Memórias de Novembro
12 Emoções
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XI – MEMÓRIAS DE NOVEMBRO
CAPÍTULO XI – EMOÇÕES
Desde que eu era criança, sempre sonhei com o dia em que me tornaria mãe. Eu me imaginava com uma casa grande e confortável, com vários filhos correndo pela casa e um marido que me amasse até o fim de nossas vidas. E então eu cresci e vieram as decepções amorosas. Passei a me afundar cada vez mais no trabalho e a esquecer da minha vida amorosa. Consequentemente, esse sonho foi ficando cada vez mais distante.
E minha vida se seguiu assim por muitos anos. Monótona e solitária. Por mais que tivesse minha melhor amiga ao meu lado, Felicity Smoak, e seu filho que também é meu afilhado, ainda não era o suficiente para preencher aquele vazio que existia em meu peito e que eu notei existir somente no momento em que Kayla, Alex e Liz apareceram em minha vida. Não foi da maneira que eu esperava. Na verdade, a situação estava longe de ser a que um dia eu imaginei que poderia passar. Ainda assim, as três crianças trouxeram um novo significado para minha vida.
De repente, eu tinha alguém para proteger. De repente, eu não estava mais sozinha. De repente, eu tinha uma família para cuidar, que me amava e que eu amava com ainda mais intensidade. E era por isso que mesmo não dormindo direito há dias e tendo que lutar para me acostumar com a rotina de cuidar da casa, ajudar Alex com os deveres de casa, levar o garoto para a escola e ainda cuidar de Liz, eu continuava a sorrir como uma boba.
Mas sendo sincera, a experiência ao mesmo tempo que é gratificante, ela é assustadora e desgastante. É claro que eu sabia que ser mãe não era uma tarefa fácil e que exigia muita dedicação. No entanto, a teoria sempre é mais fácil que a prática. Não somente pelo esforço gerado para dar conta de todo o trabalho, mas o tamanho da responsabilidade que eu assumi da noite para dia sem qualquer preparo psicológico. Não que eu ache que alguém esteja realmente preparado para o que a maternidade vai gerar.
Antes de me envolver nessa loucura de programa de proteção a testemunha, a minha única preocupação era comigo e com o meu trabalho. Tudo o que eu fizesse refletiria somente em mim. Por maior que fosse a tarefa, o máximo que aconteceria a mim era ficar sem emprego e sem um lugar para morar. Mas tudo mudou com a chegada das crianças.
Agora, todas as minhas ações afetam diretamente a vida dos três e a de Steve também, que mesmo de mentira, é o meu marido e ainda está sem memórias. Eu tenho medo de falhar com eles. De não ser uma boa mãe e acabar causando ainda mais trauma a essas crianças que apesar da pouca idade já passaram por muitas coisas.
É por isso que mesmo agora, colocando as roupas para lavar, eu continuo a ponderar se devo mesmo ir ao baile de casais do Dia dos Veteranos e deixar Liz recém recuperada da gripe de inverno em casa com os irmãos e Debbie, a sogra do colega de trabalho de Steve, ou ficar e garantir que as crianças vão ficar bem e seguras, afinal, ainda temos um assassino atrás de nós.
Suspiro e ligo a máquina de lavar roupa. Com a mente cheia de possibilidades e dúvidas, saio da lavanderia e passo pela sala, vendo Alex e Liz assistirem um desenho animado musical que passava na televisão. Steve estava na cozinha, preparando o jantar das crianças, enquanto cantarolava uma música qualquer. Ele estava muito feliz desde que retornou do piquenique com os filhos e Peter, para a minha surpresa, já que ele havia saído de casa possesso pelo adolescente estar os acompanhando em um programa supostamente de família.
Sorrio e sigo para o segundo andar. Indo ou não ao baile de casais, eu precisava tomar um bom banho relaxante e arrumar o meu cabelo, que há muito tempo não vê uma hidratação. No entanto, enquanto passo pela porta do quarto de Kayla, a maneira como ela estava na cama, encarando a janela do quarto acaba chamando a minha atenção. Ela parecia perdida em pensamentos e exalava um ar melancólico.
Preocupada com a garota, esqueço completamente da minha tão aguardada hidratação, e entro no quarto para conferir se ela estava bem. Bato duas vezes na porta, mas ela nem mesmo se mexe. Seus olhos estavam vidrados na janela embaçada de seu quarto e parecia que até mesmo se esquecia de piscar de tão perdida em pensamentos.
— Hailey? Aconteceu alguma coisa? Você parece tão pensativa. – Comento, aproximando-me de Kayla. Ela leva a mão ao peito, desviando o olhar da janela para me encarar. – Desculpa. Eu não quis te assustar.
— Tudo bem. Eu só estava concentrada, assistindo a neve cair. – Responde e eu me surpreendo ao ver que realmente estava nevando. Não era de se estranhar que estivesse tão frio. Observo a garota pelo canto do olho. Ela parecia um pouco melancólica.
— Está tudo bem? – Pergunto com toda a minha atenção voltada para ela. Kayla parece pensar na pergunta. Eu quase conseguia ver sua mente trabalhando freneticamente em busca da resposta que eu havia feito. Isso me deixa ainda mais preocupada.
— Sim. Eu só... – Ela suspira e me encara com um fraco sorriso nos lábios. – Sabe, quando a gente mora na rua, as piores estações do ano são o inverno e o verão. Durante o verão, nós temos que lidar com os dias sufocantes, temporais impiedosos, o aumento de insetos e outras pragas, a alta das temperaturas e com a insolação que sempre sofremos com os intensos raios solares. É sufocante e torturante em níveis indescritíveis. Vi muitas pessoas morrerem por desidratação e exaustão. E o frio pode ser ainda pior. A fome é ainda mais intensa e acabamos tendo que roubar mais para ter a chance de sobreviver as baixas temperaturas e a perda de gordura corporal. Por não termos roupas apropriadas, muitos acabam morrendo por hipotermia, assim como ocorreu com a mãe de Liz.
— A mãe de Liz morreu de hipotermia? – Repito, surpresa com a informação. Kayla assente, suspirando.
— Ela tinha acabado de ganhar a Liz e estava muito frágil. O inverno do início desse ano foi particularmente mais frio do que nos outros anos. Rachel era viciada em bebida e drogas, então foi meio que um milagre a Liz ter sobrevivido e nascido tão saudável. Quando ela foi ganhar bebê, nenhum hospital quis nos atender. Não tínhamos dinheiro para pagar o parto, então foi Joe quem ajudou Rachel. Só que ela perdeu muito sangue e ficou muito fraca. Ela acabou tendo pneumonia e outras infecções por falta de cuidados e pela situação precária em que nós nos encontrávamos naquela época. Rachel passou uma semana dando febre alta. Ainda tentamos levá-la ao médico mais uma vez, mas o corpo debilitado dela foi incapaz de resistir e ela veio a óbito. Isso é muito comum nas ruas, principalmente no inverno. – Conta Kayla, suspirando entristecida. – Eu gostava muito da Rachel. Ela era apenas três anos mais velha do que eu, então eu a tinha como uma irmã mais velha.
— Ah, querida, eu sinto muito. – Abraço Kayla com todas as minhas forças. Deixo vários beijos em sua testa e ela se acomoda melhor em meus braços. – Eu nem mesmo consigo imaginar o quanto deve ter sido doloroso e assustador para você.
— Quando se vive há tanto tempo na rua, a gente aprende a apenas aceitar a situação, já que você passa a ver casos como esse com frequência. – Conta a menina, dando um fraco sorriso. Ela suspira e se afasta, pegando em minhas mãos. Vejo seus olhos brilharem em emoção. – Mas esse ano tudo será diferente. Pela primeira vez na vida, nós temos um teto seguro e confortável sobre nossas cabeças, comida em abundância, roupas quentes e muito amor para nos aquecer no intenso e rigoroso inverno. Eu... eu não sou boa para falar sobre os meus sentimentos, mas eu estou muito feliz por ter conhecido vocês. Então, obrigada por salvar a minha vida e a de meus irmãos, quando todos estavam acostumados a apenas nos dar as costas. Eu sei que vocês não tiveram muitas escolhas, mas...
— Ajudar você e seus irmãos foi a melhor escolha que fiz em minha vida. Vocês se tornaram o meu bem mais precioso. Eu os amo como meus filhos. É verdade que Steve e eu protegemos vocês do assassino da HYDRA, mas foram vocês que nos salvaram, meu amor. Eu era uma pessoa solitária e amargurada, sem muitos objetivos de vida. Eu vivia por mim mesma, completamente alheia a minha infelicidade. Mas desde que vocês apareceram em minha vida, todo o vazio em meu peito foi preenchido por vocês. Então, sou eu quem deve agradecer por vocês encherem minha vida de alegria mais uma vez. – Agradeço com sinceridade e vejo as lágrimas se formarem nos olhos de Kayla. Ela ainda tenta lutar contra, mas não demora muito para que descessem pelo seu lindo rosto.
Vê-la daquela forma faz meu coração se apertar. Aos poucos, Kayla estava abrindo seu coração e permitindo que eu visse seus lados mais frágeis. Ela estava confiando em mim e isso faz com que eu me emocione também. E de repente um clique vem em minha mente. O que vai acontecer quando o programa de proteção a testemunha acabar? E se a CIA acabar me afastando dela, de Alex e Liz? Como eu vou poder viver sem os meus filhos de coração? Pensar nessa possibilidade me apavora.
— Eu te amo, Kayla. E mesmo não sabendo o que o destino nos reserva, eu prometo que farei o que for preciso para ter a guarda de você e seus irmãos. Então mesmo que a gente deixe de participar do programa de proteção a testemunha, eu não vou abrir mão de ganhar o direito de me tornar legalmente a mãe de vocês. — E é por isso que mesmo sendo uma decisão pensada com as emoções à flor da pele, decido que eu brigaria até mesmo com os Estados Unidos e o mundo para ter os três em meus braços. Eu não hesitaria nem mesmo em fazer uma guerra se fosse preciso para garantir que eles ficarão comigo e que terão uma vida próspera e feliz.
— Você... você está falando sério? – Questiona Kayla em estado de choque. Assinto e aperto suas mãos com firmeza, mostrando que eu já havia tomado a minha decisão. Ela abre um lindo sorriso brilhante, rindo incrédula, enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto com ainda mais intensidade. – Por favor, não brinca comigo.
— Eu não estou brincando. – Garanto, passando as mãos por suas bochechas para limpar as lágrimas. – Eu me apeguei a vocês de forma que eu já não consigo mais viver sem ter vocês ao meu lado. Vocês realmente se tornaram filhos para mim. Então eu prometo que vocês nunca mais voltarão a morar nas ruas. Talvez eu não consiga oferecer muito luxo, mas prometo que vocês sempre terão um lugar confortável para dormir, comida em abundância, educação de qualidade e muito amor. O que você me diz? Você aceita se tornar minha filha?
— É claro que eu aceito! Isso é tudo... – Kayla funga, jogando-se contra mim. – Obrigada! Obrigada! Obrigada! Eu sempre sonhei em ter uma família, em estudar para me tornar uma grande astronauta e um dia ir para o espaço pela NASA. Eu... – Ela ri e chora com igual intensidade. – Eu te amo, mãe. Obrigada! Obrigada! Obrigada! Mil vezes, obrigada! Eu nunca serei capaz de retribuir o que está fazendo por Alex, Liz e por mim.
— Eu também te amo, meu amor. – Afirmo, deixando um beijo demorado em sua testa, enquanto a abraçava apertado. – Mas enquanto estamos sob a proteção do programa de testemunhas, eu irei começar a cuidar de você, levando-a ao psicólogo na segunda-feira. Você e seu irmão irão se consultar e iniciar um acompanhamento psicológico com um profissional.
— Nós iremos? – Pareço ter surpreendido Kayla pela segunda vez. – Mas esse tipo de especialidade não é mais caro?
— Não precisa se preocupar com isso. Depois de tudo o que vocês já passaram, uma ajuda profissional é mais do que necessária. O psicólogo vai te ajudar a lidar com todos os seus traumas e com as emoções que você tanto tem dificuldade em demonstrar. Vai ser muito bom para você e para o Alex. Eu prometo. – Garanto e as lágrimas dela se tornam ainda mais intensas e alegres.
— Obrigada! Obrigada! – Kayla continua a agradecer, completamente tomada pelas emoções e eu também não consigo mais controlar as lágrimas de felicidade e orgulho da garota que descia pelo meu rosto.
Permanecemos mais alguns minutos chorando descontroladas, enquanto riamos do quanto era ridículo todo aquele choro que parecia não ter fim. Eu não faço ideia de como funciona o processo de adoção e nem se eu estava qualificada para dar entrada no processo para ter a guarda das crianças. Mesmo assim, nada era capaz de tirar a felicidade que me consumia naquele momento.
— Certo. Vamos nos recompor, porque está ficando tarde eu preciso me arrumar para o baile. – Digo depois de um tempo, quando finalmente conseguimos parar de chorar. – Apesar de estar preocupada em deixar vocês e sair para me divertir.
— Mãe, você precisa ir. É a chance que você e o pai queriam para tirar um tempo só para vocês. E aproveita para falar que você está completamente apaixonada por ele. – Responde Kayla, limpando as lágrimas de seu rosto. Arregalo os olhos e a encaro surpresa.
— O que você está dizendo, menina? Não diga bobagens! – Repreendo Kayla, sentindo-me completamente desconcertada. Engulo em seco e desvio o olhar para a janela do quarto. – Eu não sou apaixonada por ele. Nós somos apenas amigos. Nada além disso.
— Ah, vamos lá. Não precisa esconder isso de mim. – Insiste Kayla, encarando-me com expectativas. – Pode confiar em mim. Eu não direi nada a ele. Eu prometo. Agora me fala. Você é apaixonada pelo pai, não é mesmo?
— Eu digo se você confessar que está apaixonada pelo Peter. – Contraponho e, dessa vez, é Kayla quem parece ficar envergonhada com a situação. No entanto, não demora muito para que um largo sorriso se abrisse em seu rosto. Encaro-a com desconfiança.
— Então você admite que é apaixonada pelo meu pai? – A pergunta veio mais como uma afirmação. Ao ver o quão sem graça fico, Kayla gargalha, divertindo-se com o meu desespero.
— Quer saber? Você vai me ajudar a me arrumar para o baile de casais. Está na hora de me trocar e eu nem mesmo escolhi o vestido. Então estou contando com você.
E sem esperar a resposta de Kayla, puxo a garota pelo braço o meu quarto, tentando fugir de um assunto que tenho evitado há quase vinte anos. A verdade é que eu ainda não me sinto preparada para expor meus sentimentos e ter que lidar com a rejeição. Então tudo o que me resta a fazer é ocupar minha mente e esquecer que meu coração continua a bater descompassado pelo meu melhor amigo.
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