Memórias De Uma Alma Condenada
7 Contos da Vila da lua parte 7
Domingos de outono são bem exóticos e até interessantes aos olhos das pessoas, mas não aos de Ian, achava simplesmente o pior dos dias de toda a semana. Tentava encontrar um motivo para adora-los, mas era inútil, o único motivo o qual eram úteis era para seu descanso que nunca era suficiente. ''O mundo pertence aos que trabalham com honra...'' o pai vivia a dizer essa maldita frase, ainda assim aristocratas e nobres da vila provavam o contrário, viviam no luxo sem fazer absolutamente nada o dia todo enquanto o resto lutava para tentar sustentar suas famílias mórbidas pela fome e pobreza. ''Fodam-se os ricos, vamos todos pro mesmo buraco no fim das contas..'' pensou Ian, tentou dormir um pouco no entanto o avô roncava tão alto que parecia emitir sons que não eram humanos. Hugo Blackwater era um velho boêmio e até festeiro demais para sua idade, qualquer falta do que fazer era motivo para ficar até a alvorada em uma taverna. Nas madrugadas de sábado sempre chegava cambaleando no galpão do cemitério, isto é se chegasse, Ian perdeu as contas de quantas vezes fora buscá-lo na Taverna dos afogados. Não tinha escolha, era sua única família, seu sangue e o último ancestral dos Blackwater vivo, se é que isso representa algo além de histórias que condenam os coveiros.
O jovem Blackwater levantou-se da cama, a fraca luz do dia e os monstruosos roncos de Hugo não o deixariam dormir em paz. Observou o velho dormindo, era a visão do inferno, cheirava a cerveja e vinho e além disso parecia que nunca mais acordaria. ''Não vai demorar muito até sobrar apenas eu...o velho Hugo já passou da hora, é só uma questão de tempo.'' essa ideia não saia da mente de Ian, mas tinha certeza de uma coisa: quando for o último de seu maldito nome, levará ele junto para o inferno. Não iria se apaixonar, casar, e muito menos ter filhos, isso é coisa para gente maluca. Jamais iria colocar um filho no mundo com seu nome amaldiçoado, não cometeria o mesmo erro que seu pai cometeu.
Saiu do galpão para tomar uma brisa de domingo, ''Que manhã infernal'' pensou, em vez de pássaros cantando eram corvos negros que estavam na espreita para algum cadáver. O dia parecia ter amanhecido bem cinza e morto, como todo domingo, caminhou entre as sepulturas até achar um lugar favorável para seu descanso e de preferência o mais longe possível dos roncos do avô. Quando tinha tempo livre, costumava ler debaixo de uma das árvores do cemitério, devia ser o lugar perfeito para uma soneca. A árvore tinha sido plantada pelo pai e tinha uma aparência bem sombria com galhos retorcidos, nomes entalhados, tronco negro e morto. Hugo sempre dizia que a árvore estava morta, mas permanecia forte e imutável ao longo dos anos, foi plantada por Sam quando jovem e o velho contara a Ian que a árvore era maravilhosa e quando florescia enchia parte do cemitério com flores rosas que tinham cheiro de prostitutas virgens. Com o passar dos anos ela foi perdendo sua beleza e pureza até se tornar velha, escura, medonha e sem vida, Hugo costumava chamá-la de puta velha.
Ian chegou e deitou-se apoiando nas raízes da árvore, fechou os olhos e sonhou com o pai, ''Como era diferente quando você estava vivo pai...agora são só lembranças.''. Dormiu e voltou em sua infância feliz, os momentos com o pai pareciam tão distantes agora, teria se tornado um sangue frio sem sentimentos?, de qualquer modo era melhor assim...nada nos prepara para a morte exceto ela mesma. Ouviu um barulho de um galho seco se rompendo, abriu rapidamente os olhos claros e cansados, já não estava mais nos sonhos.
-Perdão moço...acho que te acordei.-Ian achou estranho alguém visitar a árvore em um domingo, ainda mais um velho baixo careca e vestido com uma túnica preta como as asas de um corvo.-Estava sonhando?
-Não, sonhos não aparecem pra mim faz um bom tempo...estava descansando os olhos.
-Apenas os mortos podem fazer isso garoto, se você não sonha ou tem pesadelos, não tem vida.
-Se considera isso uma vida velho, acho melhor olhar novamente pra mim...não tenho uma ''vida'' há muito tempo, queria mais é morrer logo e deixar essa droga de mundo para trás.-O velho deu uma gargalhada chiada digna de um belo pesadelo, Ian permaneceu imutável.-Qual é a graça velho?
-Nada....só cuidado com o que deseja, ninguém sabe oque nos aguarda do outro lado.-o velho de preto chegou mais perto da árvore.-Se importa se eu me deitar aqui também?...estou exausto, esse trabalho está me matando.
-Tudo bem...o que você faz?-o velho sentou-se em uma raiz e soltou um suspiro de alívio, parecia não descansar durante um bom tempo.
-Eu sou um viajante, vivo levando pessoas para seus destinos.-Ian ficou perdidamente confuso, oque um velho que se dizia viajante fazia em um cemitério descansando em uma árvore.-E você garoto? trabalha, rouba, mendiga ou algo do tipo?
-Sou um coveiro, moro aqui com meu avô...oque um ''viajante'' faz por aqui?
-Estou só de passagem, pretendo largar meu trabalho em breve...só preciso achar alguém que aceite entrar no meu lugar, é um tipo de emprego que não pode ficar sem trabalhadores.
-O emprego de coveiro parece ser bem comum nesse aspecto, as pessoas não param de morrer nunca, se não existissem coveiros tudo seria um caos.
-Isso não é verdade garoto...as pessoas não se preocupam com seus corpos depois de mortas, e sim para aonde serão levadas.
-Como pode saber disso, você está vivo.-O velho abriu um sorriso um tanto sarcástico com dentes podres e uma boca enrugada .
-Eu morro todos os dias quando tenho que levar alguém...mas logo meu tormento vai acabar, por falar nisso...não gostaria de ocupar meu cargo?
-Você me disse que é um viajante, eu não posso deixar esse lugar azarado...tenho que manter o cemitério e cuidar do meu avô.-Ian estava um tanto confuso e sabia que a palavra ''viajante'' em alguns casos poderia ser generalizante demais para a situação em que se encontrava.
-Que pena...você seria perfeito, não aparenta sentimentos, trabalhou com mortos um bom tempo...é uma pessoa um tanto difícil de se impressionar.-Estava ficando inquieto, o velho parecia o conhecer há anos.
-Não obrigado, vou voltar para o galpão...meu avô já deve ter acordado.-Ian levantou-se e não se despediu do estranho velho de preto, algo nele o deixava perdidamente perturbado. Quando não estava muito distante da árvore velha, ouviu a voz do velho:
-Você realmente vai querer viver eternamente enterrando cadáveres e dormir num galpão mofado Ian? Eu vejo grandeza em você, posso fazê-lo enxergar a vida com outros olhos...é só aceitar minha ajuda.
-Não me lembro de ter mencionado meu nome a você velho, é melhor ir embora...
Ian Blackwater nunca tinha ficado tão aterrorizado como naquele momento, logo depois que virou, o velho não estava mais lá, tinha simplesmente desaparecido. O garoto correu até chegar na porta do galpão, o qual estava com a porta aberta.
-Vô?...está acordado?- Entrou no galpão e foi em direção à cama de Hugo, ele não estava deitado, estava em pé olhando pela janela como nunca fazia.-O que faz aí parado seu velho bêbado...venha vamos cavar um pouco pra acalmar os nervos.-Hugo nada respondeu, isso começou a deixar Ian preocupado, que foi logo aproximando-se do avô imóvel como uma pedra em frente a janela, percebeu que o velho olhava algo. Puxou-o pelo ombro e ele caiu sobre os dois joelhos e depois no chão, sua jugular estava cortada quase completamente e o sangue jorrava manchando as paredes de madeira clara. Ian ficou paralisado e seu corpo gelou, a imagem do avô se contorcendo e engasgando com o próprio sangue era traumatizante. Ajoelhou-se ao lado do cadáver, tentou segurar o choro mas foi inútil, o avô significava muito para Ian.
-Não!...você não vai me deixar agora seu velho babão, eu te proíbo de morrer e me deixar sozinho nessa droga de cemitério.
Os olhos claros de Hugo foram logo fechando diante de Ian, o corte era muito profundo e o sangue já havia se tornado uma enorme poça escura em volta dos dois coveiros. Aquilo não tinha o menor sentido, quem havia matado Hugo, ele estava sozinho quando o garoto entrou no galpão. Não fazia mais sentido ficar rolando no sangue do avô e chorando, isso nunca o traria de volta. Ian levantou-se e olhou pela janela, lá estava o velho para sua surpresa, com uma foice ensanguentada e acenando lentamente para o jovem coveiro.''Maldito seja...vou fazer você nadar nas suas próprias tripas, desgraçado!'' pensou Ian, estava furioso e com sangue nos olhos, queria vingança e não iria descansar enquanto não a conseguisse. Agarrou a velha pá do avô e saiu do galpão em busca do velho de preto, novamente o assassino do avô sumiu no meio das sepulturas. Ian nunca tinha matado antes, mas sabia que o velho não deveria ser polpado pelo que fez, faria o trabalho sujo com as próprias mãos e a sangue frio.''Algumas pessoas são tão cruéis, que não merecem uma gota de misericórdia.'', o avô nunca fora um poeta mas suas frases pareciam fazer sentido agora, Ian correu até a árvore e encontrou o velho sentado afiando sua foice.
-Eu sabia que viria até mim, sabe, quando a morte propõe um acordo você jamais deve recusar...nunca tinham lhe contado isso garoto?
-Vai conhecer a morte em breve desgraçado, espero que saiba usar essa foice, caso contrário pode ir preparando suas malas pra uma viagem só de ida pro inferno.-O velho gargalhou como na primeira vez que conheceu o conheceu, Ian correu em sua direção e tentou o golpear com a pá, o velho tinha sumido novamente diante de seus olhos. A voz surgiu atrás do jovem coveiro que foi surpreendido:
-Eu já conheço a morte...acredite você não está perdendo muita coisa, ela é bem sem graça. Agora sei porque os vivos gostam tanto de viver, morrer é um tédio.- Ian gritou e deu golpes no vento tentando acertá-lo, mas o velho sumia e aparecia logo atrás do rapaz.
-Quem é você? ou o que é você?-O velho passou correndo com a foice e por pouco não cortou Ian ao meio, fez apenas um corte em seu braço por conta da esquiva do garoto.
-Quer a verdade ou quer que eu invente algo racional que não irá te deixar maluco?-Seu braço ardia e sangrava, o corte não foi profundo mas foi comprido.
-A verdade, e diga qual o motivo de matar meu avô?
-Ele estava no meu caminho, você disse que não queria ocupar meu trabalho por conta dele...eu só dei um jeito.-O velho sorriu ironicamente, Ian arranjou coragem e agarrou o velho pelo pescoço e o ergueu.
-Se acha que isso foi um motivo, você é bem idiota...vou te matar e acabar com isso de uma vez por todas.
-Não pode me matar Ian, eu sou o futuro dos vivos... eu sou a morte!
Ian segurou o velho pelo pescoço mas percebeu que o corpo havia sumido no meio do manto preto que ele usava, abriu o manto e encontrou um esqueleto pequeno e restos mortais queimados que iam sendo levados pelo vento conforme Ian desembrulhava o manto do velho.
-Se o velho Hugo era tão importante pra você...eu trago ele de volta.-Ian virou-se e lá estava o velho, sentado em uma cruz, com uma tranquilidade absurda que o garoto não sabia de onde vinha.-Mas...isso tem um preço.
-Deixe-me adivinhar...você quer que eu assuma seu maldito trabalho de ''viajante'' que mata pessoas inocentes?
-Sim, eu não sou bem previsível às vezes?, e eu não mato inocentes eu apenas levo as almas que não podem mais ficar neste mundo...sou um ceifeiro Ian, e é melhor rever as histórias que lhe contavam sobre eles, pois agora se tornará um também!
Ian acordou suando frio em seu galpão, não sabia se tudo não passara de um pesadelo ou se realmente aconteceu. A dúvida logo se foi quando sentiu o corte no braço e uma foice que estava em suas mãos, pelo som dos roncos o avô parecia vivo e em uma ressaca típica de domingo. ''O velho cumpriu a parte do trato, agora só me resta saber como ser um ceifeiro'' agora nada mais importava, o avô tinha que ficar em segurança e o único jeito era esse.''Pelo menos agora serei imortal...'' essa era a única ideia otimista que Ian Blackwater conseguia formular, mas de que vale a imortalidade de uma vida construída em mortes e angústias, isso ele não sabia.
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