Memoirs
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu, realmente, não consigo lembrar-me de termos comemorado os nossos aniversários no ano passado, mas suponho que tenha a ver com a época em que eu fiquei sem WhatsApp (porque meu tablet quebrou) e nós nos conhecíamos não fazia muito tempo.
Este ano, estamos aqui, e só você para me fazer escrever original mesmo, viu? Haha
Espero que você goste. Ia ser one-shot, mas eu decidi que dá para estender isso aí ♥
Ela olhou para o quadro digital com apenas metade da atenção disposta. A porta automática abriu-se novamente, deslizando, e outro aluno foi convidado a trocar de sala. Já esteve nessa situação outras vezes. Qualquer dispersão em aula, e você era trocado.
Ela olhou para o lado, pela parede transparente de vidro, e viu diversos alunos dormindo, conversando (pelo menos, aparentavam, já que as salas eram à prova de som) ou mexendo em seus celulares.
Não muito tempo depois, o aluno entrou por ali, parecendo descontente com a algazarra. A sala em frente às duas, em comparação, era pequena. A parede ocupada pelo quadro digital, e a professora em frente a ele, explicando algo que apenas a sala da direita conseguiria escutar, não é como se a outra sala se importasse com este fator.
Era irônico que os que não adquiriam conhecimento pagassem menos do que os interessados, mas o capitalismo nunca foi realmente justo. Antes, os estudiosos conseguiam bolsas, pagavam menos, e recebiam todo o conhecimento disponibilizado. Contudo, o conhecimento era perigoso como uma arma, e tornou-se um comércio, não que já não fosse.
Às vezes, ela era grata pelo silêncio proporcionado. Outras, gostaria de dar mais risadas, exatamente como as pessoas da sala ao lado faziam. Entre tanto agito, uma garota se destacava. Olhava diretamente para a mesa, arrastando os dedos pela superfície lisa, concentrada no que fazia.
A luz azulada iluminava levemente seu rosto, e Luísa pensou que as lâmpadas do teto podiam ser, facilmente, retiradas. Todo o azul das mesas e da sala à frente proporcionava uma ótima iluminação, que as lâmpadas amareladas só serviam para desviar.
Era visível que a garota, de fones de ouvido sem fio, tentava concentrar-se, mas era impossível escutar a professora por lá, mesmo que a sua voz penetrasse pela frente vídrica. Não eram necessários autofalantes, era só apertar um botão, e era permitida a propagação do som, direto, como se aquelas paredes não existissem.
Pelo canto do olho, observou como um garoto levava o dedo à haste dos óculos, ajustando as lentes, a já conhecida luz surgindo por um ponto. Parecia que a tecnologia era resumida pela cor primária, sem quaisquer alterações. Era uma cor bonita, mas comum. Nem claro, nem escuro, não tinha qualquer sinal de suavidade, era brusco, como as cores da arte Fauvista, embora não houvesse nada de francês naquilo. A frase “I am so blue” era perfeita¹.
Os números pairavam pelo quadro, as letras eram as únicas coisas ainda pertencentes às mãos. Um dia, ela temia que até mesmo essa parte de sua identidade individual fosse retirada dela.
Não era estranho que tivesse tanto receio do padrão, ela era completamente fora dele.
À caminho do colégio, naquela manhã, ela esbarrou em um garoto na rua. Foi apenas olhá-lo por um segundo para ela saber que já tinha esbarrado com ele em torno de 5 vezes nos últimos meses, e ele sempre parecia apressado e estressado. Problemas em casa, provavelmente.
Algo observador, certamente. Digno de um detetive dos livros de Sir Arthur Conan Doyle. Contudo, Luísa tinha a sensação de que ele não se lembraria de coisas tão antigas com tanta perfeição, como uma leve impressão de uma escuridão vermelha. Ela não tinha um cérebro desenvolvido naquela época, mas, desde aquele momento, algo mudou dentro de si.
As pessoas não lembravam-se de suas infâncias com perfeição, mas ela lembrava de mais coisas do que gostaria.
Olhando rapidamente para o horário em sua mesa, percebeu que faltava pouco tempo para as aulas do dia acabarem. Novamente, sua atenção foi posta à garota da sala ao lado.
Elas eram iguais e diferentes ao mesmo tempo.
Duas estranhas em um mundo padronizado.
Luísa lembrava de coisas de mais, Maria lembrava de coisa de menos.
Não havia alguém no colégio que não soubesse das peripécias causadas por ambas. A garota que não conseguia nem lembrar onde tinha deixado o seu casaco, e a garota que poderia fazer uma prova sem nem estudar. A única coisa que ela precisava era ver e ouvir, e isso estaria em sua memória para o momento certo.
Vendo o esforço da loira da sala dos desajustados, era claro que o que a impedia de seguir em frente era justamente aquilo. Não podia evitar de sentir pena, pois lutar contra o esquecimento era quase como uma batalha perdida, mas ela estava ali, na sala ao lado, sendo que poderia ter sido reprovada nos anos anteriores.
De qualquer forma, esperava que não precisassem lidar com aquele problema por muito mais tempo.
Retirou o folheto plastificado de dentro da mochila, no mesmo instante em que as paredes vibraram, como se de um celular se tratasse. Levantou o olhar a tempo de ver a professora apertar um botão e retirar-se. As letras e números começaram a desvanecer do quadro, na ordem em que foram escritos, o que era interessante. Perguntou-se se havia alguma regra que proibisse a entrada de alunos por aquela sala, pois poderia ver as letras sumirem por um bom tempo, sem pressa.
Era tudo tão impessoal, tão frio. Se um aluno tivesse dúvidas, ele deveria mandar uma mensagem. Não havia conversa direta, interação, o que era irônico considerando todas as utilidades dadas às vozes.
Voltando o olhar para o folheto, um milagroso papel num mundo de telas planas, ela parou para pensar em tudo o que estava acontecendo. Se fechasse os olhos, conseguiria reviver perfeitamente.
A ElectronicCase poderia ser a sua solução, ou o começo de mais problemas. Só não conseguia decidir qual das opções era mais incômoda.
A sala ao lado ficou vazia, e ela só percebeu isso quando já era tarde demais.
Apesar disso, ela não estava exatamente vazia. De pessoas, sim, mas a última a sair deixou uma caneta para trás. Provavelmente, um item tão pequeno não seria dado falta.
Luísa saiu de sua sala, dando a volta até lá. Quando pegou o objeto, caminhou pelos corredores, ora brancos, ora iluminados pela luz solar filtrada pela vidraça. Em um canto havia uma entrada, que poderia ser confundida com aquelas usadas nas antigas caixas de correio. Ela pegou uma etiqueta, escrevendo a quem pertencia e onde foi encontrada, antes de colar na caneta, jogando-a naquele espaço.
O folheto da EC seguiu o mesmo caminho. Aquilo não era o lixo, mas ela não estava se importando naquele momento.
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