Memórias de Kar

2 A Biblioteca - pt I


Por que escolher logo uma biblioteca? Sente-se mais confortável e aconchegado em seu ambiente tipicamente quieto e de paz? Pode ser onde consiga aprofundar-se numa investigação minuciosa atrás de explicações de onde está e porque não consegue fechar os olhos e acordar desse possível pesadelo? Bem, se veio com essas intenções, sinto muito, escolheu o lugar errado.

A sineta dourada pendurada do outro lado da porta toca sorrateiramente, avisando a quem estiver a ler sobre a sua chegada. A princípio, seus pés dão dois passos à frente enquanto seu campo de visão limita-se ao piso, para, em seguida, retornar para a porta somente para vê-la se fechando sozinha – porém, de um modo suave, nada alarmante.

O ruído do sino cessa. A porta está fechada. Você agora se volta para as coisas na sua frente. Encontra estantes de madeira repletas de livros, mesas e mais mesas para as pessoas se assentarem e corredores, muitos corredores dividindo as cessões. O ambiente se encontra um pouco escuro, e logo averígua que isso se deve ao fato de não haver janelas no interior daquela biblioteca. Ao examinar com os olhos a mesa da bibliotecária, só então lhe cai a ficha de que está só.

De modo a dá-lo um pequeno susto, seus pés retornam aos passos e você se vê dirigindo-se para uma prateleira específica. Ao alcançá-la, suas mãos e cabeça começam um árduo trabalho de busca por algum livro – este que você não faz a mínima ideia. Pega um, o segundo, o terceiro. Folheia-os. Em branco, sem qualquer nota, palavra e nem mesmo um título. Assim são seus estados.

Seus dedos voltam a trilhar pelas lacunas da estante e vão de toque a um chamativo livro de capas avermelhadas. Poeira o cercava. Muita poeira. Com as duas mãos, abre-o e passa a revirar suas páginas, vendo-as também em branco. Seus movimentos começam a assemelharem-se a desespero quando, finalmente e quase deixando passar direto, você captura uma página escrita. Retrocedendo as folhas até ela, a sineta atada à porta de entrada toca-se instantaneamente e o faz quase enfartar. O livro cai de suas mãos, trêmulas e bambas, e você fita a porta, temeroso.

Não há ninguém. Mas como pode não haver ninguém se, com completa convicção, acabou de ver a porta se fechando outra vez? Pelo que pudera observar, seja lá onde estivesse, sequer ventava suficientemente forte para as coisas saírem se abrindo e fechando sozinhas – bom, nem ventar ventava. Algo acontecia ali, e necessitava descobrir o que era o quanto antes.

Seu campo de visão novamente foi de encontro ao solo, fixando-se no livro que deixou escapulir. Adiante, voltou-se rumo a porta. Hora de tomar uma atitude, fazer uma escolha.

O que parece mais importante?

Pegar o livro caído

Olhar mais uma vez para a porta