Melodias Em Londres
2 O começo de uma pequena descoberta
Notas iniciais
Minha mãe me esperava na sala de estar com um sorriso estampado. Sempre o retribuía, era impossível não se render a ele. Fomos para o carro. Meu pai tomou o caminho para a escola e, como sempre, dirigia numa velocidade que, para muitos, daria raiva instantânea, mas que para mim era perfeita. Poder reparar em cada detalhe por onde passava era uma das melhores experiências que eu tinha. Você deve estar pensando o porquê de tanta admiração. É simples, mesmo passando diariamente pelas mesmas ruas, bairros, paisagens, elas mudam.
Os dias nublados deixavam o percurso triste, lento, mas eram nesses dias que se viam as pessoas de agasalhos, as casas com luzes acesas no meio da tarde, os narizes avermelhados, os cabelos bagunçados pelo vento frio. Já os dias ensolarados têm as bicicletas que vão e vem, as nuvens passam pelo céu, a brisa fresca agita as árvores, pássaros cantam, tudo parece estar a mil por hora.
Hoje o dia era do tipo chuvoso. As gotas andavam elos vidros da janela e o sopro do vento transformava-as em lâminas finas para os desprotegidos lá fora. Distraída com a paisagem cheguei à escola no que pareceram segundos. Desci do carro e fui direto para a sala de aula, só parando para pegar meu caderno no meu armário. Sentei no meu lugar de costume, tirei meu livro de partituras da mochila e comecei a estudá-lo, fazia alguns meses que queria tocar aquela música.
Desde pequena eu via meu avô tocar para minha avó, e sempre adorei o som que saia do instrumento, eram os únicos momentos em que o meu dom me deixava feliz. Desde então eu tento compor uma melodia que tenha o mesmo efeito, e algo me dizia que faltava pouco para que conseguir isso. Fiquei mais alguns minutos encarando as notas na minha frente, quando Luna chegou:
– Oi, Alex! – Sorriu
– Oi, Luna. – Respondi
– O que está fazendo?
– Nada demais. – Disse enquanto fechava o livro de partituras.
– Sei. Então, topa ir ao cinema amanhã?
– Não sei, estava pensando em ir ao sebo procurar alguns livros que preciso.
– Ah, vamos, você tem todos os dias para passar lá e justo amanhã, que eu te convido para sair, você resolve ir?
– Não é tão simples quanto pensa, Lu. Sem contar que eu queria tocar o meu cello amanhã também.
Nossa conversa foi interrompida pelo professor. As próximas duas aulas seriam de matemática, matéria que, devo admitir, gosto. Já quem explica...
–Strª Blackwolf, poderia tirar os fones de ouvido, por favor? – Ele sempre dizia o mesmo num tom de voz tão cínico que me dava vontade de arremessar uma cadeira nele.
– Sim, Sr. Camils. – Respondi. Mas não prometo prestar mais atenção sem eles, pensei.
Ficar sem os fones me deixava insegura, não pelo motivo de não controlar o meu dom, mas sim pelo fato de minha mente desligar quando ouço uma música. Não me lembro de nada que aconteceu durante esse período. Já houve vezes em que apaguei e acordei dentro de uma ambulância, outras eu me encontrava na sala do diretor, no banheiro com Luna. Em qualquer lugar.
Procurar algo em que me concentrar também era algo difícil quando se tinha o Sr. Camils dando aula. Peguei de volta meu livro de partituras e comecei a refletir sobre o que eu podia fazer para melhorar as notas ali escritas.
Por muitas vezes perguntei à minha vó se ela tinha a partitura com as notas que compunham a melodia que o vovô tocava, mas ela sempre negou e dizia que aquela música foi passada de geração em geração a partir do bisavô do meu avô. Meu pai não faz ideia de qual seria essa música e muito menos como compô-la, já que foi um dos únicos filhos que não se interessou por tocar nenhum instrumento. É, minha família seria meio que uma família de músicos. Meu vô contava a história que a muito tempo atrás a nossa família formava uma companhia de músicos que tocavam desde apresentações de circo até em teatros, e assim o gosto pela música passava de pai para filho e foi assim até hoje.
A procura pela melodia perfeita, então, acabou virando a minha obsessão e, por mais estranho que pareça, as únicas vezes que o meu dom não interfere tão profundamente é quando estou a emendar os retalho de notas e passagens, os pequenos trechos não me fazem entrar em “outros mundos”, que eu chamo de viagens.
Assim, fiquei durante toda a aula do Sr. Camils imaginando cada nota possível para compor, como soaria e até mesmo se combinaria com as partes já escritas no meu livro de partituras. O sinal tocou, só faltava mais duas aulas para o intervalo. Peguei minhas coisas e saí para o laboratório, a aula de biologia esperava por mim.
Notas finais
Enfim, adiós ;-;
Fale com o autor