Era uma tarde de Domingo como outra qualquer, o sol brilhava forte, mas a chuva teimava em cair, Lucy banhava-se com o sol, com a chuva, como uma criança indecisa que por um momento pôde usufruir os dois como se combinassem. Caminhou até a sala, com as mesmas roupas molhadas que estava, sentou-se no sofá e já pôde ouvir o grito estridente de sua mãe pedindo que se secasse para não adoecer. –Besteira- Pensou rapidamente- como poderei adoecer com água? Não esperou a resposta e foi fazer o que havia sido mandado, pois seus pobres tímpanos não suportariam mais um grito daqueles.

Segunda de manhã, ela se levantou cedo e se aprontou para retornar à rotina, a velha e entediante rotina de sua vida chata e sem sal, e com o mesmo “bom humor” de sempre ligou o carro e foi para o trabalho, sim, ela era uma mulher adulta, embora ainda morasse com a mãe. Lucy tinha os cabelos negros, a pele clara e usava óculos, embora os odiasse, sem eles enxergava pouco, aliás, os óculos eram só mais uma das coisas que ela odiava, porém, precisava.

A estrada estava tranquila, a retilínea rodovia por onde Lucy passara todos os dias à caminho da “escravidão”, como ela mesma dizia,sua música preferida “Quase sem querer – Renato Russo” tocava no rádio, parecia que a paz e solidão que a rondavam estavam completas até que se deparou com um pequeno imprevisto, haviam obras no meio do caminho,para não se atrasar, Lucy pegou outro caminho que a levaria até a empresa onde trabalhava como secretária.

De repente ela avista um carro parado bem na sua frente e começa a buzinar repetidamente.

- EI, SERÁ QUE DÁ PARA SAIR DA MINHA FRENTE? — Gritou, estressada com a quantidade de imprevistos em um único dia, ou melhor, um único trajeto-

O motorista da frente não deu sinal de vida, não buzinou, retrucou, nem ao menos saiu do carro, Lucy saiu e foi em direção ao veículo, bateu no vidro, enquanto ele abaixava lentamente ela pôde ver a face de seu 2º imprevisto diário, era uma mulher, linda por sinal, porém Lucy só conseguia pensar em arrancar aquele carro dali e ir para o trabalho.

- Você é surda ou o que? – Disse Lucy,nem um pouco educada-

- Acho que a gasolina acabou. – Respondeu a mulher, tão calma que não parecia que estava em uma situação ruim.

-Ótimo, e você está parada aí esperando chover gasolina?

- Não, eu estava esperando uma alma caridosa passar para me doar um litro para que eu pudesse chegar em casa.

- Você está me pedindo para te dar um litro da minha gasolina?

- Não estou pedindo nada, apenas estou te explicando o porquê de eu estar parada aqui “esperando chover gasolina” – Debochou.

- Tudo bem – Suspirou Lucy, já cansada da “discussão” em que na verdade, a única alterada era ela mesma-.

Lucy retirou um litro de gasolina e entregou à mulher.

- Tome, agora tire sua “carroça” da minha frente porque eu já estou atrasada!

- Muito Obrigada, tenho certeza que a senhorita um dia ficará muito feliz por ter feito uma boa ação. – Disse a mulher, com um sorriso que transbordava ironia-.

Lucy virou a cara, entrou no carro e foi embora, pois já estava atrasada para o trabalho.

Depois de quase uma hora de atraso, finalmente chegou na empresa onde trabalhava, seu chefe estava de prontidão em frente sua sala, batendo os pés como alguém que já cansou de esperar.

-Lucy Graef, compareça à minha sala por favor- Disse o tal-

Nervosa, foi em direção à sala, entrou e antes que seu chefe dissesse algo ela foi se explicando.

- Me perdoe o atraso, é que ocorreram uns imprevistos e... — Interrompida pelas palavras gélidas e clichês daquele homem, não conseguiu terminar a frase-.

- Estamos cortando custos, seu desempenho não é mais o mesmo, desculpe, mas não precisamos mais de seus serviços.

Aquelas palavras derrubaram-na de imediato, dentro da mente de Lucy ela só conseguia culpar aquela maldita mulher sem gasolina.

Ao chegar em casa, Lucy se depara com Elizabeth, sua mãe, na sala.

- Filha, chegou cedo , o que aconteceu? Está passando mal? – Perguntou, preocupada-.

- Não mãe, estou bem- respondeu, com um desânimo a se perceber de longe-.

- Bem não está, quero saber o que aconteceu! – A mãe de Lucy a puxou para o sofá, segurou sua mão e disse – Pode me contando, vamos...

-Mãe, está tudo bem, assinaram minha “Lei Áurea”, só isso, amanhã eu procuro outro emprego.

- Como assim, filha?

- Fui demitida, aquele velho, gordo, me paga! Aliás, literalmente me paga, tenho direito ao seguro desemprego, então fica tranquila mãe.