Memórias De Uma Alma Condenada

1 Contos da Vila da lua parte 1


O dia amanheceu chuvoso e nebuloso na Vila da lua, ainda assim Rose era capaz de despertar com um mínimo raio de luz solar. A garota de 9 anos pálida e fria como um cadáver fresco é Rose Bloodcotton.
Apesar de viver na maior e mais luxuosa casa da Vila da lua, Rose se sentia só, pelo fato de nunca ter tido amigos. Os Bloodcotton eram uma família rica e poderosa que sustentavam a economia da vila com seus vastos campos de algodão, usados para exportação durante as épocas de colheita.
A mansão Bloodcotton era isolada da vila, e assustadoramente colossal. Além dos enormes campos de plantação, tinham um labirinto externo com um lago no centro e uma cripta subterrânea usada para enterrar os familiares e patriarcas da família.
A senhora Bloodcotton era rígida e amava Rose o suficiente para proibi-la de ir a Vila da lua. A garota raramente via a luz do sol, e era muito frágil a qualquer doença. Rose adorava acordar cedo todos os dias e visitar os campos de algodão, era um lugar calmo e quieto onde era possível escutar o vento passando pelas flores de algodão, as folhas soltas flutuando livremente, sem fronteiras ou cercas para se preocupar. Rose já tinha sonhado em ser uma folha e voar para fora dos domínios dos Bloodcotton, conhecer a calma e pacata Vila da lua, mas sua mãe nunca permitira a garota a sair das terras da família.
Ao se levantar da cama se deparou com a rosa morta em sua escrivaninha, tão frágil, tão bela, tão instável, um dia rubra e viva como sangue, no outro morta e fragilizada. A mãe sempre trocava as flores do seu quarto, mas agora só chorava trancada no quarto e nunca saia por nada.
Rose ouviu passos fora do quarto, se sustentou com cuidado e desceu da cama para verificar quem estava caminhando pela casa tão cedo. Abriu a porta com esperanças de ver alguma alma viva, mas nada fora do comum chamou sua atenção, até ouvir uma forte batida que veio da porta da frente. Sentiu o medo correr por suas veias, até deduzir que a mãe deveria ter saído do quarto para espairecer.
Finalmente quando recuperou a coragem desceu as escadas até a porta da frente e saiu a procura da mãe. A casa estava silenciosa como nunca esteve, quando abriu a porta de entrada um vento gélido tocou o seu corpo cadavérico e deixou-a com o coração na boca. Neblina cobria quase tudo a sua vista, as plantações estavam mortas e secas, nenhum sinal de vida foi visto até ela ouvir os portões da cripta se abrirem com um certo cuidado.
Correu até a cripta dos Bloodcotton como se sua vida dependesse disso, ouviu passos descerem as escadas da cripta, estava escuro dentro dela, a única coisa que era visível era o brilho de uma vela sendo segurada por uma silhueta sombria. Gritou pela mãe, mas era inútil, o brilho continuava a descer pela cripta sombria.
A garota desceu esperançosa e com receios de não ser a mãe quem descia pela cripta. Seguiu o brilho de longe e silenciosa, observando as covas de seus ancestrais algumas recentes, outras apagadas as quais só era possível ler o nome Bloodcotton após um nome qualquer rasurado e apagado pelo tempo.
Quando era menor a mãe sempre lhe contava histórias sobre o nome de sua família, o qual era imponente desde a época medieval e dos grandes feudos. Conforme ela ia adentrando na escuridão da cripta os nomes iam ficando recentes até chegar nos seus ancestrais mais próximos.
Por fim, a luz parou no ponto mais recente da linhagem dos que já partiram, Rose conseguia ver o rosto da mãe claramente pela luz da vela, estava rezando e jogou uma flor de algodão ao lado de uma cova recente, feita ao lado da cova de seu falecido pai. Rose finalmente entendeu tudo ao ler o que estava na ultima cova, ''Em memórias de Rose Bloodcotton''. Estava morta, porém não tinha partido, e sua alma estava condenada a vagar aos mortais, sem ser vista, sem ser ouvida, sem vida.

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