Memórias de uma Assassina
3 Está Próximo Demais
Notas iniciais
Desci com Charlotte em mãos. Sim, eu posso, eu vou, eu mereço.
–Carol, não acho que você deva fazer isso — disse minha tia me parando a porta do porão com uma das mãos.
–Só um pouquinho, não vai doer tanto. Deixe-me brincar um pouco.
–Deixe-o olhando, eu achei alguém que você queria muito ver. Considere como um presente de aniversário.
Soltei uma exclamação, já imaginando quem seria. Sim, ele é realmente muito melhor.
– Viktor, traga-o.
Então, como se fosse tudo ensaiado, um homem gordinho e baixinho foi atirado pela escada, soltando ao final da mesma uma série de palavrões. De lá de cima pude ouvir uma risada e um "ops, desculpe, ele escapou". Ele caiu e estava algemado nas mãos e nos pés, sem roupas.
O homem gordinho é conhecido vulgarmente por "Coveiro". Bem, essa era a profissão dele antes de entrar no mundo sombrio e sem leis da morte.
– Eu disse que uma hora encontraríamos você, Coveiro. — disse em seu ouvido ao me aproximar dele — Há tanto que sonho com esse dia. Estou tão excitada que poderia cortá-lo em pedacinhos, cozinhá-lo e depois comê-lo, mas acho que tanta gordura assim me fará mal. CHARLIE! DESÇA AQUI! — ele veio correndo com uma concha em mãos e um avental no corpo — coloque nosso querido convidado para olhar tudo, traga a câmera e filme. Joe vai ver o que acontece com as pessoas que não seguem as regras do jogo. Quero que isso apareça online e ao vivo. Agora vamos brincar!
Foi então que, com muita dificuldade o arrastei para o centro da sala e o prendi ao chão. Sua barriga flácida se movia de um lado para o outro de maneira bizarra, formando pequenas ondas quando a tocava.
–É tão engraçado, você perdeu sua forma. Antes você era bem mais, sedutor. Charlie está gravando?
–Sim, senhora.
–Senhora não, eu fico parecendo uma velha quando me dizem isso.
–Desculpe-me. — ele disse sem tirar os olhos da câmera.
–Comece novamente, afiou minha faca?
–Sim.
–Então vamos brincar! — exclamei cantarolando.
Assim que Charlie começou a filmar, comecei dando leves cortes em suas pernas e seu tórax. Ele nem ao menos me dava o prazer de soltar qualquer palavra.
– Você não sabe brincar. — disse emburrada e abrindo um sorriso logo em seguida — mas até que é divertido te ver assim. — O sangue cobria quase todo o seu corpo, me levando a acreditar que ele também gostava daquilo — sabe qual o maior prazer para pessoas como nós Joe? — disse me virando para encará-lo enquanto ele balançava negativamente a cabeça, Charlie passou a filmá-lo também — bom, o Coveiro e eu nos refugiamos na dor das pessoas, e como você sabe, dói tanto em você como em nós, só que a nossa dor é bem mais prazerosa em alguns sentidos. Estou desviando do assunto, mas, o nosso maior prazer é ver as reações de diferentes pessoas — continuei explicando — existem algumas que evitam ao máximo deixar com que a dor transpareça então a pessoa se fecha e não emite ruído algum. Mas existe aquelas que deixam a dor transparecer totalmente, elas gritam, se esperneiam, choram. É tão bonito ver essas reações, cada pessoa tem uma diferente, aguardo ansiosamente para saber a sua — e com um riso me virei para o Coveiro que mostrava um sorriso pintado de vermelho.
Cravei Charlotte em sua panturrilha, girando o cabo e apreciando seu rosto lutando contra a vontade de se deixar levar, o vermelho escapando das feridas, escorrendo em direção ao chão, o cheiro de ferro novamente penetrando no local. Novamente levantei minha faca e dei múltiplos cortes em sua barriga molenga.
– Grite para mim, ou eu continuarei e continuarei, e cortarei cada vez mais, até que todo o seu corpo seja retalhado e seus ossos fiquem á mostra, depois vou esconder seu corpo na mata e depois vou incinerá-lo.
–Você fará a mesma coisa se eu não gritar, eu não vou lhe dar esse prazer — disse ele com dificuldade.
Então olhei para minha tia, que dizia que mais de cem pessoas estavam assistindo. Um frio na barriga me levou a um tempo que eu esperava não voltar. Fechei os olhos com força. De novo não, hoje não. Mas elas vieram tão fortes que não pude evitar.
“Aqueles olhos sem vida me encarando, sua boca aberta, gritava internamente, eles brincavam com ela, com minha mãe e meu pai, me amarraram na parede, minha cabeça forçada a encarar tudo isso, eu gritava e gritava, mas de nada adiantava, minhas lamúrias não eram ouvidas, fui posta de lado. E depois de satisfeitos foram embora. Simplesmente.”
– Sabe, eu me lembrei de algumas coisas, e elas não foram muito ao seu favor — ri descaradamente enquanto cravava novamente a faca em sua carne — independente de qualquer coisa, o fim é sempre o mesmo. Todos morrem. De todas as maneiras, a qualquer hora. Nada pode parar isso — com outra faca, dessa vez menor, retirei um pedaço de sua pele — Você gritou, achei que não fosse me dar esse prazer.
– Vá a merda, sua vadiazinha.
– Eu? HÁHÁHÁ! A MERDA? VADIAZINHA? – e me debruçando sobre ele sussurrei em seu ouvido — você viver ou morrer depende apenas de mim querido. E nesse momento as circunstâncias estão todas contra você. Te caçamos, o encontramos, e agora eu estou te matando aos poucos, algum problema?
–Problema? Muitos...
–CALE A BOCA, SEU VADIO! EU ESTOU FALANDO! NÃO ME INTERROMPA! FOI UMA QUESTÃO RETÓRICA!
Me levantei decidida a acabar com aquilo, quando uma idéia me ocorreu. Fui correndo até o sótão e puxei uma caixa grande, abri-a e encontrei o machado artesanal de meu falecido avô, girei-o algumas vezes em minhas mãos para me acostumar com o peso e desci correndo.
O Coveiro ainda estava deitado no chão e soltou um enorme berro quando eu cheguei e lancei o machado e este encravou fundo em sua pele, o som foi recompensador, a carne se partindo num som molhado, o grito grave e penetrante.
– Você foi muito valente. Pena que está acabando, eu adoraria que você não morresse nunca, assim poderíamos nos divertir mais, não é?
Ele apenas me encarou, sem forças para falar mais nada, apenas aceitou o fim iminente, a verdade obscurecida. Olhei para a parede e depois novamente para o chão. Sua mão se movia lentamente escrevendo os números amaldiçoados. 5, 15 e 22. E com um sorriso ele se foi.
Com certa dificuldade desencravei o machado de seu corpo, começando a dar machadadas e a partir seus braços e pernas que ainda soltavam sangue morno. A parede ganhando mais cor, os respingos que iam do corpo á lâmpada, deixando o local com uma cor avermelhada em certos lugares. Usando minhas últimas forças eu cortei sua cabeça.
–Uma morte não é uma morte se não houver uma cabeça arrancada — eu disse me apoiando no chão ao lado do corpo — e a vida não é vida se não houver um propósito. Pode desligar agora, Charlie.
E assim ele fez voltando para a cozinha, seu rosto estava sombrio, diferente daquele garoto alegre.
– O que você disse tia?
– Apenas a verdade, ele não passa de um objeto, que você vai usá-lo e depois dar um fim nele, nada demais. Só espero que você não se irrite. Não quero mais corpos por hoje, entendeu?
– Sim senhora.
– Certo, vá tomar banho, trocar de roupa, arrumar seu quarto e incinerar esse corpo.
– Sim senhora.
Viktor deu uma risada e disse: “Tão submissa” seguindo minha tia até algum motel talvez. Ela fica excitada com esse tipo de coisa. Fiz o que Marry mandou e coloquei o corpo no porta-malas do carro e dirigi sem rumo algum, por minutos ou talvez horas, só sei que fui parar bem longe de casa. Puxei os sacos para fora do carro e fui arrastando-os para a mata, voltei para o carro e peguei um galão de gasolina, jogando tudo nele e acendendo um fósforo tudo pegou fogo num piscar de olhos, a mata seca vai ajudar a esconder as provas. Então dirigi novamente para casa enquanto me lembrava.
“- Lily, você sabe o que significam esses números? — meus pais perguntavam — eles são nossa alma, o 5 significa nossa família, o 15 nossos antepassados e 22 o nosso futuro.”
– Rob, pare de falar besteiras — ria minha mãe — na verdade eles tem um significado muito obscuro, você quer mesmo saber?
– Sim!
– Tudo Bem — eles se entreolharam — existe certa verdade no que seu pai disse Lily. Eles são nossas almas, o componente essencial para a vida, mas o maior veneno para a morte. Meu pai um dia falou com um homem, e negociou sua vida. Três números, mas como ele faleceu antes de sua hora, o homem passou isso para nós. Ou seja, se não tomarmos cuidado, vamos morrer, de verdade. Você já está ficando grandinha, precisa entender. Mês, dia e ano. Não se esqueça, tudo bem?
– Ta bom, mamãe.”
– Está chegando, rápido demais — murmurei enquanto via um acidente atrás do meu carro pelo retrovisor.
Estava escuro e minha barriga implorava por comida. O engraçado é que nessas pistas não existe qualquer lugar para comer, apenas motéis e mais motéis. Sem paciência parei em um e retirei uma bolsa de meu carro. Entrei e paguei uma noite.
Meia hora depois, após eu ter me alimentado, um jovem apareceu no quarto e sorriu ao me ver. Esticando meu braço até a bolsa peguei um revólver e com o outro braço peguei uma almofada.
– O que faz aqui?
– Me chamaram para te divertir.
– Já me diverti o bastante por hoje.
– Não importa, diversão é sempre bom.
E então com um silenciador improvisado puxei o gatilho, a bala perfurou seu estômago e ele desabou no chão, saí normalmente, trancando a porta e dirigi rapidamente pela noite, cuja a escuridão estava a me abraçar. Percebi que logo cheguei em casa e o noticiário estava anunciando um incêndio ocorrido nos arredores da cidade.
– Tia, vamos para o Brasil amanhã.
Ela apenas concordou e se levantou, ligando para alguém e gritando ordens, fui arrumar minha mala e ligar para Charlie.
Uma coisa é verdade. Eu não vou me deixar levar. Está próximo demais.
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