Memórias de Um Demonio

2 Memórias de um Demônio - Parte 2


Já haviam se passado um ano, eu iria me casar em seis meses e os preparativos já estava sendo feitos. Eu me casaria com um homem de 21 anos de idade, a mesma idade que a minha... Eu estava feliz, nos falávamos pelo telefone a noite, nos encontramos para alguns jantares... Parecia-me que ele trabalha durante todo o dia... Mas estava tudo bem, afinal de contas ele me amava, e eu estava começando a me encantar por ele... Éramos perfeitos, feitos um para o outro, e mesmo que não fosse eu faria de tudo para que fossemos...

Ironicamente, ele me dissera que me viu pela primeira vez saindo do hotel onde eu havia acabado de ter sexo com Sir. Thierry, que felizmente morreu de acidente três meses depois... Fiquei envergonhada por aquilo, tentei me explicar, mas para ele não fazia diferença, o importante é que eu estava ali e que eu seria sua mulher para sempre... Ele não se importava com meu passado, queria apenas fazer parte de meu futuro agora...

Logo chegou o dia do casório, todos estavam ansiosos pela cerimônia; diferente de todos os outros casamentos, este fora a noite. Eu não lhe queria causar nenhum incomodo, logo não pestanejei sobre isso... Eu realmente estava apaixonada por ele, não fizemos lua de mel por seu constante trabalho... Eu não o culpava, ele deveria arcar com suas responsabilidades como o homem da casa, e eu como uma boa esposa, ficava em casa ou saia para compras, tínhamos empregados para fazerem os serviços domésticos; ele nunca havia me negado nada e não exigia nada de mim alem de fidelidade e amor... E eu o amei incondicionalmente...

Lorde Helder F. U. Yeva era um encantador marido, apesar de só nos vermos a noite, ele fazia de tudo para compensar sua ausência, mesmo que um pouco. Eu lhe disse uma vez que sentia sua falta, que me sentia só sem ele por perto todos os dias... Ele ficou triste, muito abatido e eu me culpei internamente por tempos, eu havia sido a causadora de tal lamento, eu o amava e desejava que ele fosse feliz comigo, mas o que fiz com ele foi imperdoável...

Outra noite ele voltou para casa mais tarde que de costume, e com um presente para mim... Eu o abri ansiosa, era um livro, um livro que eu queria adquirir a muito tempo, um edição rara... Eu lhe perguntei como havia conseguido-o, e ele me dissera que fez aquilo para que eu me sentisse mais feliz, ele disse que não queria me ver melancólica, que isso partia seu coração... Ele havia percebido que era aquele o único que faltava de minha coleção...

Eu me deitei em seus braços e adormeci, e como sempre, na manha seguinte, ele não estava mais lá, apenas um bilhete...

Desci para a sala e comecei a ler o jornal... Parecia-me que uma epidemia havia se instalado em Romênia, e os oficias da Inglaterra acreditavam que ela havia se alastrado até aqui, fiquei assustada com a quantidade de vitimas mortas... Era assombroso...

Depois de um tempo, jovens começaram a caçar as pessoas que “contraiam a doença”, eles eram chamados de Caçadores de Vampiros, eles saiam a noite em busca destes monstros, eu rezava durante o dia para que meu marido viesse a ficar bem... Eu esperava na sacada como de costume, eu o via chegar a toda noite...

Naquela noite, pedi-lhe que tomasse cuidado nas ruas, os boatos eram de que eles jovens caçadores matavam todos que considerassem perigosos ao bem estar da sociedade... Ele me disse para ficar tranqüila, que ele tomaria mais cuidado dali para frente, mas mesmo assim fiquei apreensiva...

Novamente lendo o jornal, vi que o homem que lhe havia começado este tumulto na Romênia havia sido o Conde Vlad Tepes, mais conhecido como Drácula...

Eu estava perplexa, eu o havia conheci na adolescência, como pudera ele ser um demônio tão malicioso e perverso como os rumores o descreviam... Contei ao meu marido sobre isso e ele ficou chocado, questionou-me sobre varias coisas estranhas, eu as respondi sem mentir, ele não me explicou o porquê daquilo, mas ficou mais aliviado após minhas respostas...

Logo deu à hora de voltarmos para nossos túmulos, todos saíram primeiro como de costume, eu fiquei lá mais um pouco, fechei meu livro e fui para meu caixão... Na noite seguinte passamos por um conturbado problema, humanos haviam vindo olhar a casa para a compra, apesar de ela não estar à venda... Eu procurei um humano influente na cidade que eu pudesse persuadir a não coloca-la à venda, com minha personalidade persuasiva e sedutora fiz este homem comprar a casa e certificar-se de que ninguém viesse a comprá-la ou derruba-la, estávamos seguros por agora, logo eu teria de encontrar um humano para poder morar aqui, mas eu não sabia quem...

Na outra noite voltei com fome, com muita fome... Comi como se fosse dormir por anos, mas era apenas sede de sangue... Ah... E depois daquela maravilhosa refeição, eu dormi por dias... Minhas energias estavam totalmente repostas, eu estava me sentindo muito bem.

Voltei a me lembrar dos tempos em que eu era normal... Foi naquela noite... Naqula noite que vi matarem meu marido...

Eu estava na sacada esperando-o como de costume, já estava muito tarde mas eu ainda o esperava, percebi que ele chegava pela floresta, sorri de felicidade, já estava ficando apreensiva... Entretanto minha felicidade esvaiu-se em segundos, vi que ele apontava e desci correndo as escadas para encontrá-lo, mas quando cheguei fora de casa, ele estava cercado por homens e mulheres, senti um odor forte e fétido, era alho! Porque eles estariam fazendo isso com meu marido?! Eu não conseguia entender.

“Helder! Helder! Soltem meu marido!”

Eles avançaram sobre ele enquanto algumas pessoas me seguraram para que eu não fosse até ele.

“Seus loucos! Soltem-no! Soltem-no!”

Eu consegui sair dos braços daqueles que me seguravam, passando dificilmente por todos aqueles imundos e fétidos homens que teimavam em segurar meu marido como se ele fosse uma besta ou algo do tipo. Eu consegui chegar até ele, porem ele estava diferente. Seus olhos azuis já não reluziam o mesmo prazer... Ele ainda não havia me visto, era claro isso... Eu fui até ele e o abracei, instantaneamente ele recobrou a consciência...

“Valentina!”

Foi o que ele disse, um homem aproveitou sua guarda baixa e empurrou-o para o chão enquanto outros seguravam seus membros para que não se movesse e, novamente, outros me seguraram.

Eu tentava escapar, mas era em vão... Foi então que eu vi, quando ele já estava totalmente imobilizado, o que supostamente seria o líder perfurou-lhe o peito com uma estaca... Fiquei chocada e comecei a gritar e chorar... Eu os vi também cortarem a cabeça de meu marido enquanto ele se contorcia no chão... Eu me soltei da mulher que me segurava e fui ate seu corpo no chão, abracei-o chorando e praguejei a todos gritando.

“Tirem-na daí! Temos que queimar o corpo deste monstro! E verifiquem se ela não é um deles!”

Dois homens me tiraram à força, eu gritava e chorava, eu lhes implorava que parassem com aquilo, mas eram ignorantes demais... Eles sim eram monstros... Deixaram-me caída no chão chorando quando o líder do bando veio me confortar...

“Ele era um monstro... Teve sorte de ter escapado, quem sabe o que ele faria com você...”.

Eu parei de gritar por um instante, eu puxei a adaga que ele tinha na cintura e perfurei-lhe o coração.

“Monstro... Eu só estou vendo você aqui! Você é o monstro aqui!”

E enquanto eu repetia isso, ia perfurando-lhe com a faca todo o peito. Ele estava morto, era obvio, mas minha raiva era tanta que eu fiquei a esfaqueá-lo, em certo momento, não sei ao certo, comecei a rir maldosamente... Eles ficaram com tanto medo que nem se atreveram a chegar perto... Depois me levantei e me virei para os outros que ainda restavam ali...

“Vocês... Vocês sim merecem a morte... Que morram todos!”

Eles se foram apavorados, no outro dia com certeza estariam vários oficiais para me prenderem por homicídio... Eu voltei para casa, peguei meu livro e desci novamente para o que agora eram os restos mortais de meu marido...

Peguei o crânio dele em minha mão, machuquei-me, mas relevei a dor, fui até o porão de minha casa, um lugar que somente eu conhecia... Com uma faca que havia encontrado por ali perfurei meu peito e cai no chão, agarrei junto ao ferimento o crânio de meu marido... Enquanto eu vagarosamente morria, fui percebendo que agora tudo fazia sentido, o porquê das ausências diárias estava explicado...

“Eu quero... Estar... Contigo... Sempre...”.

Foram minhas ultimas palavras, eu havia acabado de morrer ali.

Eu estava fora da minha casa... Eu havia me tornado uma alma naquele momento, eu acho... Uma carta branca caia do céu em minha direção, mas não fui capas de pega-la, um outra, agora negra, caia, eu tentei pega-la, mas minhas mãos foram envoltas por outras mãos... Mãos que eu conhecia...

“Você não deveria ter feito isso Valentina...”.

“Helder...”.

“Eu nunca quis isto para você... Desculpe-me, não fui capaz de protegê-la...”.

Eu o abracei forte, eu podia senti-lo um pouco.

“Não me deixe... Eu quero estar contigo... Por favor...”.

Eu olhei em seus olhos, eram tristes e os meus também... Ele me deu um ultimo beijo na testa e desapareceu dizendo: Eu te amo Valentina Yeva...

Acordei três semanas depois, eles haviam vendido minha casa, meus ossos ainda residiam ali naquele porão...

Quando voltei para cima, os novos moradores se assustaram, gritavam dizendo que eu era uma assombração. Três dias depois eles se mudaram... Eu não sabia como eu ia dormir todos os dias, e também não sabia por que acordava todas as noites naquele porão...

Durante muito tempo vivi ali, somente ali, aquelas comidas que eu adorava já não de saciavam... Eu estava muito fraca...

Sai de casa durante a noite, não havia ninguém nas ruas... Eu também já não sabia quanto tempo haviam se passados...

Anos depois da morte do Conde Drácula, quando a historia dos vampiros já era passado, eu encontrei Zaynab pela primeira vez, ela era uma jovem moça de belas feições, eu havia mordido-a enquanto voltava para minha casa/túmulo. Três dias depois ela veio atrás de mim, ela disse-me que eu era a única pessoa que ela conhecia que sabia como passar por isso... Eu discordei no começo, mas depois a deixei ficar, mas eu lhe disse que ela deveria servir a mim...

Alguns meses se passaram e Aires veio até mim, outra de minhas presas que haviam sido pegas por esta maldição... Eu o deixei ficar e como para Zaynab, eu lhe ensinei o que deveria fazer para sobreviver ali...

Mais alguns anos se passaram, um jovem intercambista veio estudar aqui... Durante um passeio noturno pela cidade eu o mordi e deixei seu corpo jogado pela rua e fui-me embora... Três semanas depois ele me encontrou em uma casa enquanto eu me alimentava...

Quando percebi sua presença, eu fugi, mas ele me seguiu até que tentei dar um basta.

“O que quer comigo criança?”

“Foi você que me transformou nisto não foi?”

“E se fosse... Quer vingança?”.

“Não... Eu quero você...”.

“Como disse?”

“Quero você... Para mim...”.

“Desculpe criança, mas eu sou casada...”.

“Eu não me importo...”.

Seu olhar era determinado, ele não se renderia eu podia ver... Aires e Zaynab apareceram atrás de mim, ele olhou indagando-os. Ele podia ler a face de cada um de nós... Ele sabia exatamente o que pensávamos, mas apesar disso, seu poder era menor, menor que os meus todos eram...

“Você vai levá-lo para casa Yeva?”

“Eu não acho uma boa idéia, não sei se seria seguro, acho melhor deixarmos ele ai...”.

“Aires e Zaynab são meus servos, se você quiser pode se tornar um...”.

“Um servo... E eu servirei a você por quanto tempo?”

“Até que eu lhe permita sair...”.

“Não me parece muito ruim...”.

“E não é... Você aceita?”.

“Mas é claro que sim.”.

Nós quatro voltamos para a mansão, eu pedi a ele que buscasse seus ossos caso não tenha sido enterrado para que o enterrássemos ali com eu havia feito com os outros... Induzi um humano a fazer este trabalho, ele o fez e eu o deixei ir... Um dia ele avançou em minha direção, Aires e Zaynab o puniram severamente deixando-o sem alimento sob minhas ordens... Depois deste incidente ele não mais fez aquilo de novo... Ficamos a viver ali serenamente, mas a cada dia minha vontade de continuar vivendo ia se perdendo, eu lia e relia o meu livro em uma cadeira ao lado da cama, outrora eu ai ate a sacada na esperança de meu marido voltar... Era inútil...

Zaynab contou á Ethel sobre meu marido, e foi isto que o fez parar de desejar tanto o meu amor para entender o que eu sentia...

Ah, ele era uma criança, mas com o tempo foi amadurecendo, junto com os outros...

“Vocês já não precisam mais me servir... Se for de seu desejo vocês podem ir...”.

“Eu não quero ir... Permanecei ao seu lado...”.

“Eu também não... Eu dedico-me inteiramente a você Lady...”

“Eu me sentiria muito só se fosse embora...”.

Eu encarei os três um pouco surpresa por suas atitudes, mas dei um sorriso em resposta...

Voltamos a viver como antes, nas nossas monótonas e melancólicas vidas...

Eu já lia aquele livro não sei quantas vezes, já havia perdido a conta, mas aquilo era a única coisa, a única coisa que havia restado de meu falecido marido...

Quando eu lembro de seus olhos a me ver naquele tumulto eu vejo que seja como for eu sempre o amarei... E é por isso que me vou agora para longe... Vou agora dormir eternamente para que quando meu amado volte eu estar com meu belo vestido de noiva branco pronta para novamente nos casarmos...

E durante muito tempo dormiu, dormiu eternamente sabendo que se marido nunca voltaria, os outros continuaram vivendo suas vidas na mansão até que, certo dia, seguiram o mesmo caminho que ela...

Alguns séculos, um historiador encontrou em um porão abandonado, um livro e um gasto e o corpo de uma mulher vestida de noiva, quase intacta.

No final do livro havia toda a historia da mulher, sobre seus amores e sobre seu sofrimento...

Havia também uma dedicatória:

“Mesmo que você não volte... Mesmo que leve séculos... Mesmo que eu nunca mais vá vê-lo... Mesmo assim, vou estar naquela mesma sacada esperando você entrar pela porta... Eu vou esperar você eternamente... Mesmo que eu não possa sonhar, nem ver o tempo passar neste caixão, eu espero ansiosamente por ti...

Eu te amo Lorde Helder Faullen Uchoa Yeva e estarei eternamente a sua espera...

De sua amada esposa Valentina Yeva... “

Já era de noite, quando o historiador acabara de ler o livro, ele olhou novamente para a mulher, ela abriu os olhos desejando sangue e cravou seus dentes no pescoço do homem, matando-o.

"O tempo é muito lento para os que esperam. Muito rápido para os que têm medo. Muito longo para os que lamentam. Muito curto para os que festejam. Mas, para os que amam, o tempo é eterno."

William Shakespeare


Notas finais
Agradeço a todos que leram, comentaram e gostaram. Um beijo. Até...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!