Notas iniciais
Gab! Essa é a primeira fanfic que escrevo, pois só escrevo originais... confesso que foi um desafio e tanto, ainda mais porque não conheço (tão bem assim) The Walking Dead! Devido ao meu histórico de originais, tomei algumas liberdades com a história, para que ela ficasse mais condizente ao meu estilo de escrita e sendo um presente, gostaria que ele tivesse a minha marca narrativa. Realmente espero que goste, dei o meu melhor, de verdade. Desculpe pelo tamanho, mas eu precisava colocar todas as ideias escritas! Espero que entenda! Boa leitura!!!

O vento soprava como um lamento eterno, naquela noite que parecia se estender além do véu de estrelas que recobriam o céu azulado. As nuvens eram esparsas, rabiscos acinzentados cortando a imensidão do vazio. Ele caminhava lentamente, um passo de cada vez, como vinha fazendo há muito tempo, muito mais do que gostaria de ter vivido. Suas mãos já estavam ásperas, a pele grossa como a casca de uma árvore, mas ainda havia firmeza nelas, ainda havia vida naquele corpo. Abriu e fechou-as, testando seus limites. As vezes sentia falta dos dois dedos que perdera da mão esquerda, não que fizessem muita diferença, mas eram uma parte dele, e quando se perde todos ao seu redor, passa-se a dar mais valor para o que aparentemente não poderia lhe ser retirado. Obviamente a teoria, não funciona tão bem na prática. A noite quando dormia de olhos abertos, ainda os sentia queimar, como um fantasma se recusando a abandonar o corpo, uma lembrança de como o mundo havia sido impiedoso com ele. Lembrança de mais um que ele não pudera salvar. Se colocasse todos os nomes numa lista, talvez ela pudesse dar a volta num estádio de futebol e as cicatrizes em seu corpo eram a prova de que ele tentara salvá-los – e Deus sabe como tentara. Aquelas marcas profundas e escurecidas eram em partes, como uma tatuagem, porém não haviam nomes, havia apenas a dor de olhar para elas e saber quem havia morrido naquele dia. Era um obituário bizarro e distorcido, rabiscado no próprio corpo, um que ele gostava de carregar com ele, por pior que fosse.

Sentou-se no que parecia ter sido um banco de pedra, ou será que era apenas uma pedra? Não fazia diferença. Em outros tempos jamais teria parado, agora não se importava mais. O peso da idade às vezes lhe dava ordens, a de sentar a cada três ou quatro quilômetros era uma delas. Não estava acostumado a isso, mas tinha que obedecer. Abriu a mochila e afastando o cabo de uma espada quebrada, pegou um cantil com água, bebendo em seguida dois goles generosos, sentindo o líquido escorrer pela garganta seca e aproveitando cada gota.

Ao longe, a cidade se esticava de forma assustadora, uma mancha enegrecida naquela noite tão solitária. Havia o que parecia ter sido uma rua – a única coisa que por alguma razão, não havia sido coberta pela vegetação – entrecortando prédios desolados, escuros como o resto da cidade. Janelas quebradas exibiam o nada que havia ali dentro e ele pensou por um momento, ter visto algo se mover nas sombras do edifício mais próximo. Eles haviam diminuído em números, sem dúvida alguma, mas ainda eram tão letais quanto sempre foram. Sua companheira estava firme em seu ombro e sua habilidade com ela, havia sido a única coisa que a idade e aquele mundo não haviam lhe roubado.

Jogou a mochila nos ombros e recomeçou a caminhada, deveria estar perto agora. Ele havia tido sorte em achar um rádio que funcionava com energia solar e ainda mais sorte por aquele ter sido fabricado nos últimos anos, quando pensou-se que haviam encontrado uma cura. O rádio havia captado uma mensagem que era repetida infinitamente a curtos intervalos, a voz era de alguém que ele não esperava mais rever e dadas as circunstâncias, duvidava que voltasse. Mesmo assim, ele continuava ouvindo as palavras em sua cabeça, agora que o rádio estava silencioso em seu bolso:
“Aqui é Carl Grimes... meu... meu grupo foi emboscado por carniceiros. Matamos a maioria, mas os errantes nos encontraram. Merda... como dói. Se você estiver ouvindo essa mensagem, não venha para o Colégio Winston em Midlle Town. Aqui foi um maldito... um maldito centro de descontaminação! A mensagem era falsa... não tem nada aqui. Não venham até aqui. Não venham...”

O garoto sempre fora esperto, mais corajoso do que muitos que ele conhecera. Outra pessoa teria pedido ajuda pelo rádio, mas não ele, não o Carl que ele conhecera. A mensagem era recente, de dois ou três dias atrás, foi uma verdadeira sorte passar por... como se chamava aquela cidade? Boston, Nova Iorque, Chicago... foram tantas que ele não se lembrava mais, com o tempo e a idade, aprendeu a esquecer coisas das quais não precisava. Seu instinto de sobrevivência lhe dizia o caminho. Eram apenas ele, sua mochila e sua companheira.

Encontrou uma loja de conveniências depois de algumas quadras, as janelas estavam fechadas por madeiras já há muito apodrecidas, as plantas cobriam o estacionamento e o que parecia ser uma árvore, rompera parte da parede lateral e já começava a se esticar para um prédio vizinho. Parte do estacionamento estava inchado, como se uma força maior tivesse estourado o chão pelo lado de dentro e ao aproximar-se, ele percebeu que uma corrente de água fluía livremente por ali, cristalina, reluzindo com o brilho da lua cheia que deixava tudo com uma aura etérea, como num sonho lúcido.

Abaixou-se e começou a encher o cantil e uma pequena garrafa, água limpa fluindo daquela forma era algo raro, precisava aproveitar. Jogou um pouco no rosto e respirou fundo. Seus ouvidos apurados captaram o som de passos, mas não de humanos, nem daqueles que já foram um dia. Há menos de três metros de distância, um cervo o olhava fixamente, como se ele é que fosse o estranho naquele mundo, como se esperasse que ele saísse correndo desesperado a qualquer instante. Os dois se entreolharam por um momento infinito, a duração de um segundo, e o animal se foi saltitando para as sombras de uma rua qualquer, que agora mais se assemelhava a uma floresta. Em outros tempos, teria abatido o animal na mesma hora, mas agora não precisava de tanta comida assim. Ele passara a viver pela lei da sobrevivência e só matava o que fosse necessário para a sua. Olhou para o mundo ao redor e não conseguiu não pensar em como tudo possuía uma certa beleza, era como se a natureza estivesse tomando de volta o que um dia fora dela. Desde quando ficara tão emotivo? Um sorriso de deboche brotou no canto dos lábios. “A idade muda um homem” ele pensou, “A morte porém, muda ainda mais.”

Foram mais de uma hora de caminhada, quando as pernas já doíam e ele já estava prestes a parar quando avistou o local que Carl mencionara. Olhou o velho mapa que carregava consigo e viu que aquele realmente deveria ser o antigo centro de descontaminação. Não havia nenhum tipo de placa indicativa, nenhum aviso. O colégio era composto por três blocos, que se interligavam por passarelas suspensas. O portão de entrada estava escancarado, ele adentrou cautelosamente, a mão direita posicionada no contorno de uma pistola que carregava na cintura. As marcas do encontro com os carniceiros – homens que haviam se tornado com os errantes, se alimentando dos vivos – estava presente por toda a parte, assim como os copros seminus amontoados numa espécie de trilha grotesca. Sabia que de um jeito ou de outro, Carl estaria no final daquela trilha. Seguiu por corredores escuros e abandonados, macas jaziam nos cantos, manchadas de um preto nojento, equipamentos médicos estavam espalhados por toda a parte e era possível ouvir algo indistinguível nos andares acima. Seguiu as manchas de sangue e os corpos, tanto de errantes quanto de carniceiros, até o término de uma escadaria que interligava o pátio principal a um dos blocos. Lá ele avistou um portão improvisado, feito com grades e pedaços de janelas, enrolados por arame farpado e barras de metal retorcidas, do outro lado havia uma pequena antena, provavelmente montada com sucata. Haviam mais de cinco errantes mortos encostados no portão, como se fossem parte de algum tipo de decoração bizarra. O portão estava trancado pelo lado de dentro e ele teve um certo trabalho para pular a mureta que separava o caminho. O lugar onde a antena estava, parecia com uma pequena praça e antena havia sido montada sobre os restos de uma fonte que outrora fora branca. Uma dezena de fios e equipamentos de rádio estavam ligados a antena, anexados a pequenos painéis solares.

Encostado na base, estava um homem que deveria ter por volta dos 30 anos, as roupas pareciam estranhamente limpas, mesmo estando ensanguentadas, a cabeça estava baixa, escondendo com os cabelos, seu rosto marcado. Os braços estavam largados ao redor do corpo, um revólver repousava em uma das mãos e na outra, um pano esfarrapado encobria um ferimento, uma poça de sangue havia se formado abaixo dele. Ele não havia chego a tempo.

Aproximou-se lentamente, tentando chamá-lo pelo nome, mas fazia tanto tempo que não falava com ninguém que era quase como se tivesse esquecido como pronunciá-lo.

– Carl.. — chamou e não reconheceu sua própria voz rouca, dolorosa.

Obviamente não houve resposta. Desprezou um olhar clínico que lhe dizia que pelo estado do corpo, talvez não fizesse nem mesmo um dia que ele havia morrido. Se ele tivesse chego mais cedo, teria adiantado alguma coisa? Teria que ter dado aquele tiro ele mesmo, assim como fizera com seu pai?

– Você cresceu Carl... — disse ele, passando a mão pelos cabelos ensanguentados daquele homem, que da última vez que vira era apenas um menino. – Você cresceu... — e a voz começou a sumir — ...sinto muito...

Daryl Dixon se largou ao lado do corpo do filho de seu grande amigo, que assim como todos, haviam o deixado naquele mundo. A solidão deveria ser algo pelo qual ele já deveria estar acostumado, mas daquela vez foi diferente. A sensação de impotência o atingiu feito um soco no estômago e ele quase pensou em desistir, quase.

– Você não faria isso Daryl – a voz parecia vinda do seu lado, mas, ao mesmo tempo, de dentro dele, de algum lugar intocável – Não foi sua culpa.

– Eu não pude salvá-lo – respondeu num sussurro – Assim como não pude salvar você. Eu sinto muito Beth...

Ele sentiu uma mão delicada e macia repousar sobre a sua e por um momento apenas, foi quase como se ela estivesse lá, ao seu lado. Por quanto tempo sua morte ainda o assombraria?

Um ruído ecoou pelo silêncio do centro de descontaminação e seus olhos treinados o guiaram para uma das janelas de um dos andares superiores, onde alguma coisa se arrastava pelo plástico usado para cobrir as janelas. Seus movimentos eram lentos e convulsivos, a cabeça foi pressionada contra o plástico e a boca abriu e fechou como um peixe fora d'água. O revivido escorregou pelo plástico e se foi para as sombras do local, deixando uma mancha avermelhada no local onde encostara.

Daryl, assim como a maioria das pessoas odiava aqueles malditos centros. Quando supostamente foi encontrada a cura, eles surgiram em diversos lugares, liderados por um grupo militar esquerdista que alegava ter a cura para a epidemia. Aparentemente, a cura parecia ter um certo efeito sobre os não-vivos, o que mais tarde se provou ineficaz, causando uma segunda mutação no vírus original, algo que atrasava ainda mais a degeneração de seus corpos. No final das contas, o centros apenas serviram como um matadouro, acabando com as esperanças e aqueles que nelas acreditavam.

Ele se levantou e verificou relutantemente os bolsos de Carl, encontrando apenas uma foto de uma jovem posando ao seu lado, sorridente. No verso da foto estava escrito em letras garranchadas “pequena chutadora de traseiros”. Um sorriso seco encrespou os lábios de Daryl ao olhar para a foto novamente, agora reconhecendo perfeitamente quem era a moça.

Tiros e uma explosão. A nuvem negra de fumaça se elevou num instante e Daryl aprontou a besta nas mãos, correndo logo em seguida para a saída. Não havia mais nada ali para ele.