Memórias de uma Assassina
2 "Ele" Não é o Charlie
Infelizmente acordei no dia seguinte em meu quarto, quando desci ao porão, minha sala de brincadeiras estava totalmente limpa, adoro aquele garoto. As paredes brancas que pintei ontem estavam borrifadas de sangue, traçando uma linha que ia do chão ao teto. De repente uma avalanche de lembranças me atingiu, Robert, Lisa, Simon, Clarice, Tatiana... Todos. A cadeira ligada em fios de eletricidade, os gritos, a dor, o sangue, o sofrimento, lágrimas. Sinfonias perfeitas, a dança da morte.
Subi para a sala, raios de Sol invadindo meus olhos anunciando mais um dia. O calendário marcava o dia 30 de novembro, meu aniversário, também marcava nomes e idades. O relógio fazendo um tic-tac monótono. Os carros passando, as crianças brincando, os pássaros cantando. Idiotice. O mundo não é tão perfeito, há coisas que não conseguimos compreender. Naquele dia nada disso aconteceu, a Morte veio abraçá-los literalmente. Existem as pessoas boas e ruins, ou pelo menos é isso que os pais dizem para as crianças, mas na verdade também existem aqueles que dependem de outros para viver, de várias formas. Eu faço parte desse terceiro grupo. Eu dependo de ver o sofrimento nos olhos das pessoas, elas implorando e esperneando, se sacudindo em uma dança frenética, tentando em vão, libertar-se.
“Eu mato porque gosto e preciso” foi uma das coisas que me veio á mente, respirei fundo e me olhei no espelho. Eu não era mais aquela garota, ela morreu, sou apenas eu agora. Lembranças esquecidas, a verdade apodrecida. Tênis branco, calça azul e camiseta cinza, o sangue seco que cobria minhas coxas e minha barriga, meu cabelo despenteado. Olheiras, a evidência de noites mal dormidas.
Barulhos vinham da cozinha.
–Já acordou? Achei que estivesse em coma! HÁ! HÁ! HÁ!
–Pare de rir idiota. Como entrou?
–Você ainda deixa a chave atrás do vaso.
–O que está fazendo aqui?
–Não é obvio?- disse ele cruzando os braços e fazendo uma cara divertida- Eu, Charlie, vim para alegrar seu dia!
–E o que isso tem a ver com a minha cozinha? Que por sinal está uma bagunça...
Ele riu e não disse nada, voltando a mexer em alguma coisa no fogão. E a campainha tocou. Quando fui ver era o carteiro. Apenas o carteiro, em sua mão havia um pacote de minha tia, agradeci e fui para a cozinha novamente me sentando em uma das cadeiras da mesa.
“Querida Carol, como combinamos, aqui estão os passaportes e as identidades.
Ele já sabe? Acho melhor contar, você não vai conseguir esconder isso por muito tempo, uma hora vai ter que acontecer, e espero que seja aqui mesmo no Brasil. Podem ficar em minha casa, o endereço está em outro envelope, juntamente com o dinheiro e as passagens.
Leve Charlotte, será muito necessária, tenho alguns serviços para você.
Sua tia, Marry.”
Amassei o papel e gritei, gritei alto e desci para o porão abrindo a porta do outro lado de minha sala de brincadeiras. Aquele cheiro putrefato preenchendo minhas narinas. Acendi a luz do local e vi no chão a minha frente três corpos, não três corpos inteiros, apenas seus ossos. Desabei no chão, minha visão se tornando embaçada e o local rodopiando. O que está acontecendo? Na parede números estavam escritos em vermelho. 5... 15... 22...
Gritei, mais uma vez. Minha garganta doendo. Desabei no chão em posição fetal segurando minha cabeça o mais forte que pude.
– POR QUÊ? POR QUÊ? POR QUÊ? POR QUÊ?- eu gritava.
No meio de tudo isso eu ouvi alguém correndo, mas eu não liguei, apenas continuei gritando e gritando. Até que a pessoa desconhecida me tirou do chão e me abraçou, balançando de um lado para o outro com o queixo em minha cabeça e eu comecei a chorar, não porque a pessoa estava me abraçando, mas sim porque eu não aguentava mais.
– Carol? Hey, Carol?
– O que você está fazendo aqui, Tia?
– Eu vim porque eu sabia que isso ia acontecer, me desculpe.
– Agora que você vem me pedir desculpas? Você pelo menos sabe o que aconteceu? Você não estava aqui!- eu disse me desfazendo do abraço e olhando para ela com raiva.
Na verdade ela tem mesmo cara de tia, um sorriso doce, olhos sorridentes, e o cabelo desarrumado de uma forma arrumada. Qualquer um que olhe para ela vai pensar que ela é uma pessoa maravilhosa, incapaz de cometer um crime. Mas na verdade, foi ela quem me ensinou tudo que eu sei.
– Sim, agora que eu venho pedir desculpas, eu sei de tudo o que aconteceu, e não, eu não estava aqui, mas você me contou tudo, se lembra?
– O que ta acontecendo aqui, Carol?- Disse Charlie.
– É ele?- perguntou minha tia.
– Sim, ele- respondi.
–Ele? Como assim Carol?- perguntou Charlie.
– Nada a declarar.
Bufei e me levantei, sendo seguida por olhares curiosos. Fui até a mesinha do quarto e peguei um caderninho, de lá puxei uma foto de um garoto, de aparentemente doze anos.
– Ele deve ter vinte e alguma coisa agora, tia, preciso encontrar ele.
Marry concordou com a cabeça e subiu, fechando a porta do porão e deixando eu e Charlie a sós.
– Carol, porque você estava chorando?
– Eu tenho que responder?
– Tem...
– Nada a declarar- ele continuou insistindo- se você perguntar mais uma vez, eu corto sua garganta- eu disse pegando uma faca na mesa e apontando para ele.
– Ai, isso é grave... E porque sua tia está aqui?
– Veio para me levar para o Brasil, junto com ele...
– Então, você vai? Assim? Sem mais nem menos? Levando aquele cara?- ele me olhou, seus olhos azuis me encarando.
–Você vai comigo- ele tem que vir, se não for por bem será por mal.
– OH!- disse ele imitando seu primo, que na verdade é bem afeminado- achei que não fosse me convidar! Estou tão feliz!
– Não estou convidando, estou mandando. Pare com isso! Já disse que você não fica bem quando tenta se parecer com seu primo!
– Okay, quando vamos?
– Depois de amanhã.
Ele concordou e saiu do porão. Eu também ia fazer o mesmo, mas me virei encarando os três esqueletos, tudo começou a girar novamente, a mesma lembrança me atingia.
“- NÃO! NÃO! NÃO!- gritava minha mãe desesperada enquanto olhava para uma garota com a garganta cortada em sua frente- FILHA! OLHE PARA MIM! M-minha filhinha...- ela chorava e ao lado estava meu pai deitado, seu corpo se tornando pálido á medida que o sangue ia escorrendo do corte em seus pulsos e sua barriga, ele gritava de dor, então ele morreu, simplesmente.
No fundo da sala, um homem os olhava como um artista olha para a sua obra, maravilhado, apaixonado.
Eles seguravam meu rosto em direção á minha família e diziam, ‘Olhe bem nos olhos deles, garotinha tola, olhe como eles se contorcem de dor, olhe, não é difícil, você vai se acostumar, é tão lindo, sabe, sua tia também adora fazer isso... Oh, Marry...’
Isso durou um dia inteiro, eu não comi, bebi, ou fiz qualquer outra coisa, eu apenas olhei enquanto minha família caía no chão, um após o outro. Eu chorava e tentava fechar meus olhos, mas os sons eram horríveis. Minha irmã foi a primeira.”
Eu morri naquele dia, ainda me pergunto o porquê de eu ter me tornado Carol, sendo que eu quase nunca podia ficar com minha irmã.
Me levantei do chão e sai daquele local, trancando a porta e jogando a chave em um canto qualquer, cambaleando subi até o banheiro, onde tomei um longo banho, parando para pensar no porque de me deixarem viva.
Sai do banho, e fui em direção ao quarto. Fechei as janelas me preparando para dormir quando Charlie abre a porta de supetão
– CAROOOOOL!
– FILHO DA MÃE DO CAPETA! ME DEIXE DORMIR EM PAZ!
– O carinha que você queria está aqui, desculpe, vou mandá-lo embora, okay?
– Não, não, não... Espere, já estou descendo!
Suspirei me trocando, novamente e descendo, ele estava no sofá da sala amarrado com a boca tampada.
– Há quando tempo, não é Joe? Sim, sim, me olhe com esses olhinhos assustados novamente, são tão bonitos... Você está parecendo aquela criancinha novamente... Vamos viajar? E brincar um pouquinho... Você vai gostar, tenho certeza...
Retirei a fita de sua boca e por um momento achei que ele fosse chorar.
– LILY! VOCÊ É UMA MULHER MORTA!
– Eu já estou morta há muito tempo, tudo o que me resta é o que eu faço, não preciso de mais nada...
– Ca-Carol...?
– Cale a boca Charlie!
– Lily, como você tem coragem de me raptar, eles podem me seguir até esse lugar, sabia?
– Que sigam, não estou nem aí, mas daqui você não sai. Melhor, vivo você não sai.
– Ponha ele no porão, e cuidado, ele é arisco.
– Okay.
– Tia?- Olhei para ela que estava encostada na parede , ao lado da porta.
– Que foi?
– Tem certeza, ele é muito bom, é desperdício matar um talento desses...
– Você está com medo de matá-lo?
– Não, mas... Eu o conheço há muito tempo, e ele é bom no que faz...
– Eu já arranjei um melhor para você, agora me diga: você quer ou não quer matá-lo?
– Eu quero.
Sinceramente, ainda não sei o que deu nela. Ela fala de matá-lo desde o dia que o conheceu, mas... Ela nunca ligou para mim... Ele... Faz muito tempo que eu não o vejo.
Desci ao porão levando Charlotte junto, matar é a minha especialidade, viver é um tormento, respirar uma tortura e odiar uma punição.
“Ele” não é o Charlie.
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