Memórias de Um Demonio
1 Memórias de um Demônio - Parte 1
Notas iniciais
Apreciem a historia...
Kurou
Memórias de um demônio
Lorena Rany S. Soares
Com meus olhos vermelhos, já sem cor, eu vejo seu medo... Aqueles olhos azuis já não reluziam o mesmo prazer... Por que, senhor, deixas tantas vidas a encarnar em um mundo de podridão e sofrimento como este... As horas que rezei em seu nome não foram o bastante para livrar-me de meus pecados, o qual, não sei por onde os fiz... Agora, abandono esta vida, dou-me de bandeja ao abismo, livrar-me-ei desta frívola vida que tenho... Deixe-me sugar-lhe até a alma, e quando já não tiveres mais vida volte aos meus braços e farei com que veja a humanidade miserável em que vivemos... Deixe-me lhe mostrar o medo como mostrei a eles... Aquele que vi da sacada da janela de meu quarto... Aquele que, um dia, com uma estaca, vi perfurarem-lhe o peito...
Ouvi batidas na porta de meu quarto, fechei o livro que lia, e sem sair da cadeira onde me sentava, pedi que entrasse. Num sussurro baixo perguntei o que desejava, ele me encarou por alguns segundos, queria saber o que eu pensava... Esses cinco segundos foram o bastante para ele decifrar o que eu acabara de fazer... Seus passos ecoavam pelo quarto enquanto se aproximavam de onde eu estava. Eu não havia movido um músculo, ele se ajoelhou e deitou seu rosto em minhas pernas deixando que algumas mechas de seu cabelo caíssem sobre o rosto. Elevei minha mão do braço do sofá e a depositei na cabeça dele, fazendo um leve carinho. Ele me dizia que não pensasse mais naquele homem, que ele havia muito me feito sofrer e que agora eu o tinha e que ele nunca ma abandonaria... Tal como todos sempre diziam, mas a falta daquele ser me havia tirado todo o prazer... O suicídio era a única opção viável? Não, eu já o tinha feito quando ainda era pega pela inocência da existência de um céu...
“Yeva... Está na hora...”.
“Sim... Está...”.
Ethel se levantou, e junto com Zaynab saíram do meu quarto. Fiquei ali mais algum tempo, quando vi a primeira fresta de luz adentrar ao recinto, caminhei, como um negro gato, até meu exílio... Deitei-me lá, onde havia macios acolchoados vermelhos de detalhes em ouro. Estava como uma boneca de porcelana, sem nenhuma expressão... Meus olhos vermelhos já sem cor olhavam o teto que estava a dois palmos e meio de distancia do meu rosto. E quando finalmente os fechei, entrei em sono profundo onde não se sonha, não se respira, não se vê o tempo passar, não se envelhece nem rejuvenesce, um lugar onde não se vive...
O tempo passou e novamente eu acordo em um vazio caixão de lembranças... Aquelas que vinham a minha mente a cada novo por do sol...
Desta vez não me levantei, Ethel como sempre iria a meu quarto a minha procura e encontrar-me-ia sentada na mesma cadeira, lendo o mesmo livro e imersa nas mesmas lembranças que venho tendo durante estes mais 100 anos que se passam tão rápido para mim... Parece que foi ontem que, pela primeira vez, eu comprei meu vestido de lindos babados rosas e laços de cor lilás... Corria ate minha mãe dizendo que aquele era o mais perfeito vestido de toda a cidade, que em lugar algum eu encontraria outro mais magnífico... Qual foi meu espanto de vê-lo com uma outra garota em um baile, que ao chegar a casa rasguei-o, cortei-o em vários retalhos... Talvez fosse este meu primeiro erro... Desejei tanto que aquela garota morresse, queria que ela desaparecesse e, dois dias depois a pobre garota fora assassinada bem na minha frente e não derramei uma sequer lagrima... Fiquei sorrindo, um sorriso tão perverso e sádico que minha própria mãe assustara com aquilo, afinal, antes daquele baile éramos amigas... Esta foi minha primeira decepção, e não seria a ultima... Minha mãe veio confortar-me pela morte de minha ex-amiga, fui tão rude com ela... Eu já não era aquela gentil e dócil moça, pelo menos, não naquele momento...
“Nós vamos comer você vem?”
Eu me desfiz em um grão de areia a apareci ao lado de Aires, meus caninos já grandes e meus olhos vermelhos reluzentes mostravam que eu estava pronta para caçar. Encontrei o restante dos moradores da minha casa na porta, à minha espera. Eu sorri dando inicio a uma longa noite onde meu desejo incessante por sangue se esvaia a cada pescoço que eu perfurava com minhas belas presas e meu vestido banco sujo de sangue.
Lembrei-me que fora em uma destas noites que o encontrei, o homem pelo qual me apaixonei pela primeira vez... Eu estava sentada à mesa quando ele veio tirar-me para dançar, estendendo a mão cordialmente até mim, eu repousei a minha na dele e rapidamente ele me levou ao centro do salão. Eu estava nervosa, podia sentir o calor dele sendo transmitido para mim, aquilo me excitava demasiadamente. Não era normal uma moça de 16 anos de idade pensar desta forma, mas como sempre, eu estava à frente de meu tempo... Para mim existia apenas eu e ele ali, entretanto a musica acabara, a magia se fora, e ele me deixou ali, sem nem mesmo saber seu nome ou quem era...
Procurei incessantemente com os olhos aquele fantasma em todo o salão de festas, porém não pude revê-lo tão cedo quanto esperava... Passaram-se quatro anos desde nosso ultimo encontro, e fiquei chocada quando descobri que ele havia se casado, não chorei nem me entristeci; durante este meio tempo ouvi vários boatos sobre ele, e eu estava disposta a persuadi-lo a deitar-se comigo; por uma, duas ou três noites estive observando-os. Os boatos realmente eram verdadeiros, ele flertava com todas as mulheres do bar e mesmo na presença de sua mulher como naquele dia... Eu estava só quando eles se aproximaram de mim, Sr. Thierry Vallent e Lady Haidee Vallent.
Não fiquei surpresa, afinal de contas uma conversa produtiva com a Marquesa Valentina Swann renderia um elevado nível perante os outros nobres do parlamento britânico. Ela conversava comigo como se quisesse ser minha amiga, enquanto eu devorava seu marido com os olhos recebendo um receptivo, mas surpreso, olhar de desejo. Ao final, me despedi deles e voltei à minha mansão. No outro dia, todos comentavam sobre nosso encontro no bar, e então eu o encontrei na rua.
“Bom dia, Sr. Thierry.”
Ele me olhou intrigado, como se quisesse uma explicação do que eu fizera ontem, ou talvez fosse aminha impressão.
“Nós já não nos vimos antes, Marquesa Swann?”.
Eu sorri sensualmente para ele.
“Mas é claro que sim, Sr. Thierry, no bar ontem... Tivemos uma conversa... Consideravelmente agradável, eu diria...”.
“Não, quero dizer antes.”.
“Antes... Não que eu me recorde... Mas se for de seu interesse, poderíamos nos conhecer melhor...”
Eu me aproximei dele sensualmente, novamente ele me olhou intrigado.
“Ora Sir. Thierry, o que o leva a pensar que já nos conhecíamos antes? Garanto-lhe que não sou umas das muitas que já deitarem em sua cama... Pelo menos, não ainda, afinal, se fosse eu, você se lembraria claramente...”.
Afastei-me dele, tomando uma distancia considerável, não faria bem a minha reputação que eu ficasse muito perto dele, afinal, o galanteador Thierry não era muito bem falado, diferente de mim, que apesar de alguns boatos difamatórios, não havia nenhum que sujasse meu titulo.
Fui-me embora, deixando-o perplexo pelas minhas ultimas frases, eu não era uma santa, tinha que admitir, já havia dormido com vários homens, meu futuro marido sabia disso, entretanto, eu apenas desejava telo na minha cama para provar deste insaciável desejo carnal que eu era acometida a cada vez que me lembrava de sua face.
Não era amor, não, eu me amava demais para desejar algo tão desprezível e miserável como aquele homem, eu apenas queria senti-lo dentro de mim...
Enquanto eu me lembrava desta rápida e singela passagem, perdi a noção da racionalidade e suguei com tanto ardor o pescoço daquela pobre presa, que a mesma nem conseguiria voltar à vida como o demônio que sou. Quando parei, ela estava totalmente seca, em meu vestido não havia uma mancha de sangue, o que não era de costume. No entanto, eu ainda não estava totalmente saciada, eu precisava de mais, porém, para mim, o tempo já estava acabando logo o sol nasceria e eu deveria voltar para meu caixão. Mas não o fiz só, levei comigo um corpo de uma mulher para que eu me deleitasse em seu sangue escarlate enquanto ela agonizava de dor. Não que eu quisesse voltar para meu descanso, mas para nós, era puro instinto, caso não voltássemos não poderíamos mais voltar à “vida”. Muitos já haviam tentado o suicídio desta forma, entretanto nós voltávamos inconscientemente e só nos dávamos conta quando já era outro dia, ou melhor, outra noite. Éramos obrigados a viver presos à escuridão, onde somente a lua iluminava o negro céu noturno que ligava-nos, a todos nós. Já se haviam completado cem anos desde que os outros se juntaram a mim, todas minhas antigas presas que não conseguiram passar pelo ínfimo processo de redenção e ao chegarem à porta do inferno, foram expulsos por seu senhor, vieram em busca de abrigo em meu palácio. Eu o cedi, e em troca eles me serviriam eternamente, ate que eu os libertasse deste lamurio permaneceriam ao meu lado. Com o tempo, eu já os disse que podiam sair, todavia minha surpresa foi que eles não quiseram, disseram que pereceriam ao meu lado. Admiravam-me... Admiravam-me por eu ser fria, meu poder ultrapassava os deles. Eles queriam ser como eu era. Que lastima, mas isso seria um elogio perto a nós, afinal de contas demônios que roubam à vitalidade de outros para sobreviver, como se admirar isso.
Na outra noite o cadáver estava morto ao meu lado, rapidamente tiraram-no dali. Eu saio de meu confortável exílio sedenta por sangue, fora tão instintivo que eles até se assustaram, desde que eu havia renascido, eu não sentia tanta fome. Isso era sinal de que algo mudava em mim? Não, eram apenas lembranças que me vinha à mente daquela prazerosa, mas decepcionante noite com Sir. Thierry.
Estávamos em um quarto de hotel, eu já devidamente sem roupa e ele também. Ele me devorava com os olhos e eu fazia o mesmo, nossa noite estava apenas começando.
Eu não era destas mulheres que deixavam tudo para o homem descobrir, eu gostava de dominar a situação e a fazia da melhor maneira possível, eu era muito diferente das outras centenas de mulheres com as quais ele havia transado. Eu rebolava sensualmente sobre ser pênis já rígido enquanto ele regozijava com minha leve brincadeira.
“Algumas raparigas me disseram que você era ótimo na cama. Que adorava domina-las...”
“Eu realmente... Adoro...”
“Sir. Thierry, eu não sou como elas... Eu prefiro treinar um cão mal educado a ser simplesmente a coleira que cerca seu pescoço.”
“Ora... É a primeira vez que vejo uma mulher falar deste modo...”
“Eu não sou ‘uma mulher’ eu sou ‘a mulher’, aquela que todos querem na cama... Você deveria saber disso...”.
“Sim... Eu sei...”.
Foi depois desta frase que deixei de torturá-lo e ele penetrou-me. Depois de algum tempo naquele ritmo frenético onde estávamos ambos extasiados; depois de algumas horas (eu diria três), ele estava cansado, eu, nem tanto, desejava mais dele a cada nova posição que tentávamos, eu era um vampiro sedento por prazer... Irônico não... Depois de algum tempo ele chegou ao seu limite e eu logo depois, eu desejava ainda mais dele, entretanto vi sua face cansada, suado, com a respiração descompassada e um sorriso de satisfação no rosto. Eu não sorri encarei-o, levantei e me sentei ao seu lado.
“O que houve Marquesa Swann?”
“Nada...”
Eu respondi simplesmente, eu não iria lhe dizer que ainda desejava mais quando ele mal conseguia se manter sentado na cama. Eu peguei o roupão vermelho de seda que estava pendurado ao lado da cama e o vesti. Ele observava minuciosamente meus movimentos, ele queria ver que jóia rara eu era.
Quando o encarei de novo, em pé desta vez, ele percebeu meu olhar de insatisfação, e isso feriu seu orgulho.
“Não esta satisfeita?”
“Não completamente...”
Eu disse me virando para a janela, abrindo-a.
“Parece que eu lhe superestimei Sir. Thierry... Talvez fosse melhor voltar antes que sua mulher dê por sua falta...”.
“Não queres me encontrar de novo Marquesa?”
“Talvez, Sir. Thierry... Se eu não tiver nada melhor para fazer, eu lhe procuro com certeza...”.
“Como podes dizer isso?”
“Bem, pode ficar no hotel... Eu tenho um compromisso de manha, já estou partindo, visto que já vai amanhecer...”.
Eu peguei minhas roupas e as vesti. Não lhe disse nada antes de sair, ele ficou lá com seu orgulho ferido. Ele espalharia a todos se não fosse pelo que eu disse, um homem que não consegue satisfazer uma mulher não é considerado um homem, na concepção dele.
Ao voltar para casa minha mãe me questionou onde eu estivera, e eu lhe respondi:
“Acho que sabe bem onde eu estava pela hora que chego...”
Ela nada mais disse, voltou para seu quarto e me deixou em paz, mais tarde ela me daria um sermão. Eu tinha certeza...
Depois de fazer minhas vitimas voltei à minha mansão, ainda havia tempo ate o final da noite, Ethel, Aires, Zaynab estavam na sala. Sentei-me lá e fiquei a observá-los.
Eu sabia que Ethel era apaixonado por mim, entretanto eu havia amado tanto meu marido que agora, mesmo sentindo um grande apreço por ele, eu não conseguiria ama-lo. Nem que eu quisesse. Quando aceitei me tornar este demônio, eu vi que eu já não possuía os mesmo sentimentos. Era apenas tristeza, solidão e dor em meu peito, eu queria tanto voltar no tempo, eu queria rever aqueles olhos azuis brilhantes que me encantava a cada noite que ele vinha para casa, a cada palavra e gesto que ele fazia para compensar sua ausência durante o dia... Eu queria telo de volta, mas já era muito tarde... Há tempos eu não choro por saudades dele, com o tempo aprendi a chorar por dentro... E este livro foi a única coisa que restou de Meu Amado Lorde... Um presente para sua amada...
Logo deu a hora de voltarmos aos nossos túmulos, fomos cautelosamente para que nenhum humano viesse a nos perturbar... Deitei-me, e novamente fui pega em sono profundo...
Acordei novamente, não sairia hoje como antes, fiquei em meu quarto lendo meu livro e novamente relembrando.
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