Memórias de Novembro

29 Acerto de Contas


Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Como vocês estão? Espero que bem. E aqui estamos nós no antepenúltimo capítulo. É sempre tão difícil dizer adeus as minhas histórias. E antes de mais nada, gostaria de me desculpar se tiver algum erro de digitação. Eu tive que escrever pelo celular e vocês sabem como é. Nunca dá para saber o que o corretor vai colocar e às vezes passa despercebido por mim. E gostaria de agradecer demais a AndreaNeves pelo comentário no capítulo passado. Você é sempre maravilhosa demais. Espero de verdade que goste dos dois últimos capítulos. Boa leitura...

ROMANCES MENSAIS

LIVRO XI – MEMÓRIAS DE NOVEMBRO

CAPÍTULO XXIX - ACERTO DE CONTAS

Minha cabeça está latejando, quando começo a abrir os olhos lentamente. Minha boca e garganta estavam secas, como se houvesse semanas desde que havia ingerido algum líquido. Tento me mexer, mas meus braços e pernas estão presos. Olho para os lados, tentando reconhecer onde eu estava e entender o que estava acontecendo. Minha mente estava uma bagunça. Aos poucos, minhas lembranças vão se reorganizando, até que eu me lembre por completo o que havia acontecido.

Sinto algo pressionando minha boca e não demoro a perceber que também havia sido amordaçada. Tento me soltar, mas tudo que consigo é machucar ainda mais a minha pele já sensível. Procuro reconhecer o lugar onde estou presa, buscando uma forma de escapar de meu cárcere, mas tudo que vejo são paredes malcuidadas, panos espalhados por todos os lugares, provavelmente protegendo alguns móveis ou máquinas, poeira, inúmeros toneis enferrujados e pouca iluminação.

Eu não faço ideia de quanto tempo eu estou apagada e tampouco consigo identificar a minha localização. Os tímidos raios solares que entravam por uma pequena janela engradada no ponto mais alto da parede não me ajudavam em nada a descobrir as horas, mas supondo que o céu parecia claro, o dia já havia amanhecido a algum tempo.

Sozinha e atordoada, tudo que consigo pensar é em Steve. Os malditos comparsas de Schmidt haviam o machucado? Será que ele e Leonard estavam bem? O que aconteceu depois que eu apaguei? E meus amados filhos? Será que estavam bem? Sara havia conseguido os proteger? Schmidt os encontrou? Será que estão assustados? Inúmeras perguntas passam em minha mente e a falta de respostas passam a me deixar cada vez mais aflita.

A porta do lugar onde estou é aberta, iluminando fracamente a grande sala suja. Fecho meus olhos e abaixo minha cabeça, incomodada, acostumada demais com a escuridão que me cercava anteriormente. Passos secos ecoam e sinto que estou sendo observada. Permaneço quieta, fingindo estar dormindo por precaução. Eu não faço ideia do que se passa na cabeça doente de Schmidt, mas sendo um assassino perigoso da HYDRA, eu posso esperar qualquer coisa.

E assim que a pessoa para de frente para mim, gelo é jogado brutalmente sobre meu corpo. Afago, em busca de ar, assustada com o ataque repentino. Abro meus olhos e encaro Schmidt em fúria. Ele joga o balde que segurava antes em um canto qualquer da sala e me encara com um sorriso desafiante. Começo a me debater contra a cadeira onde estou presa, tentando me soltar mais uma vez. O assassino ri e parece se divertir com a dor que o gelo causava ao queimar minha pele já ferida.

— Parece que a Bela Adormecida acordou. — Comenta o maldito Schmidt, sorrindo perigosamente. Tento proferir todos os tipos de maldições e xingamentos, mas a mordaça em minha boca permite apenas que murmúrios e sons indecifráveis abandonem minha boca. – O que disse? Eu não estou te entendendo. Espero que você esteja se sentindo confortável em meu humilde esconderijo. Você parece com frio. Eu deveria trazer uma sopa quente para te esquentar?

A ironia em suas palavras me deixa ainda mais preocupada. Debato-me mais um pouco e finalmente consigo tirar um pouco do gelo que me machucava. Schmidt pega uma cadeira e se senta de frente para mim, com os braços e queixo apoiado sobre o encosto da cadeira. Ele me analisa com um sorriso discreto nos lábios e o olhar distante.

— Sabe, srta. Carter, eu confesso que fiquei chateado. Não me leve a mal, mas matar pessoas é o que eu faço de melhor, mas graças a você e ao seu marido de mentira, eu não consegui cumprir a minha missão. E ainda por cima, vocês mudaram para muito longe. Tem noção do quão difícil foi encontrar vocês? Mas agora que tenho você aqui e que aquele irritante agente da S.H.I.E.L.D está lidando com o nosso líder, eu finalmente terei a minha vingança. Como você se sente? Depressiva? Desesperada? Preocupada? Humilhada? Com medo? Melhor ainda, você se sente no fundo do poço, sem ter para onde ir? – Questiona Schmidt, animando-se cada vez mais com a possibilidade de me ver destruída emocionalmente. – Na verdade, isso não importa muito. Em breve, você e o agente Rogers estarão mortos. E então será a vez daquelas crianças irritantes. Bom, na verdade, a essa hora, talvez seu amado já esteja morto.

Meu coração bate acelerado e o desespero começa a me atingir em cheio ao pensar no que ele havia feito com Steve. E então me lembro dos momentos que passei ao lado daquelas lindas e adoráveis crianças. Mesmo passando pouco tempo ao lado delas, eu já havia me apegado em um nível inexplicável. Eu já não me importava com o que iria acontecer comigo, contanto que Alex, Kayla e Liz ficassem seguras e bem. Eles já haviam sofrido demais nas ruas. Já haviam perdido pessoas demais. Estava na hora deles serem felizes.

— Você deve estar se perguntando o que eu planejo fazer com as suas crianças. Principalmente com a pirralha mais velha. Sendo sincero, terei o prazer de tirar a vida dela de forma lenta e dolorosa para ela pagar por tudo o que já me fez passar. – Olho desesperada para o assassino, que sorri largamente. – Ah, será tão divertido vê-la implorando pela vida dela. Aquela mirim de agente da CIA me deu muito trabalho. Todas as vezes que eu tentei matá-la, aquela vadiazinha conseguia escapar das minhas mãos. Ou ela conseguia se esgueirar pelos becos escuros de Hawkins com aqueles outros dois seres irritantes ou alguém aparecia para defendê-la e acabar morrendo em seu lugar. Isso me frustrou, sabia? Mas dessa vez, ela não terá escapatória. Será o meu trabalho mais memorável.

Schmidt se levanta e começa a andar de um lado para o outro, parecendo refletir sobre tudo que havia acontecido. Meu peito se enche de terror. Minha amada Kayla não poderia jamais cair nas mãos desse doente. Eu podia ver a felicidade em seus olhos ao pensar sobre como a torturaria até a morte. Ela é apenas uma menina com muitos sonhos e determinação. Tem um futuro brilhante pela frente. Não é justo que ela tenha sua vida encerrada tão precocemente e de maneira tão brutal.

— Mas, respondendo a sua pergunta, primeiro eu vou machucar as outras crianças na frente dela. Eu gosto de causar primeiro uma dor psicológica. Ver minhas vítimas implorando para não machucar as pessoas que amam é realmente saboroso. Depois, eu passo a convencer que as mortes dessas pessoas que ela ama são todas culpa dela. Quer dizer, se ela tivesse sido boazinha, eu jamais teria ido tão longe. Poderia ter terminado tudo muito mais rápido. E então, eu uso os meus brinquedos para continuar a diversão. Talvez algumas queimaduras e alguns dedos quebrados. Choques elétricos para desestabilizar seus pensamentos. Um pouco de perfuração. Ácido sempre me divertem também. A adrenalina será aplicada com frequência para que ela não perca a consciência. E depois de dias brincando com ela, farei com que ela se solte e darei esperanças para que ela fuja. Quando a garota correr, eu usarei seu corpo como alvo e irei atirar contra ela diversas vezes em pontos não fatais para que sangre até a morte. Não é emocionante? — Questiona Schmidt se aproxima de mim e seus olhos mostravam que ele não estava brincando. — O que você acha?

Mais uma vez, começo a puxar meus braços e pernas, furiosa demais para pensar em uma forma mais racional de me soltar. Eu não permitiria que ele tocasse nem mesmo em um fio de cabelo de Kayla. Minha menina não passaria por isso. Nem que eu tivesse que voltar do inferno, eu acabaria com o desgraçado a minha frente. Schmidt parece ver a minha força aumentar e sorri com satisfação.

Ele então aproxima-se de mim e retira a mordaça que já feria a minha boca, devido ao esforço que eu fazia para gritar contra o desgraçado que havia me sequestrado.

— Filho da puta! Eu vou te matar, Schmidt! Você não vai tocar nem mesmo em um mísero fio de cabelo da minha filha! Eu juro que quando eu sair daqui – e eu vou sair -, você pagará caro por tudo que você está fazendo! Não pense que você sairá impune de suas ações, seu desgraçado! – Ameaço, debatendo-me furiosamente.

— Ah, é mesmo? Eu estou ansioso para saber como você irá fazer isso. – Provoca Schmidt, empurrando minha cabeça até que a minha cadeira caísse para trás. Resmungo de dor, sentindo meu corpo inteiro sofrer com o impacto. O assassino da HYDRA se aproxima e pisa em meu rosto com um sorriso psicopata em seu rosto. Travo meus dentes para não gritar diante da dor de sentir seu sapato me machucando. – O que você não entende, Margaret Carter, é que eu não me importa de quebrar alguns ossos para completar uma missão. Ainda que eu morra, contanto que eu cumpra o desejo de Taskmaster, é o bastante para mim. Eu não tenho nada a perder, diferente de você, não é mesmo?

— Você... você é doente... – Sussurro entredentes. Ele para de pisar em meu rosto e gargalha.

— Doente? – Repete Schmidt, aumentando ainda mais a sua risada maléfica. – Você ainda não viu nada, Carter. Eu serei o seu pior pesadelo.

O telefone de Schmidt começa a tocar de repente, fazendo o som ecoar por toda a sala. Ele retira o aparelho de seu bolso e ao olhar a tela, revira os olhos, parecendo insatisfeito pela interrupção de quem quer que fosse do outro lado da linha. Após um suspiro cansado, ele atende a ligação com tédio, mas sua expressão muda no mesmo instante ao ouvir a resposta.

— Agente Steve Rogers? – Sussurra Schmidt e meu coração se aperta no mesmo instante. – O que você está fazendo com esse celular?

O silêncio permanece por um tempo. Steve provavelmente dizia a Schmidt o que ele iria fazer. Conhecendo meu namorado e pela forma furiosa com a qual o assassino ao meu lado apertava seu celular, Steve havia conseguido escapar das armadilhas que ele havia levado e provavelmente havia acabado com os lacaios de Schmidt. Não consigo evitar não sorrir orgulhoso. A ação repentina de meu namorado havia desestabilizado, pelo menos um pouco, o maldito que me prendia em cativeiro.

— Desgraçado! – Grita Schmidt, jogando o celular na parede. Ele aperta os poucos fios de seu cabelo e grita raivoso. Algo havia acontecido e ele não estava nada satisfeito. – Calma, Schmidt. Ele é só um moleque. Isso não é nada demais.

— Você parece estar com problemas, Schmidt. – Provoco, divertindo-me com o desespero do outro, que andava de um lado para o outro, inquieto, enquanto pensava em uma forma de resolver o que quer que Steve havia feito.

— Cala a boca! – Responde Schmidt, chutando meu rosto.

Sinto meu nariz sangrar e tenho quase certeza de que ele quebrou algum dente meu, mas ainda assim, um sentimento de satisfação grita dentro de mim. A esperança que estava a ponto de se extinguir instantes antes, começa a brilhar fortemente em meu peito. Não era o fim. Se Schmidt está tão alterado assim, Steve havia achado uma forma de impedir os planos do assassino.

— Isso ainda não acabou. – Afirma o homem, respirando fundo, passando as mãos pelo cabelo, levando-os para trás. Depois de se acalmar um pouco, ele se abaixa e puxa meu rosto para que eu o encarasse. – Se seu namoradinho acha que só porque ele escapou de meus homens, vocês vão ganhar essa guerra, ele está completamente enganado. Esse jogo só termina quando eu disser que acabou e acredite em mim, isso está longe de chegar ao fim.

— Não importa o que você diga, Schmidt. No fim, você vai ser pego do mesmo jeito. Nesse momento, Clint Barton já deve saber que você me raptou e mexeu com seus amigos. E bem, eu não se você sabe, mas Clint é bastante rancoroso. Talvez até mais do que você pode imaginar. Ele tem muitos contatos e poder, acredite em mim, você não vai gostar nenhum pouco de experimentar o que acontece com quem mexe com um amigo ou familiar dele. Clint Barton pode ser bastante perigoso quando ele quer. – Aviso, rindo. — E não podemos nos esquecer de Natasha Romanoff. Aposto que você já conhece a fama dela. Ela é a pessoa mais perigosa da CIA. Não vai ser muito difícil para ela te deter e você sabe disso.

Schmidt rosna, nada satisfeito com minhas palavras e bate minha cabeça no chão, descontando sua raiva. Mais uma vez, fico atordoada e é preciso que eu faça uma força descomunal para permanecer acordada. Eu não posso apagar, quando eu estou prestes a presenciar a queda de Schmidt. Ver o seu desespero é satisfatório. Eu não estava mentindo quanto o poder de Clint e o assassino sabe disso, ainda que eu não tivesse certeza de que o homem saiba de fato o que está acontecendo. E mesmo que Clint não possa ajudar, Natasha provavelmente já sabia da situação e ela pode ser tão perigosa quanto o ex-namorado. No fim, ter o apoio de duas das pessoas mais mortais do país poderia ser a minha saída nessa situação.

— Dakota! – Grita Schmidt, levantando-se. Não demora muito para que um homem musculoso, com uma cicatriz na bochecha apareça no quarto ou o que quer que seja o cômodo em que eu estava com um castiçal com três velas acesas em mãos. – Acione a HYDRA e informe ao sr. Taskmaster sobre a possibilidade do envolvimento de Clint Barton e Natasha Romanoff.

— Sim, senhor. – Responde o homem com seriedade. Ele deixa a sala e fecha a porta.

— Não há nada que você pode fazer, Schmidt. Não adianta. Você não vai conseguir escapar. – Afirmo, apenas pelo prazer de vê-lo furioso e frustrado.

— Se quiser permanecer vivo, Carter, é melhor ficar calada ou eu farei questão de colocar fogo em seu corpo antes de sair daqui. – Ameaça o outro em um tom cortante. – Não pense que é porque eu planejo acionar Taskmaster, que não posso mudar um pouco dos meus planos e acabar com a sua vida aqui mesmo. Então para o seu próprio bem, é melhor você ficar como uma estátua.

E antes que eu dissesse alguma coisa, um estrondo vindo do lado de fora da sala faz com que Schmidt ficasse em alerta. Coisas começam a se quebrar e o som de homens brigando começam a ecoar pelo lugar. A porta da sala onde estou é arrombada e com dificuldade, consigo ver Steve na entrada do cômodo com uma barra de ferro mediana em mãos.

— Como...como você...? – Questiona Schmidt, surpreso demais para terminar sua sentença.

— Eu disse que eu te acharia nem que fosse no inferno, maldito! – Responde Steve, avançando contra Schmidt, que agilmente consegue escapar do golpe da barra que meu namorado daria. – Fica quieto, desgraçado, para que eu possa te esmagar como um inseto!

Schmidt então pega um canivete que estava em seu bolso e o coloca em posição de ataque. Tento me levantar, mas amarrada, tudo que consigo fazer é assistir a luta entre meu namorado e o assassino. Steve avança mais uma vez, mas precisa usar a barra de ferro para impedir que Schmidt o atingisse com o canivete. A arma improvisada do assassino voa longe com o impacto. Um sorriso satisfeito molda os lábios de Steve e ele finalmente consegue bater em naquele desgraçado.

Schmidt cambaleia até se apoiar em algo que estava coberto por um pano branco. Steve então abandona a barra de ferro e passa a bater no assassino com os próprios punhos. Eu conseguia sentir o tamanho de sua fúria a cada golpe dado. Em determinado momento, Schmidt consegue jogar uma garrafa que estava jogada próxima de si contra meu namorado, que se afasta surpreso.

Dessa vez, Schmidt consegue reverter a situação e passa a socar o rosto e as costelas de Steve. Eu me sentia frustrada por não conseguir me soltar, então tento de maneira desajeitada, me arrastar para perto dos dois. Talvez, eu conseguisse pegar o canivete para de alguma forma me soltar das cordas que me prendiam. No entanto, antes que eu tentasse colocar meu plano com noventa por cento de chance de dar errado em ação, Schmidt joga Steve contra um dos móveis que havia próximo de mim.

O maldito aproveita que meu namorado ainda está atordoado para pegar a barra de ferro e o atingir. Steve é mais rápido e, como um jogador de futebol americano, corre em direção a Schmidt, que se choca contra um dos tonéis que havia na sala, derrubando as velas sobre um pano que havia próximo deles. Steve se afasta, cambaleando e respirando com dificuldade. Ele então começa a vir em minha direção, provavelmente para garantir que eu estava realmente bem, mas vejo Schmidt pegando o canivete que estava no chão.

— Steve, cuidado! – Grito, desesperada. Steve se vira para o homem , mas não consegue impedir ser atingido por Schmidt, que perfura a barriga de meu namorado com o canivete. – Não!

Steve segura o cabo do canivete com os olhos arregalados e a boca aberta. Continuo a gritar, desesperada, vendo-o cair gradativamente no chão. Schmidt se afasta, atordoado. As chamas começam a se espalhar pelos panos que estavam jogados pela sala, chamando a atenção do maldito que observa tudo com certo desespero.

— Merda! – Pragueja Schmidt, alternando seu olhar entre Steve, as chamas e eu. – Eu preciso sair daqui.

— Schmidt! Filho da puta! Eu vou te matar! – Grito, vendo-o correr para fora da sala, fechando a porta logo em seguida. Aquele desgraçado havia decidido nos deixar morrer queimados, enquanto foge. – Steve! Por favor! Olha para mim!

Meu namorado vira o rosto e vejo que respirar estava ficando cada vez mais difícil para ele. Nossos olhos se encontram e vejo lágrimas descendo por seu belo rosto. Ele abre e fecha a boca várias vezes, mas nenhuma palavra abandona sua boca. Surpreendentemente, Steve se levanta e cambaleando vem em minha direção.

— O que você... Steve, não faz isso! – Peço no momento em que ele tenta puxar o canivete para fora de sua barriga. – Isso pode piorar o ferimento.

— Eu...eu não vou conseguir... te de...desamarrar. – Explica, olhando em meus olhos. E em um movimento forte, ele puxa o canivete de uma vez, gritando de dor. As lágrimas descem pelo meu rosto, sem que eu percebesse. – Você...precisa sair.

— Droga, Steve! Você precisa estancar esse corte! – Grito, chorando em desespero.

Ignorando meus apelos, Steve começa a cortar as cordas que prendiam meus braços o mais rápido que a dor que sentia permitia. Assim que consigo soltar minhas mãos, ele suspira e se senta cansado. Ele estava perdendo muito sangue e estava ficando cada vez mais fraco. Imediatamente, desamarro meus pés e corro até seu encontro, onde passo a pressionar o local onde ele havia sido atingido.

— Nós precisamos sair daqui. – Digo, sentindo o calor das chamas se aproximar de nós. A fumaça fazia com que respirar fosse uma tarefa impossível. Meus olhos ardiam e minha garganta estava seca. Steve então leva uma de suas mãos manchada de sangue até o meu rosto e limpa as lágrimas que desciam intensamente. Ele balança a cabeça, negando. – Por favor...

— Vá. – Pede, retirando minhas mãos de sua barriga.

— Eu não vou te deixar aqui, Steve! – Nego, imediatamente.

— Vá. – Repete, sorrindo, enquanto as lágrimas descem. – Se...se salve. Salve... nossos fi...lhos.

— Nós temos uma promessa. – Digo, apertando sua mão com força. – Iremos adotar as crianças.... nós...nós... seremos...

— Uma família. – Completa Steve, entrelaçando nossos dedos.

Balanço a cabeça, concordando, chorando ainda mais. Levanto-me e passo seu braço por meu pescoço. Cambaleando, levanto nós dois, e com muita dificuldade começo a ir em direção a porta, mas como era de se esperar de Schmidt, ele havia trancado. O desespero se torna ainda mais dentro de mim. Nós iriamos morrer. As chamas estavam se aproximando cada vez mais de nós. Não havia outra saída além da porta trancada.

Steve estava começando a perder a consciência. Coloco seu corpo no chão, em um local no qual as chamas ainda não haviam chegado e tento apagar as chamas com os panos espalhados, mas nada parece fazer efeito. Não havia água e eu temia que os tonéis tivessem algum líquido inflamável. Passo a bater na porta, chamando por ajuda, mas tudo que recebo em troca é o silêncio. Vou atrás do celular que Schmidt havia jogado no chão, mas ele está totalmente quebrado.

Não havia saída. Corro até Steve e sua respiração está fraca. Ele abre os olhos e ao ver meu desespero, parece entender que estávamos condenados. Sem dizer nada, Steve me puxa para um abraço e beija minha cabeça. Como uma criança, permito-me chorar contra seu peito, condenando-me por ter sido a culpada de nossa morte precoce. Se eu tivesse tido mais atenção, não teria sido pega por Schmidt. Jamais teríamos nos envolvido nessa situação. Steve não estaria ferido e teríamos acabado com a raça dele.

— Eu...eu te amo... – Sussurra Steve, apertando-me ainda mais contra si.

— Eu também te amo. – Declaro, inconsolada.

As chamas começam a se aproximar dos toneis e sinto que não demoraria muito para que o cativeiro em que estamos exploda de vez. Aperto ainda mais meu corpo contra o de Steve, gravando seu aroma e lembrando de todos que eu acabaria deixando para trás. Esse era o fim e eu não pude nem mesmo me despedir de nossos filhos. Não há mais um futuro para Steve e eu.

No entanto, antes que eu pudesse desistir, alguém arromba a porta da sala e entra no lugar. E tudo aconteceu mais rápido que eu conseguia absorver. Policiais entram na sala e me afastam de Steve. Outros homens nos levam para fora da sala, enquanto os bombeiros invadem o lugar. Reconheço os chamados de Sara e de Leonard. Mais gritos se espalham, informando que precisávamos ir o mais rápido possível para fora, porque o lugar iria explodir.

Habilmente, somos levados para longe do que identifiquei como um galpão de peças automotivas abandonado. Poucos segundos depois, como informado pelos bombeiros, uma grande explosão acontece. Mais gritos e questionamentos. Não tenho certeza do que está acontecendo, mas vejo Steve sendo socorrido e isso é o suficiente para mim. Os dois policiais que me carregavam, fazem perguntas sobre meu estado, mas não consigo formular respostas. De repente, sinto-me fraco e um forte sono me atinge. Aliviada por ter sobrevivido, tudo que faço é me entregar a escuridão.

Notas finais
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