Memória
7 Impermanência
Notas iniciais
Naquele ano, Shaka não visitou a torre em Jamiel. Não havia necessidade, pois Mu retornara ao Santuário. Não havia muito o que comemorar pelo retorno, não quando sabiam o que lhes esperava.
O ar do local parecia denso, antes mesmo do início da batalha. Mu apertou, suavemente, a mão do pupilo contra a sua, quando enfim atravessaram os portões, sob os olhares desconfiados e admirados dos soldados rasos, ante os passos decididos do cavaleiro, devidamente ornado com a armadura dourada de Áries. Certamente era uma figura imponente, e eles não ousariam impedir a entrada de tão poderosa pessoa.
A guerra não era uma segunda pele, tampouco uma profecia distante, penetrava nos poros, instalava-se no âmago: era o chamado do dever. A certeza de que perderia seres queridos pelo caminho atingia-lhe como um soco no estômago.
No entanto, enquanto nada disto acontecia, havia muito a ser feito. Tomaria seu tempo para revisitar velhos amigos, revisitar o próprio passado, investigar, ensinar algumas novas técnicas a Kiki, auxiliar os cavaleiros de bronze…
— Kiki…— Tomou, outra vez mas com firmeza, a mão do pupilo antes de seguir em frente. — O que acontecerá aqui será perigoso. Em hipótese alguma saia de perto de mim.
Não teve as forças necessárias para completar a frase com “por enquanto”; sabia bem que Kiki necessitaria afastar-se, depois, embora esse depois fosse indistinguível na névoa da imprecisão de suas intuições. Ironicamente, naquele momento crítico, suas visões falhavam e amontoavam-se.
Sabia que as desconfianças ainda rondavam o Santuário; sabia que provavelmente seria acusado — uma vez mais — de traição, de deserção.
Interessava-lhe, mais do que nunca, saber de toda a verdade. Estava furioso, a ponto de sentir-se, de certa maneira, injustiçado, mas não havia tempo para nenhuma de suas emoções, ou era o que imaginava.
Na realidade, precisava de confirmações: a verdade atingia-lhe como as ondas de um transe, com visões aterradoras. Não havia, ali, nenhum traço do cosmo de seu mestre.
Sabia que se depararia com aquilo, sofrera por anos com a ausência de Shion. No entanto, alimentara vãs e vagas esperanças de um reencontro, que agora provava-se, mais uma vez, impossível.
Estava ciente, ademais, de que não poderia perder-se nos próprios pensamentos e emoções; havia questões um tanto mais urgentes. Em pouco tempo, uma batalha aconteceria, e Mu tinha um dever a cumprir, ainda que se visse obrigado a tomar seu lugar nos bastidores; tampouco lhe cabia fazer justiça com as próprias mãos, vingar seu mestre.
Levou algum tempo até compreender — e aceitar — que tinha apoio ali, entre seus companheiros.
Aldebaran acolheu-o de braços abertos, e Mu redescobriu conforto na reaproximação com Aiolia e Milo. Não fosse a bagagem de amadurecimento forçado, as marcas de traições e mentiras que se somavam ao peso crescente da expectativa, seria quase como quando eram crianças.
Pela primeira vez, em muito tempo, Shaka redescobriu o que era o temor. Não temia a própria impermanência, jamais temera, mas aqueles jovens abalaram suas convicções; especialmente aquelas que guardava sobre sua própria pessoa — pois, como descobrira na última visita a Mu, era dolorosamente humano, afinal.
Viu-se transformado, depois de tudo. Antes, talvez, simplesmente deixasse Fênix à própria sorte. Não mais poderia fazê-lo, não sendo quem era naquele momento. Era motivação o suficiente para solicitar a ajuda de Mu.
— Então Shaka de Virgem finalmente aprendeu sobre compaixão? — Sabia que não sairia ileso, após rogar pela ajuda de Mu. Ainda assim, as palavras de Áries magoaram-lhe.
Shaka sabia ser compassivo; tal característica nascera com ele. E, como tudo em suas vidas possuía um porém, o de Shaka era que ele endurecera com o tempo. Construíra aquela fachada de prepotência, de isolamento, de superioridade, para abafar tudo o que era mundano de si. Para abafar a dor — intrínseca — entremeada no fato de existir.
— Não é questão de aprender, Mu.
Áries anuiu. Afinal, era apenas uma de suas muitas provocações. Já vira Shaka despido e desarmado antes. Ainda assim, ele tinha muito o que explicar.
— Mas sim de recordar. — Áries completou.
Shaka assentiu: sabia que Mu simplesmente testava-lhe. Como sempre. Porém, diferentemente de todas as outras vezes, não havia desconfiança entre eles. Não mais.
Os dias após as batalhas das Doze Casas transcorriam de maneira caótica. Havia muito a ser feito. Havia muito a ser digerido: muitas perdas e muitas revelações e confirmações.
Mu isolava-se com frequência na casa de Áries. Tirá-lo de seu confinamento era tarefa quase impossível. Mas ele precisava daqueles momentos a sós: muitas vezes, sentia que fraquejaria, se colocado diante de alguns de seus companheiros.
Ele precisava enterrar o próprio passado. E isto levaria tempo. E a privacidade era inegociável. Isto, Shaka compreendia melhor do que ninguém; não forçava Mu a nada, embora o visitasse com frequência, para garantir que ele não necessitava de nada.
Algumas vezes, as visitas eram por puro hábito: dera-se ao trabalho de visitar Mu no Himalaia, por que não passaria pela Casa de Áries, tão mais próxima?
Sempre levava chás para Mu, nessas ocasiões. Longos eram os silêncios entre eles, pois palavra alguma podia preencher as lacunas. Sequer se provocavam naquele ínterim.
Poucos dias após a batalha no Santuário, Áries decidiu-se por visitar a casa de Leão: bem como as visitas à casa de Touro, aquele estava se tornando um hábito.
— Aiolia, tenho um favor para te pedir.
Resoluto em suas palavras, Mu permaneceu diante da porta de Leão, sem adentrá-la, apesar da autorização de Aiolia.
— O que você precisar, Mu.
Aiolia sorriu-lhe; aos olhos de Mu, parecia tão mais leve após aquela batalha… Era compreensível. Enfim a sombra pesada da associação com um traidor havia se dissipado.
Havia, também, os contornos da perda, percebidos no olhar e nas entrelinhas do discurso de Leão. Por muitas vezes, permitiram-se chorar um no ombro do outro: pelos entes queridos, pelos enganos, pelo tempo perdido.
Mu não era tão ingênuo a ponto de não saber como expressar afeto — sabia, dentro das limitações de alguém que passou a maior parte da vida em exílio fora criado por um mestre rígido.
Algumas expressões de afeto, na realidade, não lhe faziam tanta falta — como os beijos em público tão presentes no ocidente. No entanto, ele gostava de experimentar, e tinha em mente algo diferente. Sentia vontade de explorar aquele campo desconhecido; e não estava disposto a passar vergonha na primeira tentativa.
Assim, procurou as duas das pessoas em quem mais confiava — e que não lhe cobrariam grandes explicações, ou um retorno. Sabia bem que as coisas seriam confusas com certa pessoa...
A princípio, confiando na discrição de Milo, procurou-o, apenas para descobri-lo — surpreendentemente — inexperiente naquele assunto.
Foi ideia de Aiolia, mais entendido das relações entre pessoas, unir os três em uma cena digna da adolescência que lhes fora furtada.
De certa maneira, o aprendizado tardio fazia-lhe um tanto mais controlados. Riam-se dos próprios erros, às vezes empregando força demais, às vezes não dando espaço ao outro. Quem os visse, naquele momento, julgaria-lhes ébrios, embora estivessem sóbrios: apenas tinham um raro momento de diversão.
Sentados sobre almofadas no templo de Leão, gargalhavam e conversavam. Mu retirou a fita que lhe prendia o cabelo e agitou-a na frente de Aiolia, que prontamente agarrou-a.
— Eu sempre disse que ele tinha reflexos felinos! — Milo observou, a ponto de curvar-se a mais uma crise de riso. Afinal, uma de suas diversões favoritas era provocar Aiolia.
Quase era-lhes possível olvidar de toda a tensão — embora, durante os silêncios, estivessem alertas, prontos para a ação.
Mu despediu-se de seus amigos e rumou para o templo seguinte. As contendas delineando-se no futuro próximo preencheram-lhe com um novo ímpeto.
Abraçou Shaka como se soubesse — ele sabia — e temesse. Por uma noite, desejava esquecer-se de tudo que havia fora do lugar. Desejava fingir normalidade, embora soubesse, em seu íntimo, ser um feito impossível.
Se antes eram suas almas que se reconheciam, enfim permitiam que seus corpos fossem estudados: completamente desnudos, completamente expostos, completamente seguros.
Havia algo libertador em entregar-se a outro, e o prazer imenso era possível apenas porque a conexão fora construída em bases sólidas, passados os pesares e as desconfianças.
Aquele momento, para eles, poderia durar por uma eternidade — mas, em um mundo de mudanças e impermanência, nada pode ser eterno.
Shaka afastou-se, apenas para admirar Áries: Mu era o tipo de pessoa capaz de fazer com que estrelas surgissem nos locais mais inusitados. Shaka jamais imaginara que o veria sorrindo tão abertamente para ele: Mu sorrindo já era um evento assustador, apenas para começar, em geral, ele guardava a expressão para quando estava maquinando algo, ou quando estava prestes a fazer uma observação zombeteira.
Preenchiam os dias com aquelas alegrias, com o companheirismo que rompia quaisquer barreiras: estava muito além de mera amizade, estava além de uma jovem paixão, estava muito além até mesmo do amor idealizado visto na ficção.
Não precisavam de muito para perceber que o sentimento transcendia tempo e espaço: um capricho dos deuses ou daquelas duas almas. Algo que talvez estivesse escrito desde o início dos tempos.
Assim como o dever que carregavam como uma missão e como um fardo. Sentiam que a guerra, em breve, privá-los-ia do luxo de terem um ao outro, de renderem-se a um sentimento de corpo e alma. Deveriam fazer sacrifícios — e fazê-los jamais lhes foi estranho.
Poderiam, naquele ínterim, viver quase como ansiavam. Poderiam até mesmo ignorar os desdobramentos das ações dos deuses em uma velocidade vertiginosa e alarmante — mas tinham o dever acima de tudo e, pelo dever, morreriam.
Naquele momento, tudo o que deixariam seriam as memórias dos dois. As suas atribuições e os seus temores impediam que deixassem descendentes — e sabiam que estariam impondo um fardo pesado sobre os ombros de seus sucessores.
Shaka voltou seu rosto para onde sabia que Kiki dormia. À sua própria maneira, afeiçoara-se ao aprendiz de Áries. Implicava com a criança, era verdade, quase tornando-se ele mesmo um infante outra vez. E, não raro, ensinava-lhe — fosse uma palavra nova em outro idioma ou uma técnica útil a um cavaleiro.
— Você precisará ser forte, Kiki… — Sussurrou-lhe, enquanto afagava os fios ruivos. — Pode ser que, em breve, Mu também não esteja mais aqui…
Em seu íntimo, sabia que nenhum deles retornaria. Virgem encolheu os ombros, a constatação da própria certeza pesando-lhe. Sabia o que era necessário, sabia ao quê estava destinado — e não poderia deixar Mu descobrir antes que estivesse feito.
Armou-se com toda a resignação, e partiu para a luta derradeira: aquele corpo, usado naquela vida, cumpriria seu propósito e encontraria seu fim.
De sua vida material, restaria o japamala entregue a Mu, e a armadura sagrada, que nunca fora completamente sua. Parte de si encontrava conforto no fato de nunca ser realmente o fim — havia, ainda, a esperança de um reencontro, ainda que longínquo. E, como um derradeiro pensamento egoísta, Shaka desejou que fosse em circunstâncias diversas àquelas em que coincidiram naquela vida.
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