Memories
3 Who Are You?
Já completava uma semana do acidente de Izzy, admito, eu me encontrava naquele instante bem melhor do que eu estava no dia em que a tragédia aconteceu. A visitava todos os dias, lia historias para ela, contava um pouco do meu dia, alguma coisa me dizia que ela podia me ouvir, e que se interessava por nossas historias e pelas minhas tonteiras desastrosas. Eu me lembro bem de como ela ria dessas asneiras que eu contava, ria sentada logo a minha frente e me dizendo “Quando vai deixar de ser tão boba querida?”, eram essas lembranças que não me faziam desistir dela nunca, nem um diazinho sequer.
Era dia 29, um Domingo, e domingos alternados eu ia na casa de minha sogra, como um costume meu e de minha esposa que fazíamos questão de manter. Primeiro domingo do mês na casa de minha mãe, o segundo na casa da mãe dela, sempre almoçávamos e nos distraímos com certas historias que nossas mães contavam sobre nós quando éramos mais jovens, um tanto quanto constrangedoras pois minha mãe não media os apelidos fofos direcionados a mim, me deixavam até vermelha, e para Izzy isso, era motivo de me achar perfeita. Eram nos mínimos detalhes que ela notava e me dizia que eu a fazia feliz, ela não precisava de muito, de flores todos os dias, de jantar a luz de velas, ela me dizia que um simples “eu te amo” e um filminho bom abraçadas na cama, já era o suficiente. Simples como eu, éramos simples, e na simplicidade encontrávamos a mais rara sensação que todo casal anseia, a felicidade.
Estava a caminho da casa de Lilian, ouvindo uma musica na rádio cantarolando algumas partes, não vesti nada muito especial, uma blusa de alça fina branca e lisa, debaixo de um casaco longo e aberto frontalmente sem botões, e uma calça justa cor preta, curiosamente a que tinha ganhado de presente de natal dos primos de Izzy, o primeiro sinal de cortesia deles para com minha pessoa. É, mas esses são um assunto longo, convém conversamos sobre eles mais a frente. Cheguei logo apertando a campainha, Lilian me atendeu com um sorriso de lábios cerrados porém bem marcados nas extremidades, seus cabelos estavam soltos, o que é praticamente raro. Me convidou para entrar e me sentar, e pediu que não ligasse para a bagunça, estavam de mudança, aquilo me intrigou, viviam ali há anos, porque se mudar agora? A curiosidade me venceu e a fiz essa pergunta, como resposta recebi um “Sempre é bom respirar novos ares”. A olhei fundo nos olhos e disse
— Lili, você sabe muito bem que não me engana, te conheço tempo suficiente para saber quando esta mentindo – Como sinal de rendição ela afrouxa os braços que estavam cruzados e respira fundo.
— Queremos esquecer por um segundo que Izzy está naquela situação Barb, é difícil para nós, é difícil para mim, lidar com minha filha em uma cama de hospital em como há 7 dias, isso me parte a alma, eu só ... não aprendi a lidar, só isso. – Me inclinei para frente com a intenção de segurar sua mão suavemente e com o olhar mais terno que cabia para aquele momento respondi
— Não é fácil pra ninguém lidar, principalmente para uma mãe. Chorar as vezes faz bem sabia Lili, ninguém é de ferro, não precisamos ser fortes o tempo todo querida, a vida é feita de dores e se as prendemos dentro de nós, nos ferem ainda mais. Elas precisam sair daí, precisam ir embora ... – Seus olhos se marejaram de lagrimas, suas mãos ficaram tremulas, ela não gostava de chorar frente a ninguém, não se abria, não se permitia conhecer profundamente, era um mistério por si só. Mas naquele instante conheci uma Lilian que jamais pensei em ver em minha frente, não ao vivo e em cores, a vi chorar, se culpar, se martirizar, aquilo me desesperava pois a culpa não era dela, a culpa não era de ninguém, mas mãe, ah mãe, mãe é um bicho esquisito que toma as dores dos filhos como se fossem delas, e são ... na verdade são.
— Ai meu Deus, chega! Chega, chega. Não quero que Rafa me veja nesse estado – diz com sua voz fanha de choro limpando suas lagrimas com os dedos. – Muito obrigada Barb, nunca pensei que iria ter esse tipo de conversa com você um dia, acho que demos mais um passo.
— Pois eu tenho certeza disso. – E como se as surpresas daquele momento não fossem suficientes, ela abre os braços e me envolve em um abraço apertado e acolhedor, me agradecia mais uma vez, foi como se eu pudesse sentir um peso enorme sair de suas costas, e um suspiro longo levar toda sua dor embora, foi único, foi marcante.
— Vamos, vamos, deixemos de chorar e falar de coisas boas por favor.
— Claro, claro, desculpe, tenho um coração de manteiga – digo entre risos me recostando outra vez no sofá. Me lembrei que ela havia mencionado em Rafa, foi a única pessoa que eu não vi depois do acidente, será que estava bem? Não sabia que estava na cidade, pensei que ainda estivera viajando em uma dessas rotas doidas que faz como aeromoça.
— Lili, me disse que não queria que Rafa te visse assim, ela esta aqui?
— Está sim, la dentro, chegou ontem de viagem, tirou um tempo de férias para ficar aqui com a família e ajudar a gente na mudança.
— Como ela está?
— Acho que seria melhor fazer essa pergunta a ela mesma – Suspirei e logo em companhia de Lilian fui levada até o quarto onde Rafa estava. Ao abrir a porta com a permissão dela de entrar podia se ver uma cama um pouco atrás da porta, cortinas abertas, bichinhos de pelúcia por quase toda parte, e Rafa, frente ao computador vendo suas fotos com Izzy, uma cena um pouco dolorosa de se ver. Minha sogra me deu passagem e eu entre de uma vez, sem fazer rodeios para não dificultar mais, como naquele velho ditado “Segura na mão de Deus e vai”.
Entrei ainda um pouco em retaguarda pois preparava dentro da minha cabeça um discurso para falar pra ela, mas eu sabia que não ia funcionar por que nada do que planejamos na hora “H” dá certo. Parei frente ao computador um pouco atrás dela, mas não muito, apenas para poder olhar as fotos de Izzy também.
— É, ela é linda não é? – Pergunto tentando puxar assunto.
— É, linda. – A fitei por alguns instantes e pra quebrar o silencio disse
— Sente falta dela? – Ela então para, gira com a cadeira até ficar de frente pra mim e responde
— Você não sabe quanto sinto a falta dela, o quanto a ausência dela me dói.
— Posso imaginar.
— Eu até pensei em não vir, porque não sabia se era capaz de passar por aquela porta e não chorar lembrando que ela não estaria lá para me receber com uma bronca e um abraço. – Solto um riso de canto de boca quando ela diz aquilo, Izzy adorava atormenta-la, cada dia era uma forma diferente das duas brigarem, brigavam muito mas se defendiam como um cão defende seu osso, eram parceiras acima de tudo. – Por que Deus é tão injusto? Por que ele coloca essas coisas no meio do caminho das pessoas como se não fosse afetar mais ninguém por quê?
— Ei Rafa calma, eu sei que está nervosa, todos nós estamos, mas Deus, com certeza fez de tudo para ajudar Izzy.
— Ah se ele soubesse o quanto dói ver uma irmã deitada imóvel numa cama de hospital, ligada a um monte de aparelhos e com o risco de não acordar nunca mais. Isso dói muito. – Diz a ultima frase pausadamente me olhando já com o rosto todo vermelho de choro, aquilo fez meus argumentos se embaralharem ainda mais, Rafaela me deixava confusa algumas vezes, eram tão intensa e extremista que me deixava encurralada.
— Eu sei que dói, mas precisamos ser fortes, fortes por ela. Ela vai sair dessa, ela vai voltar pra nós exatamente como a Izzy de antes, a sua irmã é o ser mais forte que eu já vi, não vai ser isso que vai tira-la de nós. – Ela respira fundo e volta a fitar a foto dela com Izzy. Me pediu um tempo sozinha, eu concedi claro já deixando o quarto e voltando para sala onde para minha surpresa estava meu sogro, não era tecnicamente meu sogro, mas criou Izzy juntamente com Lilian desde quando ela nasceu, portanto, ela o considera como pai e eu como “sogro”, por ela, apenas por ela, por que de pai ... apenas o titulo, mais nada.
— O que ela esta fazendo na minha casa? – Aponta para mim como se eu fosse uma criminosa ou algo do gênero.
— Alex por favor, — Pede minha sogra tentando o acalmar. Me senti acuada e desconfortável, peguei minha bolsa respirando com dificuldades um ar tenso que havia sido criado ali naquele lugar.
— Não, não se incomode Lili, eu já estou de saída.
— Não deveria nem ter chegado para começo de conversa – Costumava ser assim sempre, nem em uma situação triste e nada agradável como esta ele relevava, tinha que criar um clima ruim em todo santo dia que íamos fazer uma visita, em qualquer época do ano, Natal, Ano novo, páscoa, Dia das mães, qualquer uma, ele sempre encontrava um jeito de acabar com toda a descontração usando o machismo do século XXI dele. Tentei inúmeras vezes ser legal, gentil e educada e em todas essas vezes eu levava um sermão em um tom de voz ameaçador e sarcástico.
— Eu apenas vim dar meu apoio a Lilian, que por acaso você não deve ter notado porque só olha para si próprio, está mal. – Ele o olha com a expressão ainda fechada e me volta o olhar novamente.
— Ela não tem que levar apoio de ninguém como você, ela tem um marido em casa, um homem, que pelo jeito é o que te falta.
— ALEX! – Aquilo pra mim foi demais, estava quase encostando na porta quando ouvi tamanha ignorância. Me aproximo novamente atirando minha bolsa no sofá e levantando meu dedo indicador, estava fervendo de raiva por dentro, quase podia sentir meu coração na garganta.
— Grande homem você é Alex! Grande homem você é! Um fracassado que não consegue nada na vida, nem sequer erguer um negocio próprio, que precisa da esposa até para respirar, não faz nada por ninguém, nem a filha de sangue soube criar com amor, sempre vem com esse papinho furado de que foi criado num exercito que la as coisas são pesadas e blá blá blá! Isso já faz 20 anos, 20 anos! Em 20 anos você poderia ter se tocado e criado caráter e maturidade para ver que é preciso mudar, mudar pra melhor, pra cuidar de uma esposa e dar amor a duas filhas e fazer de tudo isso uma família, não um jogo de xadrez em que você rouba pra ganhar – me faltava o fôlego e mais algumas palavras entaladas na garganta pra dizer a ele, tudo o que pensava sobre ele, mas apenas não disse porque vi que Lilian já pedia calma fazia dez minutos e por ela, em respeito a ela finalizei aquilo tudo com a seguinte resposta
— Mas o que esperar ... mas que tolice minha esperar algo de alguém que nem de si próprio cuida, que nem de si próprio ama. Com licença – pego minha bolsa e saio dali em meio ao silencio torturador. Aquilo definitivamente acabou com meu dia, destruiu meu bom humor, eu sou alérgica até hoje a machismo.
Dalí fui direto pro hospital. Lá chegando me identifiquei na recepção com a mesma moça da vez passada que me tratou com certa indiferença quando disse que Izzy era minha esposa. Como meu dia já estava sendo terrível, resolvi descontrair um pouco. Que mal tem? Me aproximei da recepção sorrindo sarcasticamente, tiro os meus óculos de meu rosto e olho a moça com os olhos semicerrados.
— O que deseja? – Disse áspera me olhando por cima da revista que lia.
— Gostaria de uma visita para o quarto 33 por favor.
— Quem gostaria?
— Ah vai dizer que não se lembra de mim? – apoio meu braço no balcão levantando uma de minhas sobrancelhas.
— Meu trabalho aqui no hospital é atender, não saber o nome das pessoas que atendo.
— Otimo, então me de o adesivo de visita porque quero visitar a minha esposa. – a olho como se a pudesse fuzilar. Ela então me entrega o adesivo e eu colo em meu busto.
— Não deveria ser permitido casamentos assim aqui.
— Ah mas eu acho que deveria sim, sabe porque? Porque quando esses “tipos” de casamentos acontecem, duas pessoas se unem para se amar e não ficar cuidando da vida dos outros. – Sorrio mais uma vez olhando a expressão assustada da recepcionista. – A propósito, você é casada?
— Não.
— Já vimos o por que. – Me viro e sigo até o quarto de Izzy. Abro a porta já chamando por ela, que estava melhor, sem a faixa na cabeça, e alguns cortes se cicatrizando, estava com o rosto mais limpo, mais saudável. Me sentei ao seu lado e segurei sua mão para começar a contar o meu dia. Enquanto eu dizia tudo o que havia acontecido comigo naquele dia, a olhava as vezes me perdendo em minhas palavras, tropeçando nelas, ela era tão linda, as vezes ficava em duvida se eu que tinha um bom gosto ou ela um gosto razoável. Não mudou nada desde o dia em que havia a conhecido, tinha os mesmos olhos de cílios grandes e curvados, nariz pequeno e delicado, rosto liso sem nenhuma machucado ou acne. Mãos delicadas como as de uma princesa, pele lisinha e macia, cabelos ondulados naturalmente castanhos porém tingidos de loiro por que segundo ela, a deixava mais jovial, e mil vezes mais bonita, confesso. Uma mulher totalmente menina, que as vezes gostava de brincar de ter responsabilidades e andar de salto alto, era ao mesmo tempo o inverso, uma menina totalmente mulher que levava muito a serio a extrema importância de se conversar sobre a existência de unicórnios ou de se ganhar corridas no vídeo game. Era muitas em uma só, acho que quando encontramos alguém assim, nos desligamos de tudo e nosso foco permanece unicamente e eternamente ... nela.
Enquanto eu a admirava alguns batimentos cardíacos dela começavam a se acelerar, no começo nada muito fora do normal mais na medida que se passava os segundos, eles iam aumentando, aumentando de tal forma que me deixou assustada. Quando ia chamar algum enfermeiro para me ajudar, sinto minha mão ser levemente apertada, mas tão suave quanto um toque de uma pena, tão sutil que eu poderia ter deixado passar desapercebido, mas não tinha como, ela havia apertado minha mão. Na mesma hora a olho e franzo o cenho, se fosse mesmo ela, que fizesse outra vez. E ela então fez mais, abriu os olhos, lentamente como se estivesse acordando de um sono pesado, como se sua visão estivera buscando um foco, buscando se concentrar em algo, e esse algo foi eu. Seu olhar encontrou o meu, mal podia acreditar que aquilo era verdade, abriu e fechou os olhos algumas vezes, eu não era capaz de pronunciar uma palavra sequer, e ela também não, apenas nos olhamos, nos olhamos, meu sorriso se abria muitas vezes enquanto ela permanecia seria, me encarando, olhando cada detalhe meu, praticamente era como se estivesse me vendo pela primeira vez. E foi então que em uma voz rouca e em tom baixo quase inaudível que ela me diz
— Quem é você?
Quase cheguei a pensar que era alguma brincadeira, meu sorriso se desfez, meu coração desacelerou, minha mão se afrouxou da dela e a dor invadiu meu coração. Ela havia se esquecido de mim? Como? Como assim quem sou eu? Como não pode lembrar-se de mim? A fiquei olhando por longos minutos, buscando alguma resposta plausível pra aquilo mas ... não achava nada, ela havia se esquecido... esquecido de mim.
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