Memórias
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O sol iluminava fracamente o quarto. Era possível perceber que ali era o local de repouso de um doente. Apesar das paredes pintadas em um tom profundo de vermelho, o cheiro característico daquele tipo de lugar entregava tudo. Os raios do sol penetravam tímidos naquele ambiente, mas conseguiam alcançar a cama enorme e a cadeira parada ao lado desta.
Sentada na cadeira, uma jovem mulher olhava fixamente para o nada. O rosto delicado estava marcado por lágrimas. Os cabelos de um tom vermelho-vivo estavam presos em um coque frouxo; algumas mechas escapavam e caíam sobre sua face. Ela trajava um vestido preto liso e longo. Jogado perto da cadeira, um pequeno chapéu de onde pendia um véu preto, que anteriormente cobria os olhos prateados da garota.
Sobre a cama estava uma mulher. Os longos cabelos estavam espalhados sobre os travesseiros. Um dia foram tão vermelhos quanto os da menina, mas agora estavam opacos, com um tom fraco de rosa. O rosto marcado pela idade e por preocupações parecia sereno. A pele estava pálida.
Por um segundo, que pareceu mágico, um raio de sol conseguia penetrar o suficiente no quarto para iluminar o rosto da mulher deitada na cama. Nesse segundo o rosto pareceu recobrar a cor, mas logo que a os raios solares deixaram a face tranquila, ela voltou àquela palidez característica da morte.
A quietude do ambiente foi quebrada pelo som da porta se abrindo. Esse foi seguido pelo ecoar de passos excitantes.
E, depois disso, o silêncio. Nem uma palavra de consolo, nem uma frase de incentivo. Só o silêncio confortável que se instalou ali.
Ela não precisava se virar para saber quem havia entrado:
– Obrigada por vir, Tio Seig.
– Não acho que isso seja algo digno de um agradecimento, afinal eu e a sua mãe passamos por tanta coisa juntos que, mesmo que eu não quisesse, eu acabaria vindo...
Alguns minutos se passaram e a garota se levantou. Recolheu o chapéu caído no chão e caminhou em direção à porta.
– Eu vou cuidar dos detalhes do funeral agora. Se você quiser, pode ficar aqui. Os passos leves se afastaram devagar. O homem se aproximou da cama e olhou longamente a mulher deitada
Ainda podia ver os olhos vermelhos furiosos que queimavam como chamas. Podia sentir o cheiro tão característico dela, não um cheiro feminino, mas nem por isso um cheiro desagradável. O perfume que exalava de sua pele lembrava o verão. Era um cheiro quente , se é que isso era possível
Ele se ajoelhou ao lado da cama, tirou uma flor branca do casaco preto, colocou-a ao lado do rosto da mulher e, com cuidado, beijou sua testa.
Naquele momento ele foi tomado por uma concepção assustadora.
Ela não estaria mais ali, ele nunca mais poderia ouvir sua voz. Nunca mais teria que correr da ruiva furiosa que empunhava uma espada flamejante.
Mesmo que ela tivesse se afastado nos últimos anos, ele sabia que ainda poderia ouvir sua voz se viesse a esse lugar, ainda poderia sentir aquele cheiro quente. Mas agora, que ela estava ali deitada sem nem mesmo um resquício de vida, a pessoa diante de si não lembrava em nada a ruiva impetuosa. Não passava de uma casca vazia.
Pegou-se pensando novamente naquele dia. O dia em que tudo, de certa forma, começou a ruir.
Eles estavam voltando de uma missão, aparentemente alguns monstros se uniram e começaram a atacar o reino de Canaban. Eles eram os únicos em condições físicas e emocionais de ir.
Derrotar aquelas coisas foi moleza, provavelmente a ruiva sairia sem um arranhão se fosse sozinha
Devido à neve, que havia começado a cair com força na região que estavam atravessando, eles pararam em uma estalagem.
– Hum... Isso é bem melhor que chutar aquelas coisas feias.
Ele abraçou a cintura da ruiva, apoiou a cabeça na curva de seu pescoço e aspirou o perfume que emanava de sua pele. Ela permaneceu parada.
– Ei, Lis... O que aconteceu? Você está estranha...
Por um momento, o quarto ficou silencioso. Só era possível escutar o som das respirações calmas e ritmadas.
Os olhos vermelhos encontraram os prateados, e naquele momento ele teve a certeza de que algo estava realmente errado.
Ela quebrou o silêncio com um sussurro quase inaudível, perto do ouvido do outro:
– Acabou.
Ela depositou a mão no peito dele e levemente o empurrou para longe. O avatar estava estático. De tão chocado com a notícia, nem notou o afastamento da ruiva. Só foi capaz de levantar seus olhos inundados de desespero e fazer uma pergunta muda à mulher diante de si, que agora estava sentada na cama de casal.
Delicadamente ela pousou a mão na barriga e acariciou a região. Isso bastou para que ele entendesse.
– Não me leve a mal Seighart. Eu sei muito bem que não está na sua natureza ser pai, não vou te pedir o que você não pode fazer... Além do mais, esta criança vai ser minha e, uma vez que ela nasça, eu não vou aceitar dividi-la com ninguém.
Gradualmente o desespero se retirou dos olhos dele. Deu lugar à aceitação e, à medida que o tempo passava, o silêncio denso daquele local se tornava cada vez mais inquebrável. Mesmo que ele quisesse, não conseguia falar; só conseguia respirar baixinho enquanto olhava a neve cair pela janela.
Em pouco menos de nove meses, uma menina pequena de cabelos ruivos nasceu. Ninguém se atreveu a comentar sobre os olhos prateados da criança. Essa era uma das vantagens de ser parte daquele grupo há tanto tempo; a cumplicidade que todos ali dividiam atingia níveis surpreendentes.
Mesmo com a palavra tão forte, aquele “acabou” dito em forma de sussurro, ele continuou a se encontrar com a guerreira de cabelos avermelhados, continuou a escutar sua voz e a sentir o cheiro de verão. Mas, como ele bem sabia, o tempo é um carrasco implacável.
Mesmo no começo, ele tinha consciência de que eventualmente o que eles tinham iria chegar ao fim, como qualquer outro relacionamento que ele tivera em sua vida. Como ele queria que esse adeus fosse igual aos outros!
Era fácil abandonar uma donzela apaixonada. Certamente ele nunca fora do tipo que se deixasse prender por alguma garotinha louca de amor, apaixonada por suas fantasias de príncipe encantado; logo, nunca sentira realmente a dor de uma separação. Provavelmente isso só aconteceu desta vez porque, muito antes de qualquer laço romântico que os atasse, eles tinham lutado lado a lado no campo de batalha. Muito antes de olhá-la como mulher, ele a olhou como companheira no campo de batalha.
Olhou novamente para a mulher deitada na cama. Por um momento, o guerreiro abaixou a cabeça e deixou que as lágrimas rolassem livremente pelo rosto. Nunca em sua existência havia pensado sobre a condição de imortal. Nunca se apegou muito a qualquer outro ser humano. Nenhum dos guerreiros com quem havia lutado morreu em razão da idade. Todos pereceram como bravos soldados em batalhas épicas, e isso foi tudo o que ele soube deles. Nunca chegou a se enturmar em um grupo por tanto tempo. Mortes tão tranquilas e silenciosas, quanto à da ruiva, lhe causavam estranheza e outro sentimento que não lhe era familiar: o vazio.
– É por isso que penso que nós não devíamos nos misturar com humanos... Isso só causa incômodos — a asmodiana sussurrou baixinho.
Somente Dio, que estava parado a seu lado, pôde escutar. A menor tinha lágrimas nos olhos e estas escorriam e borravam sua maquiagem.
Todos os membros do “Grand Chase” estavam presentes. Alguns acompanhados por seus descendentes. Na aparência de cada humano na sala era possível perceber os efeitos da idade, fosse na descoloração dos cabelos, nas rugas, ou até mesmo na forma de se vestir
A elfa chorava desconsolada em um canto. Ela se incomodou apenas em não fazer barulho, mas eventualmente não conseguia segurar alguns soluços.
Perto dela, a maga violeta também chorava. O rosto, diferentemente do da elfa, marcado pelos anos de vida, apesar de os olhos ainda guardarem um ar infantil. Ela não se preocupava em esconder soluços. Estava com o rosto escondido no peito do homem sentado a seu lado.
Ele tinha um porte nobre por assim dizer. Possuía longos cabelos, agora grisalhos com algumas mexas em azul escuro, presos num firme rabo de cavalo. Apesar do semblante sério, era possível perceber que os olhos azuis estavam marejados e que ele possuía algumas olheiras.
A loira, que ainda chorava em desespero, estava abraçada a um homem de cabelos arrepiados em um tom alaranjado. Ele era alto e tinha a pele bronzeada. Nos olhos verdes, era possível ver a tristeza tão pressente naquele ambiente mórbido.
O imortal cerrou os dentes e apertou os punhos. Era a primeira vez que provava o gosto amargo da impotência. Não conseguiria aguentar mais o ar daquela sala. Ele se dirigiu a outro cômodo o mais rápido que pôde. Logo se arrependeu.
O outro cômodo estava repleto de fantasmas do passado, se é que aquelas crianças poderiam ser chamadas assim. Uma menina ruiva estava sentada em uma poltrona; ela tinha a cabeça baixa. A seu lado, estava ajoelhada uma menina de cabelos violeta e olhos azuis, que segurava suas mãos fortemente. Ajoelhada do outro lado da poltrona, uma jovem elfa de longos cabelos alaranjados acariciava gentilmente o cabelo da humana, que chorava em silêncio. O quarto estava repleto de crianças com as características de seus companheiros misturadas. Isso lhe causava um sentimento estranho, principalmente porque ele havia acompanhado o crescimento de muitos deles e, mesmo assim, quase nunca acertava os nomes. Frequentemente trocava seus nomes pelos dos pais. Tinha a impressão que a existência de algumas das crianças era só o prolongamento da existência de seus genitores. Podia ver claramente os traços pertencentes a cada um dos guerreiros, com quem havia compartilhado as dores e as vitórias no campo de batalha bem ali presentes nos rostos daqueles jovens. Poucas vezes ele encontrou traços nos rostos daquelas crianças que lhe eram estranhos. Até mesmo algumas das manias dos companheiros haviam passado para a nova geração!
Certa vez, em uma conversa com o deus que lhe tinha concedido a imortalidade, ele mencionou esse fato. O deus sorriu — se é que isso era possível — e disse que era normal. Que procriar era, a grosso modo, a maneira que os humanos comuns tinham encontrado para “alcançar a imortalidade”. Passar seus genes, deixar memórias impressas na nova geração; essa era a maneira de “existir” mesmo depois que a chama da vida se extinguisse.
Por muito tempo pensou nessas palavras ditas de uma forma tão casual pelo deus. Seria esse o motivo que levou a ruiva a falar que “não estava na sua natureza ser pai”? Por que, por ele ser imortal, nunca teve essa necessidade de dar continuidade a sua existência? Eventualmente, em uma noite de inverno na qual ele decidiu que queria sentir o cheiro do verão, questionou-a sobre isso. Ela simplesmente sorriu e disse:
– Não é nada tão complicado assim. Não seja tão arrogante, idiota. O único motivo é que você está pra sempre preso num corpo de dezenove anos. Mas isso não seria um problema tão grande assim se você se comportasse como um adulto responsável. Quando você ganhou essa sua imortalidade, você, muito provavelmente, perdeu a capacidade de crescer e amadurecer. Agora se me dá licença, eu tenho que ir ver a minha filha, ela já deve começar a chorar. É incrível a periodicidade com que ela acorda , sempre as três da madrugada.
Ele se lembrava bem do rosto dela naquela noite. Não era mais o rosto da menina que ele conheceu; era o rosto de uma mulher adulta e confiante e, apesar da aura de maturidade que a cercava e das olheiras profundas abaixo dos olhos, ela ainda tinha o olhar desafiador e ardente que ele havia visto em seus olhos desde o primeiro dia. Naquela memória, ela estava mais linda do que em qualquer outra. Era um ponto de encontro entre a maturidade e a juventude. Apesar de o físico conservar ainda vários traços que ela possuía quando começaram a se envolver romanticamente, a aura dela havia se modificado de tal forma que se fosse comparar esta memória com a do dia em que se beijaram pela primeira vez iria achar encontrar poucas semelhanças.
Talvez seus olhos fossem a única coisa que se mantinha estável do início ao fim de sua vida. Os olhos vermelhos queimavam em determinação e desfiavam o mundo ao redor.
Seighart nunca disse em voz alta, pelo menos não sóbrio, o quanto adorava aqueles olhos. Poderia passar longas horas descrevendo a beleza que via ali e, mesmo assim, não conseguiria descrever com propriedade. Suspirou resignado. Queria sair dali o mais rápido possível. O ar daquele lugar estava ficando irrespirável.
Apesar de a ideia de deixar aquele local dominar sua mente, ele ficou ali, ao lado dos seus antigos companheiros, que pareciam quase tão desconfortáveis quanto ele.
A tortura finalmente havia acabado. A noite alta no céu estava bem agradável.
O imortal estava sentado sozinho em um tipo de varanda. Sua única companhia era uma garrafa de bebida, que já estava pela metade. Percebeu passos e olhou para a direção de onde eles vinham.
– Então você estava aqui! — o elfo disse enquanto se aproximava e, sentando-se ao seu lado, continuou — Faz bastante tempo que a gente não sai para beber, né?
– Mas foram você, o Ronan, o Jin e a Ray que pararam. Eu continuei bebendo.
– Mas agora você é um bêbado deprimido, meu amigo. O mais novo deu um risinho, que foi seguido de um silêncio um tanto desconfortável.
– Sei que eu não sou o melhor ouvinte, e isso é fato. Mas, se você quiser, pode falar comigo... Ou você espera eu arrastar o Ronan para cá?
O moreno olhou o outro por um segundo e, em seguida, deu um longo gole na bebida:
– Nem eu sei bem o que é... Não sinto nada parecido há alguns séculos, mas eu acho que é medo.
– Medo de quê?
– Você vai rir quando eu falar... Mas tudo bem, eu sei que é meio ridículo mesmo. Eu acho que eu estou com medo de ser o último sobrando, afinal, um dia, por mais que demore, isso vai acontecer, não é? Mesmo que a vida dos elfos e dos asmodianos seja maior que a dos humanos, vocês um dia vocês vão morrer também.
O mais novo se apoiou nos brancos e olhou para o céu por um minuto. Ele pareceu pensativo:
– Não se preocupe. Eventualmente você vai achar outro bando de crianças problemáticas ou malucas que querem salvar o mundo. O imortal sorriu levemente. — É... Quem sabe daqui a seiscentos anos?!
Nem um dos dois falou mais uma palavra, mas o silêncio que os envolvia era confortável. Cada um deles se perdeu em lembranças de uma época que agora parecia muito distante. Um tempo em que a única preocupação era a de se manter vivo no campo de batalha. Naquela época, na qual eles haviam se esquecido do tempo, na qual lutar contra as trevas era prioridade. Mas, infelizmente, o tempo não se esqueceu deles. Continuou seu curso e eventualmente fez seu estrago. Prioridades mudaram, alguns amadureceram e, por fim, uma deles havia sido levada embora.
O executor se levantou e se despediu do moreno. Iria voltar para a esposa e para a filha agora. O outro passou mais algumas horas olhando o céu com melancolia, até que decidiu ir para casa.
– Ei, eu estive pensando...
– Cuidado... Você pode se machucar, meu bem.
Ele a olhou irritado; ela riu um pouco e apertou as bochechas do mais velho:
– Eu queria ajudar a escolher o nome
. A ruiva fez silêncio por alguns minutos. Parecia pensar sobre a ideia.
– Tá certo. Eu te deixo escolher um nome... Mas nada daquelas porcarias de nome unissex tá?... Se você acertar o sexo do bebê, eu coloco o nome que você escolheu. Ele sorriu e deitou a cabeça no abdômen dela. Depois de algum tempo, ela perguntou:
– E então?... Já quer arriscar?
– Eu não arrisco, pirralha. Eu acerto!
– Hump... Então tá, né?... E aí, senhor humildade, o que vai ser?
Ele sorriu, se aproximou da face dela e a beijou na testa.
– O nome vai ser...
O guerreiro abriu os olhos de repente. Ainda era noite e o vento frio entrava pela janela do quarto. Ele queria muito sumir dali, talvez assim aquelas lembranças o deixassem...
Tapou os olhos com uma das mãos. Esse era o problema: talvez bem mais sério que a presença insistente dessas lembranças fosse a possibilidade de um dia esquecê-las. Por mais dolorosas que fossem, ele as guardavam com carinho, pois eram de fato as únicas “memórias” que tinha construído para si. Tudo o que se dizia a respeito de seu passado ou era uma sombra escura em algum canto de sua mente, ou uma lenda... Mas as lembranças dos tempos alegres que dividiu com seus companheiros eram só dele. A perspectiva de que um dia aqueles tempos ensolarados se tornariam manchas escurecidas em sua memória era assustadora.
Naquele momento, manter vivas essas lembranças tão queridas era muito doloroso. Levantou-se um pouco tonto e vestiu qualquer roupa. Antes de sair, pegou sua arma e olhou aquele lugar da porta por algum tempo. Saiu dali antes que fosse assaltado por memórias desconfortáveis. Andou sem rumo algum. Não sabia o que deveria fazer e não sabia para onde deveria ir. Parou de frente para uma enorme fortificação construída em pedras cinzentas. Os muros que cercavam a construção eram altos, e quase não podia ver o formato do prédio.
Mordeu o lábio inferior com força e sentiu o gosto metálico invadir sua boca. Francamente, ele estava perdido. Mesmo em meio àquela confusão mental, ele caminhou até aquele lugar. O antigo QG da Grand Chase agora era um tipo de museu de arte.
Ele atravessou hesitante o grande portão de madeira escura. Sentiu os olhos marejarem, mas não permitiu que qualquer lágrima caísse. Cada canto daquele lugar estava coberto por várias de suas lembranças preciosas. Mesmo tendo a sensação desconfortável, ele seguiu em frente. Podia escutar claramente as risadas, os gritos e os barulhos de explosão como se aquilo tudo estivesse acontecendo no presente. Simplesmente não conseguia acreditar na imagem daquele pátio escuro, vazio e silencioso, tão diferente daquele que conhecera. Continuava vendo os companheiros treinando e pregando peças uns nos outros, como outrora
Tudo estava ali. Todas as vezes em que dividiram a alegria e a tristeza. Ele podia ver todos aqueles momentos. Era como se fosse um filme rodando diante de seus olhos.
Entrou no que um dia foi o Salão Principal e sorriu. Foi naquela sala que ele beijou a ruiva pela primeira vez. Também fora o local onde pôde, pela primeira vez, dar uma olhada decente na criança de olhos tão prateados como os dele. Naquela hora, ele soube que a menina jamais iria empunhar uma espada. Não conseguia ver aquela garotinha tão pequena lutar contra coisas tão terríveis quanto os monstros que eles haviam enfrentado. Mas ele também havia duvidado da capacidade da mãe da criança que tinha se provado uma guerreira valorosa. Mesmo assim, algo lhe dizia que a menor não havia nascido para lutar.
Caminhou mais um pouco. Seus olhos vasculhavam cada canto de cada sala por onde passava. Deparou-se, assim, com algo inesperado: os olhos flamejantes olhando-o fixamente. Lançavam um olhar sério que destoava da expressão alegre do rosto da ruiva:
– Tio Seig?...
Foi despertado do transe por uma voz baixa e delicada. Percebeu a menina ruiva ali. Ela olhava em sua direção, mas parecia que há alguns minutos também olhava o quadro na parede:
– Você gostou? Fui eu que pintei.
– Você sempre teve talento com esse tipo de coisa... Parece mesmo com ela.
A menor deu um pequeno sorriso de orgulho.
– Era o meu presente de aniversário par mamãe eu fiz um pouco antes dela ficar doente... Que bom que você gostou! Como eu fiz com base no que eu me lembrava e em descrições da tia Arme e da tia Lire. Era par ser a mamãe quando ela era mais jovem , mas eu não sei se ficou parecido com o real
– É assustadoramente igual! Eu poderia jurar que era ela aqui me olhando
. Por algum tempo, eles ficaram em silêncio olhando o quadro. O mais velho percebeu um pequeno soluço escapar dos lábios da outra, mas se manteve calado. Era melhor que ela chorasse o que tivesse que chorar agora do que guardar isso pelo resto da vida.
– Ainda dói muito? — ele perguntou com uma voz gentil.
– Ainda vai doer por muito tempo; eu acho... Não, nunca vai parar. O tempo só vai diminuir o estrago...
Ele queria confortá-la, queria dizer que tudo ficaria bem, mas nem ele mesmo tinha certeza disso.
– Sabe, a mamãe ficou muito brava quando ela descobriu que eu estava pintando esse retrato... Bom, ela nunca gostou muito dessa minha escolha de ser pintora... Mas era inevitável...
– Se você sabia que ela iria ficar brava, por que você fez o retrato?
– Eu acho que foi um presente mais pra mim do que pra ela. Eu queria poder olhar o rosto dela para sempre... A mamãe não fica linda com a armadura do Ariel? Ela parece um anjo.
O imortal ficou calado, escutando. Essa era certamente uma maneira de “dar a eternidade” a outra pessoa. Deixar impressos a imagem e os sentimentos que elas provocaram enquanto vivas para que pudessem sobreviver às próximas eras.
O sol já começava a iluminar o quarto levemente. A mais jovem se virou na direção do moreno e sorriu.
– Vá com cuidado, papai.
Ele a encarou por alguns segundos e sorriu em resposta. Caminhou até a saída devagar e se virou novamente para a ruiva.
– Então eu já estou indo... Fique bem, Anne.
Essa foi a última lembrança que teve da menina. Ela acenando em uma sala inundada pela luz do sol.
Aquela foi a última noite em que se encontrou com todos eles. Nunca mais teve notícias de nenhum de seus companheiros e nem das crianças.
Continuou com sua função, que era varrer o mal toda vez que ele ameaçasse o equilíbrio.
Chegou a ter as lembranças, que lhe eram tão queridas, maculadas pelos efeitos do tempo.
Mas bastava uma visita àquele lugar... Bastava deslumbrar aqueles olhos apenas uma vez, para que elas fossem restauradas.
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