Memories

32 Memory Thirty One


Notas iniciais
Sabe, eu queria colocar nessas notas todos os agradecimentos que tenho para fazer. Essas últimas semanas, dias em que eu estava muito desanimada, foram cheias de coisas incríveis. Meus leitores, esses safadinhos lindos, foram perfeitos comigo e me fizeram coisas maravilhosas. Recebi MUUITOS fanarts e muito apoio. Minha gratidão é indescritível e eu queria colocar aqui uma declaração de amor para cada um (uui~), mas como não dá e quero que cada um tenha seu brilho, vou ir fazendo aos poucos. Mas, para aqueles que ainda não apareceram, sintam-se abraçados! A Kah ama vocês e agradece por fazerem Miracle e Memories se tornar quase um fandom. Hoje será a vez da Hika-chan. Dedico a você esse capítulo, sua linda. Conversar com você pelo facebook me faz muito feliz, adoro surtar com você e falar sobre Memories. É simplesmente uma inspiração! Obrigada pelas lindas fanarts que você me fez e por dizer coisas tão profundas para mim sobre a Mai, o Izaya e o Kiseki. Um dia, aguarde, suas palavras ainda terão espaço por aqui. E os fanarts, para quem estiver curioso: Mai-chan coelhinha, linda e fofa ~ https://fbcdn-sphotos-c-a.akamaihd.net/hphotos-ak-xfp1/t31.0-8/p417x417/1960862_1542295142708309_4859548122622003608_o.jpg E o fofíssimo Kiseki! https://scontent-a-mia.xx.fbcdn.net/hphotos-xaf1/v/t1.0-9/p417x417/10922860_1542730779331412_8802639823897597992_n.jpg?oh=f42afbddafaea934857fb9610bd43dbe&oe=55578CFE https://scontent-a-mia.xx.fbcdn.net/hphotos-xpf1/v/t1.0-9/s720x720/10984057_1542297502708073_5181321305180563082_n.jpg?oh=0ce8a85b1f08696cb604d875a898313f&oe=555C1281 E, agora, vou dar boas vindas a Arqueira Negra! Apesar de ainda não ter chegado aqui, fica o meu agradecimento. Obrigada pelos comentários e pela linda recomendação em Miracle. Graças a você, somos dez! Por último, vou agradecer a Rainha de Copas! Obrigada por sua linda recomendação em Memories! Você escreveu coisas lindas que me encheram de felicidade. Finalmente, vamos ao capítulo. Espero que gostem.

Memories

Memory Thirty One

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Aqueles eram dias calmos e felizes.

Pela manhã era sempre Izaya quem acordava primeiro, esse que gentilmente ajudava Mai a despertar. Após se levantarem, faziam suas higienes juntos e trocavam de roupa, para depois descerem para o escritório e compartilharem o café da manhã.

Todos os dias o informante a levada para escola, iam de mãos dadas e trocando pequenos comentários. E, pela tarde, o rapaz trabalhava, ansioso por ver Mai novamente, enquanto ela assistia às aulas no Raira. Quando finalmente o horário de sua saída chegava, ele largava seus serviços e ia buscá-la. Juntos, caminhavam de volta para o escritório, ou então optavam por irem a algum lugar onde Mai pudesse se divertir, sempre conversando, contando um ao outro como havia sido seu dia, ou simplesmente falando sobre coisas que gostavam ao longo do caminho.

Quando a noite chegava, já acomodados no escritório, faziam juntos o jantar e o comiam sentados confortavelmente no kotatsu, trocando conversas tranquilas ou discutindo coisas bobas. E, só quando já era bem tarde, subiam para o quarto e tomavam banho juntos. Nessas ocasiões, Izaya sempre aproveitava para provocá-la um pouco, seja apalpando-a em lugares indiscretos ou fazendo comentários maliciosos que a deixavam com o rosto vermelho, uma expressão dela que o rapaz amava.

Após terminarem tudo, às vezes demorando mais do que o normal, colocavam o pijama e se acomodavam na cama. Eram esses os momentos que Izaya mais gostava, pois ali, no conforto e segurança do quarto deles, sentiam como se o mundo exterior não existisse. Só havia ele e Mai, juntos e sem ninguém que os atrapalhasse. Nessas ocasiões, tomados pela intimidade que compartilhavam, aproveitavam para trocar carícias apaixonadas e proferirem palavras amorosas aos sussurros. Debaixo das cobertas, eles se deixavam levar, tomados pelo ardor da paixão e embriagados pelo amor que sentiam um pelo outro.

Aos olhos dos dois, aquela era uma vida perfeita. Para Izaya, era primeira vez que se sentia vivo e se deixava experimentar de uma vida livre de dores e inseguranças que o obrigavam a se esconder ou renegar seus sentimentos. Enquanto para Mai, era a primeira vez que saboreava de uma vida feliz e cheia de amor, onde pudesse se sentir confortada e segura, tendo seus pequenos sonhos realizados nos momentos que compartilhava com Izaya.

Juntos, realmente acreditavam estar saboreando de uma vida perfeita e feliz.

E esse foi o maior erro deles.

Acostumados àquela calmaria, fingindo não ver o que o futuro lhes reservava, ambos se esqueceram que precisavam se preparar para a grande tragédia. Essa que havia começado na primeira vez em que se encontraram e que, naquele fatídico dia em que Izaya deixou Mai sozinha para ir trabalhar, havia resolvido amaldiçoá-los com seu pesadelo.

O qual era apenas o primeiro de muitos.

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Não fazia parte dos planos de Izaya deixar Mai sozinha naquela dia, entretanto, um imprevisto havia surgido em seu trabalho que não podia ser ignorado. Por isso, prometendo voltar antes de escurecer, ele se despediu da jovem e deixou o escritório.

— Me espere para tomar banho ~ — Foi a última coisa que ele disse antes de ir embora.

Naquela tarde ensolarada, alheio ao que estava prestes a acontecer, Izaya andou despreocupado pelas ruas de Ikebukuro. Durante o caminho, chegou a encontrar Shinra e trocar algumas palavras com ele, observou pessoas e até teve que fugir de Shizuo pela cidade antes de chegar ao seu destino.

Ao longo do tempo que passou fora, nada de anormal lhe aconteceu, nem mesmo uma sensação ruim de mau agouro o acometeu. Em momento nenhum ele desconfiou de que algo de ruim iria acontecer naquele dia e nem de que seus pacíficos dias estavam contados. Todavia, se ele tivesse percebido o terrível pesadelo que se aproximava de Mai, ele nunca a teria deixado sozinha.

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O brilho da Lua, auxiliado pelas luzes dos postes, deixava o caminho claro e livre de sombras misteriosas para Izaya. Andando a passos calmos, ele rumava em direção ao escritório.

Havia prometido a Mai que voltaria antes do anoitecer para fazerem o jantar juntos, porém o problema que teve que resolver acabou lhe tomando mais tempo que o esperado, atrasando seu retorno. Sabia que ela iriam ficar um pouco magoada, porém Izaya estava tranquilo. Havia passado em uma confeitaria e comprado um grande pedaço de torta para ela. Tinha certeza que seu sabor favorito — ou melhor, seu segundo — iria acalmá-la.

Sim, isso a deixará feliz, ele pensou com humor. E, bem, se não fizer, eu tenho minhas maneiras de animá-la.

Ao chegar no prédio onde morava, Izaya penetrou no hall de entrada e seguiu para o elevador. Quando chegou em seu andar, deixou o cubículo e rimou para sua porta.

Enquanto procurava as chaves em seu bolso, o rapaz notou algo de estranho no ar. Interrompendo sua busca, puxou-o com mais força para dentro dos pulmões, sentindo um cheiro de queimado.

— Hm, ela deve ter deixado algo queimar — pensou alto.

Finalmente achando suas chaves, ele destrancou a porta e a abriu. Assim que entrou no escritório, o cheiro de queimado o atingiu com mais intensidade.

Virando-se para a cozinha, ele viu uma panela cheia de legumes e pedaços de carne queimados sobre o fogo alto. Todavia, apesar da situação, não havia sinal algum de Mai no recinto.

— Mai? — Ele chamou alto, indo até a cozinha para desligar o fogo.

De frente para o fogão, ele encarou os pedaços tostados do que devia ser o jantar deles e franziu o cenho. Mai até podia ser um pouco distraída, mas duvidava que ela seria capaz de abandonar uma panela no fogo daquele jeito.

— Mai? — Chamou-a uma segunda vez, porém mais alto.

Não tendo uma resposta, ele olhou a sua volta outra vez. Tanto as luzes do escritório quanto a televisão estavam ligados. E, além da panela no fogo, havia sobre a bancada um pedaço de alho-poró picado pela metade.

Sem entender o que estava acontecendo e começando a ficar realmente preocupado, Izaya se afastou dali. No entanto, no segundo passo que deu, sentiu-se chutar algo. Ao olhar para baixo, ele viu uma faca de cozinha caída no chão.

— Tsc, o que diabos está acontecendo aqui? — Praguejou.

Largando a caixinha em que trouxera o pedaço de torta sobre a bancada, o rapaz apressou-se até as escadas e correu para o andar de cima.

— Mai! — Chamou-a, porém sem resposta.

Inspecionando cada cômodo do andar superior, Izaya procurou por Mai, mas sem qualquer sucesso.

— Que droga, onde ela está?! — Perguntou-se irritado, sentando na cama do quarto que dividiam e passando a mão pelos cabelos, ansioso. — Parece até que ela simplesmente…

A frase não teve fim, porém ele sabia exatamente a palavra que faltava ali. E, ao chegar a tal conclusão, Izaya sentiu-se empalidecer e seu estômago embrulhar, deixando-o enjoado. Um medo devastador tomou conta do rapaz, fazendo seu peito doer.

— Não… — sua voz saiu fraca e trêmula. — Ela não poderia…

Levantando-se da cama, começou a caminhar e um lado para o outro no quarto, passando a mão pelos cabelos nervosamente. Com todas as suas forças, ele tentou ignorar tal possibilidade, enquanto buscava, sem sucesso, uma explicação para o que estava acontecendo.

Em meio a um passo e outro, uma ideia lhe ocorreu e ele logo levou a mão ao bolso do sobretudo, arrancando seu celular de lá. Quase desesperado, digitou o número de Mai e levou o aparelho ao ouvido.

O telefone chamou uma, duas, três, quatro vezes… Na quinta, quando já estava começando a perder suas esperanças, alguém atendeu. Todavia, a voz que ouviu do outro lado não era a de Mai.

— Izaya? — Ele ouviu Shinra do outro lado da linha.

— Shinra?! O que você está fazendo com o celular da Mai? — Exigiu saber com ferocidade, pouco se importante em parecer controlado. — Ela está com você?

— S-se acalme, Izaya — pediu o médico, um pouco assustado. — Sim, a Mai-chan está aqui comigo, só que…

— Ótimo, vou ai buscá-la agora — interrompeu-o com veemência.

Não queria perder um segundo sequer com conversas inúteis, a única coisa que desejava era voltar a ver Mai o mais rápido possível e ter a certeza de que estava bem.

— Espera! — Exclamou Shinra, antes que desligasse. — Não sei se é uma boa ideia você vir aqui.

— E por que absurdo motivo não seria? — Perguntou irritado.

— É que… A Mai-chan não parece muito bem e… — ele hesitou. — Ela disse que não queria te ver.

— O que?

— Olhe, eu também estou tão perdido quanto você — Explicou-se o outro, deixando a preocupação transparecer em seu tom. — Há mais ou menos meia hora encontrei-a chorando em uma praça aqui de Ikebukuro. Ela não parecia machucada nem nada do tipo, mas estava muito abalada. Preocupado, eu a trouxe para o apartamento e tentei acalmá-la. Porém, ela não parava de chorar e também se recusava a dizer o que havia acontecido. Sem outra alternativa, eu lhe dei um chá e a deitei na cama do antigo quarto de Celty. Ela até resistiu um pouco, mas acho que estava tão psicologicamente exausta, que caiu no sono bem rápido.

Izaya ouviu aos relatos do médico consternado. Antes de sair Mai estava tão feliz e sorridente, segura no escritório e livre de qualquer preocupação. O que de tão horrível poderia ter acontecido com ela durante o tempo que esteve fora para deixá-la em tal estado?

Agora, mais do que nunca, ele desejava vê-la. Precisava saber o que havia acontecido com Mai e cuidar dela, protegê-la do que a estivesse preocupando-a.

— E por que ela não quer me ver? — Perguntou o rapaz, retomando a conversa.

— Eu também não sei… — Respondeu Shinra. — Mas, antes de cair no sono, ela implorou para que eu não o deixasse entrar. “Por favor, não deixe o Izaya me encontrar. Não agora…”, foram as palavras dela. Acho que esse foi o momento em que a Mai-chan mais chorou.

Tsc… Que droga, o que está acontecendo o que?, pensou nervoso.

— E você realmente não vai me deixar vê-la, Shinra? — Perguntou sério.

A linha ficou em silêncio por alguns instantes

— Eu realmente não deveria… — falou ele. — Mas a Mai-chan pareceu tão desolada, que deixá-la assim, sem poder fazer nada, faz com que eu me sinta péssimo.

— Ótimo. Então eu vou até ai — decidiu. — Mesmo que ela acorde, não fale nada, ouviu?

— Certo.

Desligando o celular, Izaya rapidamente chamou um táxi e desceu para a rua em frente ao seu prédio para esperá-lo.

Enquanto aguardava, o informante começou a pensar no que havia e estava acontecendo com Mai naquele momento. Tentava de todas as formas, mas sua mente era incapaz de bolar uma explicação lógica para aquilo. Todavia, algo dentro de Izaya parecia tentar alertá-lo. Uma estranha ansiedade mesclada a um medo irracional revoltavam-se em seu peito, deixando-o desconfortável e temeroso a respeito da verdade que o esperava no apartamento de Shinra.

Pare com isso!, repreendeu-se, tentando empurrar para o fundo de sua mente aquelas inquietações.

Quando o táxi finalmente chegou, Izaya entrou nele e mandou-o seguir para a casa de seu amigo em Ikebukuro. Ao parar de frente para o prédio, pagou a corria e desceu, caminhando até o interfone. Após o médico atendê-lo e abrir os portões, Izaya rapidamente seguiu para dentro do prédio e subiu para o andar onde ele morava.

Chegando lá, antes mesmo de bater a porta, Shinra a abriu. As feições do médico estavam carregadas de preocupação, porém ele não deu sinais de que o deixaria entrar de imediado. Ao invés disso, saiu do apartamento e fechou a porta atrás de si.

— Eu preciso entrar, Shinra — Exigiu o informante.

— Sei disso — concordou com paciência. — Mas antes, quero conversar com você.

Ele parou um instante, observando bem as feições de Izaya.

— Eu não te contei tudo pelo telefone — começou, fazendo um gesto com a mão para que o outro não o interrompesse. — Entenda, só fiz isso porque você estava um tanto alterado e eu queria que tirasse conclusões precipitadas, okay?

— Certo, Shinra, mas fale logo — pediu impaciente.

— Eu não sei bem porque… Mas a Mai-chan me perguntou algo estranho depois que eu a levei para o quarto — falou um tanto pensativo. — Ela queria saber o que houve entre vocês há quase dois anos que os separou.

— Mas por que ela…

Lentamente a voz de Izaya foi morrendo, ao passo que ele sentia seu estômago revirar-se mais uma vez e sua respiração tornar-se superficial.

Por que Mai perguntaria uma coisa daquelas logo agora?

— E o que você respondeu?

— Bem, a verdade… Mas não com muitos detalhes, já que você nunca conversou comigo sobre isso abertamente — respondeu Shinra. — Eu apenas falei que ela havia lentamente ficando mais fraca e depois desaparecido.

— E você contou por que isso aconteceu com ela? — Insistiu.

— Claro que não. Você nunca me contou o motivo.

Izaya suspirou, exasperado.

— E como ela reagiu depois que disse isso a ela?

Os olhos de Shinra pareceram perder o brilho depois daquela pergunta.

— A Mai-chan pareceu ficar ainda pior.

Recusando-se a continuar ouvindo aquilo, o informante passou pelo amigo e abriu a porta atrás dele, adentrando em seu apartamento. Não havia ninguém a vista e o próprio médico não o seguiu. Por isso, por conta própria, ele se dirigiu o quarto que antes havia sido de Celty.

Com muito cuidado e sem fazer barulho, Izaya abriu sua porta, encontrando Mai adormecida sobre um macio futon e envolta por edredons. Ao lado dela, havia uma caneca vazia e um abajur iluminando suavemente o recinto.

Com passos lentos e sentindo uma pontada de alívio por vê-la, Izaya entrou, sentando no chão bem próximo a ela. Com cautela, levou a mão ao rosto da jovem, massageando suavemente sua bochecha, sentindo-a molhada devido as lágrimas que ainda não haviam secado.

— … I-Izaya… — ela sussurrou em seu sono.

Intranquila, Mai remexeu-se em meio as cobertas, parecendo ter um pesadelo. Entretanto, esse logo se esvaiu e ela parou de mexer. Durante poucos segundos o quanto ficou mergulhado em um profundo silêncio, até que a jovem lentamente começou a abrir os olhos. No início, mesmo notando Izaya, ela pareceu não reconhecê-lo, um tanto perdida e confusa. Todavia, a lentidão pós-despertar logo a abandonou, permitindo-a compreender o que estava acontecendo a sua volta.

— I-Izaya?! — Ela exclamou, arregalando os olhos e sentando-se de súbito. — O que… O que faz aqui?! O Shinra me prometeu que não iria deixá-lo entrar!

— Mai, eu…

Ele tentou estender a mão para tocá-la, porém a jovem se afastou de seu alcance, erguendo-se do futon e caminhando para o canto do quarto.

— Por que o Shinra te deixou entrar? — Questionou ela, suas palavras saindo uma mescla de irritação, magoa e receio. — Ele me prometeu que não o deixaria vir aqui!

Uma reação como aquela, tão repentina e inesperada, teria causado em Izaya assombro e perplexidade. Entretanto, naquela instante, algo diferente aconteceu. Ao invés de surpresa, ele sentiu raiva e ressentimento.

— O que eu estou fazendo aqui, Mai? — Repetiu em tom irritado, também se colocando de pé. — Caso não saiba, quando eu cheguei no escritório depois do trabalho, encontrei um lugar completamente abandonado, quando era para você supostamente estar lá. Seja lá qual tenha sido seu motivo, você foi embora sem nem ao menos me avisar, me deixando terrivelmente preocupado e confuso.

Ele deu mais um passo em sua direção, aumentando o tom de voz.

— Eu senti medo ao não encontrá-la lá e pensei que o pior tinha acontecido! Porém, mesmo assim preferi colocar o seu bem-estar em primeiro ligar e reuni forças para ir procurá-la, desejando do fundo do meu coração vê-la novamente e protegê-la do que quer que tivesse lhe acontecido. E eu estou aqui nesse momento unicamente porque quero cuidar de você, Mai, e fazê-la se sentir segura.

Izaya parou um instante, observando Mai, que se mantinha impassível perante suas palavras.

— Porém, mesmo com todos os meus esforços, a única coisa que você faz ao me ver novamente é me repelir e agir egoistamente. Sabe o quanto isso é frustrante?! Sabe o quanto eu fiquei chocado ao ouvir do Shinra que você não queria me ver? E, o pior disso tudo, é saber que as coisas só chegaram a esse ponto porque você, que deveria cofiar em mim para contar seus problemas e ajudá-la, preferiu me deixar de lado e ir atrás de outra pessoa.

O informante parou de falar, respirando fundo e tentando controlar a raiva crescente em seu peito que havia se agravado devido a tensão vinda dos últimos acontecimentos. Olhando para Mai, notou que ela o encarva com os olhos arregalados e que as lágrimas haviam voltado a molhar seu rosto.

— Eu realmente me importo om você, Mai — falou, tentando se acalmar. — Quero ser capaz de protegê-la e lhe dar uma vida feliz, porém não vou conseguir nenhuma dessas coisas se você ficar fugindo de mim e mantendo segredos.

Izaya deu mais alguns passos em direção a Mai e lhe estendeu a mão.

— Por favor, me conte o que houve — pediu. — Não gosto de vê-la chorando.

Abraçando a si mesma, a jovem olhou para a mão do rapaz. Em seus olhos azuis sombras de culpa e medo haviam se formado. Desviando-se dele, Mai virou para o lado, recusando-se a dizer qualquer palavra.

Apesar do ressentimento e frustração, que lentamente voltavam a dominá-lo, Izaya preferiu não tecer qualquer comentário a respeito da atitude de Mai. Ela estava agindo de modo infantil com ele, que havia passado por coisas demais naquele dia por causa de suas ações, e isso o estava deixando cada vez mais bravo. Entretanto, ele sabia, gritar só pioraria as coisas.

— Ótimo — falou em tom frio, abaixando a mão.

Se afastando dela, o rapaz lhe deu as costas e caminhou até a porta, abrindo-a.

— Vamos embora — disse.

— Eu vou ficar aqui — a jovem respondeu baixo.

Izaya virou-se para ela e estreitou os olhos.

— Não vai, não — repreendeu. — Você já deu trabalho demais ao Shinra.

— M-mas…

— Eu disse não.

Sem esperar mais, ele deixou o quarto e atravessou o corredor, abandonando o apartamento. Ao sair, não viu o médico do lado de fora, porém não se preocupou com isso, era provável que ele estivesse esperando nas escadarias o conflito dos dois terminar. Caminhando até a porta do elevador, ele apertou o botão para chamá-lo e esperou. Pouco antes dele chegar, o rapaz ouviu os passos de Mai atrás de si, porém nem ela ou o próprio Izaya trocaram qualquer comentário.

O pesado silêncio que havia recaído sobre os dois após a briga os acompanhou enquanto deixavam o prédio do médio e durante todo o trajeto de volta ao escritório. Ao chegarem lá, nada disseram um para o outro. Izaya, que já nem mais sabia se sentia preocupação ou raiva, caminhou até o sofá e se largou sobre ele, não sem espiar com certa decepção a torta sobre a bancada da cozinha. Já Mai, ele não soube ao certo o que ela fez, pois evitava encará-la, em parte porque se o fizesse por tempo demais, acabaria cedendo e abraçando-a, mas também porque sentia certa mágoa dela pelo que fizera. Todavia, seja lá o que ela estivesse fazendo, ele ainda podia ouvir seu baixo e infeliz choro. Escutar aquilo era agonizante e deixava-o inquieto, mas nada podia fazer se Mai não lhe contasse o que havia acontecido.

Vários minutos se passaram sem que nada acontecesse. Não aguentando aquele clima sufocante entre os dois, Izaya sentia-se cada vez mais próximo de ceder. No entanto, antes que o fizesse, Mai se aproximou dele no sofá, chorando muito, e sentou-se ao seu lado com a cabeça baixa.

— M-me desculpe… — ela disse, com a voz embargada. — Me desculpe por ter sumido de repente e dito que queria você longe de mim. Eu não queria magoá-lo, muito menos te deixar irritado. Por isso, por favor, não fique mais bravo comigo.

Mais e mais lágrimas escorreram pelo seu rosto, enquanto Mai soluçava em meio a sua tristeza.

— E-eu não queria… Eu não queria ter deixado o escritório, m-mas eu fiquei t-tão assustada e com medo…!

Vendo o desabafo pesaroso da jovem e tocado por sua infelicidade, Izaya segurou o rosto dela entre suas mãos e ergue-o para que o encarasse.

— Se acalme, Mai — pediu. — Eu não estou bravo com você, mas preciso que me conte o que houve enquanto eu estivesse fora para poder ajudá-la.

No instante em que disse isso, a menor arregalou os olhos, apavorada.

— Não… — sussurrou. — Não, não! Eu não posso contar!

Completamente atordoada, Mai fez menção de se levantar do sofá, porém antes que ela conseguisse, Izaya a segurou pelo pulso e a puxou para o seu colo, abraçando-a.

— Se acalme, Mai!

— Me solta! — Ela pediu em meio as lágrimas, tentando empurrá-lo.

— Então me diga o que houve! — Exigiu ele.

— Eu não posso! — Gritou.

Parando de se debater, a jovem deixou que suas forças se esvaíssem, se entregando completamente as lágrimas.

— Por favor — implorou. — Não me obrigue a dizer o que houve… Se eu fizer isso, você vai me odiar e querer se afastar de mim. E se isso acontecer, não vamos mais poder continuar juntos ou nos casar… E eu não quero ficar sem você.

Em seus braços, Mai parecia frágil e desolada, como se estivesse desmoronado lentamente. Aquilo era uma visão de cortar o coração e chegava a dar aflição em Izaya. Queria mais do que tudo ajudá-la, limpar suas lágrimas e apertá-la contra seu peito para confortá-la. Porém, nada podia fazer se ela continuasse a esconder a verdade.

— Me escute, Mai — falou em tom firme. — Você precisa confiar em mim e me contar o que houve. Depois de vê-la nesse estado, acha mesmo que vou deixar as coisas como estão e fingir que nada aconteceu?

— M-mas…

— Eu nunca conseguiria te odiar. Não importa o que tenha acontecido, nada vai me afastar de você — continuou Izaya, puxando a manga de seu sobretudo e limpando o rosto da jovem. — Por isso, por favor, me diga o que aconteceu e me deixe cuidar de você.

Tomada por uma luta interna, Mai hesitou. Era nítido o medo em seus olhos.

— Se eu disser, você promete que vai me perdoar? — Pediu fragilizada.

— Não pretendo culpá-la por nada, Mai — devolveu ele.

Após suas palavras, mesmo demonstrando receio, a jovem respirou fundo. Havia se acalmado um pouco, mas uma profunda tristeza ainda marcava suas feições.

— Foi tudo tão assustador… Eu estava na cozinha, fazendo o jantar e esperando por você, quando… — ela hesitou. — Quando, repentinamente, tudo pareceu sumir da minha cabeça. Em um minuto eu sabia que estava em casa e no outro não reconhecia nem mais a mim mesma. Foi como se todas as minhas memórias sumissem de repente e eu já não soubesse nem dizer quem eu era. Não reconhecia o escritório, não lembrava de ninguém e até questionava minha própria existência! Eu fiquei tão apavorada que sai do escritório correndo e deixei o prédio. Por poucos minutos, andei perdida pelas duas da cidade, sem conseguir compreender o mundo a minha volta…

Mai parou um instante, atordoada demais com tudo que havia acontecido.

— Mas então… Tudo pareceu voltar ao normal e eu já sabia quem realmente era e onde estava — continuou. — Porém, eu sentia um vazio estranho. Alguma coisa em mim parecia estar faltando e eu sentia como se estivesse lentamente desaparecendo.

A jovem fitou o rapaz, em seus olhos havia uma dor tão densa e profunda, que até ele se sentia sufocado por ela.

— Parada no meio da rua, sentindo como se eu estivesse lentamente abandonando aquele mundo, foi que eu percebi que meu tempo com você estava chegando ao fim, assim como na primeira vez que nos encontramos.

Observando a reação do Izaya, Mai percebeu o efeito de suas palavras sobre ele. Por mais que sua expressão não tivesse se alterado e ele tentasse fingir estar imperturbável, ela viu em seus olhos que algo dentro dele havia se partido.

— Quando percebi isso, comecei a chorar muito, desesperada e sem acreditar no que estava acontecendo. Eu queria gritar, Izaya, chamar por você com todas as forças e pedir que não me deixasse ir, mas eu não conseguia. Não tinha coragem de encará-lo depois de descobrir isso — disse Mai. — E foi nesse momento, enquanto eu chorava, que Shinra me encontrou. Ele tentou me acalmar e perguntou o que estava acontecendo, mas eu não conseguia dizer nada. Por fim, ele acabou me levando para casa dele. Foi lá que eu perguntei como nós havíamos nos separado pela primeira vez.

Parando de falar e com lágrimas nos olhos, Mai encarou Izaya com um sorriso triste.

— E foi nesse momento, após ouvir toda a história, que eu tive certeza de que aquilo que havia acontecido comigo era realmente o primeiro sinal de que o nosso tempo juntos estava acabando.

Mai soluçou, começando a chorar novamente.

— Mas a pior parte é que, além de compreender isso, eu também descobri que já não tinha mais as memórias de quando nos encontramos pela primeira vez. Não há nada além de um grande vazio — confessou Mai desolada. — Tudo isso me deixa tão assustada, Izaya. Eu me sinto culpada, a ponto de não conseguir encará-lo, e terrivelmente apavorada ao mesmo tempo. Tenho medo de que isso aconteça novamente e eu comece a me esquecer de cada vez mais coisas — ela levou as mãos a cabeça, desesperada. — Não, não, não! Eu não quero me esquecer de nada, muto menos desaparecer! Cada lembrança é importante e eu queria ficar ao seu lado para sempre!

Mesmo com Mai se desesperando a sua frente, Izaya nada conseguiu fazer. Não só os relatos da jovem, como também os acontecimentos da primeira vez que se encontraram, misturaram-se em sua mente, formando um quebra-cabeça que ia lentamente sendo resolvido, mostrando uma imagem sombria e terrível. Não havia dúvidas, Mai não estava exagerando em seus relatos, o que aconteceu com ela era de fato o primeiro indício de que o tempo entre os dois estava chegando ao fim.

Há quase dois anos, antes de ir embora, algo semelhante aconteceu com ela. Antes de partir, como sinal de que logo não faria mais parte daquele mundo, Mai lentamente começou a perder suas características que a tornavam humana, como sentir forme, sono ou até ser capaz de andar normalmente. Naquele momento, o mesmo podia até não estar acontecendo, mas ambos tinham o mesmo significado: através das memórias que perdia, sua ligação com o mundo ia gradualmente desaparecendo, até que não sobrasse nada que mantivesse sua existência e ela enfim desaparecesse.

Então esse dia finalmente chegou…

Ao compreender isso, um vazio opressor tomou conta de Izaya. Mais uma vez teria que experimentar do desespero de ver Mai partir e mais uma vez sofreria com a dor de não tê-la mais em seus braços.

Medo, dor e angústia o tragaram, todos de uma vez e sem piedade, zombando de Izaya por ter se acomodado com aquela vida pacífica e ter se esquecido do cruel destino que os aguardava. Ele havia sido estúpido e ingênuo ao deixar essa realidade de lado e agora estava pagando por isso, vendo bem diante de seus olhos a vida feliz que tinha e a promessa de um futuro juntos queimar lentamente e se transformar em cinzas.

— Por favor, Izaya, me perdoe — implorou ela. — Me perdoe por estar fazendo isso com você!

Ao ouvir a voz de Mai, Izaya sentiu-se sendo arrancado de seu próprio sofrimento. Olhando para baixo, ele viu a jovem em seus braços, trêmula e desolada, se despedaçando dolorosamente em meio ao sofrimento. Nesse instante, Izaya percebeu que doída muito mais vê-la desse jeito e não conseguir fazer nada, do que ele mesmo experimentar da dor que o aguardava.

E foi por isso que, pensando unicamente em Mai e nos sentimentos de estima e carinho que tinha por ela, Izaya enfrentou mais uma vez os monstros de sua consciência que sempre o fizeram se isolar do mundo e os empurrou para fora de seu caminho. Ele não podia fraquejar, não naquele momento, quando Mai mais precisava dele para se sentir segura.

Eu disse que iria apostar em nós dois.

— Mai — ele a chamou. — Me escute.

Entretanto, suas palavras não tiveram qualquer efeito na jovem, ela continuava imersa em seu próprio desespero, enquanto lhe pedia perdão inúmeras vezes.

Respirando fundo, Izaya então segurou o rosto dela entre as mãos e o ergueu.

— Me escute, Mai! — Falou alto, interrompendo seu choro. — Nada disso é sua culpa e eu não te odeio. Desde o começo eu sabia que isso iria acontecer com você. No dia em que te pedi em casamento eu decidi que iria carregar esse peso. Por você, por nós dois.

— M-mas, Izaya…

— Preste atenção — ele a interrompeu, aproximando seu rosto do dele e encostando suas testas. — Eu vou amá-la até o fim e além dele. Mesmo que um dia você vá embora e me deixe só, eu anda irei manter esse sentimento comigo. Você é minha aposta e eu nunca desistirei de você.

Izaya então a puxou para si, abraçando-a forte, como se temesse que ela desaparecesse ali mesmo.

— Eu estou com medo… — ela confessou, afundando o rosto contra o peito do rapaz. — Não quero ter que me separar de você ou esquecer dos momentos que passamos juntos, tudo é precioso demais… E também não quero que você fique só e sofra por minha culpa.

— Não se preocupe com isso, Mai — tranquilizou o mais velho. — Mesmo que um dia você desapareça e volte um ano depois sem memória alguma, eu ainda estarei aqui te esperando. Irei procurá-la não importa o quanto isso me custe e, assim que encontrá-la, farei você se apaixonar por mim novamente. Irei lhe contar tudo que passos e falarei sobre o Kiseki, direi que somos casados colocarei mais uma vez uma aliança em seu dedo.

— Mas e se isso acontecer de novo e de novo?

— Então eu farei tudo de novo — respondeu. — Quantas vezes forem necessárias.

Sentindo Mai aperta-lhe mais, ele a ouviu soluçar. Sem dizer nada, ele apenas acomodou-a melhor em seus braços e apoiou o queixo em sua cabeça.

Em meio ao seu choro baixo e melancólico, Izaya conseguiu ouvir apenas duas palavras: “Kiseki” e “casamento”.

Após passarem quase uma hora ali, com muito custo Izaya conseguiu fazer Mai subir para o quarto e tomar um banho. Quando ela terminou, o rapaz logo fez com que se deitasse. Foi difícil no começo, pois a jovem resistiu um pouco, porém o peso daquele dia exaustivo logo recaiu sobre seus ombros e ela acabou cedendo ao sono.

Já Izaya, apesar de cansado, não conseguiu dormir. Ao lado de Mai, ele observava seu rosto sereno, mergulhado em uma confusão de pensamentos e emoções.

Perder Mai, aquilo que mais temia, estava restes a se concretizar. Não sabia quanto tempo ainda tinham, mas pelo que havia acontecido, algo lhe dizia que não era muito. Saber disso o deixava assustado, pois não queria ter que, mais uma vez, ver Mai desaparecer bem diante de seus olhos e sofrer com sua ausência. Era doloroso imaginar-se sem ela e saber que, pela segunda vez, os momentos que passaram juntos iriam se perder no passado.

Todavia, apesar de suas inquietações pessoais, era sua preocupação com Mai que mais o perturbava. Se ela realmente iria começar a perder suas lembranças, as coisas iriam ficar cada vez mais dolorosas para ela. A imagem de Mai, se despedaçando, chorando e sofrendo era quase palpável, chegando a torturá-lo. Ela era frágil demais para carregar esse fardo e não merecia passar por isso.

Ela não vai aguentar…, pensou o rapaz com amargura.

Mesmo que não houvesse como parar isso, Izaya precisava arranjar um jeito de atenuar a dor que a aguardava. E, ainda que seu tempo com ela fosse curto, queria ao menos fazer com que seus últimos dias fossem tranquilos e felizes.

Acomodando-se melhor na cama, Izaya puxou Mai para si, abraçando-a debaixo das cobertas e apoiando o queixo em sua cabeça.

— Não se preocupe, Mai — falou. — Eu vou cuidar de você.

Dali em diante ele sabia, as coisas ficariam cada vez mais difíceis e muito precisaria ser feito, entretanto, Izaya não se importava. Mesmo que o caminho por qual estava passando se tornasse cada vez mais tortuoso e sombrio, ele iria seguir em frente sem hesitar.

• • •

Quando Mai despertou naquele dia, por um momento ela creditou que tudo havia sido um terrível pesadelo. No entanto, seu frágil alívio logo se dissolveu, fazendo-a encarar sua tormentosa realidade.

Deitada ali na cama, sem a companhia de Izaya, ela sentia seu peito doer a ponto de lhe arrancar o ar e deixá-la sem forças. Ela queria muito chorar e se entragar mais uma vez ao pranto causado pela maldição que havia recaído sobre sua vida, porém se conteve. Tudo ainda doía muito, mas ela ainda tinha Izaya ao seu lado. Por ele, desejava ser forte e manter-se de pé. Afinal, por mais que ele não deixasse transparecer, ela sabia que por dentro o informante também devia estar igualmente devastado.

É tudo minha culpa, pensou com melancolia. Não posso fazê-lo mais sofrer por minha causa.

Respirando fundo, Mai se ergueu da cama e foi ao banheiro fazer suas higienes. Quando terminou, dirigiu-se ao armário para trocar de roupa. O certo teria sido colocar seu uniforme do Raira, pois tinha aula naquele dia, entretanto, não se sentia bem-disposta para deixar o escritório. Ao invés disso, preferindo passar o dia ali com Izaya, ela acabou escolhendo um vestido branco rendado de mancas cumpridas e meias pretas.

Já com tudo pronto, Mai dirigiu-se até a porta do quarto. Antes de sair, ela parou um instante para respirar fundo mais uma vez. Havia dado trabalho demais a Izaya no dia anterior, mas não podia — e nem queria — sobrecarregá-lo daquela forma novamente. Por isso, mesmo não conseguindo sorrir de forma verdadeira, ela esforçou-se o máximo possível para não parecer abalada e frágil.

Sentindo-se pronta, ela deixou o quarto e desceu as escadas em direção ao escritório. Ao chegar lá, logo notou Izaya sentado sobre o sofá assistindo televisão. De frente para ele, sobre o kotatsu, viu um embrulho vermelho.

— B-bom dia… — cumprimentou a jovem, tentando sorrir para o rapaz.

Afastando os olhos do programa, Izaya virou-se para Mai.

— Oh, se não é minha doce Bela Adormecida — brincou ele. — Daqui a pouco é hora do almoço, sabia?

— Desculpe, eu perdi a hora… — respondeu.

O jeito tranquilo com que o informante a estava tratando fez a jovem se sentir um pouco aliviada. Seu maior medo ali, mais do que perder suas lembranças e desaparecer, era ver Izaya sofrendo e ser o motivo disso. Saber que ele estava lidando bem com o que havia acontecido a deixava um pouco menos triste.

Se ele estiver feliz, eu também serei capaz de sorrir, pensou Mai. É só o que importa pra mim.

— Ei, eu comprei algo para você — falou o mais velho, chamando sua atenção.

Saindo do sofá, o rapaz sentou de frente para o kotatsu, cobrindo-se com o edredom e acomodando as pernas debaixo da mesinha. Olhando para a jovem, ele bateu a mão de leve no espaço ao seu lado, chamando-a para se sentar.

— Não e acanhe, Mai-chan, ainda é muito cedo para eu tentar algo indecente com você ~

— I-Izaya! — Exclamou ela, corando.

Bufando, Mai foi até o rapaz e sentou ao seu lado. Rindo, ele trouxe para mais perto dela o embrulho vermelho.

— O que é isso? — Perguntou a jovem.

— Algo para te fazer se sentir melhor — respondeu. — Vamos, abra.

Curiosa, Mai pegou seu presente e abriu, surpreendendo-se com o que encontrou.

Dentro do pacote havia um diário. Sua capa era dura e revestida de couro negro, repleta de desenhos na cor dourada. Flores e arabescos decoravam as bordas, enquanto uma lua posicionava-se no canto superior e uma fadinha com asas de borboleta olhava para ela, sentada sobre uma flor na parte inferior.

Maravilhada, Mai passou os dedos sobre as ilustrações, sentindo-as em alto-relevo. Ainda mais ansiosa, ela abriu o botão da capa, folheando o diário.

Por dentro, ele era tão trabalhado quanto por fora. As páginas era grosas e amareladas, fazendo com que se assemelhassem a papel antigo, e as bordas eram decoradas com desenhos de fadas, dragões e borboletas.

— Izaya… — ela sussurrou, encantada com o presente. — É maravilhoso. Muito obrigada.

— Oh, mas ainda tem mais — disse, pegando o pacote vermelho e tirando de dentro uma caixinha preta que Mai não havia notado. — Isso também é para você.

Interessada, a jovem pegou a caixinha e a abriu. Dentro de seu interior acolchoado havia uma bela caneta tinteiro da cor preta e dourada.

Deslumbrada com o presente, Mai a pegou e puxou o diário para mais perto, começando a escrever.

Orihara Mai

折原 真愛

— Eu adorei o presente! — Falou ela, muito feliz.

— Me agrada ouvir isso — começou. — Mas você sabe por que eu te dei essas coisas?

Franzindo o cenho, a menor olhou para o diário e depois para Izaya, percebendo que ele parecia um tanto sério.

— Não…

— Lembra-se do que me disse ontem? — Insistiu ele.

A pergunta a pegou de surpresa, fazendo Mai se desviar dele. Odiava-se pelo que estava lhe acontecendo e pela dor que estava infringindo a Izaya. Não queria ficar relembrando aquelas coisas.

Entretanto, mesmo que não quisesse demonstrar sua insatisfação, sua reação foi facilmente interpretada pelo rapaz, que segurou seu queixo e a fez encará-lo.

— Você não quer me esquecer e eu não quero que você sofra — falou ele. — Por isso, estou te dando esse diário. Quero que você o use para guardar todas as suas lembranças, desde o dia em que nos encontramos até o seu último ao meu lado. Assim, mesmo que você comece a esquecer de mais e mais coisas, você poderá ler tudo o que passou aqui, sem que nada seja perdido.

— I-Izaya… — ela deixou escapar, atônita com suas palavras. — I-Isso…

— Esse é o meu jeito de cuidar de você, Mai — afirmou o rapaz com convicção. — Mesmo que as coisas se tornem cada vez mais difíceis, não vou deixar que você sofra. E é por isso que eu quero que, de agora em diante, você me conte tudo que te acontecer. Não me esconda nada e nem tente fingir que está tudo bem, quando no fundo está sofrendo, como fez agora — continuou Izaya, olhando muito sério para Mai. — Você entendeu? Daqui para frente irei cuidar de tudo, por isso, não quero que se preocupe mais, okay?

Mai tentou lhe dizer algo em resposta, porém as palavras de Izaya haviam tocado fundo demais em seu peito, trazendo para superfície sentimentos intensos de amor e gratidão. Sem conseguir descrever o que sentia, a jovem sorriu, verdadeiramente feliz e aliviada.

— Obrigada, Izaya — falou, sentindo os olhos marejarem. — Muito obrigada. Eu irei cuidar muito bem do meu diário.

— Ah, vamos, não chore coelhinha — pediu ele, com um toque de humor na voz, limpando suas lágrimas com a manga da blusa.

— Mas… Mas..! Você está sendo tão…

— Ora, não exagere, estou apenas tomando conta de você — interrompeu ele, apertando o nariz da menor, fazendo fechar os olhos e corar.

— Ai, ai…!

Izaya a soltou, encarando-a mais tranquilo.

— Se sente melhor agora? — Perguntou.

A jovem voltou a abrir os olhos, encarando-o timidamente.

— … Sim.

— Ótimo — disse ele, puxando o diário para mais perto dos dois. — Vamos começar então. Eu irei dizer tudo que aconteceu entre nós dois até onde você se lembra e depois desse ponto, você continua sozinha.

Assentindo, Mai pegou sua caneta e aproximou-a do papel, porém não começou a escrever.

— O que foi? — Questionou Izaya.

— … Você vai ler meu diário? — Perguntou encabulada.

O informante parou um instante para pensar. Vontade realmente não faltava, pois achava que seria extremamente interessante ver como era o ponto de vista de Mai em relação as coisas que aconteciam a sua volta. Todavia, sabia que, caso demonstrasse interesse demais, ela acabaria ficando desconfortável e até poderia relutar em se abrir completamente, deixando os relatos incompletos. Não que achasse que ela lhe escondesse algo, mas a jovem era tímida demais com certas coisas e insinuações de sua curiosidade poderiam acabar atrapalhando-a.

— Claro que não — respondeu, fingindo estar ofendido. — Por acaso acha que sou o tipo de pessoa que gosta de se intrometer nos segredos dos outros?

A jovem o encarou em silêncio.

— Okay, okay… Talvez eu goste um pouco de me intrometer em assuntos alheios, mas no seu caso farei uma exceção, tudo bem?

— … Certo.

— Então vamos começar.

Focando-se no trabalho que tinham, Izaya contou a Mai tudo que haviam passado, desde a primeira vez que a viu no orfanato, até o dia em que a trouxe pela primeira vez ao escritório, que era onde a jovem conseguia se lembrar. Atenta as suas palavras, a menor escreveu tudo o que o rapaz lhe disse, sem nunca deixar escapar algo.

Após terminar de dizer tudo que Mai havia se esquecido, Izaya então se levantou de seu lugar e rumou para a cozinha, não só para começar a fazer o almoço, com também para dar a jovem um pouco de privacidade.

— Quando terminar, quero conversar com você sobre algo — disse, antes de sair.

Ouvir aquilo a deixou curiosa, porém Mai nada disse, apenas assentiu com a cabeça e seguiu com o olhar o rapaz se dirigindo para a cozinha. Assim que o viu começar a pegar os ingredientes na geladeira, ela voltou sua atenção para o diário.

Respirando fundo, Mai preparou-se para retomar a escrita. Com Izaya lhe ajudando, havia sido fácil, mas agora era apenas ela e suas lembranças. A ideia de deixar algo escapar lhe era assustadora, por isso, ela se esforçou ao máximo para detalhar todos os acontecimentos por quais havia passado. Dores, alegrias, dúvidas e prazeres, Mai escreveu tudo, sem deixar nada escapar. Não queria que nenhuma lembrança sua se perdesse, por isso, escreveu até o mais simples dos detalhes.

Fazer aquilo foi bom e ruim ao mesmo tempo. Relembrar os momentos que passou ao lado de Izaya, sejam eles bons ou ruins, fez com que sentisse certa nostalgia. Haviam experimentado muita coisa juntos, muitos sofrimentos, mas também muitas alegrias. Haviam amadurecido juntos e cada um aprendeu muito sobre o outro, o suficiente para se compreenderem quase que por completo. Passar tudo isso para o papel fez Mai perceber o quão forte era a ligação que havia entre eles e o quanto haviam se tornado profundos os sentimentos que tinham um pelo outro.

Saber disso a deixou feliz, pois fez com que se sentisse parte de algo belo e incrível, mas também deu-lhe conforto e segurança.

Quando Mai finalmente terminou de escrever todas as suas lembranças no diário, ela o fechou e respirou fundo mais uma vez. Momentos ruins ou alegres, sorrisos ou lágrimas, naquelas páginas continham toda sua história com Izaya, e ela amava incondicionalmente cada palavra contida ali. Não sentia vontade de reescrever nada e muito menos se arrependia de algo, pois cada pedacinho guardado ali havia ajudado a construir o que eram hoje, e Mai era grata por isso.

— Izaya… — ela sussurrou, sentindo seu coração palpitar com as lembranças que tinha dele.

Não queria ter que esquecer nada daquilo e muito menos se separar dele. Era por isso que relembrar o que tinham passado era também muito triste, pois fazia com que doesse ainda mais ter que abrir mão — contra a sua vontade — daqueles momentos.

Queria poder ficar ao seu lado para sempre…

— Acabou? — Ela ouviu.

Sobressaltada, Mai olhou por cima do ombro, notando Izaya parado bem perto dela atrás do sofá.

— A-ah…

Mai tentou ao máximo lhe dar uma resposta decente, porém as palavras estavam presas em sua garganta. Por algum motivo, sentada ali, sob o olhar do informante, sentia-se estranhamente constrangida e ansiosa. Seu coração estava disparado e suas bochechas coradas.

Depois de pensar tanto nos dois para escrever em seu diário, Mai sentia como se seus sentimentos por Izaya tivessem se renovado, mergulhando-a em uma paixão intensa que, naquele momento, ela não estava sabendo bem como lidar. E era algo muito constrangedor, pois repentinamente ansiava por estar nos braços de Izaya, sentir os lábios dele sobre os seus e lhe sussurrar o quanto amava.

— E-eu… Ac-cabei — disse desajeitadamente, ficando muito vermelha e quase derrubando no chão a caneta tinteiro.

Vendo a estranha reação de Mai, o rapaz ergueu as sobrancelhas e inclinou a cabeça para o lado, encarando-a curioso. Até que a conclusão pareceu brilhar em seus olhos e ele deu um sorriso malicioso.

— Hmmmm… — fez Izaya, inclinando-se mais sobre o encosto do sofá. — Sabe, Mai-chan, esse seu rostinho corado é tão suspeito ~

— O-o que você quer dizer com isso?! — Exclamou nervosa.

— Ora, não seja tímida — falou, dando a volta no sofá e sentando perigosamente perto da jovem. — Diga-me o que está sentindo e eu terei o prazer de atender seus desejos.

— Por que você acha que e-eu poderia estar desejando algo? — Perguntou nervosa.

O sorriso malicioso de Izaya alargou-se e ele segurou o queixo da jovem, levantando seu rosto.

— Oh, minha coelhinha, está escrito em seus doces olhos que você anseio por mim — sussurrou ele em tom aveludado. — Será que escrever sobre nosso amor ardente mexeu com seu coraçãozinho?

Ao ser descoberta, Mai arregalou os olhos e ficou ainda mais vermelha.

— Eu não… Isso não é verdade!

Izaya riu.

— Agora fiquei curioso com o que você escreveu — comentou ele, se aproximando mais dela. — Mas vou deixa isso de lado por enquanto, afinal, minha coelhinha anseia por minha atenção e eu não quero decepcioná-la.

Inclinando-se cada vez mais sobre Mai, Izaya fez com que ela se deitasse, logo em seguida colocando-se sobre ela.

— E-esper…

Calando-se ao ter seus lábios tomados pelo mais velho, Mai inicialmente arregalou os olhos com o contato repentino. Entretanto, enquanto sentia sua língua sendo massageada pela do informante, ela foi lentamente fechando os olhos, entregando-se àquele proximidade.

Sentindo seu peito gritar cada vez mais por Izaya, ela o abraçou, puxando-o mais para perto de seu corpo, deixando que ele se deitasse sobre si. Já ele, estimulado por suas ações, começou a beijá-la com mais intensidade, enquanto subia com a mão pela coxa da menor, apertando-a de leve para provocá-la.

— I-Izaya… — ela deixou escapar, sentindo-se chegar a barra de sua calcinha.

Embriagada por aquele momento que tanto ansiava, Mai levou a mão ao primeiro botão da calça jeans de Izaya, tentando abri-lo.

— Oh, tão apressada — riu ele, ofegante.

Ajudando-a, ele desabotoou sua calça e puxou o zíper. Voltando-se para Mai, levou as mãos até os botões de seu vestido e começou a abri-lo, expondo seu belo e tentador corpo.

Lambendo os lábios, ele focou-se em sua infantil calcinha rosa.

— Não precisamos ir tão rápido, não é, coelhinha?

Cheia de expectativa, Mai soltou um gemido ansioso, corando sob o olhar de puro desejo de Izaya.

Abaixando-se até ela, ávido e ofegante, o informante começou a beijar sua barriga, descendo de forma dolorosamente lenta até a barra de sua calcinha.

— A-ah, Izaya… — ele ouviu a jovem suspirar.

— Não se preocupe, minha coelhinha, irei cuidar muito em de você — falou sensualmente.

— Não é isso…

— Não? — Riu ele, começando a retirar a calcinha de Mai.

— Queimando — ela falou arfante. — Tem algo queimando!

Confuso com suas palavras, Izaya parou o que estava fazendo e a encarou. Foi nesse instante em que finalmente percebeu que um intenso cheiro de queimado rodeava-os.

— Mas que droga, esqueci o fogo ligado! — Praguejou.

Frustrado e muito irritado pela interrupção, o informante ergueu-se do chão e correu até a cozinha. Ao chegar lá, ele apagou o fogo, notando com insatisfação que os pedaços de frutos do mar que havia preparado se encontravam completamente queimados.

— Além de ficar sem almoço, fomos interrompidos na melhor parte.

Revirando os olhos, ele jogou a refeição arruinada no lixo. Deixando a cozinha, caminhou de volta para o kotatsu, vendo Mai sentada abotoando o vestido.

— Oh, achei que íamos terminar — provocou.

— … Mais tarde — respondeu envergonhada.

— Mais tarde eu vou estar com mais vontade ainda — riu ele com malicia. — Talvez a gente acabe não dormindo.

O rosto da jovem ficou ainda mais vermelho.

— V-você disse que tinha algo para me dizer — tentou mudar de assunto.

— Ah, sobre isso…

Ao ouvir aquilo, o semblante malicioso de Izaya desapareceu por completo, dando lugar a uma expressão séria.

Voltando a se acomodar na mesinha, o rapaz sentou ao lado de Mai. Um tanto surpresa com a mudança, ela o encarou atentamente.

— Eu tenho um pedido para lhe fazer — começou, olhando-a com uma mescla de preocupação e carinho. — Você se importaria se eu viajasse e ficasse fora por alguns dias?

Uma sensação de desconforto e relutância tomou conta de Mai, fazendo hesitar em respondê-lo. Não queria ficar longe de Izaya, não naquele momento.

— Eu sei que pode ser difícil, ainda mais depois do que aconteceu, mas é algo que estou fazendo por você.

— Por mim? — Ela encarou-o surpresa.

— Não quero que você vá embora antes de ter sua cerimônia — falou. — É isso que você mais deseja, e era isso que queria na primeira vez em que nos encontramos. Por isso, quero poder ao menos realizar esse seu sonho. Sem falar que eu…

Ao invés de continuar a falar, Izaya virou o rosto para o lado, evitando encará-la.

— Que você…? — Estimulou a menor, com uma inocente curiosidade.

— Sem falar que… Hmm… Eu também quero poder vê-la em um vestido de noiva.

Corando singelamente com suas palavras, Mai sorriu com carinho.

— Tudo bem, pode ir — falou. — Eu vou ficar bem aqui.

Izaya voltou-se para ela, parecendo meio sem graça.

— Mas não ache que vou simplesmente te largar sozinha — explicou. — Você vai ter companhia enquanto eu estiver fora.

— Vou ficar na casa do Shinra?

— Não, ele e a Celty irão comigo. Minhas irmãs é que vão vir para cá.

Curiosa com aquilo, ela inclinou a cabeça para o lado.

— Para onde você vai, Izaya?

Ele se permitiu sorrir com a pergunta.

— Isso e segredo ~ ♥ — Provocou, passando a mão na cabeça da menor e bagunçando seu cabelo. — Talvez eu fique uma semana fora, mas quando voltar, tudo estará pronto para nós. Por isso, quero que me entregue todas as revistas de casamento que separou com as coisas que queria.

— Certo! — Respondeu ela. — Prometo ser forte enquanto não estiver aqui.

— E eu sei que vai.

— Quando você irá viajar? — Quis saber.

— Na madrugada de amanhã — ele respondeu.

Saber que seria mais rápido do que esperava a deixou um pouco insegura, porém Mai tentou não demonstrar.

— Então já temos que começar a arrumar suas malas — falou ela, tentando parecer forte. — Vamos, eu te ajudo!

• • •

Seu celular tocou as duas da manhã e, assim que despertou, Izaya logo o desligou para não acordar Mai. Seu vôo seria as três e meia e ele precisava estar lá uma hora antes, porém não estava compressa. Havia ajeitado tudo com ela no dia anterior.

Com cuidado, ele desceu da cama e começou a se preparar para sair. Após terminar, Izaya foi até Mai na cama, parando ao seu ado. Com delicadeza, ele passou os dedos sobre sua bochecha e sorriu.

— Prometo voltar logo — sussurrou.

E foi embora.

• • •

Ao acordar, ainda um pouco embriagada pelo sono, Mai chegou a procurar durante alguns instantes por Izaya do outro lado da cama, até lembrar-se de que ele havia viajado. Um pouco amuada, ela escondeu-se ainda mais debaixo das cobertas, desejando que ele voltasse o quanto antes.

Um tanto insegura e solitária por estar sem a companhia dele, Mai considerou ficar ali o dia todo. Entretanto, ela havia prometido a Izaya que seria forte e entregar-se ao se medo não era a melhor forma de cumprir com sua palavra.

Não posso quebrar a promessa que fiz a ele, pensou.

Saindo da cama, Mai deu início aos seus hábitos matutinos. Quando pronta, já vestindo o uniforme do colégio Raira, ela pegou sua bolsa e deixou o quarto.

Quando desceu para o escritório, ela teve sua primeira surpresa do dia. Na pequena cozinha cercada por bancadas estava Namie preparando o café da manhã.

— Ah… Bom dia — tentou cumprimentar.

Levantando a cabeça do que estava fazendo, a secretária a fitou.

— Bom dia — respondeu, logo voltando para o seu trabalho. — Eu vou preparar o café e o seu obento. Espere no kotatsu, logo ficará pronto.

Um pouco confusa, a jovem assentiu, acomodando-se onde lhe havia sido indicado. Sem saber muito bem o que deveria fazer, ela apenas esperou em silêncio.

Ter Namie no escritório era um tanto inesperado, pois Mai havia suposto que, ao não ter seu chefe ali, a secretária não teria o que fazer, sendo assim, não havendo necessidade de vir trabalhar. Todavia, lá estava ela, fazendo seu café da manhã como se fosse algo habitual.

Claro, Mai não estava reclamando, era bor ter companhia. O problema era que nunca havia trocado muitas palavras com Namie ou passado um tempo realmente longo sozinha com ela. Saber que a teria ali durante a semana, presumia Mai, era um tanto inesperado. Entretanto, a jovem se sentia feliz com isso. Podia até não conversarem muito, porém a secretária, mesmo com seu constante mau humor por trabalhar ali, sempre a tratou bem, ao contrário de Izaya, por quem demonstrava abertamente seu desprezo.Talvez tê-la como companhia fosse até divertido, sem falar que lhe daria chance de conhecê-la melhor.

— Desculpe a demora — falou Namie, colocando o prato do desjejum sobre a mesa.

Arroz cozido, sopa de missô com tofu, peixe grelhado, omelete e chá-verde, Mai observou. Uma refeição comum de café, porém a jovem pode facilmente notar que a secretária havia preparado tudo com capricho e, principalmente, para duas pessoas.

— … Obrigada — Mai tentou dizer.

Namie a fitou por alguns instantes, mas nada disse. Pegando seus hashis e uma tigela de arroz, ela se pôs a comer em silêncio.

Fazendo o mesmo, Mai também deu início ao seu desjejum.

— Hm — a jovem comentou, depois de um tempo. — Sua sopa de missô é melhor que a do Izaya.

O comentário pegou Namie de surpresa, que parou de comer um instante.

— É… Eu sei — devolveu ela. — Já tentei ensiná-lo uma vez a fazer direito, sem deixar o tofu desmanchar, mas ele fez tanto chilique dizendo que não precisava de ajuda, que desisti.

Ouvir aquilo fez a jovem rir.

— Há quanto tempo você trabalha para ele, Namie? — A jovem perguntou, não querendo deixar a conversa morrer.

— Acho que… Dois anos — respondeu pensativa.

— E você gosta? — Perguntou, mesmo sabendo a resposta.

— Nem um pouco. O Izaya é insuportável e infantil — Namie fez uma careta, logo depois suspirando. — Porém preciso de um chefe que me pague um bom salário, então continuo aqui. Apesar da companhia irritante dele, meu trabalho como secretária é mais tranquilo do que a maioria dos empregos que eu poderia arranjar.

— Oh, entendo.

— Mas… — ela deu de ombros, fitando Mai. — Preciso admitir que, depois que você veio morar aqui, ele ficou um pouquinho menos desagradável.

Ouvir aquilo de Namie, além de pegá-la de surpresa, alegrou Mai. Agradecida, sorriu para a secretária.

— E você, gosta de viver com o Izaya? — A moça deu continuidade a conversa, para o contentamento da jovem.

— Gosto sim! — Respondeu animada. — É divertido e eu me sinto muito feliz perto dele!

Namie soltou uma risada leve.

— Nunca imaginei que um dia ouviria alguém falar isso do Izaya — comentou ela em tom divertido. — Bem, sempre há uma exceção à regra, não é?

— E você, Namie, tem alguém de quem gosta?

A pergunta por um momento fez a expressão da moça mudar, dando-lhe um ar mais jovem e apaixonado, porém ela logo tratou de esconder isso, voltando a ficar séria.

— Tem sim — disse, limpando a garganta. — Mas é segredo.

— Oh, mas isso é injusto! — replicou Mai. — Eu e contei de quem eu gosto.

— Mas isso não e segredo pra ninguém — riu ela.

A jovem fez uma cara emburrada.

— Quando você ficar um pouco mais velha, eu te conto — prometeu.

— Certo! — Assentiu animada, logo depois se lembrando de algo. — Ei, Namie, posso te pedir algo?

— E o que seria?

— Eu e o Izaya vamos nos casar logo e… — Mai sentiu seu rosto esquentar de leve. — E eu ficaria muito feliz se você fosse celebrar junto com a gente. O-o que você acha?

Apesar do pedido, a mais velha não esboçou nenhuma reação.

— Onde será? — Perguntou.

— Na verdade, eu não sei… — respondeu, meio sem graça. — O Izaya disse que é surpresa, mas tenho certeza que se você perguntar, ele irá te dizer.

— Hm, eu duvido. É mais provável que ele me diga o endereço errado.

Mai encolheu-se um pouco. Parando para pensar, fazer isso era a cara do Izaya.

— Eu vou falar com ele! Vou dizer que você é uma convidada importante e que eu realmente quero que você vá.

Algo em suas palavras pareceu surpreender Namie. Ela abaixou sua tigela de arroz e sorriu para si mesma.

— Tudo bem, eu vou — respondeu.

— Eba! ~

Animada, Mai tratou de terminar o seu café. Estava quase no fim, quando ouviu batidas na porta.

— Oh, elas chegaram — falou.

Erguendo-se apressada, a menor pegou sua pasta e correu para a porta. Entretanto, antes de abri-la, ela parou, voltando-se para Namie.

— Muito obrigada pela café da manhã e por me fazer companhia — disse.

A secretária nada respondeu, porém acenou com a cabeça, lhe dando um pequeno sorriso.

Retribuindo o gesto, Mai lhe deu as costas e abriu a porta, encontrando suas duas outras companhias: Mairu e Kururi.

— Mai-nee!! — Exclamou a de óculos, pulando na jovem e afundando o rosto em seus seios. — Uma semana inteira com a Mai-nee todinha para nós e sem o chato do Iza-nii por perto! Oh, isso é mesmo o paraíso ~ ♥ Nós vamos nos divertir taanto!

— Mairu — murmurou a gêmea mais velha, chamando sua atenção. — Solta ela.

— A-ah, desculpe! — Riu ela, largando Mai. — É que eu me empolguei, hehe.

Kururi revirou os olhos.

— De qualquer forma, é melhor irmos andando, se não chegaremos atrasadas — disse Mairu, depois se virando para a mais velha, com um grande sorriso empolgado. — Se prepare, Mai-nee, pois essa semana será a melhor de sua vida!

E Mairu realmente não estava mentindo, durante aqueles sete dias, Mai nunca havia se divertido tanto em sua vida.

Além de Namie, as gêmeas também ficaram no escritório, chegando a dormirem lá. As três faziam praticamente tudo juntas e, depois da aula, após Mai deixar o clube de dança e as duas o de karatê, sempre saiam para passearem por Ikebukuro. Visitaram lojas, restaurantes e karaokês, além de desfrutarem da companhia de mais pessoas, como Kadota e seus companheiros, Shizuo e Anri. O mais divertido era que Mairu em quase todos os dias sempre levava uma câmera fotográfica, tirando foto de tudo que faziam.

Obviamente, Mai não havia esquecido que Izaya estava longe. Ainda sentia falta dele, porém eles sempre se falavam pelo telefone, o que lhe dava certo alívio.

Todavia, apesar de toda a diversão que estava tendo e de saber que seu casamento se aproximava, havia em Mai uma dor que nunca sumia, independente do que fizesse. Todas as noites ela escrevia em seu diário tudo que havia feito no dia, sem nunca deixar qualquer detalhe de fora, e todas as manhãs, quando acordava, sentia que cada vez mais memórias suas desapareciam. Era sempre de pouquinho em pouquinho, porém cada dia que passava, Mai sentia seu coração se despedaçado mais e mais. No entanto, o que mais a torturava era o medo de que um dia acordasse sem se lembrar dos rosto de seus amigos ou do de Izaya. Quando pensava nisso, uma dor enorme a consumia, fazendo seus olhos marejarem. Aqueles dias juntos haviam se tornado lembranças valiosas demais para simplesmente serem esquecidas.

E assim, mesclando felicidade com tristeza, a semana chegou ao fim e Mai teve que se despedir de suas amigas.

— Isso é tão triste… — comentou Mairu, desconsolada. — Queria poder viver com a Mai-nee para sempre! Maldito sortudo esse Iza-nii, que tem a Mai-nee só pra ele…

Ignorando a irmã, Kururi se aproximou da jovem e lhe deu um abraço.

— Até logo — falou, em seu habitual tom baixo.

— Adeus, Mai-nee! — Despediu-se a de óculos, lhe dando um forte abraço.

— N-não se preocupe, Mairu — tentou consolar Mai. — Vocês podem vir me visitar quando quiserem.

— Oh, como você é doce! — Exclamou ela. — Tão doce que estou quase me apaixonando por você ~ ♥

— O que?!

Suspirando, Kururi pegou a irmã pelo braço, afastando-a de Mai.

— Não se preocupe, logo nós a veremos novamente — disse ela.

— Ah, é mesmo! — Exclamou a de óculos, agora com um sorriso conspiratório. — A surpresa, é claro.

— Surpresa? — A mais velha das três perguntou, curiosa.

As duas trocaram um olhar cheio de segredos.

— Você logo vai descobrir.

Impedindo-a de fazer mais perguntas, as duas se afastaram correndo, parando só no final do corredor, às portas do elevador.

— E, não se preocupe, vamos te dar uma cópia das fotos que tiramos, viu? — Gritou Mairu. — Será parte do nosso presente.

Vendo-a adentrar no elevador, Mai suspirou, perguntando-se o que era todo aquele mistério. Por fim, com um dar de ombros, ela também entrou para o escritório, fechando a portas atrás de si.

Já era fim de tarde, quase noite, e Mai se encontrava quase completamente sozinha ali. Era um tanto solitário para ela, porém Izaya havia ligado naquele dia de manhã dizendo que voltaria pela madrugada, o que a deixava feliz.

Caminhando até o sofá, ela pegou Kuro que cochilava nas almofadas e o aninhou em seus braços.

— Me faz companhia? — Pediu ao animal, que bocejou e depois esfregou a cabeça peluda contra sua bochecha. — Obrigada.

Indo em direção a estante, Mai pegou o exemplar de Admirável Novo Mundo da prateleira e o levou junto consigo para o quarto. Lá, ela tomou seu banho, trocou de roupa e escreveu em seu diário. Ao acabar, voltou para a cama e deitou Kuro em seu colo, ligando o abajur sobre o criado-mudo e abrindo seu livro.

Mai realmente pretendia esperar por Izaya acordada e era por isso que levou um livro para ler. Todavia, contra sua vontade, o sonho logo a venceu, fazendo-a se perder em um mar de sonhos serenos.

• • •

— Ei, Mai-chan…

Ela podia ouvir sua voz e sentir seu cheiro. Um sonho realmente bom, pensou feliz. Queria poder se levantar e abraçá-lo, mas seu corpo estava pesado demais para se mexer.

— Acorde, Mai-chan.

Tentando alcançá-lo, Mai acabou abrindo os olhos, vendo a imagem embaçada de alguém aos pés da cama.

— Izaya? — Chamou sonolenta.

— Hora de acordar — riu ele.

Confusa e coçando os olhos, Mai se sentou. Depois alguns instantes, ela finalmente percebeu que aquilo não era um sonho.

— Izaya! — Exclamou.

Em pé, próximo ao armário e cercado por malas abertas, encontrava-se Izaya sorrindo para ela.

— Vamos, levante-se, Mai-chan — falou. — Precisamos fazer suas malas.

— Malas? Pra que?

O sorriso do informante se alargou.

— Para viajarmos, é claro — respondeu. — Nós vamos à praia.

Notas finais
O que acharam? Eu preciso confessar, estou particularmente satisfeita com esse capítulo! Gostei dele do início ao fim e me diverti bastante escrevendo. Os acontecimentos, a escrita, o Izaya e a Mai, adorei tudo, hehe ~ (o que é raro) E, bem, eu também espero muuito que tenham gostado apesar do pequeno acontecimento trágico. Esse capítulo marca o início do arco final de Memories, ou seja, daqui pra frente tudo vai esquentar. Por sinal os kanjis do nome da Mai estão certinhos :3 Ainda reservarei um espaço para falar sobre o significado do nome dela. Próximo capítulo talvez demore um pouco, já que para escrevê-lo, eu terei que fazer algumas pesquisas e bolar algumas coisinhas ~~ Mas, para animá-los, no próximo nós teremos o tão esperado casamento! Por último, o que estão achando da nova temporada de Durarara!!? Eu estou amando e me sinto inspirada a cada novo episódio. Na verdade, assistir o anime só me faz querer ainda mais dar início a um novo projetinho que tenho, hoho. Acho que a maioria notou, mas nessa temporada o Izaya está mais próximo da Namie. Para ser sincera, eu não me incomodo com isso (às vezes até acho que, se o Narita-san não matar o Izaya no final, vai fazer ele terminar com a Namie) e eu até gosto dela. Mas foi engraçado que teve leitora que ficou brava com ela por causa disso xDD P.S.: Fogão inconveniente, não acho? Logo na melhor parte, kkkkk.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.