Gary era um homem robusto que ganhava a vida como mecânico. Adorador dos carros, principalmente os antigos e com histórias, tinha um filha que criou sozinho de casamento marcado pra dia 12 do ano seguinte. Há três anos resolveu mudar radicalmente a vida que levava. Seguindo os passos da família se alistou para o exército com a esperança de dar o último orgulho ao pai – ex fuzileiro. Convocado para a guerra, Gary se despediu da filha e embarcou para o Afeganistão.


Gary contava sobre algumas coisas que vivera e eu sempre me perguntava o real motivo de ter entrado para o exército, deixar pra trás a filha, o negócio que rendia bom dinheiro, a paixão por automóveis.


Tivemos um combate violento no dia 26 de Agosto. Naquele dia trabalhei dobrado, tentando salvar a vida dos soldados feridos e tentando me manter a salvo dos tiros que vinham por todos os lados. Perdi quase a minha equipe inteira e entre eles estava Gary – três tiros no total.


Seu sangue escorria pelas minhas mãos, manchava o meu uniforme. Entre seus gritos de dor tentei estancar os ferimentos profundos sem muito sucesso. Em seu último minuto de vida, Gary sorriu. Minha expressão foi de curiosidade mas não quis acabar com toda aquela felicidade que parecia sentir o trazendo de volta a realidade – três tiros, guerra no Afeganistão, possível morte. Não precisei perguntar ou dizer nada, Gary lia minha estranheza e provavelmente sentia que aquela era a única chance de contar a sua história.


– Eu tenho câncer John. Num estágio avançado. Eu sabia que não ia durar muito mas ficar em casa esperando que a morte batesse a porta me pareceu errado. Minha filha já é crescida não precisa mais de mim, ela encontrou alguém que a ame tanto quanto eu, ela vai ficar bem. Todo esse tempo em guerra fez com que eu me sentisse tão vivo.. Eu venci, John. Não estou morrendo de câncer – o sorriso se alargou mas o brilho dos olhos diminuiu.


Gary fechou os olhos, morreu vencendo a própria morte.