Memória perdida
1 Único - Memória Perdida
Notas iniciais
Era como nos costumeiros sonhos que esquecia-se completamente ao despertar: primeiramente, estava tudo escuro e ouvia-se o som de chuva e de passos correndo na lama molhada. A cena ali só tornou-se visível mais tarde, quando se pode ver duas pessoas encapuzadas — um adulto e uma criança — adentrando um celeiro.
Os dois aparentemente estavam fugindo de algo ou alguém, e seguros ali, livrarem-se dos capuzes encharcados. Os personagens daquele sonho eram uma mulher e uma criança, mãe e filho, ambos de cabelos brancos e olhos azuis.
"Mamãe, quem eram aquelas pessoas?" a criança perguntou assustada, deveria ter 5 ou 6 anos de idade, com os braços espremidos junto ao peito. Mal piscava ao encarar a mãe de vestes esfarrapadas.
A moça deu um sorriso cansado para acalmá-lo e ajoelhou-se diante do menino "Não dê atenção à eles, meu bem, estamos à salvo agora" ela disse tentando lhe passar segurança, mas era óbvio para os dois que ainda corriam perigo.
"Estão atrás de mim de novo por que eu sou um monstro?" o pequeno abaixou a cabeça. Espalhadas por seu corpo enlameado estavam as marcas de mestiço. E aquela não era a primeira vez que eram perseguidos por esse motivo, apenas se tratavam de pessoas diferentes.
"Você não é um monstro, Lass." com pesar, ela o abraçou. Era tão duro para ela que seu filho sofresse tanto. Usando daquele abraço, ela o ergueu e caminhou até um monte de feno, onde o deitou e deitou-se ao seu lado. "Você é uma criança especial e está destinado à grandes coisas. Mas primeiro precisamos encontrar seu pai, ele nos protegerá dos perseguidores" e suspirou de olhos fechados.
O quanto haviam corrido só naquele dia? Ela era uma simples humana, seu corpo certamente era muito mais limitado que o da criança híbrida, mas sendo uma mãe, não se podia duvidar de sua determinação para proteger seu filho.
"Agora você tem que descansar, Lass. Sinto muito não termos o que comer agora, mas nossas vidas irão melhorar assim que seu pai estiver conosco" ela o abraçou novamente. Estavam gelados, ela precisava passar para a criança algum calor e proteção.
"Como é o papai?" ele perguntou, parecia mais calmo, curioso sobre o homem que ela tanto falava mas que ele nunca havia chegado a conhecer.
Ela sorriu e afagou os cabelos da criança "ele é muito forte e gentil, mas precisou voltar ao trabalho então nos deixou prometendo que voltaria logo" suspirou novamente "só que esse logo demorou demais para acontecer".
"Mamãe..."
"Vai ficar tudo bem, meu amor."
"Mas e se a gente não encontrar o papai?"
"Então, apenas eu irei protegê-lo."
Encolhido junto ao peito dela, o pequeno mestiço adormeceu sobre sua proteção. Por mais que fossem perseguidos, desde que ela estivesse ali, ele estaria bem.
E então outro flash lhe veio. Mais uma vez estavam fugindo, no escuro, sob a chuva forte. O diferencial agora era que os perseguidores estavam muito perto de alcançá-los. Nesta parte do sonho não havia som.
A mãe levava o menino no colo enquanto corria já quase sem forças, e repentinamente, caiu na lama o jogando um pouco mais para frente. A cena era muda, mas entendia-se que ela mandava o garoto correr, mesmo este hesitando e tentando levantá-la.
"Lass, fuja. E não olhe para trás" ele leu em seus lábios. Os perseguidores já estavam a ponto de pegá-los, não eram humanos, eram criaturas macabras do submundo. Ele ainda se negava a abandoná-la, puxava-a com a intenção de ao menos arrastá-la um pouco. Tudo em vão. Ela sabia que era seu fim, mas sorriu para a criança uma última vez: "eu te amo, Lass."
A muito custo, ele a deixou e correu como ela havia mandando. No sonho mudo, fez-se som: entre a chuva que caia forte, uma lâmina retalhava algo macio como carne.
Quando virou-se para trás, só via as silhuetas de dois monstros munidos de armas brancas.
Naquele momento, ele despertou.
Aflito e com o coração pulsando tão rápido como se fosse parar, o albino acordava num susto em sua cama. Algo o havia apavorado mas ele simplesmente não sabia o quê.
Como sempre, toda vez que sonhava com seu passado, Lass se esquecia ao acordar.
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