Memórias de Um Anjo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Uma criança. Muitos sonhos e objetivos a serem alcançados. Uma vida longa a ser enfrentada com fervor. Agora, nada fazia sentido.
Era uma manhã de sábado. O sol resplandecente surgia no longínquo horizonte, e pássaros rasgavam o céu. Mas nem tudo era felicidade.
O clima era silencioso. Ali, nem mesmo ouvia-se o cantar dos pássaros, tal a melancolia. Era sinistro.
Várias pessoas estavam ali reunidas, todas vestidas de preto e melancólicas. Ao centro, dois buracos cavocados na terra ao chão, e, ao lado, dois caixões de madeira envernizada e reluzente. Em seus interiores, um casal, um homem e uma mulher.
O garotinho Bruce, de oito anos, passava pelo mais difícil momento de sua ainda curta vida. Seus pais acabavam de ser assassinados na noite anterior. Enquanto o padre proferia palavras, estranhas para os ouvidos do jovenzinho, chorando, o pequeno correu por entre a multidão, se afastando o mais que podia. Enquanto soluçava e corria, tropeçou e caiu. Depois disso, veio uma escuridão repentina à sua visão, e o rapazinho apagou...
Oito anos depois...
- Bom dia! Hora de acordar!
- Ah, tia, eu estou com sono.
- Bruce, levante-se, você vai se atrasar para a escola.
Um jovem, agora, Bruce tinha seus 16 anos recém-feitos. Cabelos castanhos desalinhos e lisos, bagunçados por mais uma noite de sono, e olhos esmeraldados.
Depois de seus amados pais falecerem quando tinha apenas oito anos de idade, Bruce fora morar com os tios, Richard e Bernadeth. Eles não podiam ter filhos, então aceitaram felicissimamente mais um morador na casa, como um verdadeiro filho.
Bruce, ao abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi o relógio digital luminoso no criado-mudo ao lado de sua cama, marcando oito horas e meia da manhã.
- TIA! – Ouviu-se o grito do rapaz. – O despertador hoje não... Ah, não! Hoje é sábado?!
- Seu bobinho, você caiu direitinho... De novo – disse a tia, sorrindo maliciosamente, enquanto Bruce enfiava sua cabeça sob o travesseiro.
Bruce cresceu, mas desde a morte de seus pais, ele não era mais o mesmo. Os avós há anos morreram, e os tios eram os únicos parentes próximos, já na idade idosa.
Sábado era o dia de Bruce ajudar a tia a fazer as compras para a semana. Trocou a sua roupa, e aprontou-se. Logo, os dois se dirigiram ao habitual mercado, que havia a algumas quadras dali. No caminho, foram conversando sobre as reformas que Bernadeth faria brevemente em sua casa.
- Vou mudar a fachada, principalmente! Ela está em desarmonia com o restante da casa... – Tagarelava a tia.
De repente, a algumas casas depois de onde moravam, ouviram um grito: o tio Richard! Voltaram o mais rápido que puderam, e encontraram o portão da frente da casa aberto escancaradamente, com o cadeado quebrado.
Enquanto entravam em casa, ouviam o arrastar de móveis no chão. Bernadeth, instintivamente, subiu rapidamente as escadas. Bruce tentou impedi-la, mas não houve tempo. Escorregou nas escadas, rolando pelo chão e parando atrás de um vaso com uma ornamental e grande planta verde-vivo, e o mundo ao seu redor começou a escurecer. Sangue começava a escorrer pela sua cabeça, e o último som que pôde ouvir foi de um tiro ecoando por toda a casa.
. . .
Bruce acordou sobre uma cama em uma ala hospitalar, num quarto iluminado.
— Olá rapaz – disse um homem de branco ao seu lado, assim que Bruce recobrou os sentidos e abriu os olhos esmeraldados. – Você tem sorte! Sabia que era quase impossível sobreviver a uma queda assim? Você deve ter um anjo protetor!
- Ahn... Onde estão os meus tios?
- Tios? Ah, sim, vou ver como eles estão...
Naquele momento, uma enfermeira abriu a porta do quarto rapidamente com uma prancheta à mão. Bruce já havia trocado de roupa, e estava para receber alta do médico.
- Senhor, o óbito dos senhores Richard e Bernadeth foi confirmado, estamos preparando o atestado, e... – Ela parou, assim que finalmente notou Bruce, agora em choque.
- ONDE ESTÃO? – Berrou Bruce, enquanto a enfermeira, arrependida, apontava o caminho.
Bruce estava em um momento de loucura. Assim que chegou à sala que a enfermeira lhe indicara, viu os dois corpos.
Por pouco não desmaia novamente. Desesperado, lágrimas percorrendo toda sua face, seus instintos não o permitiam pensar. Correu, correu, correu...
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