Notas iniciais
Eu acho que faço vocês sofrerem para caramba só pela minha demora para postar novos capítulos. Volta e meia fico prometendo que só escreverei one shot, mas algumas ideias simplesmente precisam de mais "espaço". É o caso dessa. Dito isso, me perdoem por ter levado mais de um ano para dar continuidade a ela. É que 2016 não foi fácil para ninguém, e quem é mais próximo de mim sabe que os primeiros meses de 2017 também não foram gentis comigo. O resultado foi que a criatividade sofreu.

Um ano depois, ele retornava ao local. Shaka não saberia dizer ao certo qual força o conduzira novamente àquela torre. Talvez estivesse testando as próprias convicções. Talvez estivesse em busca de alguma verdade. Talvez precisasse de certezas, mesmo sabendo que encontraria apenas mais questionamentos.

Necessitava descobrir, por si mesmo, quais eram os motivos de Mu. Aquele não era um simples exílio ou uma ruptura. Áries evidentemente ainda mantinha algum contato com o Santuário, apesar de tudo, então por quê? Shaka estava determinado: não sairia dali sem respostas, por mais penosa que fosse a empreitada.

Pensava que poderia arrancar as respostas de Mu, mas a verdade era que se contentaria mesmo com uma análise mais criteriosa do outro cavaleiro. Não precisava de muito para compreender Mu, ou assim Shaka pensava. Silêncios possuíam a particularidade de revelar mais do que as palavras, bastaria explorar as entrelinhas.

(Porque Mu não revelaria o que ocultava. Seria mesmo um traidor? Não, Mu seria incapaz de traições… Mas como ter certeza? Shaka odiava não ter certeza, mas odiava ainda mais não estar certo sobre qualquer assunto.)

No segundo ano, as resistências de Mu permaneciam no mesmo lugar. O cavaleiro e o local pareciam exatamente os mesmos. Havia mais do que a superfície de imutabilidade, no entanto.

(Mu não era o mesmo das lembranças de infância de Shaka, mas sim aquele Mu do ano anterior: inocência, a própria noção de infância, perdera-se havia muito para ambos. As crianças deram lugar aos guerreiros cedo demais.)

Havia, ali, apenas uma criatura ainda alheia aos sofrimentos que a vida certamente lhe colocaria pelo caminho, que era também a responsável pela maior mudança no ambiente, com os passos e as palavras ainda incertos de uma criança com um ano de idade.

Kiki, agora adormecido, encontrava-se nos braços de seu futuro mestre. Mu, por sua vez, controlava o volume de sua voz, para não despertar a criança. Estranhamente, isto empregava um efeito ainda mais ameaçador à figura do cavaleiro, como se qualquer movimento ou qualquer ruído fossem capazes de libertar sua fúria.

— Por que você está aqui, afinal? Por que logo você se dá ao trabalho de chegar a este lugar remoto? Se bem me lembro, chamou-o de fim de mundo no ano passado.

Shaka deu de ombros. Não precisava dar explicações para Mu, precisava? Jamais fora do tipo que se explicava, fosse para quem fosse. Sequer lhe ocorria que invadia, sem convite e sem cerimônia, o espaço de outra pessoa. Àquela altura da vida, Shaka de Virgem já julgava que os outros deveriam dobrar-se aos seus caprichos.

— Não é trabalho algum para mim, você sabe. Além do mais… Você não merece passar por esses dias sozinho. — Arriscava-se em dizer tais coisas, mas também não ousaria dizer que estava preocupado. Precisava retomar logo sua postura de desafio, sua impassibilidade, antes que Mu desconfiasse de seu interesse, de seu receio.

Mu desviou o olhar. Primeiro, para o chão, depois, para uma das janelas. A memória de seu mestre observando-lhe da torre ainda era muito nítida. Era ainda mais nítida durante aqueles dias específicos. Os dias que coincidiam com a sua fuga apressada do Santuário. Os dias em que revivia o luto por Shion. Anos revivendo toda a culpa e todo o medo, e todo o terror sozinho não tornavam a data menos difícil.

Os lábios de Mu entreabriram-se. Shaka não tinha como saber aquilo. Não a parte sobre seu mestre, pelo menos. Perguntava-se o que Shaka vira na visita anterior. Era bem verdade que deixara transparecer preocupação, mas o maldito demorara a acordar, após doar uma quantidade considerável de sangue para a própria armadura. Outra possibilidade era o leve pânico ocasionado pela recém-adquira responsabilidade de cuidar de Kiki.

— Pelo seu silêncio, sei que você está surpreso.

Mu optou por ignorar aquele comentário pretensioso (e verdadeiro). Qualquer reação entregaria uma verdade que não estava preparado para confrontar sozinho, tanto menos compartilhar com Shaka. Acreditava que precisaria de tempo e espaço, e a presença inesperada daquele visitante — daquele intruso — apenas o atrapalhava.

— Mesmo que eu estivesse sozinho, estaria bem. Eu não sou incompetente para sobreviver, só porque estou em exílio.

— Você é um péssimo mentiroso.

Suas faces ardiam. Fechou as mãos quase instintivamente. Shaka estava ultrapassando os limites e aquilo não lhe agradava. Precisava de autocontrole para não reagir como um animal ferido frente a uma ameaça.

— E desde quando você se importa?

— Isto é irrelevante.

— Não é irrelevante se vem até aqui, e me diz tais coisas. Por que, Shaka? Quero entender… Preciso compreender. Com que propósito vem até pela segunda vez, se a sua armadura está em perfeitas condições? Acha que eu pretendia te matar no ano passado e veio se vingar? Veio a mando do Santuário? Estão ordenando meu retorno, é isso?

Shaka, por sua vez, desvendara algo sobre Mu, ainda que fosse uma informação mínima frente a todos os seus questionamentos: naquele momento, era melhor calar-se e dar espaço para ele. Foi o que fez, a contragosto.

Não havia problema. A impossibilidade de sondar Mu tornou-se uma motivação para Shaka. O que se passava na cabeça daquele homem para rejeitar tão veementemente o Santuário? Era mesmo uma traição, afinal?

— Não vai me expulsar? — Mais do que uma indagação, era uma provocação por parte de Shaka.

Mu suspirou. Daquela vez, deu-se por vencido. Novamente, seus modos exigiam que acolhesse Shaka como um visitante, por menos aprazível que fosse a ideia… Ou a companhia.

— Eu não poderia expulsá-lo. Não seria polido da minha parte. É melhor entrarmos.

— Não vai me matar, também? — Shaka sorria ao perguntar. Não poderia negar que era divertido render Mu com tal tipo de pergunta. Também julgava que era merecido. Ainda lembrava-se bem de como estava quando recobrara a consciência no ano anterior, e culpava Mu por sua quase-morte, embora soubesse do exagero de tal alegação.

Antes que pudesse deter-se, Mu pegou-se repetindo um dos comportamentos de seu mestre. Avaliava, sem desviar o olhar, o indicador sobre o queixo, com a expressão apenas levemente incrédula, o seu interlocutor. Shion fazia aquilo quando Mu perguntava-lhe algo que, do alto de sua extensa experiência, considerava muito absurdo, infantil, ou sem uma resposta fácil.

— Se eu quisesse te matar, acha mesmo que eu revelaria meus planos? Pensei que você tivesse como saber, mas estive enganado, então.

Sequer teve tempo de reclamar ou retrucar: Áries dera uma mostra de seu imenso poder teleportando-os para dentro da torre sem qualquer aviso. A ausência de uma porta ainda causava estranheza em Shaka.

Enganara-se, julgando que o local permanecia o mesmo. Aparentemente, Mu redecorara o interior, incluindo cortinas de cristais. O estoque de plantas e ervas também expandira-se pelas bancadas de madeira. Flores azuis, locais, complementavam a decoração. Sabia que se tratavam de flores nativas pois observara várias delas pelo caminho, embora desconhecesse seus nomes.

Ferramentas comuns, para marcenaria, ocupavam uma bancada. E Mu incluíra na sala de estar duas poltronas, adornadas com almofadas bordadas. Havia também, não pôde deixar de notar, brinquedos de madeira.

— Então é isto o que você tem feito com o seu tempo, Mu de Áries?

"Melhor do que ficar à mercê dos próprios pensamentos repetitivos e sombrios": não era uma boa resposta. Pior ainda era admiti-la para Shaka de Virgem. Ansiava por ter a sua solidão de volta, mais do que nunca antes. Queria ter espaço, e silêncio, e paz.

— O que tenho feito do meu tempo é cumprir a minha missão, Shaka de Virgem. — Disparou. Sabia muito bem que titubear o entregaria. — Você pode não saber, mas há muitas armaduras aqui que necessitam de restauração.

— Novamente, a desculpa das restaurações…

Talvez a capacidade de ser irritante e um provocador prepotente e inveterado fosse um golpe secreto de Shaka, Mu ponderou. A simples presença dele cansava, e quando resolvia falar, então, tornava-se insuportável. Apesar disso, sentia-se esgotado demais para confrontá-lo... O que não mudava o fato de que Shaka precisava ouvir algumas verdades.

— Não é uma desculpa e não é culpa minha. Sou o único capaz de consertá-las, e podemos precisar delas a qualquer momento.

— Isso é meio alarmista, não acha? — Se tom pretendia-se sério, o intento se perdeu quando as flutuações típicas da idade se instalaram. Shaka pigarreou, como se isto pudesse aplacar o falsete. — Acha mesmo que elas serão necessárias com tanta urgência? Nesse caso, deveria apressar-se.

— Meu trabalho exige paciência e perícia, não pressa.

— Deveria trabalhar com mais agilidade, então.

Mu fechou os olhos, inspirou vagarosamente. Quem era Shaka para querer palpitar sobre seus métodos de trabalho e, pior, sobre um trabalho do qual nada parecia compreender? Pior ainda, a crítica fazia com que confrontasse uma falha. Mu sabia muito bem que ainda estava distante do ápice de sua habilidade, que ainda precisaria praticar muito até que o ritmo e os resultados de seu trabalho fossem satisfatórios.

— Mera questão de semântica, você apenas quer dizer que estou lentificando o meu trabalho. — Sentia que explicava algo muito simples a uma criança pequena.

Tornava-se cada vez mais difícil manter o tom calmo e habitual com Shaka por perto e, pior, criticando-lhe o ritmo de trabalho. Até então, era difícil, mas não impossível. Mu tomou como um desafio pessoal manter-se calmo na presença de Virgem.

— Não deveríamos passar o dia inteiro discutindo. — Shaka ponderou. Não suportaria Mu respondendo-lhe tão pretensiosamente todas as vezes que dissesse algo. Mu, por sua vez, tinha impressão semelhante sobre Shaka, senão pior.

— Nisto concordamos. — Áries afirmou, sem alterar o tom ou o volume de sua voz.

— Apenas nisto?

— No momento, sim, apenas nisto.

— Ainda provarei que estou certo. — Não era um desafio apenas para Mu, como também para si. Provas eram de extrema importância para Shaka, naquele momento de sua vida.

— Fico admirado com sua prepotência, Shaka de Virgem.

Não havia motivos para rodeios. Ademais, Mu já começava a genuinamente irritar-se, a ponto de deixar suas emoções transparecerem sob a fachada de calma. Precisaria de outra oportunidade para desafiar-se novamente... Mas também não permitiria que Shaka percebesse qualquer alteração.

— Mera questão de semântica. Não é prepotência quando se tem certeza sobre o que se diz.

— Mas ainda pode estar errado.

— Nunca estive errado antes.

— Com toda a sua sabedoria — Mu disparou, mordaz — deve compreender, então, que há uma primeira vez para tudo. Até para estar errado.

Mu deu-lhe as costas, com a desculpa de preparar um chá — para ambos, salientou. Não maltrataria Shaka, não muito. Ele já conhecia a casa, afinal, e deixá-lo sozinho era mais do que uma pequena vingança por ter sua paz descontinuada.

Sentia-se sufocado, e queria atribuir o desconforto exclusivamente à presença inesperada e indesejada. Sabia, no entanto, que não era apenas isso. Todo aquele período significava reviver um luto que, julgava, já deveria estar superado. Havia tristeza, e havia culpa, e havia medo. E se tivesse um destino semelhante ao de seu mestre, antes que Kiki crescesse, antes que pudesse repassar todo o seu conhecimento? Shion também passara por aquilo? Desejava, mais do que nunca, ter respostas para tais indagações.

Não gostava de lamentar-se. Detestava ser tomado por emoções, a ponto de quase ser movido por elas. Não gostava do nó na garganta, do peso sobre o coração, do rosto molhado por lágrimas. Queria acreditar que tudo isto pertencia ao passado, queria garantir que não sentiria tudo aquilo novamente. Para a sua frustração, aquelas cenas se repetiam. Não apenas ano após ano, pois aquele sentimento não tinha data certa para instalar-se e, algumas vezes, o ano após ano tornava-se dia após dia. A data da morte de Shion, contudo, apenas amplificava tudo aquilo.

Com a criança sob sua guarda, esforçava-se ainda mais para controlar-se. Mas, bem antes da chegada de Kiki, todas aquelas emoções, às vezes conflitantes, levavam-no a soluçar. Aquilo que chamava de descontrole era menos vergonhoso quando não havia ninguém para presenciá-lo. Queria acreditar que já estivesse refeito, restaurado.

Mas, assim como o processo de restauração das sagradas armaduras, sabia que levaria tempo, que teria um trabalho incessante. Sabia, sobretudo, que jamais estaria inteiro novamente, que sempre lhe faltaria algo. Restava-lhe, apenas, espelhar-se no exemplo de Shion, no melhor que poderia fazer em todos os sentidos de sua vida.

Imerso em lembranças e divagações, percebeu a aproximação das duas figuras apenas porque Kiki, atrás de Shaka, balbuciava seu idioma típico da idade. Imediatamente voltou a atenção para a criança, amaldiçoando-se pela desatenção. Mesmo que Shaka fosse confiável, Mu tinha certeza de que ele não tinha a mínima aptidão para lidar com crianças.

— Ele estava chorando? — Se havia alguma emoção que estava fora de seu controle, tratava-se da preocupação com o bem-estar daquele garoto.

Tinha certeza de que Shion daria-lhe um sermão pela breve desatenção, se estivesse vivo. Vários cenários descortinavam-se em sua mente, e nenhum deles tornava sua vida mais fácil. Pelo contrário, o vazio irremediável apenas amplificava-se.

— Não, apenas despertou. — Um vinco formou-se na testa de Shaka. — Você esteve chorando?

Não gostava de demonstrar surpresa. Quase deu um passo para trás, tamanho seu desconforto. Suspirou e aproximou-se de Mu. O que deveria fazer? Pela primeira vez em muito tempo, sentia vontade de confortar alguém. O único problema era não saber como. E o fato de não saber os motivos da tristeza de Mu apenas deixaria seu trabalho mais complicado.

Suavemente, com medo de espantá-lo, pousou uma mão sobre o ombro de Mu. Sentiu o corpo dele tensionar-se perante o contato, para retornar ao normal pouco depois. Pensou em afastar-se, de imediato, mas Mu não fez menção de apartar-se dele.

Naquele momento, Shaka compreendeu que não poderia arrancar respostas de Mu. O que quer que tivesse acontecido a ele, era por demais doloroso para que sequer fosse mencionado. Deveria conformar-se em apenas observar. E, talvez, tentar confortá-lo.

Não sabia como Mu reagiria a sua ousadia. Abraçou-o, contudo, notando a surpresa do outro com o gesto. Daquela vez, Mu não retesou-se, nem parecia querer fugir. Pelo contrário, permitiu-se retribuir aquele abraço. Shaka sentiu-se orgulhoso de si, por um momento, por ter conseguido aproximar-se de alguém tão arredio quanto Mu.

Por uma eternidade, foram apenas silêncio e calmaria. Não poderiam ignorar a realidade, contudo, e Mu desvencilhou-se, voltando suas atenções para Kiki. Talvez fosse hora de oferecer uma refeição, tanto para a criança quanto para o visitante, e foi isto o que fez.

Ainda levaria tempo até que se acostumasse com intrusos, embora estivesse quase tolerando a presença de Shaka naquele dia. Talvez apenas porque Shaka finalmente estivesse calado, e era mais fácil aturá-lo quando ele estava assim.

Shaka tampouco prolongou sua estada naquele ano, partindo mais cedo do que planejara. Sentia que, naquela ocasião, não deveria impor a sua presença. Para sorte ou azar de Mu, ele continuava com a ideia de visitá-lo no ano seguinte.

— Até a próxima, Mu de Áries. — Despediu-se com a convicção de que haveria um reencontro no ano seguinte, ou até antes.

Notas finais
Finalizei e revisei em uma noite de febre, vocês por favor me avisem se notarem algum errinho, sim? Obrigada. E... Vamos bater um papo? Muita gente considera as idades do canon absurdas, não é mesmo? Aqui, eu tomo a liberdade de utilizá-las sem quaisquer alterações. Existem motivos para isso, e eu passaria a noite inteira discorrendo sobre as implicações de eventos e traumas em idades cruciais para a formação da personalidade de uma pessoa. Mas há um outro motivo e, aproveitando que nossos protagonistas são adolescentes aqui, digo qual é: além de ser uma idade de descobertas, de explorar, adolescentes são bem capazes de ter relacionamentos significativos. Não é coisa só de adulto. Profundidade emocional não é exclusividade da fase adulta. Muita coisa na vida não é exclusividade da fase adulta. Sobre a caracterização... Por mais que Saint Seiya não deixe de ser uma obra passível de múltiplas interpretações, eu procuro ter o máximo cuidado ao caracterizar os personagens, considerando múltiplos contextos. Eu, particularmente, não descarto nada de que eu tenha conhecimento. O que significa que levo em consideração saga clássica, tanto anime quanto mangá, Episódio G, Soul of Gold, Legend of Sanctuary e por aí vai. Também me utilizei dos famosos headcanons (muitas vezes trocados durante madrugadas insones no twitter, meus agradecimentos às pessoas envolvidas, que sabem quem são - não citarei nomes para não correr risco de esquecer alguém). Sintam-se à vontade para trocar impressões. TL, DR: não esperem de mim caracterizações alinhadas às de outras pessoas, muito menos as dos velhos e áureos tempos. Um fandom só permanece morto se ficar eternamente apegado ao passado. Ainda há gente boa (inclusive gente nova no fandom) produzindo. Acho que nunca escrevi tanto nas notas... Mas é isso, pessoal, obrigada e até a próxima (espero eu que seja em breve).