Memento Mori
18 Bondade
Notas iniciais
"A bondade é uma língua que os surdos podem ouvir e os cegos podem ver."
— Mark Twain
Durante as duas semanas que se seguiram o episódio na sala de aula vazia, Tom Riddle decidiu não se aproximar mais de Aura Mors; daria um tempo para colocar os pensamentos no lugar. Cada vez que aquela garota abria a boca, parecia que mil enigmas saiam dela. Aliás, Mors era uma incógnita e não uma garota, garotas costumavam ser mais simples. Aura não tinha as risadinhas e nem os rostos corados; ela não observava os garotos e nem ao menos abaixava a cabeça de forma tímida. Ela sabia de tudo, e mesmo assim não participava de alguma corrente de fofoca. Ela sabia das Horcruxes, sabia que ele havia matado os Riddle, e mesmo assim não contou para ninguém. Não que alguém fosse acreditar nela caso contasse — talvez Dumbledore — mas , mesmo assim...
Riddle detestava a sensação de impotência que sentia que sentia sempre que Mors se aproximava, e tudo piorara após aquele maldito sonho. Era como se seu subconsciente o avisasse para ter cuidado com ela. Por que Aura Mors não podia ser como as outras garotas? E agora estava ali, na sala de aula já vazia, tentando terminar a redação que Binns havia pedido que fizessem. Bruxaria na Idade Média, mas não algo nível terceiro ano, precisava ser bem acurado; não seria um problema para ela, mas naquele momento, não conseguia raciocinar.
— Você não estava no jantar. — ouvir aquela voz o fez gelar. Estava tão distraído com seus pensamentos que não ouviu a porta ser aberta.
— Isso não é problema seu, Mors. — decidiu não erguer os olhos do pergaminho à sua frente.
Esperou que Aura fosse embora. Ledo engano.
Ela se aproximou, a passos lentos, e colocou sobre a mesa ao seu lado um prato com o jantar e um copo de suco de abóbora. Aquilo o deixou surpreso; a garota havia o procurado até o encontrar apenas para que ele não ficasse sem jantar?
— Oh, está terminando a redação. — ela comentou, estranhamente jovial, enquanto sentava-se ao seu lado — Não está citando os fundadores de Hogwarts, está?
— Na verdade, eu estou sim. — retrucou rispidamente. Tinha citado as grades contribuições de Salazar Slytherin — Algum problema com isso?
— Sim, ficaria muito melhor se você fugisse desse senso comum. — ela respondeu, sem se abalar — Acredito que muitos alunos irão citar os quatro. Você poderia tentar criar teorias sobre outros bruxos menos conhecidos dessa época. Teorias que façam sentido, é claro. — aconselhou.
O Herdeiro de Slytherin se inclinou na cadeira, observando Mors com atenção. Como ela podia chegar até ele do nada e sair ajudando-o em História da Magia. Como se ele precisasse de ajuda... E, afinal, teria ela se esquecido das vezes anteriores em que estiveram sozinhos? Por outro lado — mesmo que não quisesse admitir — queria ver até onde a garota chegaria.
— Quer que eu fale sobre Morgana? — ele questionou — Ou sobre, — ele folheou seu livro, até encontrar o nome que procurava se lembrar — o tal de Galahad? Era de uma linhagem mágica e gostava de viver como trouxa. — terminou, com nojo na voz.
Um barulho de metal colidindo com o chão o fez seguir o som com os olhões, e percebeu que a pequena moeda que Mors girava entre os dedos havia caído de sua mão e ela ofegava. Parecia ter levado um choque elétrico. Seus olhos estavam desfocados.
— Mors? Mors!— ele sacudiu seus ombros de leve — Aura!
— Me desculpe, eu só... — ela piscou os olhos de maneira muito rápida e em seguida pigarreou — Bem, era apenas isso. Só quis lhe dar uma opinião, mas você pode fazer do jeito que quiser.
— Você está bem? — ele se viu perguntando, por curiosidade.
— Claro. — sua voz voltou a ficar firme — Vou deixa-lo para terminar a redação. Não esqueça de jantar. — ela apontou para a comina na mesa ao lado — Tenha uma boa noite.
Mors não esperou nenhuma resposta por parte dele, e elegantemente — como sempre — saiu da sala com a capa do uniforme farfalhando nos tornozelos.
Com um suspiro e fechando momentaneamente os olhos em exasperação, Tom Riddle rasgou o pergaminho em que estava escrevendo. Faria de outro jeito. Aura Mors poderia ser qualquer coisa, menos burra. Pegou um novo pergaminho, mas acabou por sentir seu pé chutar algo. Era a moeda prateada de Mors.
Se abaixou e a pegou, guardando no bolso em seguida. Era estranhamente fria e pesada.
***
— Você parece dispersa. — Claire Wood comentou, assim que Aura se sentou na cadeira da escrivaninha — Aconteceu alguma coisa? E onde foi depois do jantar?
Na verdade, Claire tinha uma boa ideia de onde Aura poderia ter ido, mas, como apenas as duas estavam no dormitório, ela queria ouvir a amiga dizer. Mors estava aparentando uma palidez doentia, diferente do mármore que sempre parecia.
— Você estava com Tom Riddle? — ela voltou a questionar.
Isso pareceu despertá-la.
— Sim. — respondeu — Sim, eu estava. Mas eu não fiz nenhum desafio, caso esteja se preocupando. Fui bem boazinha, aliás.
Claire tentou evitar que uma careta tomasse conta de seu rosto.
— Eu não acho que Tom Riddle seja confiável, Aura. — disse e a outra garota a olhou.
— Eu também não acho. Não por enquanto.
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