Memórias - Autorizado. Resetar.
1 Bela Adormecida - O Manto Vermelho
“Bip, bip, bip!!” – Tapa certeira fez com que o despertador caísse e ficasse em silêncio. Eram 08:35 da manhã e Miku tinha que acordar. Maldito segundo ano do ensino médio. Mais um e ela estaria “livre”. Resmungou alguma coisa e virou-se na cama; o celular vibrou duas vezes debaixo do travesseiro, ainda mais interessada nas cobertas, virou o rosto, puxou o aparelho e visualizou uma mensagem:
“08:40 – Megurine Luka ♥ –
Bom dia, pequena princesa! Nada de “só mais 5 minutinhos”! Está na hora de acordar! Tenha um ótimo dia e, não esqueça, eu te amo. (//w//) sz”
Voltou para o menu principal. Uma foto de ambas abraçadas e sorrindo a animou. Olhou para a mão direita, para a aliança que havia recebido, suspirou pesado, um sorriso sereno formou-se em seus lábios. Espreguiçou-se e logo saiu da cama.
O dia estava limpo. O sol não estava forte... Fresco e suave, o vento tocava seu rosto por entre a janela do carro. Depois da venda do primeiro álbum, sua vida mudou. Fora sucesso absoluto. Agora, alunos a esperavam na porta do colégio e pessoas do Grêmio tinham que tirá-la de lá.
— Ok, ok! Bando de hienas! Caiam fora! O sinal já vai tocar então, todos para as salas de aula! – ordenava uma moça de cabelos loiros, amarrados em um rabo de cavalo lateral;
— Mas ela chega atrasada quase sempre e você sempre está fora! – Falou um rapaz para a moça, que se virou rapidamente para ele. Uma cara que dava medo até no próprio demônio e uma aura maligna se propagou.
— Deve ser, senhor Katsu, que ela, como Diva, e eu, como líder do Grêmio, tenhamos mais coisas para fazer e melhores notas que o senhor. – os outros alunos começaram a rir do pobre rapaz. Miku terminou de assinar alguns cadernos e logo acompanhou a menina loira. A pequena aglomeração ficou para trás, com os acenos de Hatsune.
-Desculpe por te fazer passar por isso, Neru.
— Me peça desculpas pelas suas notas baixas em matemática. – As duas riram e adentraram no complexo.
Lá dentro, o tempo passou devagar. Olhando para a janela, para lugar algum, memórias invadiram sua mente, a fazendo fechar os olhos e respirar profundo. Entre suas pernas, as coxas de Luka, firmes e fortes. Os ombros e costas à mostra... Seu quadril acompanhando os movimentos da sua mão direita. Lábios avermelhados e molhados, macios assim como a língua da mais velha. Seu gosto era tentador... Quase que viciante. Seus gemidos profundos e roucos... Por que tão deliciosa? Por que tão viciante?... Melhor do que ser controlada por ela... Era poder vê-la completamente submissa, com aquele olhar de “me use... Me toque... Me faça g-
— Hatsune! — Miku em um pulo saiu de seu transe. Olhou para o lado e seu professor estava ao seu lado, segurando a apostila na cintura. – Você estava ouvindo?! Pode responder a questão na lousa?!
— Ahn...B-bom... – Deu uma espiada na lousa por detrás do professor. Leu, releu, respirou e virou-se para ele com um sorriso no rosto. – 34!
O homem a fitou com um olhar de surpresa, quase que instantaneamente apagado por um olhar rabugento.
-... Muito bem...
O intervalo chegara. No terraço estavam Neru, Miku e Teto, comendo e conversando. No meio das conversas, o celular de Hatsune teimava em vibrar. Eram mensagens e mais mensagens. Ela parou de falar e deu uma visualizada, sua expressão mudou de alegria para um profundo incomodo. Varias mensagens de Kaito estavam lotando a memoria do aparelho. Ela se levantou, pedindo licença e se isolou em um canto do terraço para fazer um telefonema.
— Miku... O que está acontecendo? Você não atende nem retorna telefonemas ou mensagens minhas!
— Meu tempo anda muito pouco, Kaito... Desculpe. E nós temos que conversar... Mas não agora.
— Conversar? Então, vamos sair hoje! Eu te pego que horas?
— Não... Hoje não. Já tenho algo marcado.
— Mas você disse que seu tempo-
— Depois a gente conversa melhor. Eu te ligo. – Mais uma vez o celular era desligado. E apertado com um pouco de força contra o peito. Ela se voltou para as meninas e continuou a comer, tentando livrar os pensamentos ruins da cabeça. Mais tarde iria ver Luka, sair e jantar com a mesma... Depois disso, talvez fosse para casa da amada, passar o resto da noite. Ver algum filme, tomar chocolate quente, não sabia. Mas isso a alegrava.
• • •
Kaito desligara o celular. Miku estava estranha fazia dois meses... Não sabia o que estava acontecendo e nem ela falava alguma coisa. O namoro era praticamente inexistente agora. No balcão da cozinha, a irmã olhava para o rapaz de maneira apreensiva.
— O que houve?
-... Ela está estranha. Faz dois meses que não nos vemos. Ela não atende telefonemas, nem responde mensagens! – Respondeu o rapaz se jogando em cima de um sofá da sala. Meiko suspirou preocupada e tomou um gole de café que estava preparando. Gakupo estava descendo as escadas em direção aos dois.
— Hmm. Essa história é familiar... Não acha, amor? – Meiko concordou com a cabeça sem falar nada, ainda com a xícara nos lábios. – Faz um tempo... Quando eu acabei com Megurine... Eu não quero me meter no assunto, nem muito menos falar qualquer coisa. Até porque, casos são casos. Então... Eu tive medo de dizer para ela que nosso romance, por minha parte, tinha chegado ao fim, então, comecei a enrolá-la... No final das contas, eu a fiz acabar comigo. Depois de algum tempo, eu fui atrás de conversar com ela, e nós nos acertamos. Foi errado da minha parte, claro. Só que ela é muito compreensiva, logo, estamos “bem”.
— Foi muito errado. E o pior é que isso me envolveu também, não foi, mocinho? – Perguntava Meiko em um tom repreensivo. – O bom é que tudo passou... E alguém aprendeu como erro. Enfim. Você só vai saber o que realmente está acontecendo, Kaito, quando conversar com Hatsune... E você está muito tenso. Vamos sair hoje para jantar como antigamente?
— Oba! Aonde vamos?! – Perguntou Gakupo indo em direção à Meiko.
— EU E VOCÊ, KAITO, como os bons irmãos. – Falou ela olhando para Kamui que ficou com uma expressão cômica. – Algumas pessoas tem que arrumar a casa!
— Tá bom, tá bom! Nossa... Tudo eu, nessa casa. – Reclamou o marido.
• • •
A noite chegou e com ela, o frio. Miku estava coberta com um casaco branco de grandes botões pretos, feitos em madeira. Ele ia até os joelhos. Sapatinhos fechados pretos de salto largo, uma meia branca, luvas e um cachecol meio rosado. Estava na porta de sua casa quando um Acura preto com detalhes em croma prata parou na sua frente. O vidro abaixou e revelou Luka no lado do motorista. Fez um movimento com a cabeça convidando a mais nova para entrar. Um sorriso abriu no rosto de Hatsune que logo terminou de trancar o portão de sua casa e entrar no carro da mulher.
— Bom saber que vossa senhoria está se agasalhando! Não quero que fique doente. – Falou Megurine enquanto Miku entrava no carro e o vidro da janela ia sendo fechado assim como a porta.
— Hahahaha, certo, mãe. Já entendi o recado. – Hatsune olhou para o lado. Megurine estava usando uma saia curta preta, a blusa branca social com as mangas enroladas até os cotovelos, presas por uma tira de couro preto em um botão dourado. A blusa estava aberta nos botões superiores, deixando o colo à mostra, um colar com um pingente em formato de clave de dó enfeitava a pele, quase que se escondendo entre os seios. Pulseira de ouro, em simples correntinha, um batom suave e os brincos combinando com tudo. Aquela era a roupa de trabalho e também, a que ela usara antes de sair da faculdade. O que causava um pouco de ciúmes em Miku, que a metralhava com o olhar.
— Que foi!?
— Nada... Nada não, dona Luka.
-... A me poupe! Para com isso vai... Você sabe que eu sou sua, não sabe? – Retrucou a mulher de cabelos rosa, puxando a menina delicadamente pelo queixo e a beijando. – A propósito... Você está parecendo uma bonequinha vestida assim.
Miku corou e sorriu sem jeito para a mulher. Enfim o carro estava em movimento. As luzes da cidade passavam rapidamente pelos olhos da mais nova, enquanto alguma melodia servia de fundo para a viagem... Deveria ser Daft Punk, não sabia. Estava no mundo da lua. O restaurante não estava longe. Fazia tempo que Luka queria comer alguma coisa diferente com Miku. Uma massa, algo do tipo. Porque não comida italiana? E assim foi.
Chegando lá, Megurine tirou um sobretudo de couro preto de dentro do carro, cobriu-se e entregou as chaves para um manobrista. Envolveu miku com um dos braços pelos ombros e entrou com a mesma no restaurante. Na recepção um anfitrião as aguardava com um sorriso acolhedor e a lista de reservas. Tinha uma mesa no segundo andar do restaurante. Era uma cúpula de vidro, pouca luz e dava para ver as estrelas. Poucas pessoas estavam ali... E tudo era distante. Era uma área REALMENTE reservada, no Maximo... Uns 5 casais, contando com elas. Luka ajudou a menina de cabelos aqua a tirar o seu casaco, revelando um vestido ‘tomara que caia’ rosa claro, com uma fita amarrando a cintura e fazendo um laço nas costas. A deixava parecendo, DE FATO, uma bonequinha. A cadeira fora puxada, Hatsune veio a se sentar. Luka colocou o casaco no encosto da cadeira, e fez o mesmo com o sobretudo, sentando-se ao lado da menina, segurando suas mãos a aquecendo.
• • •
— Kaito, o que foi!? – perguntava Meiko enquanto olhava para o irmão.
— Não pode ser... Fale baixo! – Retrucou o rapaz um pouco baixo para a irmã. Eles haviam saído como Meiko havia falado... Mas, que horrível coincidência, para o mesmo restaurante que as meninas se encontravam. A mesa em que eles estavam era distante da delas. Kaito tinha sua imagem coberta pela irmã que, estava de costas para Luka e Miku. Ele se encolheu um pouco na cadeira e respirou um pouco irritado ao ver a cena – Miku... E Luka... Atrás de você.
A mulher ameaçou se virar, mas foi parada pelo rapaz. Entendendo toda a situação, puxou um pó compacto da bolsa e usou o espelho para espiar as duas. Um clima realmente caloroso estava rondando aquela mesa. Luka fazia carinho no rosto de Miku que ria e segurava a mão da mulher, a beijando. Meiko fez uma cara de tristeza, mas não por elas... E sim pelo irmão.
— Só pode ser coisa da minha cabeça... – Falou Kaito, tirando o celular do bolso e ligando para Hatsune. Do outro lado, a menina deu um pulinho da cadeira e pegou o celular de dentro do bolso do casaco e o desligou. Mais uma vez o celular tocou. Hatsune deu um beijo rápido em Luka e foi até o banheiro atender o telefonema. Kaito a acompanhou à distância. O banheiro era dividido por uma parede de madeira, masculino e feminino. O rapaz esperou a moça entrar em uma das divisórias e atender o celular.
— Oi?
— Então... Vai poder sair hoje? – perguntava ele.
— Não... Tive que ficar em casa, estou muito cansada com tudo. – Respondeu ela. Devagar, Kaito se aproximava da divisória do banheiro masculino, ficando costas com costas com Miku.
— É mesmo? Tá sendo muito puxado né?
— Você não imagina o quanto.
— Tá certo então... Quem sabe... A gente não se vê por ai... Miku. – Terminou o rapaz desligando o celular e saindo detrás da divisória, dando de ‘cara’ com Hatsune, que ficou com uma expressão de surpresa e terror misturada. O olhar de Kaito estava fervilhando em ódio. A moça deixou o celular cair ao chão, se partindo, quebrando.
— K-Kaito...?
— Por que você não me contou?! Por que não me falou desde o começo!?
— Eu.... Eu achei que
— Você ainda tem que achar!? – Ele estava próximo o suficiente de Miku para tocá-la nos ombros e os apertar com uma força descomunal. Estava descontrolado.
— Você está me machucando! Para com isso!
— E AGORA VOCÊ DIZ QUE EU ESTOU TE MACHUCANDO!? ME POUPE, HATSUNE! O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA, AFINAL DE CONTAS?! O QUE EU FIZ PARA VOCÊ?
— KAITO, PARA COM ISSO! VAMOS CONVERSAR COM CALMA!
— CALMA?! VOCÊ ESTÁ ME PEDINDO CALMA?
Não muito distante Luka ouviu a confusão e o nome da amada, se levantou rapidamente da mesa e foi em direção ao som, encontrando Kaito sacudindo Miku pelos ombros. A menina estava aterrorizada, seus olhos estavam chorosos e as lagrimas escorriam descontroladas.
— Ei, ei! O que tá acontecendo aqui? Miku, amor... – Kaito virou-se para Luka e em um movimento certeiro, acertou um ‘tapa’ com as costas da mão fechada, no rosto de Megurine, que se desequilibrou e caiu por cima de uma mesa de cristal pesado que enfeitasse a entrada dos banheiros. Sua testa acertou a quina e a mesa veio a se quebrar. Sangue jorrou no espelho e começou a manchar o carpete do restaurante e as roupas brancas de Megurine que, agora, estava jogada ao chão, desacordada. Tudo parou. Kaito livrou o ombro de Miku da outra mão. Os olhos de Hatsune fitaram a cena sem reação a não ser a de terror. O rapaz ficou paralisado por momentos, mas logo correu para aonde estava a irmã.
— VEM, MEIKO!
— O que houve?! EI PERA! SOLTA MEU BRAÇO!
— CALA A BOCA E VEM LOGO! – Eles desceram as escadas e deixaram o restaurante. Meiko não entendia o que estava acontecendo, só sabia que o irmão estava fora de si.
No andar de cima, Miku caíra de joelhos ao lado de Luka, lágrimas caiam de seus olhos. O sangue da mulher agora tocavam os joelhos da menina cujas mãos tocavam o rosto da mais velha. Não havia som apesar de várias pessoas correndo e um dos garçons levantando o corpo da segunda Diva da Música japonesa nos braços e mandando alguém chamar a ambulâncias. Miku veio a desmaiar ao lado da amada... Era o fim de uma noite que... Tinha tudo para ser feliz.
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