Me perdoe. Prometo que vou melhorar. E cuidar de você e dos pavões. Eu te amo, Narcissa.
Eu ergui seu queixo para ver seus olhos marejados:
— Nunca mais esconda nada de mim, Lucius. Eu imploro. – Ele sorriu triste, mas assentiu – Eu também te amo. – E pela primeira vez em muito tempo, nossos lábios se tocaram.
Ao contrário do que uma boa mulher faria, nossa reconciliação terminou aí. Nós dormimos juntos em nosso quarto, mas não deixei que ele me tocasse. Ele precisava entender que esse tipo de assunto não pode ser resolvido à moda antiga, onde o casal ia para a cama e varria o problema para debaixo do tapete. Eu nunca quis uma relação assim. E nem ele.
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