Memórias do Profeta

1 Girando as rodas do destino


- Ah, acabou.

Mais uma tarde sem aquela fome incômoda tinha sido garantida. Mais um roubo excepcional. Rápido. Quase sem rastros. Passaria até despercebido, se já não fosse a décima quarta vez que os mercadores daquele lado da periferia de Hakwin perdiam alguns peixes. Desde a chegada daquele garoto diferente de todos os homens altos e vermelhos que compartilhavam suas vizinhanças naquela cidade velha e hostil no meio do deserto, tanto os mercadores quanto os próprios ladrões vinham tendo problemas.

Média estatura, pele branca, cabelos e olhos pretos – da mesma cor que suas poucas roupas, agora já desgastadas e bem sujas. Sem a velocidade e as táticas de fuga, provavelmente não teria durado uma semana chamando tanta atenção. Não era de falar muito, não tinha amigos e nem poderia ter, afinal, a aparência parecia ser fundamental para aquele povo estranho. Aliás, o que não era estranho para um garoto que não tinha memória? Tudo que Breyik se lembrava era de seu nome e de alguns reflexos de combate – que por sinal já haviam sido demonstrados algumas vezes, pergunte aos quinze policiais que, agora, hospitalizados há três dias e se recuperando, já perderam o orgulho diante do massacre pelo qual haviam passado nas ruas escuras da zona oeste. O pior é que nenhum deles viu nada mais que um vulto dando alguns socos, quebrando alguns ossos quando necessário e – acredite se quiser – pegando relativamente leve com cada um deles.

Ah, devo dizer que nosso ladrão tinha uma espada, e que essa espada não era uma arma qualquer. Tratava-se de uma espada negra – e quando digo que a espada era negra, entenda que tanto o cabo quanto a lâmina eram mais escuros que qualquer coisa, assim como os olhos e os cabelos de seu espadachim. Na verdade, talvez haja dúvida sobre a definição de uma espada quando falamos da arma dessa criança especificamente. Era na verdade uma arma desproporcional – o cabo pertencia claramente ao que deveria ser uma daquelas grandes espadas de duas mãos usadas pelos cavaleiros mais fortes da antiguidade. Mas ao checar o tamanho da fina lâmina retangular que se encaixava logo acima, poderia se dizer que tratava-se de uma faca, ou com sorte uma espada curta. Os poucos que puderam ver essa arma já disseram mais de uma vez que “um cabo daquele tamanho claramente não é necessário para uma lâmina de porte tão pequeno”. E eles não eram os únicos – o próprio Breyik já havia tentado mudar algumas vezes para uma arma mais interessante, como uma daquelas lanças ou espadas dos pobres policiais que tentavam contê-lo eventualmente. Infelizmente, para seu azar e confusão, seu toque era suficiente para derreter e quebrar qualquer uma dessas armas comuns que ele encontrava. Obviamente, contra a sua vontade. Restava então continuar usando a mesma espada estranha. Definitivamente desproporcional e de peso mal distribuído, mas ele tinha alguma escolha?

Um nome, um estilo de luta e uma espada. Esse era o mais novo fantasma da grande e modesta cidade do deserto. Fantasma que agora comia o último peixe de seu saque diário antes de se deitar e esperar a noite.

Desde quando chegou em Hakwin, há quase três meses, Breyik teve bastante tempo para pensar e observar a cidade que passaria a patrulhar diariamente em busca de alvos variados e lugares para descansar. Ele achava interessante o jeito que o deserto tinha tornado aquele povo humilde. Era notável a cooperação das pessoas em prol da segurança – e isso envolve desde a cor de areia das paredes dos edifícios para “camuflar” a cidade durante as tempestades de areia até o posicionamento das casas, buscado sempre ficar uma de frente para outra, organizando os tamanhos para melhor visibilidade. Bem, desde que as construções fossem altas o suficiente para fazer alguma sombra naquele deserto, para Breyik já estava ótimo.

Ao terminar de comer os peixes de procedência duvidosa do roubo daquela tarde, tínhamos um garoto satisfeito e sonolento encostado na parede de um daqueles becos sem saída onde ninguém ousa entrar. Nada mais adequado para o ócio pós-almoço.

“Vamos lá”. Breyik fecha os olhos, concentra toda sua atenção para dentro de si e em sua consciência, prepara a mente para uma profunda auto avaliação e regressão nas memórias perdidas e conclui:

- Definitivamente, é impossível. Eu não consigo lembrar... – balança a cabeça e ajeita os pensamentos – Tudo bem, com calma. Ruínas, espada, deserto. Ruínas. Ok, do que eu me lembro dos momentos antes de chegar na cidade?

. . .

Calor. Breyik acorda ensopado em suor e em algo que parecia ser... sangue? De alguma forma, ele sabia que aquelas manchas vermelhas sobre sua camisa e seus braços eram manchas de sangue, e, logicamente, tinham vazado por algum ferimento. Mas ao checar sua situação, não encontrou nenhum tipo de corte ou machucado. Estava inteiro. Menos mal.

Levantou-se e olhou ao redor. Ruínas no meio do deserto. Uma espada mal feita no chão abaixo de onde ele esteve deitado por, pelo que o suor e a poeira na pele indicam, bastante tempo. E só então, ao ver a espada e buscar na memória qualquer coisa sobre ela, percebeu um problema: por algum motivo, ele não se lembrava de nada além de seu próprio nome.

Seu corpo demonstra exaustão, mas ainda assim ele olha ao redor mais uma vez, agora focando-se mais nos detalhes do ambiente em que estava presente. As ruínas estavam, em sua maior parte, enterradas na areia. A parte que continuava visível resumia-se a alguns pilares e uma fonte quebrada, firmados com perfeição no chão do que poderia ter sido uma praça de alguma cidade no passado. Fora isso, era só areia e deserto.

Como ele havia chegado ali, o que eram aquelas ruínas e por que aquela espada? Seria inútil fazer qualquer pergunta, uma vez que as respostas estariam provavelmente nas memórias que Breyik era incapaz de reaver.

Assim, com o olhar perdido no horizonte, restava seguir pelas dunas do deserto até encontrar alguma vida além de si mesmo.

...

Com mais algum tempo talvez fosse possível continuar falando sobre a longa jornada desse jovem até encontrar Hakwin, sobre a não aceitação da população e os eventos até o momento atual da história, mas acontece que nosso protagonista adormeceu, já no fim da tarde. E não foi um sono tranqüilo, nem perto disso. Foi um sono longo e triste. Triste por concluir que por mais uma noite ele continuaria sem destino. O dia seguinte seria como todos os outros. Nas sombras, em risco, sozinho.

Na madrugada do dia seguinte, cinco homens uniformizados respiravam o ar seco e a fumaça das forjas que pairava no alto das construções próximas à muralha de Hakwin:

- Boa, Sandro. O mestre da liderança. Alguém não sabia que ele ia perder o mapa? Ele sempre perde os meus mapas.

O homem que se posicionava à frente do grupo, com uma lança presa às costas, não tirou os olhos de recém-chegado da cidade. Após alguns segundos ponderando, tomou o cuidado de responder em voz baixa:

- Ter que ouvir isso justo de você é engraçado. Você sabe que eu sempre acabo dando um jeito, Rob. O garoto é um ladrão, é fácil conseguir informação sobre ele. Mesmo sendo bem reconhecido, ainda é uma criança. Deve estar dormindo ainda. A gente vai pegar ele antes de amanhecer. Veja aqueles homens se aglomerando ali, com certeza...

Rob não pretende ouvir a fala toda:

- Ah, claro, vamos perguntar aos estranhos mesmo. Vão informar de boa! Por que não? E logicamente, isso se você não perder o alvo, porque pra conseguir o mapa, eu tive que...

A fala foi interrompida pelo som de alguém subindo de dentro da casa para o telhado, provavelmente o dono da propriedade. Rápido como se esperasse por isso e sem produzir nenhum som, Sandro indica a direção com o olhar. Um sino toca em algum lugar na cidade. A missão dos assassinos acabava de começar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.