Memórias Vagas De Lucy Graef
8 Capítulo 8
Notas iniciais
A campainha tocava desesperadamente, sem intervalo entre um “Din Don” e outro, e assim que Lucy abriu a porta, Júlia deu-lhe um beijo, empurrando o corpo de Lucy para trás e deixando-as ofegantes antes que pudesse surgir ali qualquer explicação, Lucy retribuiu imediatamente, seus corpos direcionaram-se até o sofá da sala, as mãos de Júlia estavam ansiosas e sua boca, faminta, Lucy sentiu Júlia tocar suas costas, arrastando as unhas levemente e arrepiando-a por inteira, Júlia arrancou com pressa a blusa de Lucy, e... O despertador tocou transportando Lucy de volta à realidade. Era segunda de manhã, dia em que Lucy voltava à rotina e estampava em seu rosto ao longo do dia um sorriso que não lhe pertencia, e assim, seguiu para o seu trabalho.
– Bom dia! – Disse Lucy para o seu chefe, que, como sempre, estava de ótimo humor.
– Bom dia, Lucy! Animada para o trabalho?
“Lógico que não, você acha que eu gosto de acordar cedo e aturar seu humor nem um pouco compatível com o meu?” Pensou Lucy, quando simplesmente respondeu – Mas é Claro!
Lucy até gostava do Doutor Arthur, ele era um cara legal, ela é que era mal humorada demais. Sim, o nome dele era Arthur e Lucy só gravou isso um mês após ter sido contratada, depois que leu na placa que ficava na porta da sala dele, isso é só um exemplo do quanto Lucy era atenta e prestava atenção no seu local de trabalho.
– Hoje só funcionaremos até o horário de almoço. – Disse o Doutor à Lucy que, depois de ouvir isso, passou a amá-lo... Ou não.
As horas foram passando e o fim do meio expediente se aproximava, Lucy não pensava em outra coisa além de sair dali o mais rápido possível e, é claro, almoçar, pois seu estômago estava roncando mais alto que o motor de um carro velho. Ao sair do trabalho parou no primeiro restaurante “apresentável” que encontrou. Lucy gostava de almoçar sozinha de vez em quando, ela sempre dizia que a solidão a fazia pensar. Depois de almoçar e já preparada pra ir para casa, Lucy ligou seu carro e ouviu um som estranho, não poderia ser o seu estômago novamente, pois o mesmo já estava satisfeito, então decidiu passar rapidamente na oficina mais próxima para ter certeza de que estava tudo bem.
Chegando lá, estacionou seu carro em frente e pôde ouvir uma voz que vinha de dentro da oficina gritando: — Júlia, chegou alguém!
Lucy não pôde conter a surpresa, ela não sabia o que diria quando a visse ali, não seria possível tal mulher estar em todos os lugares em que Lucy estava, por um momento sentiu-se perseguida, avistou uma sombra que se aproximava da porta e quando finalmente pôde ver a face de Júlia, não era a mesma, Lucy sentiu-se aliviada e decepcionada ao mesmo tempo, ela não estava sendo perseguida por Júlia, mas por seus pensamentos, que insistiam em voltar atrás e a confundir cada vez mais.
– Posso ajudar a senhorita? – Dizia a Júlia “falsificada”
Alguns segundos de silêncio até q a mulher tornou a falar.
– Eu perguntei se posso ajudar!
Lucy balançou a cabeça como quem desperta de uma viagem “intermental”.
– Qual seu nome? – perguntou Lucy.
– Júlia, por quê?
– Nada não... – Lucy virou-se para ir embora.
– Espera, veio aqui só para saber o meu nome? – riu.
– Ah, sim, meu carro está fazendo um barulho estranho, alguém pode dar uma olhada pra mim?
– Machado, serviço pra você! – Gritou a mulher, que em seguida saiu dali.
Machado... Quem gosta de ser chamado por nome de ferramenta? Imaginem os irmãos, “ foice” “enxada”... – Pensava Lucy, enquanto esperava o tal Machado chegar – Esse “cara” está demorando demais, será que essa mulher gritou direito? Ou será que ele veio cortando cabeças pelo caminho? – Lucy estava inquieta, queria ir embora dali, até que sentiu alguém se aproximando, de longe viu um macacão azul vestindo um corpo magro, que quanto mais se aproximava, mais parecia familiar.
– E aí, o que tem de errado com o seu carro? – Disse o tal Machado, que por sinal era a Júlia, sim, a verdadeira, deixando Lucy muda por alguns instantes e sem saber o que falar...
– Só tem mulher nesse lugar? – Disse Lucy, já que pela sua cabeça não se passava nenhuma frase mais conveniente para o momento.
– Não, na verdade, a única mulher aqui sou eu, faço trabalhos leves, a outra Júlia é filha do dono daqui e o ajuda de vez em quando na recepção.
– E por que te chamam de Machado se você é mulher?
– Pra diferenciar da outra Júlia, até por que eu me chamo Júlia Machado, entendeu?
– Sim, quem diria... – Disse Lucy, enquanto olhava Júlia dos pés a cabeça.
– Enfim, vamos ver o que tem o seu carro?
Direcionaram-se até o carro e ficaram um tempo ali, sem pronunciar uma só frase que não estivesse relacionada ao automóvel, Júlia olhou o carro de Lucy e, ao término, a mesma pôde ir sossegada para casa. Chegando em casa, Lucy reparou a ausência de sua mãe e seu noivo, também reparou que tinha um recado novo na secretária eletrônica e resolveu checar, no mesmo , sua mãe dizia: “ Filha, o Pablo passou mal e eu vim com ele até o hospital, não se preocupe, não é nada demais, mas vamos demorar um pouco então não nos espere para jantar, beijos” . Lucy preocupou-se no mesmo instante e resolveu ligar, mas caiu na caixa postal, em seguida ouviu sua campainha tocando, achou que poderia ser eles, então foi atender correndo.
–Oi, você deixou sua identidade cair lá na oficina, vim trazer pra você! – Disse Júlia, sorrindo, assim que Lucy abriu a porta, em seguida estendeu a mão e entregou a identidade á ela.
– Ta, obrigada, como achou meu endereço?
– Eu já te busquei em casa uma vez, esqueceu?
– Não, mas preferia ter esquecido. – E Lucy começou a fechar a porta quando Júlia empurrou-a em sentido contrário para que continuasse aberta.
– Espera, foi tão ruim assim? – Disse Júlia, ainda com a mão pressionada à porta.
–Júlia, vai embora, por favor! – Lucy tentou fechar a porta mais uma vez e Júlia empurrou novamente, não dava para competir, no quesito força, Júlia ganhava.
– Não, eu quero saber o que foi que eu fiz pra você me tratar assim, depois que você me falar, eu vou embora. – Já no quesito teimosia, empatavam.
E Júlia entrou, sem permissão, sentou-se no sofá da sala e ficou olhando para Lucy como quem espera uma resposta, Lucy sentou- se ao lado, porém, um pouco distante.
– O que você quer que eu fale?
– Espera, tem alguém em casa? – Disse Júlia, olhando para os lados.
– Não.
– Okay.
Alguns segundos em silêncio até Lucy o quebrar com ignorância, como de costume.
– Eu perguntei o que você quer que eu fale!
– Que não me quer!
– Como?
–Isso mesmo, diz na minha cara que não gostou e que não faria de novo.
Lucy não disse nada, Júlia foi se aproximando, posicionou seu rosto próximo ao de Lucy, de modo que as respirações se misturassem e repetiu:
– Diz na minha cara, vai.
Lucy permaneceu calada, Júlia aproximou seu nariz e seus lábios no pescoço de Lucy, encostando-os, respirando bem perto e repetindo:
– Estou esperando você dizer.
E Lucy continuou calada, tentando resistir à provocação, empurrou Júlia para trás e levantou, Júlia foi atrás, puxou Lucy pelo braço, colocou-a contra a parede e disse bem baixinho e próximo ao seu ouvido: — Te dou a última chance de falar. – E Lucy, calada, se rendeu. Júlia a beijou como quem tem pressa de chegar a algum lugar, e ela tinha, assim então conduziu Lucy até o sofá, foi despindo-a lentamente enquanto sua língua faminta passeava por aquele corpo, Lucy estava possuída por um desejo que até então não compreendia, mas mesmo assim se rendeu, despindo Júlia por inteira e fitando seu corpo com olhos desesperados. Corpos colados e bocas juntas, Lucy pôde sentir a mão de Júlia passeando por suas coxas lentamente, se aproximando cada vez mais de onde ela queria, aproximava-se e afastava-se, de uma maneira torturante, Lucy a olhava com olhos de ansiedade e assim então pôde sentir Júlia penetrando-a com seus dedos, hora lentamente, hora com movimentos rápidos, transportando-a para um Universo de prazer desconhecido, fazendo com que Lucy soltasse gemidos que tentava conter, mas não conseguia. Ambas estavam envolvidas com o momento de tal forma que palavras não explicariam, era como se quisessem conhecer cada detalhe uma da outra, até que pela janela da sala viram um farol se aproximando, era um carro.
– Ah não, são eles, Júlia, sai pela janela dos fundos, rápido! – Disse Lucy, dando um último beijo em Júlia, que pegou correndo suas roupas que estavam espalhadas e, ainda nua, pulou a janela dos fundos, se vestindo por ali mesmo, do lado de fora que por sorte, ninguém passava ali no momento. Lucy também pegou suas roupas espalhadas e correu para o andar de cima, molhou seus cabelos na pia do banheiro, enrolou-se em uma toalha e desceu as escadas, dando de cara com sua mãe e seu noivo.
– Oi meu amor, você está bem? – Disse Lucy à Pablo, de um jeito meio sem graça, nitidamente confusa, sua mãe nada disse e foi para a cozinha.
–Sim, estou, preciso que você vá comigo à um lugar.
– Que lugar? Mas o que é que você estava sentindo?– Disse Lucy, desconfiada.
– Depois eu te explico, só quero que você venha comigo! Como vejo, acabou de sair do banho, ótimo, vista-se e venha, estarei te esperando aqui na sala – Pablo foi sentar no sofá, Lucy percebeu que havia uma calcinha jogada ali no chão, e antes que Pablo visse ela puxou-o e deu um beijo, e com um dos olhos abertos ela chutou a calcinha para debaixo do sofá, antes que pudesse ser vista.
– Pronto, agora sim eu posso ir me vestir – Lucy riu, Pablo ficou todo feliz achando que aquele beijo inesperado tinha sido um gesto de carinho da parte de Lucy, tolo, mal sabia a verdadeira intenção de sua amada que subiu as escadas rapidamente e foi tomar “outro” banho e se vestir.
Já pronta, Lucy foi até a sala, Pablo olhou-a de cima a baixo, ela estava linda e ele fez questão de elogiá-la, assim então os dois foram até o carro. Alguns minutos perambulando por ruas que Lucy não costumava passar, chegaram até uma casinha de madeira na beira de um lago no qual se refletia uma Lua exuberante.
– Onde estamos? – Perguntou Lucy, olhando para os lados , apesar de lindo, Lucy nunca havia visto aquele lugar.
–Não faça perguntas, apenas venha comigo! – E Pablo pegou na mão de Lucy e a guiou até a parte de dentro da casinha. Meia Luz, uma garrafa de vinho e duas taças sobre a mesa pequena, pétalas de rosa no chão e um radio tocando Jazz, tudo tão bonito que Lucy não conseguiu esconder a expressão de tristeza, que muito tentava esconder.
– O que foi? Não gostou da surpresa? – Perguntou Pablo, olhando nos olhos de Lucy.
– Sim, eu adorei, está tudo tão maravilhoso... – Lucy sorriu,mascarando sua real expressão.
– Então, eu não estava no hospital, estava aqui o tempo todo preparando essa surpresa para você, para comemorar nosso aniversário de 4 anos e 3 meses juntos- Disse Pablo, com um sorriso de orelha à orelha, tão feliz quanto uma criança abrindo os presentes de natal.
Lucy havia se esquecido, era o aniversário de namoro dos dois, tal informação só fez piorar ainda mais o sentimento de remorso dentro dela, um sentimento que ela não pudera expressar, não ali, não naquele dia tão importante para Pablo.
– Sim amor, eu sei, e vamos comemorar da melhor maneira possível.
Ambos sentaram-se à mesinha, Pablo serviu o vinho e enquanto saboreavam-no Pablo observava sua amada, com olhos tão ingênuos e apaixonados que Lucy evitava reparar, Pablo levantou e estendeu à mão para Lucy se levantar também.
– Vamos sentar um pouco lá fora, a lua está linda e eu sei que você é apaixonada pela lua. – Lucy o acompanhou, sentaram na beira do lago, admirando tamanha beleza natural, Pablo a beijou, e a chamou para voltarem para dentro da casinha, a deitou na cama e continuou a beijando, queria que aquela noite terminasse da melhor maneira possível, e quando foi despi-la, Lucy negou, disse que não estava se sentindo bem, talvez tivesse sido o vinho, foi o que ela alegou, mas não era isso, só não conseguiria, assim então deitaram-se e ao som do Jazz suave que ali tocava, pegaram no sono.
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