As costas da garota escorregaram pela parede e ela teve como ultima visão as grossas gotas de chuva que batiam na janela e então fechou os olhos.

ӜӜӜ

Quando Cecilia acordou, no dia seguinte, percebeu que tudo ao seu redor tinha mudado. A ampla sala onde se encontrava, estava parcialmente queimada. As paredes estavam chamuscadas pelo incêndio que ocorrera noite passada. As cortinas estavam queimadas, as janelas quebradas e o imenso piano de cauda que ficava no canto esquerdo da sala estava em pedaços. No ar ainda era possível sentir o odor desagradável que o fogo deixara.

– Eu estou viva? — Perguntou para si mesma tentando encontrar uma explicação para ter sobrevivido. Uns homens, que ela percebeu serem os bombeiros pelas roupas pretas e listras horizontais amarelos neon, entraram pelo que havia restado da porta e pararam no centro da sala.

– Com licença senhores — Cecilia disse educadamente, mas nenhum dos homens lhe deu atenção o que ela considerou grosseria. Então limpou a garganta e falou com tom mais alto e firme:

– Com licença, eu queria sab. — Ela parou imediatamente de falar ao sentir um dos homens atravessar seu corpo enquanto se encaminhava até a escada e subia em direção ao segundo andar.

– Então encontraram alguma coisa? — A garota ouviu uma voz familiar e um misto de alivio e alegria invadiram Cecilia assim que ela viu seu pai, mas isso logo mudou quando ela viu a expressão de tristeza dele.

– Sinto muito Sr. Martinez — O bombeiro disse somente essas palavras, mas pela sua expressão era possível saber do que se tratava. Não havia sobreviventes do incêndio. Cecilia estava morta.

Cecilia achava que obviamente aquele bombeiro estava errado e não deve ter procurado direito, afinal ela estava bem ali, parada ao lado dos dois.

– Não. Eu não estou morta. Eu estou aqui. Eu estou aqui pai! Pai! — Ela gritava mais ninguém parecia ouvi-la. Ela tentou tocar seu pai, mas sua mão esquerda passou direto por ele.

– Meus Deus!- Já era possível ver lágrimas em seus olhos- E o... corpo ?

– Provavelmente foi carbonizado.

– Foi uma grande perda para nós dois Sr. Martinez. — Uma silhueta conhecida adentrou as ruínas da mansão- Eu tentei salva-la, mas não consegui. – O homem abaixou a cabeça como se sentisse culpa.

– Eric seu mentiroso! Foi você que me matou e deixou meu corpo queimando no incêndio! — Ela disse furiosa para seu assassino que não a ouviu assim como as outras pessoas ali presentes. Ninguém conseguia ouvi-la ou vê-la e isso era frustrante. O desalmado que a tinha matado estava ali na cena do crime se fingindo de inocente enquanto colocava a mão no ombro do pai de Cecilia.

– O segundo andar quase não foi afetado pelo fogo. — Falou um bombeiro que descia as escadas. O mesmo que havia atravessado o corpo de Cecilia há uns minutos atrás. -A tempestade que caiu ontem contribuiu bastante no controle das chamas. Se fizerem uma limpeza e reformarem algumas paredes a casa ficará com nova.

– Não sei se farei isso. Não me imagino morando na mesma casa que ela morreu. – Eric disse com expressão desolada como se realmente se importasse com a morte da garota.

– Mas para onde vai agora que sua casa foi destruída? — Sr. Martinez perguntou com certa preocupação, já que sabia que Eric tinha somente como família o irmão menor e o pai que sempre viajava para vários estados do país.

– Tenho uns primos que moram numa cidade próxima daqui. Sei que eles me receberam de braços abertos

– Bom, fico feliz em ouvir isso. Eu ofereceria minha casa para você passar um tempo, mas depois da morte da minha filha não há mais nada que me prenda a esta cidade.

– Acho que Cecilia ficaria feliz em saber que esta seguindo em frente. — Ele disse com um leve sorriso no rosto o que Cecilia entendeu como deboche. Ela não acreditava o quão cega tinha sido todos àqueles anos em que julgou Eric uma pessoa boa, um amigo fiel, divertido e talvez um pouco carente por ter sido abandonado pela mãe. Mas agora a máscara dele havia caído e pela primeira vez ela viu Eric como ele realmente era: manipulador, egoísta e vampiro.

– Acho melhor eu ir para casa resolver logo a papelada do... Velório – Sr. Martinez disse com pesar na voz

– Acompanho o senhor até o carro — Todos, incluindo os bombeiros, começaram a caminhar para fora da casa.

– Fica longe do meu pai! — Cecilia gritava e socava as costas de Eric, mas ele não ouvia e muito menos sentia as investidas da garota. Quando ele e o Sr. Martinez saíram pela porta Cecilia tentou segui-los, mas foi impedida por um tipo de barreira invisível. Ela tentou todas as janelas do térreo, mas a barreira invisível estava por todos os lados cercando a mansão como uma prisão feita especialmente para impedir Cecilia de sair.

Ela se sentou no chão encolhida em um canto qualquer da sala se sentindo a pessoa mais amaldiçoada do mundo. Não bastava ter morrido de modo dramático em uma mansão em chamas com um vampiro mordendo seu pescoço e bebendo seu sangue até a última gota, ela ainda por cima estava presa na casa que lhe trazia tantas lembranças amargas e dolorosas. Ela ficou sentada ali por minutos, horas ou talvez dias, ela já havia perdido a noção do tempo.


Frase do Capitulo: " Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida. "

– Gustavo Flaubert


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.