Memoir
1 Que essas lágrimas sequem — capítulo único
Notas iniciais
Algo no vento dizia que o tempo iria mudar bruscamente, e logo, se não bastassem as nuvens cinzentas e as ruas molhadas como um forte indício da chuva que houvera pela manhã — mas estando na rua, fazendo compras que não eram para ela, Izumo torcia para que o vento apenas estivesse levando as nuvens para outro lugar e que nada molhasse o que tinha nas sacolas que lhe marcavam os dedos da mão.
Algumas passadas a frente havia uma senhora com mechas brancas no cabelo acompanhada de uma garotinha vestida em roupas cor de rosa, ambas carregando sacolas e de mãos dadas, enquanto que a menina contava o que lhe vinha a mente para a senhora que sorria, pedindo para que ela continuasse em suas palavras. E por algum motivo, ver aquelas duas estranhas em um belo momento de cumplicidade fizera com seu coração também ansiasse pelo mesmo, um momento, uma relação como aquela.
E como as duas seguiam pelo mesmo caminho que o dela rumo ao ryokan, ao menos por aquele momento seu coração poderia se aproveitar de tal anseio.
O chiado da guitarra se diluía, passando por seus fones de ouvido junto de um grito estridente até parar, como se ela estivesse no olho do furacão, observando o céu límpido e puro. Seus pés sob o chinelo de dedo sentiam claramente as ondulações do solo, das pequenas crateras formadas pelo uso da rua mas naquele momento, quando a música deu um suspiro de alívio, o som vindo de fora daquele aparelho de plástico ganhou um outro sentido. O vento forte passando por entre as folhas verdes das árvores naquela rua vazia, o céu azul com nuvens cinzentas anunciando a chuva que viria mais tarde, as folhas secas sendo levadas por aquela mesma corrente de ar, seu som seco se arrastando da calçada para a rua. Seu corpo parou, admirando aqueles breves segundos de beleza — as duas que seus olhos seguiam já tomando outro destino — até que a guitarra voltou a soar de forma frenética e a mesma voz estridente cantou o final da música.
Sua sacola de velas pouco pesava naquele momento, o incenso que havia se esquecido de comprar e voltara correndo assim que se lembrara, muito menos. Naqueles breves segundos ela apreciava a vida em seu curso mais puro.
E não havia nada mais belo.
Porém, seu destino não era aquele.
Izumo poderia até não ter mais um lar para chamar de seu mas a maneira como a família de Suguro sempre a recebera de braços abertos, apenas por ela ser uma amiga dele, era algo que fazia com que ela considerasse aquela estrutura no meio de Kyoto como seu mais novo lar. Era algo estranhamente revigorante, ser chamada pelo nome por pessoas de fora do seu círculo familiar, dirá o de amizades.
Assim como era estranho para ela passar a se sentir segura em um lugar como aquele.
Se sentir segura novamente era estranho, uma noção que lhe pregava peças quando se descuidava.
Mesmo que já não houvessem motivos a provando do contrário.
Mas seus monólogos internos acabaram sendo interrompidos quando ela avistara uma figura escondida próxima ao jardim — ao menos ela aparentava querer estar escondida — encolhida com a cabeça espremida sobre os joelhos, seu corpo tremia de um momento a outro e por mais que sua intenção de passar despercebida por ela não tenha sido das mais eficazes, Izumo não fugira quando ela notara sua presença levantando a cabeça, a olhando nos olhos.
E seus olhos estavam tão vermelhos quanto seu rosto.
Ela estava chorando, e muito.
Mas aquele não o detalhe mais desconcertante naquele momento, não, o detalhe que parecia estar brincando com a cara dela naquele momento era outro.
Aquela era uma das irmãs de Renzo.
O que a lembrava momentaneamente do motivo de ela estar ali, para passar mais do que alguns dias, na companhia dele.
"Se vamos dividir um teto é melhor contar 'pra eles pessoalmente, não quero que meu irmão fique me ligando por causa disso", fora o que ele lhe dissera, semanas antes de aparecer perguntando se ela gostaria de ir até Kyoto com ele e os amigos de infância. Haveria uma comemoração pelo terceiro ano de uma das filhas do Shima mais velho e aquele parecia ser um bom momento para que ele contasse da novidade.
Eles não morariam tão longe da academia, e o arranjo que fizeram estava mais para uma divisão de despesas de qualquer maneira.
E se haviam sentimentos aqui ou ali eles não eram comumente nomeados, ao menos, não por ela.
Porém, a garota não desviara os olhos dos dela por um instante sequer desde que a vira e por um breve instante, Izumo se lembrara do que sentira ao ver a senhora e a garotinha de minutos atrás.
A faixa alta e dançante que tocava fora perdendo importância conforme ela dava passos em direção a ela, que pareceu surpresa, mesmo sem demonstrar isso abertamente.
E quando se sentara ao lado dela, ela apenas continuara em sua observação, as sobrancelhas juntas no cenho.
— Como é mesmo o seu nome?
— Yumi, e você, quem é?
— Izumo, eu vim com um dos seus irmãos.
Ela inclinou a cabeça.
— Qual deles?
— Renzo.
— Ah, eu lembro de você, era uma das colegas dele e do Koneko.
— Isso mesmo.
Yumi deixara de olhá-la e mesmo sendo maior em estatura de quando a vira pela última vez, olhando para ela ali, encolhida, procurando se esconder dentro de si, fizera um sentimento que ela imaginava ter sido completamente esquecido com sua irmã dizendo que não se lembrava mais dela, voltar com força total.
Era como se ela quisesse protegê-la daquilo que a magoara.
— E qual o motivo de você estar aqui, Yumi?
Ela se demorara em responder.
E por algum motivo, ali, naquela tarde, em um dia de um mês qualquer no calendário, Izumo sentira a necessidade de agir como uma irmã mais velha.
— Você quer mesmo saber?
— Se não quisesse eu nem perguntava.
Um sorriso.
— Eu escutei uma das ligações que o Koneko vinha tendo desde que chegou aqui, e descobri que ele... bem... que ele tem uma namorada e isso... bem... isso me magoou mais do que eu imaginava.
— E você gosta dele..?
Um bico enorme tomara os lábios dela, seu corpo tremera mais um pouco e ela escondera o rosto. Resposta mais clara, impossível.
E se ela bem se lembrava, Renzo havia comentado algo sobre isso quando a turma deles viera para o casamento do Shima mais velho. Não de forma clara, mas ela se lembrava de ter escutado ele dizendo algo sobre a maneira como ela agia diante de Konekomaru Miwa.
Então vê-la daquele jeito era uma péssima notícia.
Provavelmente Yumi não só gostava dele...
Com o tempo de reação atrasado, ela colocara uma das mãos nas costas da garota magoada, procurando acalmá-la e aos poucos, o corpo dela deixara de tremer tanto.
Até enfim se acalmar.
Secando o rosto com ambos os lados das mãos, o nariz pequeno dela fungara mais uma vez, tentando respirar melhor e ao menos ali, ela parecia mais relaxada.
O que era algo positivo, pois assim Izumo também poderia se acalmar, ao invés de tentar ajudá-la estando tão aflita quanto ela por não saber o quê fazer.
— Eu gosto dele. Muito. E isso vem de antes dele ir para a academia. O Koneko... ele é tão incrível e bondoso... mas não consegue enxergar isso nele mesmo, só nos outros, nem sei como ele acha o Ren incrível, ele é só um folgado!
— Nisso eu tenho que concordar.
— Não é? Meu irmão é tão relaxado que chega a doer!E com o bom humor daquele comentário, Yumi sorrira, ao menos um pouco, o rosto vermelho ainda denunciava como ela estivera minutos atrás.
— Renzo tem suas qualidades para além do que ele mostra, acho que você deveria ter notado isso como irmã, não? Assim como percebeu com o Miwa.
Ela negou com a cabeça.
— Os dois são totalmente diferentes.
— E você só enxerga as qualidades de um e os defeitos do outro.
— Você não 'tá ajudando, sabia?
Izumo sentira uma veia pulsar em algum canto de sua testa, aquelas palavras a lembrando de tantas outras que lera em seus romances juvenis...
A diferença é que romances eram fictícios e o drama daquela garota era real demais para ela sustentar.
— Só porque você não me contou o resto da história, oras! Como eu posso dizer algo se você só me disse que é apaixonada pelo Miwa e que descobrir que ele tem uma namorada te deixou magoada? Aliás, ele tem namorada? Como ele consegue ser tão discreto?
Yumi fez uma careta.
— Eu não sei o que fazer com o que sinto agora, é estranho, eu ainda quero ver ele, estar perto dele, sentir o cheiro dele mas isso... não faz mais tanto sentido como costumava fazer...
Cheiro?
Automaticamente os olhos de Izumo caíram sobre a sacola parcialmente esquecida a seus pés, observando a caixinha de incenso que, mesmo aquela distância ainda exalava um aroma delicioso e agradável ao seu olfato.
Por um instante Yumi a lembrou um pouco de Renzo.
— Isso significa que você já não reconhece mais esses sentimentos como seus, você está amadurecendo Yumi, só isso.
— Não pode ser tão simples, antes eu pensava em morrer se não fosse passar o resto da minha vida com ele.
— Mas se esqueceu de que você ainda estava crescendo e que poderia mudar de ideia sobre isso mais a frente.
O vermelho no rosto dela deixara de ser tão vibrante agora, mas ela ainda parecia confusa sobre o que ouvira.
E aquele anseio que sentira mais cedo voltara com força total ao coração de Izumo, que via naquele momento, algo que não poderia ter com sua irmã.
— Infelizmente, você não pode controlar o que as pessoas pensam ou sentem sobre você, Yumi.
As palavras saíam mais fáceis do que foram assimiladas por ela, a fazendo pensar no quão duro fora apenas superar seus anos em sofrimento por algo que nem sequer existia de verdade. Mesmo tendo se esforçado, lutado em nome da segurança de sua irmã, ela já não corria perigo — assim como os sentimentos tão intensos daquela garota poderiam ser colocados em outro lugar, não em nome de alguém que não poderia retribuí-los na mesma moeda.
Izumo só queria que alguém na mesma situação em que ela estivera pudesse ter um conselho, uma palavra que ela nunca tivera.
Uma chance de poder olhar sua realidade de uma forma diferente.
As lágrimas descendo pelos olhos castanhos diziam mais que os soluços dela, que o rosto menos avermelhado. Eram sinceridade estampada, algo que ela pouco se dava o luxo de sentir e, enquanto seus braços colocavam o corpo magro num abraço desajeitado, dando conforto, pelo canto do olho ela conseguiu encontrar Renzo a olhando com uma expressão azeda.
Mas ele não ficara muito tempo para ver o final da conversa.
— O que eu faço agora? Eu nem sei o que fazer, eu só consigo pensar nele.
— Você segue em frente, o que mais quer fazer?
Ela se desvencilhou de seus braços o suficiente para encara-la nos olhos.
— Esquecer ele.
Um sorriso se abriu em Izumo.
— Então esse é o seu primeiro passo. Esqueça ele.
Somente depois desse momento divido entre as duas, que ela se atentara a figura de Suguro a procura dela — praticamente bufando pela demora que causara nos ritos dele.
Já era tarde quando ela decidira observar o céu novamente, o período noturno fazendo com que sua percepção sobre o clima durante a tarde se tornasse mais evidente com os pouquíssimos pontinhos brilhantes escapando por entre as nuvens pesadas. Sentado no lado de fora, de costas para ela, Renzo parecia alguém quase que completamente diferente se comparando aos trejeitos que ele sempre vestia quando a observava.
O calor do dia já não existia, apenas o vento frio e o céu em caminho de se tornar completamente escuro permaneciam. A chuva ainda viria.
— O que você 'tá fazendo aqui?
— Para ver o céu, e você?
— 'Pra não ver você.
O ar lhe escapara brevemente, fazendo com que ela risse sem que quisesse realmente.
Por vezes ela duvidara do interesse dele por sua figura, genuíno ou não, era algo que por vezes a deixou confusa entretanto, ali ela conseguia entender os motivos dele com mais facilidade.
Então ela apenas se sentara ao lado dele, olhando para cima.
— Você pode até agir desse jeito, mas ainda me lembra muito da sua irmã.
— Como?
— Os dois são muito dedicados, quando se doam a alguém.
— Eu, dedicado? Tem certeza, Izumo?
— Ainda tem a audácia de duvidar de mim? Logo a pessoa a quem você mais se doou?
Ele apenas grunhiu em resposta, completamente contrariado.
— Pensei que ficaria feliz em ser comparado com uma garota, não foi você mesmo que disse detestar os homens e amar as mulheres?
— 'Tá, você 'tá certa. Satisfeita?
— Não sinta ciúmes da sua própria irmã.
O som de uma porta correndo quebrara qualquer fluxo de indiretas vinda dentre os dois, dando espaço para que alguém entrasse em cena. Muito além de apenas observar o jovem par discutindo miudezas, a mulher decidira participar daquele pequeno e singelo momento.
Aos olhos de Izumo, a mulher em roupas tradicionais parecia etérea, como se uma pintura se locomovesse languida e belamente em sua direção.
Já para Renzo, aquela que sorria contidamente era apenas um lembrete — uma nota que o fazia se questionar os motivos em querer ser independente.
— Então era aqui que vocês estavam.
De deixar sua família para trás e viver uma vida que fosse apenas sua.
E a medida que ele perguntava "o que você 'tá fazendo aqui, mãe?", quase que completamente desconfortável, os olhos de Izumo aumentavam de tamanho, olhando entre mãe e filho, se perguntando em seguida como aquelas duas pessoas poderiam estar relacionados dessa maneira.
— Seu pai disse que ficaria mais tempo aqui, então decidi vir e fazer companhia a minha família.
— Por isso que a Yumi veio então.
— Sim, mas ela ficou muito triste depois de um dia aqui, ela sempre foi tão alegre, nunca imaginei que a veria tão murcha daquele jeito tão cedo. Mas depois de ter conversado com uma certa pessoa, ela pareceu melhorar.
Izumo sentiu seu rosto começar a esquentar, principalmente quando a mulher se sentara perto dos dois.
— E você é a sacerdotisa Inari que conquistou o coração do meu Renzo, e acalmou o da minha Yumi?
Ela negou com a cabeça.
— Eu nunca fui uma sacerdotisa de verdade, minha mãe quem era.
— Então como aqueles dois ainda estão com você?
— Quem são aqueles dois?
— Aqueles dois são as entidades do templo ao qual a minha família servia, e eles prometeram que ficariam comigo depois do que aconteceu com a minha mãe.
O rosto da mulher pareceu se iluminar.
— Assim como o meu Renzo tem Yamantaka como familiar?
— Isso, exatamente. Quer conhecê-los?
— Se não fosse incômodo, seria ótimo.
Se fosse honesta consigo mesma, Izumo não queria que ela conhecesse seus familiares tão cedo mas também, aquela era a matriarca dos Shima, a mãe de Renzo. Aquele Renzo. Aquele idiota que estava encarando ela como se aquela fosse a primeira vez que a visse, então ela queria causar uma boa impressão.
Mesmo que Uke e Mike aparecessem da mesma maneira, como sempre apareciam.
Incomodados por terem sido chamados em um momento totalmente inconveniente por sua domadora.
"Izumo tem noção de que dia é hoje?", reclamou Mike sentando em seu lado direito.
— Oferendas, certo? Onde está o Uke?
"Desculpe o atraso Izumo, por que nos chamou?", perguntou Uke acomodando-se do outro lado.
— Queria que uma pessoa conhecesse vocês. Uke, Mike, esta é a matriarca dos Shima.
As duas raposas sobrenaturais observaram a mulher disposta ao lado do rosado constrangido, procurando nela algo que se assemelhasse ao filho, mas não encontrando nada quantitativo sobre.
Exceto pela beleza dela, que encantou Uke quase que por completo — em poucos minutos ele se dispusera a frente da mulher, como se pedisse por afago, enquanto Mike grunhia ao lado de Izumo.
Mas tal cena não diminuíra o descontentamento dele.
— O que você tá fazendo aqui fora mãe?
— O jantar já foi servido, estava preocupada por você não ter aparecido, mas Suguro me disse que você poderia estar aqui fora então pedi para deixarem a sua porção separada, assim como a sua também Kamiki.
Os dois se olharam brevemente, sem saber o que dizer. Izumo até mesmo emitira um curto "ah" que mal fora escutado com certeza e ela somente saíra desse estado curto de inação com a voz irritadiça de Mike, ecoando ao seu redor.
"Agradeça garota."
E foi o que ela fez, mesmo sendo estranho ver uma mulher transbordando gentileza sobre ela, que aquela altura, ainda era apenas uma estranha — uma colega de classe de seu filho mais novo.
Naquele momento em que observava a mãe de Renzo se levantando calmamente, enquanto agradecia pela presença dela na vida de seus filhos, a jovem exorcista teve uma noção mais concreta do que viria a ser uma figura feminina, ao menos uma que ela sonhava quando sua mãe só lhe causava dores de cabeça.
E como aquele pensamento a fez sentir falta de sua própria família.
Mas aquele não era o lugar, muito menos o momento de deixar suas lágrimas escaparem.
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